quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

{O verdadeiro e original Natal} Feliz Dia do Sol Invencível! - por Laurent Guyénot

 

Laurent Guyénot


Em The Final Pagan Generation {A Última Geração Pagã}, Edward J. Watts examina a vida religiosa dos romanos na véspera da cristianização.

O Império Romano estava repleto de deuses em 310. Seus templos, estátuas e imagens preenchiam cidades, vilas, fazendas e regiões selvagens. Querendo ou não, os habitantes do império experimentavam regularmente a visão, o som, o cheiro e o sabor das celebrações divinas. As divindades tradicionais também dominavam o espaço espiritual do império como figuras cuja presença não podia ser sentida, mas cujas ações muitos acreditavam poder discernir.[1]

O império das primeiras décadas do século IV abrigava milhões de estruturas religiosas, artefatos e materiais que cidades e indivíduos haviam produzido ao longo dos milênios para homenagear os deuses tradicionais. Festivais em honra aos deuses lotavam o calendário, e aromas perfumados, associados ao seu culto, preenchiam o ar das cidades.[2]

Um calendário ilustrado que lista os feriados e festivais celebrados em Roma no ano de 354… classifica 177 dias do ano como feriados ou festivais. … No geral, o calendário registra as celebrações públicas dos cultos de trinta e três deuses e deusas diferentes — e isso não inclui as diversas comemorações de aniversários imperiais e imperadores divinizados.[3]

Imagine o estado de constante angústia dos cristãos que viviam nas cidades romanas daquela época. Os deuses — todos eles demônios do inferno — vagavam por todos os lados, à espreita em cada esquina. Watts explica como Tertuliano de Cartago ajudou seus companheiros cristãos a sobreviverem nesse mundo infestado de demônios:

Em sua obra Sobre a Idolatria (De idolatria), Tertuliano procurou mostrar aos cristãos como reconhecer os elementos religiosos tradicionais na vida cotidiana e separá-los das atividades sociais, comerciais e familiares normais. A idolatria, afirma ele, é “um crime tão disseminado [...] que subverte os servos de Deus”. Enquanto a maioria das pessoas simplesmente “considera a idolatria como algo interpretado apenas pelos sentidos, como, por exemplo, queimar incenso”, Tertuliano adverte que os cristãos devem estar “prevenidos contra a abundância da idolatria”, e não apenas contra suas manifestações óbvias. Ele então conduz os leitores por todos os lugares despercebidos onde a idolatria existe. Aponta para aqueles que fabricam e vendem ídolos, os astrólogos e mestres que praticam na presença de ídolos e os outros ofícios que contaminam os cristãos ao colocá-los em contato com ídolos. Tertuliano, então, considera os vários aspectos da vida cotidiana que devem ser evitados para não serem contaminados pela “idolatria”. Esta lista abrangente inclui festivais e feriados, serviço militar, juramentos, aceitação de bênçãos em nome dos deuses e até mesmo certos tipos de vestimenta. … O texto de Tertuliano mostra o quão assustadora era a perspectiva de tentar separar as atividades diárias dos deuses e de sua presença. Ele escreveu para apontar todos os lugares onde os deuses se escondiam, porque a maioria das pessoas, tanto pagãs quanto cristãs, provavelmente não os percebia. Nem iriam seus filhos e netos.[4]

O Império Romano era uma coleção de nacionalidades, mas, mais importante, era uma rede de cidades, cada uma com suas próprias tradições religiosas e festivais. A cidade de Roma tinha quatro colégios de sacerdotes, chefiados por um pontifex maximus {pontífice máximo}. De 17 a 23 de dezembro, os romanos celebravam a Saturnália, centrada no Templo de Saturno, no Fórum Romano. Os cultos cívicos de Roma obviamente detinham um prestígio especial além da Itália, mas não eram “a religião do Império”. O Império, na verdade, não tinha uma religio universalis até que os imperadores pensassem em lhe dar uma. No século II, os imperadores da dinastia Antonina decidiram reviver o helenismo, e Adriano patrocinou o culto de Antínous como um novo Osíris, com um sucesso atestado pelo grande número de estátuas encontradas por todo o império. Mais tarde, os imperadores Severos (193-235), que tinham laços familiares sírios, promoveram um culto oriental ao Sol; Um deles, Heliogábalo (218-222), havia sido sacerdote desse culto em Emesa (atual Homs, na Síria). Por fim, Aureliano (270-75) promoveu uma forma mais greco-romana de culto ao Sol: Sol Invictus (o Sol Invicto). Não se tratava de uma invenção nova, visto que Sol Invictus já possuía dois templos em Roma e aparecia em moedas desde a época de Antonino Pio (138-161). Mas Aureliano o dotou de um templo maior e de um colégio sacerdotal, e inaugurou o festival de Dies Natalis Solis Invicti (“nascimento do Sol Invencível”) em 25 de dezembro, o dia do solstício de inverno no calendário romano, com jogos pan-romanos a serem realizados a cada quatro anos.

Sempre houve uma abordagem sincrética na política religiosa do Império. A divindade solar era comumente identificada com Apolo, às vezes chamado de Apolo Hélio. Os adeptos de Mitra também reconheciam seu próprio deus no Sol Invictus. Ele também era Hórus, filho de Ísis, cujo culto se espalhou do Egito para todas as províncias do Império. Conhecido pelos gregos como Harpócrates (do egípcio Har pa khrad, “Hórus, a criança”), Hórus era identificado no Egito com o deus solar Rá e celebrado em seu aniversário, 25 de dezembro. De fato, muito antes do surgimento do heliocentrismo na astronomia, é apropriado falar de uma tentativa imperial de criar um sistema religioso heliocêntrico, no qual todos os deuses giravam, a distâncias variáveis, em torno do Sol, entendido como o Theos Hypsistos, “o Deus Supremo”, e o companheiro divino do imperador.


Em janeiro de 250, o recém-aclamado imperador Décio promulgou um decreto obrigando todos no império a oferecer sacrifícios ao imperador. O caráter obrigatório do culto imperial foi posteriormente reforçado por Diocleciano (284-305). Tratava-se de um meio de fomentar a coesão política e social, após um período de instabilidade crônica que se seguiu à queda da dinastia Severa. Muitos imperadores já haviam sido deificados postumamente, mas a divindade do imperador vivo era uma novidade relativa. A divindade era dirigida ao gênio do imperador, e não à sua pessoa, numa época em que a teoria neoplatônica dos genii {gênios} (o equivalente latino dos daimones) era amplamente aceita. Os genii {gênios} podiam ser entendidos tanto como ideias platônicas quanto como deuses menores. O imperador possuía seu próprio genius, o “povo romano” possuía o seu genius, assim como a cidade de Roma e o Império, todos esses genii {gênios} interligados. O novo culto imperial não suplantou, mas foi adicionado ao culto de Sol Invictus, sendo o imperador venerado como uma espécie de filho do deus Sol. Devemos resistir à tentação de julgar esse sistema religioso com base em nossos próprios conceitos cristãos de religião (que implicam um cânone de escrituras sagradas, um conjunto de crenças, uma promessa de salvação e um contrato de exclusividade). Esses conceitos simplesmente não existiam naquela época, e muitas questões que hoje consideramos “religiosas” eram vistas como “filosóficas”. Realizar os gestos simbólicos simples do culto imperial ou participar da festa de Sol Invictus eram atividades sociais e políticas que não implicavam qualquer tipo de “fé” religiosa, além da compreensão geral de que os deuses existiam e que seu poder benevolente era tanto manifestado quanto ampliado pela atividade cultual humana.

Além de sua mensagem política, o culto de Sol Invictus tinha a vantagem de ser aceitável para aqueles com inclinação filosófica que desaprovavam o antropomorfismo dos deuses na poesia e nas artes visuais. No paradigma platônico, o sol era o melhor símbolo possível do Deus Único, ou Logos Cósmico. Na verdade, é difícil encontrar um símbolo mais natural e universal do divino. Portanto, Michael Grant pôde escrever em The Climax of Rome {O Clímax de Roma}: “A adoração ao Sol, naquele momento, era o culto de Estado do mundo romano, e o deus era aceito por milhões de seus habitantes. Se o culto solar não tivesse sucumbido ao cristianismo alguns anos depois, poderia muito bem ter se tornado a religião permanente da área do Mediterrâneo.”[5]


O próprio Constantino foi um forte defensor do culto solar até a última década de sua vida, como mencionei em “A Cruz Sobreposta ao Sol”.*1 Em 321, ele decretou o dies solis (domingo) como dia de descanso e, em 330, dedicou uma coluna de 30 metros de altura em Constantinopla, encimada por uma estátua de si mesmo como Apolo com uma coroa solar. Michael Grant presume que “o culto solar serviu de ponte para a conversão de muitas pessoas ao cristianismo”[6], mas essa ponte só existiu quando as autoridades cristãs construíram a base apropriada em seu lado do rio, atribuindo a Cristo atributos solares. A chave, obviamente, foi declarar que Jesus nasceu em 25 de dezembro, o que foi feito no final da década de 330. Quase na mesma época, o “dia do Sol” foi declarado o “dia do Senhor”. São Jerônimo, que nasceu 26 anos depois de Constantino ter instituído o domingo como dia de descanso, disse: “Se os pagãos chamam o Dia do Senhor de ‘dia do sol’, nós concordamos de bom grado, pois hoje a luz do mundo se eleva, hoje se revela o sol da justiça com cura em seus raios”.

Pensar que o culto ao Sol foi uma transição do politeísmo para o cristianismo é pensar teleologicamente, algo que os historiadores não devem fazer. É mais apropriado dizer que o cristianismo absorveu ou se apropriou do culto ao Sol.

O Natal é o caso mais claro — e provavelmente o mais antigo — de uma festa “pagã” cristianizada. É a exceção à regra que prevaleceu de cerca de 350 a 450: a destruição de templos e a proibição de festas. Estratégias conciliatórias de assimilação tornaram-se mais comuns posteriormente, quando os bispos se viram diante da dificuldade de erradicar tradições rituais ligadas não a templos, mas a locais naturais. Um bom exemplo é contado por Gregório de Tours sobre um bispo que, por volta do ano 500, na Gália central, quis impedir os rústicos de oferecerem libações a um deus em um lago: “com a inspiração da Divindade, este bispo de Deus construiu uma igreja em honra do bem-aventurado Hilário de Poitiers, a certa distância das margens do lago”. Sua pregação fez o resto, supostamente: “Os homens foram tocados em seus corações e se converteram. Deixaram o lago e trouxeram tudo o que costumavam jogar nele para a santa igreja”.[7] A transformação do Dies Natalis Solis Invicti na celebração do nascimento de Jesus seguiu o mesmo princípio.

Tudo isso importa? Somente se você estiver interessado na questão “Por que nós somos cristãos?”*2. “Por que nós celebramos o Natal?” é parte dessa questão. Na minha opinião, é importante estudar a cristianização do Império Romano porque estamos vivenciando o estágio final da descristianização da nossa civilização. A descristianização nos deixa espiritualmente nus e famintos, e isso porque a cristianização significou a completa despaganização. Antes de Constantino, os cristãos defendiam a tolerância: “é uma característica da lei humana — e, de fato, é uma expressão de nossa capacidade inata de determinar o que queremos — que cada um de nós adore como bem entender”, escreveu Tertuliano.[8] Depois de Constantino, os cristãos mudaram de opinião: tolerância para mim, não para ti. O cristianismo, portanto, criou um deserto espiritual ao seu redor, e agora que o cristianismo se tornou insignificante, resta apenas o deserto.

A descristianização é, em si, o resultado final inevitável da cristianização. Por quê? Porque o cristianismo é inerentemente irracional, exigindo a crença (o “credo”) em coisas impossíveis (mentiras, na verdade). Adultos racionalmente maduros não podem ser verdadeiros crentes. Portanto, a descristianização é irreversível. O que precisamos, na verdade, é reverter a cristianização.

Vamos tornar a civilização romana grande novamente!

Mas não diga aos seus filhos que Jesus não nasceu no Natal. Em vez disso, ensine-os que o Menino Jesus é o Deus Sol.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 Notas


[1] Nota de Laurent Guyénot: Edward J. Watts, The Final Pagan Generation, University of California Press, 2015, p. 17.

[2] Nota de Laurent Guyénot: Edward J. Watts, The Final Pagan Generation, University of California Press, 2015, p. 12.

[3] Nota de Laurent Guyénot: Edward J. Watts, The Final Pagan Generation, University of California Press, 2015, p. 24.

[4] Nota de Laurent Guyénot: Edward J. Watts, The Final Pagan Generation, University of California Press, 2015, p. 36.

[5] Nota de Laurent Guyénot: Michael Grant, The Climax of Rome. The Final Achievements of the Ancient World AD 161-337, London, 1968, p. 224.

*1 Fonte utilizada por Laurent Guyénot: Why are we Christians? Part 3, por Laurent Guyénot,30 de julho de 2025, Substack.

https://radbodslament.substack.com/p/why-we-are-christians-part-3

[6] Nota de Laurent Guyénot: Michael Grant, The Climax of Rome. The Final Achievements of the Ancient World AD 161-337, London, 1968, p. 234.

[7] Nota de Laurent Guyénot: Gregory of Tours, Glory of the Confessors II, quoted by Richard Fletcher, The Conversion of Europe: From Paganism to Christianity 371-1386 AD, HarperPress, 2012, p. 70.

*2 Fonte utilizada por Laurent Guyénot: Why Are We Christians? - Historical Revisionism of the Conversion of the Roman Empire, por Laurent Guyénot, 20 de julho de 2025, , The Unz Review – An Alternative Media Selection.

https://www.unz.com/article/why-are-we-christians/

[8] Nota de Laurent Guyénot: Tertullian, To Scapula, citado em Douglas Boin, Coming Out Christian in the Roman World: How the Followers of Jesus Made a Place in Caesar’s Empire, Bloomsbury Press, 2015.

Fonte: Bring Out Your Dead ...Back on the Family Altar, por Laurent Guyénot, 22 de outubro de 2021, The Unz Review – An Alternative Media Selection.

https://www.unz.com/article/bring-out-your-dead/

Sobre o autor: Laurent Guyénot (1960-) possuí mestrado em Estudos Bíblicos e trabalho em antropologia e história das religiões, tendo ainda o título de medievalista (PhD em Estudos Medievais em Paris IV-Sorbonne, 2009) e de engenheiro (Escola Nacional de Tecnologia Avançada, 1982).

Entre seus livros estão:

LE ROI SANS PROPHETE. L'enquête historique sur la relation entre Jésus et Jean-Baptiste, Exergue, 1996.

Jésus et Jean Baptiste: Enquête historique sur une rencontre légendaire, Imago Exergue, 1998.

Le livre noir de l'industrie rose – de la pornographie à la criminalité sexuelle, IMAGO, 2000.

Les avatars de la réincarnation: une histoire de la transmigration, des croyances primitives au paradigme moderne, Exergue, 2000.

Lumieres nouvelles sur la reincarnation, Exergue, 2003.

La Lance qui saigne: Métatextes et hypertextes du Conte du Graal de Chrétien de Troyes, Honoré Champion, 2010.

La mort féerique: Anthropologie du merveilleux (XIIᵉ-XVᵉ siècle), Gallimard, 2011.

JFK 11 Septembre: 50 ans de manipulations, Blanche, 2014.

Du Yahvisme au sionisme. Dieu jaloux, peuple élu, terre promise: 2500 ans de manipulations, Kontre Kulture, Kontre Kulture, 2016. Tem edição em inglês: From Yahweh to Zion: Jealous God, Chosen People, Promised Land...Clash of Civilizations, Sifting and Winnowing Books, 2018.

Petit livre de - 150 idées pour se débarrasser des cons, Le petit livre, 2019.

“Our God is Your God Too, But He Has Chosen Us”: Essays on Jewish Power, AFNIL, 2020.

Anno Domini: A Short History of the First Millennium AD, 2023.

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Relacionado, leia também sobre a questão judaica, cristianismo e a tradição europeia ver:

O Gancho Sagrado - O Cavalo de Tróia de Jeová na Cidade dos Gentios {os não-judeus} - por Laurent Guyénot - parte 1 (demais duas partes na sequência do próprio artigo)

O Solstício de Inverno: Símbolo da antiguidade da civilização europeia – por David Duke

Traga seus mortos ... De volta ao altar da família - por Laurent Guyénot

Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce, Ph.D., {academic auctor pseudonym}

O truque do diabo: desmascarando o Deus de Israel - Por Laurent Guyénot - parte 1

Jesus o judeu - por Thomas Dalton Ph.D. {academic auctor pseudonym}

O Império Falido - A origem medieval da desunião europeia - parte 1 - por Laurent Guyénot (demais duas partes na sequência do próprio artigo)

Sangue diluído {pelo cristianismo em geral, e pelo papado medieval em especial} - por Laurent Guyénot

A Sabedoria dos Antigos: Cidades-Estado Gregas como Estados-étnicos - Por Guillaume Durocher {academic auctor pseudonym}

Biopolítica, racialismo, e nacionalismo na Grécia Antiga: Uma visão sumária - Por Guillaume Durocher {academic auctor pseudonym}

O mundo dos indo-europeus - Por Alain de Benoist

Monoteísmo x Politeísmo – por Tomislav Sunić

Politeísmo e Monoteísmo - Por Mykel Alexander

Israel vs. Direito Internacional: Quem vencerá? - por Laurent Guyénot

O Evangelho de Gaza - O que devemos aprender com as lições bíblicas de Netanyahu - por Laurent Guyénot

A Psicopatia Bíblica de Israel - por Laurent Guyénot

Israel como Um Homem: Uma Teoria do Poder Judaico - parte 1 - por Laurent Guyénot (Demais partes na sequência do próprio artigo)

 O peso da tradição: por que o judaísmo não é como outras religiões - por Mark Weber

Sionismo, Cripto-Judaísmo e a farsa bíblica - parte 1 - por Laurent Guyénot (as demais partes na sequência do próprio artigo)


7 comentários:

  1. Recapitulando debate iniciado:

    Abba Jamal Menezes escreveu para Kaio Lourenço:, adorar planetas e o sol foi a primeira manifestação de paganismo entre os homens. Até hoje essa tradição continua viva, disfarçada em rituais de várias religiões.

    Mykel Alexander respondeu para Abba Jamal Menezes: Não é bem assim, a premissa é muito mais profunda, implica uma força ordenador. O Deus supremo entre os demais é visto como não sendo afetado por sentimentalismo do tipo abraamico como se sentir ofendido ou carente, mas sim sendo emblema de estabilidade. Abba Jamal Menezes, mesmo num texto básico o que coloquei é explicito: " No paradigma platônico, o sol era o melhor símbolo possível do Deus Único, ou Logos Cósmico. Na verdade, é difícil encontrar um símbolo mais natural e universal do divino. "

    Abba Jamal Menezes respondeu para Mykel Alexander: , na minha opinião, o sol é um péssimo exemplo para representar o deus único, uma vez que existe bilhões de estrelas até mais brilhantes que nosso sol. Talvez o melhor símbolo para representar Deus no imaginário humano seja o universo que é único. Todavia, é compreensível o paradigma platônico de ter o sol como uma representação divina. A compreensão do universo era muito limitada há 3 mil anos. Para os gregos, nenhuma estrela era maior que o sol. Hoje sabemos que eles estavam errados.

    Mykel Alexander respondeu para Abba Jamal Menezes: mas a centralidade do sol bem como sua irradiação donde vivifica o sistema inteiro é o melhor símbolo físico. Uma estrela. Algum símbolo FÍSICO com conotação ontologica tal como era exemplificado que seja melhor que você propõe? Eu preciso dum símbolo físico pois a intenção era não contar com imaginação apenas! Abba Jamal Menezes o péssimo mesmo é o Deus supremo se comunicar com as pessoas em palavras e mostrar alterações de humor e instabilidade tal como na tradição abraâmica. Isso é um baita antropocentrismo.


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  2. Continuação da recapitulação:

    Kaio Lourenço responde a Mykel Alexander e a Abba Jamal Menezes: Faz sentido a associação do Deus único supremo com o sol, se considerarmos o símbolo físico como dotado de atributos de divindades: do sol emana a energia responsável pelo ciclo de vida na terra; sua gravidade no arranjo do sistema solar remete à ideia de ordem e estabilidade , no entanto, em minha perspectiva filosófica, o símbolo físico é um borrão grosseiro da representação do Deus supremo ,amigos Mykel Alexander , Abba Jamal Menezes

    A essência da realidade é o estado não-dual entre física e metafísica, material e espiritual: no sistema Hegeliano, ao meu ver, a realidade não seria a manifestação de um em antítese do outro (como querem os materialistas e como querem os místicos), mas sim, a perfeita síntese de ambos compondo o estado não-dual da realidade única

    Tal como na tradição islâmica, corroborando o Budismo Tibetano, a narrativa do jardim do Éden pelos exegetas muçulmanos ao afirmarem que no início da criação Allah não teria feito distinção dos mundos, e o homem em estado de comunhão via a realidade e tudo que existia de forma transparente, enxergando emanar de tudo que existia a luz primordial divina, e ao comerem do fruto do conhecimento do "bem" e do "mal" (portanto, do estado DUAL), o véu da luz clara se desfez imediatamente e a realidade deixou de ser transparente para ser opaca: se apresentando para o homem na forma dual, imerso na matéria desconectado de sua essência divina: necessitando, portanto, agora religar-se (origem etimológica do termo religião) com o Deus supremo por exercício de fé e abstração

    Mas o mundo material, ou mundo manifesto, segue sendo dialético com o imaterial e divino: o homem apenas perdeu essa percepção.. mas, o homem pode encontrar, no mundo material e nas leis que o rege, essa dialética na forma da assinatura divina

    e é aqui, que ao meu ver, reside o melhor símbolo para representar o Deus único (que representa a síntese do mundo abstrato com o mundo manifesto): a matemática!

    A matemática, meus amigos, se quiserem podem discordar tranquilamente de mim, seria o melhor símbolo dentro do sistema de abstração humana para representar os atributos mais elevados do Deus supremo

    E os atributos mais elevados do Deus supremo diz respeito a sua natureza eterna, imutável, absoluto e verdadeiro. É nele que reside a verdade absoluta, que é eterna e imutável, e a matemática guarda consigo estes atributos: as verdades matemáticas são imutáveis, eternas (1 + 1 = 2 será uma verdade para todo o sempre como sempre foi), e dela, com sua natureza abstrata, emerge o mundo material manifesto, porém a matemática em si é não-dual e é fácil abstrairmos que ela tem esta natureza... eu sempre digo que a matemática é a linguagem natural de Deus

    O sol não poderia, jamais, ser uma representação boa pois representa no máximo atributos secundários, e não os mais elevados, do Deus supremo. O sol não é absoluto pois é apenas mais uma das trilhões de estrelas no universo (portanto sua representação estaria mais próximo de um panteão de Deuses); o sol não é eterno pois a matéria é perecível e tudo que é material está destinado a ter um início e um fim, completando seu ciclo de existência, o sol não é eterno, e muito menos imutável como consequência, além de ser um símbolo totalmente físico que nega o estado não-dual enquanto atributo do Deus único supremo

    Forte abraços meus amigos

    ALLAHU'AKBAR

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  3. Continuação da recapitulação:

    Abba Jamal Menezes responde para Kaio Lourenço: se o sol fosse único no universo, faria sentido usá-lo como símbolo de Allãh. Todavia, bem sabemos que o Sol não é a única estrela do Universo, assim como, provavelmente, este planeta não seja o único que tem vida. Existe vários sois e várias formas de vida lá em cima. O meu Deus é bem maior que o deus do paganismo greco-romano.

    Mykel Alexander responde para Abba Jamal Menezes: o Deus da literatura abraâmica no Antigo Testamento????

    Mykel Alexander responde para Kaio Lourenço: a representação do sol é insubstituível . Acima dela teria que usar outra estrela maior. Além disso teria que ir para a metafisica. Mas para fins simbólicos o sol basta.

    Abba Jamal Menezes responde para Mykel Alexander: Mykel Alexander, o Deus do Alcorão, Senhor dos Mundos.

    Mykel Alexander responde para Abba Jamal Menezes: Mas a tradição usada para o Alcorão se baseia no Antigo Testamento para os períodos anteriores ao Alcorão? E esse Deus Senhor dos Mundos conversou com Maomé?

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  4. Continuação:

    Abba Jamal Menezes respondeu para Mykel Alexander: Deus fala com os seus através de anjos e profetas. No caso, profeta Muhammad (S.A.W.S) recebeu a revelação de Allah pelo anjo Gabriel.

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    1. Faltou responder se a tradição utilizada pelo Alcorão se baseia no Antigo Testamento para os períodos anteriores ao Alcorão. Mas como você referiu ao anjo Gabriel para um ponto fundamental da tradição islâmica, a alegada revelação de Allah para Maomé intermediada por Gabriel, então temos um fundamento islâmico apoiado sobre base judaica/abraâmica inquestionavelmente.

      Um problema central já consegui, que é o de que as tradições abraâmicas, segunda e terceira, cristianismo e islamismo respectivamente, serem apoiadas em uma tradição de falsificações que é a tradição judaica, especialmente a bíblica para os não judeus (uma vez que o Talmud, Cabala e Zohar são bem menos acessados pelo cristianismo e islamismo).

      Então, após o século VII surgem doutrinas procedentes de islâmicos, e condenação a visão de mundo religiosa pagã, mas se fundamentando no abraamismo, em última instância, no Antigo Testamento. Assim Abba Jamal Menezes questiona a simbologia solar pagã pelo fato de haver muitos sóis, recorrendo à astronomia, isto é, recorrendo a uma das ciências particulares.

      Pois bem, que aplique então as ciências particulares (tais como arqueologia, geologia e história) sobre o Antigo Testamento e veja no que encontramos:

      Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce, Ph.D., {academic auctor pseudonym}
      https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2018/11/exodo-recorrente-identidade-judaica-e.html

      Falsificações e falsificações, ao passo que a historiografia pagã recai em tais abusos muito menos, mas foi preterida pelos islâmicos frente ao Antigo Testamento.

      Ainda mais, a tradição de Gabriel que teria revelado verdades à Maomé, procede de absurdos ontológicos e teológicos, e mesmo assim o islamismo preferiu como base o Antigo Testamento do que uma doutrina muito mais coerente do que o Neoplatonismo como base para seus fundamentos (certo que os xiitas absorveram neoplatonismo enquanto os sunitas, se o fizeram, foi bem menos, mas a pedra fundamental islâmica é baseada no Antigo Testamento e não no neoplatonismo). Vejamos o teor que realmente se encontra na fonte (referencias rigorasamente citadas) donde o islamismo buscou seus fundamentos, e quem obedece, conforme a tradição abraâmica o anjo Gabriel:

      O truque do diabo: desmascarando o Deus de Israel - Por Laurent Guyénot - parte 1 (continuação na parte 2)
      https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2023/04/o-truque-do-diabo-desmascarando-o-deus.html

      Aqui já temos um recorte do ponto de partida donde irradiam questões posteriores tais como qual melhor representação para o deus supremo em que se basear: Hélio em religião pagã (ou lógos em termos filosóficos, para os mais exigentes, como observou o o autor do artigo) ou o Jeová, que seria para o islamismo a escolha certa por ser do Antigo Testamento para ponte de partida do que se basear anteriormente a Maomé.

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    2. Forte abraço meu amigo, obrigado pela oportunidade de contribuir para o debate precedente. Gostaria de afirmar que, de minha perspectiva, o debate precedente é uma oportunidade de dialética e construção mútua de conhecimento, e não uma tentativa de sobrepor verdades o que seria embate e não debate. Sendo assim, como muçulmano não dogmático, darei meu feedback e exporei minhas perspectivas filosóficas com relação a estas questões

      Respondendo por partes, inicialmente em:

      "Faltou responder se a tradição utilizada pelo Alcorão se baseia no Antigo Testamento para os períodos anteriores ao Alcorão. Mas como você referiu ao anjo Gabriel para um ponto fundamental da tradição islâmica, a alegada revelação de Allah para Maomé intermediada por Gabriel, então temos um fundamento islâmico apoiado sobre base judaica/abraâmica inquestionavelmente.

      Um problema central já consegui, que é o de que as tradições abraâmicas, segunda e terceira, cristianismo e islamismo respectivamente, serem apoiadas em uma tradição de falsificações que é a tradição judaica, especialmente a bíblica para os não judeus (uma vez que o Talmud, Cabala e Zohar são bem menos acessados pelo cristianismo e islamismo)."

      Gostaria de sublinhar que as três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) têm origem no profeta comum Ibrahim (ou Abraão), no entanto, Abraão não era "judeu" no sentido religioso. É da descendência de seu filho, Isaque, que gerará Jacó e este as 12 tribos de judá, mas Abraão também gerou Ismael com a escrava egípcia Agar, do qual dará origem a cidade de Meca e a construção da Kaaba, a mesquita mais sagrada do mundo islâmico (que todo muçulmano deve fazer peregrinação, ao menos uma vez na vida, se tiver condições financeiras para tal)

      Abraão era habitante de Ur, atual Iraque, uma cidade de Caldeus na antiga Babilônia onde a prática religiosa típica era o politeísmo e este professava a crença num Deus único supremo. Após a subjugação da Babilônia pela Medo-Pérsia, ocorreram influências do Zoroastrismo (religião monoteísta da Pérsia antiga) com o judaísmo:

      "O judaísmo pós-exílico (após o século VI a.C., quando os judeus estiveram sob domínio persa) mostra algumas influências ou paralelos com conceitos zoroastristas, como uma cosmovisão dualista mais acentuada (bem vs. mal), a figura de um "adversário" mais personificado (como Satã), uma escatologia mais desenvolvida (julgamento final, ressurreição) e a ideia de um salvador escatológico. Esses conceitos foram refinados durante e após o contato com a cultura persa/zoroastrista, séculos depois de Abraão."

      Este recorte histórico é importante, pois muitas das alegadas falsificações da tradição judaica está em associar suas narrativas ao zoroastrismo, mas aconteceu muito tempo depois de Abraão, embora seja provável que Abraão tenha tido contato com a epopeia de Gilgamesh e esta obra Suméria tenha exercido influência no que viria a ser a bíblia ou pentateuco mais tarde (como, por exemplo, a narrativa do dilúvio também presente na referida epopeia)

      Também convém sublinhar que a alegação de distorção da tradição judaica não é de se espantar um muçulmano, já que a religião islâmica surge, precisamente, de uma revisão dos textos pretéritos ao alcorão (portanto, sim, mantém nestes livros bases teológicas) e resinifica e reinterpreta os fatos narrados para a forma que exprima a palavra final e literal de Allah, conforme revelado a seu sagrado profeta Muhhamad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

      Então, respondendo diretamente a questão: sim, o islã se baseia nos livros pretéritos ao alcorão para narrar eventos anteriores a este, no entanto, o faz de forma revisitada e resinificada, não mantendo a mesma interpretação judaica (caso contrário, seria a mesma religião)

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    3. Segunda parte:

      "Ainda mais, a tradição de Gabriel que teria revelado verdades à Maomé, procede de absurdos ontológicos e teológicos, e mesmo assim o islamismo preferiu como base o Antigo Testamento do que uma doutrina muito mais coerente do que o Neoplatonismo como base para seus fundamentos (certo que os xiitas absorveram neoplatonismo enquanto os sunitas, se o fizeram, foi bem menos, mas a pedra fundamental islâmica é baseada no Antigo Testamento e não no neoplatonismo)."

      Gostaria de melhor compreender o que entendes por "absurdos ontológicos e teológicos" o fato de um anjo servir como mensageiro de Deus, uma vez que questões metafísicas são abstratas para darmos a ela um tratamento determinista e mecanicista

      Mas convém também lembrar que foram os muçulmanos quem preservaram durante a idade medieval grande parte das obras dos Gregos e se hoje conhecemos sobre Sócrates e Platão foi graças ao mundo islâmico que manteve preservado todo o acervo literário do mundo antigo

      "Aqui já temos um recorte do ponto de partida donde irradiam questões posteriores tais como qual melhor representação para o deus supremo em que se basear: Hélio em religião pagã (ou lógos em termos filosóficos, para os mais exigentes, como observou o o autor do artigo) ou o Jeová, que seria para o islamismo a escolha certa por ser do Antigo Testamento para ponte de partida do que se basear anteriormente a Maomé."

      Creio que aqui esteja o ponto realmente frutífero do debate, pois todo o resto pondera a não adesão do Islã aos deuses pagãs da mitologia grega, mas neste ponto temos o que realmente importa: representação, como o próprio nome diz, é representação, e não a essência

      No gnosticismo (uma variante esotérica do abraamismo), faria mais sentido a representação mitológica pois é uma forma de crença que mais se aproxima do hinduísmo ou budismo. No gnosticismo existe a figura do Deus supremo e do demiurgo, o segundo é um falso Deus, aquele que moldou a matéria sem compreender verdadeiramente a essência dos mundos superiores, e que mantém a consciência humana presa na ilusão por ele criada. Segundo essa crença, é por meio da gnose que se encontra a verdadeira realidade e se escapa da prisão existencial do demiurgo (semelhante ao budismo com o conceito de nirvana como um despertar da ilusão)

      Em representação mitológica, dentro do escopo gnóstico, o Deus supremo poderia ser representado como o sol e o demiurgo como a lua (um ilumina, é fonte de luz, o outro reflete e projeta mas não emana de si nenhuma luz própria)

      Enquanto representação simbólica, não vejo problema com o sol, mas acho insuficiente uma vez que o sol não carrega consigo os atributos mais elevados do Deus supremo e por isso sustentei que, se quisermos encontrar dentro do sistema de abstração humana o que melhor se aproximaria dos atributos do Deus supremo, devemos olhar para a matemática e para as verdades matemáticas, que são eternas e imutáveis tal como o Deus supremo; também, sua natureza é abstrata mas sustenta o mundo manifesto (o próprio sol é matemática), se apresentando como não-dual

      Quando escolhemos um símbolo para representar, seja ele totalmente físico (contido no polo da matéria) ou totalmente metafísico (contido no polo da imaginação/abstração) estamos assumindo uma representação DUAL do supremo, que é não-dual

      Portanto, não há maneira de se representar o Deus supremo por sistemas de símbolos e significações, apenas por meio de verdades eternas e imutáveis como as que encontramos na matemática

      Simbologias ao meu ver fazem parte de uma necessidade humana de significação e representação, mas perdem a necessidade quando compreendemos melhor a essência não-dual do supremo, porém, podemos manter ritos e cultos de forma tradicional por estarem culturalmente estabelecidos e não há problema algum com isso ao meu ver

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