| Bradley Brewer |
Para os americanos, a Segunda Guerra Mundial é tudo o que
há de grandioso na América. Ela representa a bravura, o sacrifício, a fortaleza
e a compaixão americanas. Afinal, foi uma guerra que valeu a pena lutar e que
não podia ser evitada no Pacífico e na Europa. Nenhuma nação, por mais virtuosa
que seja, emerge da guerra e do processo de paz ilesa, física ou
ideologicamente, incluindo os Estados Unidos.
Em
2 de agosto de 1945, a Conferência de Potsdam veio a sua conclusão. Realizada
em Potsdam, Alemanha, pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, a
conferência teve como objetivo discutir planos para a ocupação da Alemanha e a
distribuição de reparações. Questões territoriais, como a localização da
fronteira ocidental da Polônia, foram brevemente debatidas, mas as discussões
foram adiadas até que uma conferência de paz definitiva pudesse ser agendada.
As negociações sobre questões territoriais podem ter sido adiadas, mas o
destino de milhões de alemães foi decidido com a inclusão do Artigo XIII na
versão final do Acordo de Potsdam. O Artigo XIII determinava que as populações
minoritárias alemãs da Checoslováquia, Polônia e Hungria (este artigo trata
apenas da Checoslováquia e da Polônia) fossem transferidas para a Alemanha de
forma ordenada e humana, sob a direção do Conselho de Controle Aliado, composto
por representantes dos Três Grandes Aliados.
O
Artigo XIII foi criado por uma razão. A retirada do exército alemão na
primavera de 1945 deixou a maior parte da Checoslováquia e toda a Polônia
ocidental ocupadas pelas forças armadas da União Soviética. E dentro desse
território recém-conquistado viviam milhões de alemães, muitos dos quais
residiam nos Sudetos da Checoslováquia e nos territórios poloneses
recém-adquiridos ao longo da linha Oder-Neisse (Brandemburgo, Danzig, Silésia,
Pomerânia e Prússia Oriental) desde o século XIV. Ao longo dos anos, as
relações entre alemães, checos e poloneses tornaram-se bastante tensas e, uma
vez terminada a guerra, cidadãos e funcionários governamentais de ambas as nações
aproveitaram a oportunidade para se livrarem, de forma espontânea e brutal, do
que consideravam uma minoria alemã problemática dentro de suas respectivas
fronteiras. Ao fazer isso, os governos checoslovaco e polonês buscaram expulsar
o máximo possível de alemães e apresentar aos Aliados um fait accompli {fato consumado} em uma futura conferência de paz. As
expulsões descontroladas que duraram de maio a junho de 1945 viram organizações
governamentais, independentes e militares expulsarem 750.000 alemães dos
Sudetos da Checoslováquia e entre 200.000 e 1.300.000 alemães da Polônia. No
entanto, esses números são estimativas e os totais variam dependendo do estudo.
A implementação do Artigo XIII tinha era suposto trazer
as expulsões selvagemente desenfreadas sob controle. O Secretário de Estado dos
Estados Unidos, James F. Byrnes, desejava implementar medidas que
desacelerassem a transferência de alemães, tornando-a em sua natureza menos
aleatória e violenta. Byrnes também era pragmático e compreendia que a expulsão
de alemães jamais seria completamente interrompida, mas poderia ao menos ser
monitorada pelos Aliados, de modo que o foco dos checos e poloneses se
concentrasse na expulsão dos alemães, e não na busca por vingança pelas
atrocidades de guerra cometidas pelos nazistas. Após a implementação de
detalhes logísticos para tornar as expulsões o mais ordenadas e humanas
possível, elas começaram em 25 de janeiro de 1946. Tanto na Checoslováquia
quanto na Polônia, as expulsões pós-Potsdam pouco diferiram das expulsões
brutais de 1945, visto que os alemães expulsos eram conduzidos a centros de
concentração onde eram roubados, sofriam abusos físicos e, em seguida,
amontoados em vagões de trem e enviados para a Alemanha, onde chegavam em
estado de “privação física e espiritual”, segundo o historiador alemão Theodor
Schieder. No entanto, as condições melhoraram no verão de 1946, após regulamentos
do Conselho de Controle Aliado terem sido plenamente implementados. Quando as
expulsões cessaram no final de 1947, cerca de 1.415.135 alemães dos Sudetos,
originários da Checoslováquia, haviam sido expulsos para a Zona de Ocupação dos
Estados Unidos, juntamente com 750.000 para a zona russa e 1.500.000 para a
zona britânica.
Para
os Estados Unidos (e a Grã-Bretanha), o Artigo XIII era pretendido estabelecer
alguma ordem no processo de expulsão, o que era uma solução mais atraente para
o problema da minoria alemã do que as alternativas mais prováveis: o caos
incontrolável ou uma provável guerra contra a União Soviética e a Polônia, algo
que os Aliados não desejavam, visto que haviam lutado contra um inimigo comum
com os soviéticos. Na prática, o Artigo XIII legitimou as expulsões que, antes
de Potsdam, eram realizadas sem qualquer base legal ou consideração sobre como
tais expulsões impactariam o cenário demográfico e político europeu. A
legitimidade conferida ao Artigo XIII pelos Aliados ocidentais deu
respeitabilidade legal ao ato de transferência populacional por expulsão
forçada, o que, na realidade, era limpeza étnica. Assim, os Estados Unidos
foram cúmplices na legalização do maior episódio de limpeza étnica ocorrido no
século XX, quando entre 12.000.000 e 16.000.000 de alemães foram expulsos de
suas pátrias históricas na Europa centro-oriental, da primavera de 1945 ao
final de 1947.
A
aprovação dos Estados Unidos à expulsão de alemães é, ao mesmo tempo,
explicável e inexplicável. Era explicável porque a expulsão dos alemães
provavelmente aconteceria independentemente da participação dos Estados Unidos,
e, ao participarem do processo, os oficiais de ocupação americanos tinham algum
controle sobre quando, onde e como as expulsões tomariam lugar, mas não o controle
total da situação. Por outro lado, a aprovação das expulsões pelos Estados
Unidos era inexplicável, e parecia que a remoção de grandes contingentes de
alemães de suas pátrias históricas contrariava a base ideológica de moralidade
e justiça sobre a qual os Estados Unidos foram fundados e contrariava nossos
objetivos de guerra declarados. Em guerras, onde a realidade e a ideologia
geralmente colidem, a conquista da paz é mais complexa do que o estabelecer do
conflito.
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Fonte: The
Ugly and Forgotten Legacy of Potsdam, por Bradley Brewer, 09 de agosto de 2015,
HISTORY NEWS NETWORK.
https://www.historynewsnetwork.org/article/the-ugly-and-forgotten-legacy-of-potsdam
Sobre o autor: Bradley
Brewer (1967-2020) recebeu seu doutorado pela Universidade Estadual do
Mississippi em História, com especialização em História Moderna Europeia,
concluído em 2015 e tornou-se professor na mesma universidade.
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