domingo, 11 de janeiro de 2026

O mito da Venezuela que nos impede de transformar nossa economia - por Ellen Brown

 

Ellen Brown


Os críticos americanos da Teoria Monetária Moderna que apontam para a hiperinflação da Venezuela estão ignorando a grande diferença entre os dois países.

A Teoria Monetária Moderna (MMT) tem conseguido considerável atenção da mídia estes dias, após a deputada Alexandria Ocasio-Cortez[1] disse, em entrevista,[2] que ela deveria “ser uma parte maior de nossas discussões” quando se trata de financiar o “Green New Deal”. De acordo com a MMT {Teoria Monetária Moderna}, o governo pode gastar o que precisa sem se preocupar com déficits. A professora Stephanie Kelton,[3] especialista em MMT {Teoria Monetária Moderna} e assessora de Bernie Sanders[4], afirma que o governo, na verdade, cria dinheiro quando gasta. O limite real para os gastos não é um teto da dívida imposto artificialmente, mas sim a falta de mão de obra e materiais para realizar o trabalho, o que leva à inflação generalizada de preços. Somente quando esse teto real é atingido é que o dinheiro precisa ser tributado, mas mesmo assim não para financiar gastos governamentais. Em vez disso, é necessário reduzir a oferta de moeda em uma economia que esgotou os recursos para colocar o dinheiro extra para trabalhar.

{Governo de Hugo Chávez (1954-2013): “Em vez de salvar os culpados, como foi feito nos EUA, em 2009 o governo nacionalizou sete bancos venezuelanos, responsáveis por cerca de 12% dos depósitos bancários do país. Em 2010, mais bancos foram estatizados. O governo Chávez prendeu pelo menos 16 banqueiros e emitiu mais de 40 mandados de prisão por corrupção contra outros que haviam fugido do país. No final de março de 2011, restavam apenas 37 bancos, contra 59 no final de novembro de 2009. As instituições estatais assumiram um papel mais importante, detendo 35% dos ativos em março de 2011, enquanto as instituições estrangeiras detinham apenas 13,2% de ativos.”

“‘Venezuela aumenta as contribuições sociais obrigatórias dos bancos, EUA e Europa não,’ Rachael Boothroyd afirmou que o governo venezuelano estava exigindo que os bancos retribuíssem. A moradia foi declarada um direito constitucional e os bancos venezuelanos foram obrigados a contribuir com 15% de seus lucros anuais para garanti-la. A Grande Missão Habitacional do governo visava construir 2,7 milhões de casas gratuitas para famílias de baixa renda até 2019. O objetivo era criar um sistema bancário social que contribuísse para o desenvolvimento da sociedade, em vez de simplesmente drenar sua riqueza.”}

Previsível, as críticas foram rápidas em refutar, classificando a tendência de endossar a MMT {Teoria Monetária Moderna} como “perturbadora”[5] e “uma piada sem graça”. [6]Em uma postagem de 1º de fevereiro no Daily Reckoning,[7] Brian Maher previu, de forma sombria, a eleição de Bernie Sanders[8] em 2020 e a implementação de um “Afrouxamento Quantitativo para o Povo” baseado nas teorias da MMT {Teoria Monetária Moderna}. Para desmentir a noção de que os governos podem simplesmente “imprimir dinheiro” para resolver seus problemas econômicos, ele evocou o espectro da Venezuela, onde “dinheiro” está por toda parte, mas itens de primeira necessidade estão fora do alcance de muitos, as lojas estão vazias, o desemprego está em 33% e a inflação deve atingir 1 milhão por cento até o final do ano.

O blogueiro Arnold Kling também pontuou a hiperinflação venezuelana. Ele descreveu[9] a MMT {Teoria Monetária Moderna} como “a doutrina de que, como o governo imprime dinheiro, pode gastar o que quiser... até não poder mais”. Ele disse:

Para mim, a hiperinflação na Venezuela exemplifica o que acontece quando um país chega ao ponto de “não dá mais”. O país não está em pleno emprego, mas o governo parece não conseguir gastar para sair da crise. Alguém deveria perguntar a esses gurus da MMT {Teoria Monetária Moderna} sobre o exemplo da Venezuela.

Eu não sou um especialista em MMT {Teoria Monetária Moderna} e não vou tentar explicar suas sutilezas. (Eu diria que, pelas regulamentações atuais, o governo não pode de fato criar dinheiro quando gasta, mas deveria poder. Aliás, os defensores da MMT {Teoria Monetária Moderna} já reconheceram esse problema;[10] mas é assunto para outro artigo.) O que eu quero abordar aqui é a questão da hiperinflação e por que a hiperinflação venezuelana e o “QE (flexibiliza quantitativa) para o Povo” são coisas completamente diferentes.

 

O que há de diferente na Venezuela?

Os problemas da Venezuela não são resultado do governo emitir dinheiro e usá-lo para contratar pessoas para construir infraestrutura, fornecer serviços essenciais e expandir o desenvolvimento econômico. Se fosse esse o caso, o desemprego não estaria em 33% e continuando a subir. A Venezuela tem um problema que os EUA não têm, e jamais terão: uma dívida enorme em uma moeda que não pode imprimir, ou seja, o dólar americano. Quando o petróleo (seu principal recurso) estava em alta, a Venezuela conseguia cumprir seus pagamentos. Mas quando o preço do petróleo despencou, o governo se viu obrigado a imprimir bolívares venezuelanos e vendê-los por dólares americanos em casas de câmbio internacionais. À medida que os especuladores elevavam o preço do dólar, o governo precisava imprimir cada vez mais moeda, o que desvalorizou drasticamente o valor da moeda nacional.

Foi o mesmo problema enfrentado pela Alemanha de Weimar e pelo Zimbábue, os dois exemplos clássicos de hiperinflação geralmente citados para silenciar os defensores da expansão da oferta monetária pelo governo, antes que a Venezuela sofresse o mesmo destino. O professor Michael Hudson, uma verdadeira estrela da economia que apoia os princípios[11] da Teoria Monetária Moderna (MMT), estudou extensivamente a questão da hiperinflação. Ele confirma[12] que esses desastres não foram causados pela emissão de moeda pelos governos para estimular a economia. Em vez disso, ele escreve: “Toda hiperinflação na história foi causada pelo serviço da dívida externa, que levou ao colapso da taxa de câmbio. O problema quase sempre resultou de dificuldades cambiais em tempos de guerra, e não de gastos domésticos.”

A Venezuela e outros países que carregam dívidas enormes em moedas estrangeiras não são soberanos. Governos soberanos podem emitir suas próprias moedas para financiar infraestrutura e desenvolvimento, e o fazem com bastante sucesso. Já discuti diversos exemplos contemporâneos e históricos em artigos anteriores, incluindo os do Japão,[13] China,[14] Austrália[15] e Canadá.[16]

Embora a Venezuela não esteja tecnicamente em guerra, sofre com a escassez de moeda estrangeira acionada por ataques agressivos de uma potência estrangeira. As sanções econômicas dos EUA já duram anos, causando ao país perdas de pelo menos US$ 20 bilhões.[17] Cerca de US$ 7 bilhões em ativos venezuelanos estão retidos[18] pelos EUA, que travam uma guerra não declarada contra a Venezuela[19] desde a tentativa fracassada de golpe militar de George W. Bush contra o presidente Hugo Chávez em 2002. Chávez anunciou audaciosamente a “Revolução Bolivariana”, uma série de reformas econômicas e sociais que reduziram drasticamente a pobreza e o analfabetismo, além de melhorarem a saúde e as condições de vida de milhões de venezuelanos. As reformas, as quais incluíram a nacionalização de setores-chave da economia nacional, transformaram Chávez em um herói para milhões de pessoas e em inimigo dos oligarcas venezuelanos.

Nicolás Maduro foi eleito presidente após a morte de Chávez em 2013 e prometeu dar continuidade à Revolução Bolivariana. Recentemente, assim como Saddam Hussein e Muammar Gaddafi fizeram antes dele, anunciou, em tom de desafio, que a Venezuela não negociaria petróleo em dólares americanos[20] em decorrência das sanções impostas pelo presidente Trump.[21]

O notório Elliott Abrams[22] foi nomeado enviado especial[23] para a Venezuela. Considerado um criminoso de guerra por muitos por acobertar massacres cometidos por esquadrões da morte apoiados pelos EUA na América Central, Abrams estava entre os neoconservadores proeminentes intimamente ligados à fracassada tentativa de golpe de Estado de Bush na Venezuela em 2002. O conselheiro de segurança nacional, John Bolton, é outro arquiteto neoconservador chave que defende a mudança de regime na Venezuela. Em uma coletiva de imprensa em 28 de janeiro, ele segurava um bloco de notas amarelo com os dizeres “5.000 soldados para a Colômbia,”[24] país que faz fronteira com a Venezuela. Claramente, o grupo neoconservador sente que tem assuntos inacabados por lá.

Bolton nem sequer fingiu que tudo se resume a restaurar a “democracia”. Ele afirmou descaradamente na Fox News: “Faria uma grande diferença para os Estados Unidos economicamente se conseguíssemos que as empresas petrolíferas americanas investissem e produzissem petróleo na Venezuela”. Como disse o presidente Nixon[25] sobre as táticas americanas contra o governo de Salvador Allende no Chile, o objetivo das sanções e das ameaças militares é apertar o país economicamente.

 

Matando a revolução bancária pública na Venezuela

Pode ser algo mais que petróleo, que recentemente atingiu mínimas históricas no mercado. Os EUA dificilmente precisam invadir um país para reabastecer seus estoques. Assim como na Líbia e no Iraque, outro motivo pode ser o de suprimir a revolução bancária iniciada pelos líderes emergentes da Venezuela.

A crise bancária de 2009-2010 expôs a corrupção e a fraqueza sistêmica[26] dos bancos venezuelanos. Alguns bancos estavam envolvidos em práticas comerciais questionáveis. Outros estavam seriamente subcapitalizados. Outros ainda aparentemente emprestavam grandes somas de dinheiro a altos executivos. Pelo menos um financista não conseguiu comprovar a origem do dinheiro usado para comprar os bancos que possuía.

Em vez de salvar os culpados, como foi feito nos EUA, em 2009 o governo nacionalizou[27] sete bancos venezuelanos, responsáveis por cerca de 12% dos depósitos bancários do país. Em 2010, mais bancos foram estatizados. O governo Chávez prendeu pelo menos 16 banqueiros e emitiu mais de 40 mandados de prisão por corrupção contra outros que haviam fugido do país. No final de março de 2011, restavam apenas 37 bancos, contra 59 no final de novembro de 2009. As instituições estatais assumiram um papel mais importante, detendo 35% dos ativos em março de 2011, enquanto as instituições estrangeiras detinham apenas 13,2% de ativos.

Em meio aos protestos da mídia, em 2010, Chávez tomou a ousada decisão de aprovar uma lei que definia o setor bancário como um setor de “serviço público”. A legislação especificava que 5% dos lucros líquidos dos bancos deveriam ser destinados ao financiamento de projetos de conselhos comunitários, idealizados e implementados pelas comunidades para o benefício das próprias comunidades. O governo venezuelano direcionou a alocação de crédito bancário para setores prioritários da economia e passou a se envolver cada vez mais nas operações de instituições financeiras privadas. Por lei, quase metade das carteiras de empréstimos dos bancos venezuelanos teve que ser direcionada a setores específicos da economia, incluindo pequenas empresas e agricultura.

Em um artigo de 2012 intitulado “Venezuela aumenta as contribuições sociais obrigatórias dos bancos, EUA e Europa não,”[28] Rachael Boothroyd afirmou que o governo venezuelano estava exigindo que os bancos retribuíssem. A moradia foi declarada um direito constitucional e os bancos venezuelanos foram obrigados a contribuir com 15% de seus lucros anuais para garanti-la. A Grande Missão Habitacional do governo visava construir 2,7 milhões de casas gratuitas para famílias de baixa renda até 2019. O objetivo era criar um sistema bancário social que contribuísse para o desenvolvimento da sociedade, em vez de simplesmente drenar sua riqueza. Boothroyd escreveu:

…Os venezuelanos estão com a fortuna de contar com um governo nacional que prioriza a qualidade de vida, o bem-estar e o desenvolvimento da população em detrimento dos salários de banqueiros e lobistas. Se a crise financeira de 2009 demonstrou algo, foi que o capitalismo é simplesmente incapaz de se autorregular, e é exatamente aí que governos e legislações progressistas precisam entrar em ação.

É também aí onde, nos EUA, a ala progressista do Partido Democrata[29] está entrando em cena — e é por isso que as propostas de Ocasio-Cortez evocam protestos na mídia semelhantes aos vistos na Venezuela.

O Artigo I, Seção 8, da Constituição concede ao Congresso o poder de criar a oferta monetária da nação. O Congresso precisa exercer esse poder. A chave para restaurar nossa soberania econômica é recuperar o poder de emitir moeda de um sistema bancário comercial que não reconhece nenhuma responsabilidade pública além de maximizar os lucros para seus acionistas. A moeda criada pelos bancos é garantida pela plena fé e crédito dos Estados Unidos, incluindo o seguro federal de depósitos, o acesso à linha de crédito do Fed e os resgates governamentais quando as coisas dão errado. Se nós, o povo, garantimos a moeda, ela deve ser emitida pelo povo por meio de seu governo representativo.

O governo atual, no entanto, não representa adequadamente o povo, e é por isso que precisamos, em primeiro lugar, retomar o controle do nosso governo. Felizmente, é exatamente isso que Ocasio-Cortez e seus aliados no Congresso estão tentando fazer.

Tradução por Dignus {academic auctor pseudonym - studeo liber ad collegium}

Revisão e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 Notas:


[3] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.youtube.com/watch?v=H_il45h3Nmo&t=1017s

[4] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/bernie-sanders/

[8] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/bernie-sanders/

[9] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://www.arnoldkling.com/blog/mmt-and-venezuela/

[10] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://www.levyinstitute.org/pubs/wp_778.pdf

[19] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/14263

[21] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/donald-trump/

[23] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/14263

[25] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://nixontapes.org/chile.html

[27] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/news/5082

[28] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/6942

[29] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/democratic-party/

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

{Tributo a James Watson (1928-2025)} - Doze Livros Desconhecidos e Suas Verdades Raciais Suprimidas - parte 9 {Charles Murray} - por Ron Keeva Unz

 Continuação de {Tributo a James Watson (1928-2025)} - Doze Livros Desconhecidos e Suas Verdades Raciais Suprimidas - parte 8 {John R. Baker, Arthur R. Jensen, Hans Eysenck e Richard Herrnstein} - por Ron Keeva Unz

Ron Keeva Unz


Bell Curve - Guerras e outras controvérsias sobre QI

Herrnstein morreu de câncer de pulmão aos 64 anos, em setembro de 1994, tendo dedicado os últimos anos de sua vida a um projeto que dirigia-se diretamente as grandes diferenças raciais na inteligência, as quais a maioria de seus escritos anteriores tinha usualmente passado de lado. Em parceria com o renomado cientista social Charles Murray, ele produziu The Bell Curve, um volume monumental com 845 páginas e mais de 400.000 palavras.

O livro foi lançado poucas semanas após sua morte e imediatamente se tornou uma sensação nacional, provavelmente atraindo mais controvérsia e cobertura da mídia do que qualquer outra coisa publicada em décadas. Quase três gerações haviam se passado desde que uma grande editora americana publicara um livro defendendo veementemente a natureza predominantemente inata da inteligência humana e as amplas diferenças raciais nessas características, e embora essa última questão constituísse apenas uma pequena parte do texto, aquelas afirmações incendiárias atraíram aproximadamente toda a atenção.

 

Naquela época, a revista The New Republic era a publicação de opinião liberal mais influente na América, e tanto o proprietário Martin Peretz quanto o editor Andrew Sullivan apoiaram fortemente o lançamento de The Bell Curve, dedicando grande parte de uma edição a uma matéria de capa de 10.000 palavras intitulada “Race, Genes, and IQ: An Apologia”35 {Raça, Genes e QI: Uma Apologia}, a qual consistia em grande parte de trechos extensos do livro. Mas essa decisão desencadeou uma enorme revolta por parte da maioria dos funcionários e colaboradores regulares da revista, que exigiram espaço para refutação. Assim, a mesma edição também publicou cerca de 19 ataques distintos ao livro e às suas teorias, muitos deles extremamente duros, com epítetos como “neonazista” sendo usados ​​indiscriminadamente. De acordo com Sullivan, o incidente marcou um ponto de virada em seu relacionamento com os colegas da TNR {The New Republic}, que nunca se recuperou, e ele acabou deixando a revista.

Com a distância de um quarto de século, eu tinha praticamente esquecido a enorme cobertura midiática da época, mas passar alguns dias lendo cinquenta ou sessenta resenhas contemporâneas, muitas delas bastante extensas, refrescou minha memória e também ressaltou as reações tremendamente díspares de pessoas que, em geral, são almas companheiras da mesma ideologia.

{Charles Murray (1943-) é uma acadêmico americano, coautor junto com Richard Herrnstein (1930-1994) da polêmica obra The Bell Curve, a qual causou reação anticientífica e de subversão do Ocidente por parte de toda meio acadêmico e mídia corrompidos.}

 

Por exemplo, apenas nas páginas do New York Times, a seção Sunday Book Review alocou três páginas de discussão,36 um feito quase sem precedentes, a The Bell Curve e a outros dois livros sobre questões raciais similares, com Malcolm Browne, jornalista científico do jornal e vencedor do Prêmio Pulitzer, tomando 4.200 palavras para retratar as obras de forma substancialmente favorável, enfatizando a necessidade de confrontar tabus há muito reprimidos. Mas, uma semana depois, o mesmo jornal publicou um longo editorial denunciando “The Bell Curve Agenda” nos termos mais severos possíveis, e uma matéria de capa de 8.300 palavras37 na Sunday Magazine vilipendiou Murray como “O Conservador Mais Perigoso da América.”

A National Review, a principal revista conservadora, tinha já publicado uma longa e favorável resenha, mas logo dedicou quase toda uma edição a um notável simpósio com 14 contribuintes diferentes,38 muitos deles jornalistas ou acadêmicos proeminentes, que ofereceram uma ampla gama de perspectivas, tanto positivas quanto negativas. Embora a TNR {The New Republic} fosse então minha revista favorita e eu não tivesse a NR {A National Review} em alta consideração, a enxurrada de ataques na primeira pareceu-me absolutamente histérica, enquanto eu achava que a segunda havia apresentado a discussão mais completa e equilibrada.

A coincidência de datas com grandes eventos políticos provavelmente ajudou a explicar essa enorme cobertura da mídia. Apenas algumas semanas após o lançamento do livro, Newt Gingrich e os republicanos inesperadamente conquistaram o poder nas eleições para o Congresso, pondo fim a quase meio século de controle democrata ininterrupto ao obterem a maioria tanto na Câmara quanto no Senado, um evento tão traumático para os liberais da época quanto a surpreendente vitória de Donald Trump em 2016. Controvérsias raciais haviam sido um fator significativo para a vitória esmagadora dos republicanos, e os liberais, horrorizados, viam seu mundo político e ideológico familiar desmoronar ao seu redor, com a assustadora possibilidade de que o “racismo branco” do passado enterrado retomasse repentinamente o controle da sociedade americana.

O resultado foi uma onda excepcionalmente amarga de ataques da mídia liberal ao livro, que foi demonizado a um nível sem precedentes. Como mencionado, grande parte da discussão inicial da mídia sobre The Bell Curve e suas ideias havia sido favorável ou, pelo menos, respeitosa, mas uma enorme campanha pública de difamação foi desencadeada, com muitos republicanos e conservadores tímidos logo cedendo aos ataques e abandonando qualquer apoio. Alguns anos antes, eu tinha sido convidado para uma reunião privada em Washington, D.C., na qual Murray havia distribuído confidencialmente trechos de seu trabalho em andamento, e os organizadores neoconservadores discutiram com ele a melhor abordagem para o lançamento bem-sucedido do livro; mas agora eu soube que Bill Kristol estava buscando conservadores para assinar uma declaração pública condenando o panfleto “racista”.

{William “Bill” Kristol (1952-) é um político judeu e membro do movimento sionista nos EUA que esteve envolvendo em ativismo anticientífico sobre a questão racial abordada na obra The Bell Curve, se valendo do ressentimento que a realidade racial provoca no contexto do século XXI no Ocidente.}
 

O livro continuou a vender muito bem, mas a opinião pública da elite logo se voltou drasticamente contra ele, e a morte de Herrnstein, apenas um mês antes da publicação, certamente contribuiu para isso. Até poucos anos antes, Murray desconhecia completamente essas questões científicas envolvendo raça e QI e, de fato, costumava descartar o possível papel das diferenças raciais como fator nos problemas sociais da população negra em seus escritos anteriores, nos quais denunciava o estado de bem-estar social. Em contrapartida, Herrnstein havia dedicado mais de duas décadas à pesquisa do tema como um renomado professor de Harvard e também era parcialmente imune a ataques devido às suas fortes credenciais liberais. Assim, o desaparecimento do coautor liberal sênior removeu um defensor crucial do conteúdo, deixando o conservador Murray muito mais vulnerável e exposto, e forçando-o a defender publicamente questões psicométricas que estavam fora de sua principal área de especialização. Lembro-me de ter pensado, na época, que, diante de questionamentos técnicos incisivos por parte de jornalistas hostis, algumas de suas respostas à mídia não foram tão eficazes quanto elas poderiam ter sido.

Os principais psicometristas dos Estados Unidos, cuja expertise profissional em raça e QI tinha sido ignorada ou deturpada no âmbito público, mobilizaram-se rapidamente em apoio à obra, aproveitando a polêmica midiática para publicar suas opiniões de longa data. Em dezembro, o Wall Street Journal dedicou quase toda uma página editorial a uma declaração pública39 de que The Bell Curve representava o consenso acadêmico da “ciência dominante sobre inteligência”, uma declaração organizada pela Profa. Linda Gottfredson e assinada por 52 especialistas acadêmicos, incluindo eminentes estudiosos como Eysenck e Jensen.

A despeito desses contra-ataques, a maré intelectual continuou a se voltar contra a obra e, em menos de um ano, o status quo ideológico se restabeleceu, com os defensores remanescentes se vendo severamente perseguidos pela grande mídia. Quando a polêmica inicial começou, o renomado paleolibertário Murray Rothbard se mostrou exultante com o fato de as verdades há muito suprimidas sobre questões raciais finalmente terem vindo à tona, sugerindo que poderosos elementos políticos aparentemente haviam decidido reverter décadas de repressão científica. Mas, no décimo aniversário, escritores veteranos sobre raça e QI, como Steve Sailer e Chris Brand, emitiram veredictos longos e desesperadores, concluindo que as ideias do livro haviam sido suprimidas com sucesso e que qualquer menção favorável a ele em círculos respeitáveis ​​tornaria alguém imediatamente um pária. Sailer chegou a sugerir que as “As Guerra Bell Curve” representaram um ponto de virada crucial tanto para os movimentos intelectuais neoconservadores quanto para os neoliberais, que logo abandonaram qualquer resquício de franqueza sobre questões racialmente carregadas. De fato, outros autores frequentes sobre questões raciais, como John Derbyshire e Peter Brimelow, têm algumas vezes descrito40 o período de 1995 a 2005 como um breve “interglacial”, durante o qual tópicos raciais controversos podiam ocasionalmente ser discutidos na mídia convencional, mas que a repressão subsequente tinha sido ainda mais severa do que qualquer coisa anterior.

Muitos jornalistas e acadêmicos passaram a temer muito abordar o tema da raça e do QI, e até mesmo as figuras mais eminentes sofreram graves consequências ao fazê-lo. Por meio século, James Watson reinou como uma das maiores figuras científicas do mundo, tendo compartilhado o Prêmio Nobel pela descoberta do DNA em 1953 e, em seguida, passado décadas à frente do Laboratório Cold Spring Harbor, que ele transformou em um importante centro de pesquisa científica. Mas em 2007, durante uma turnê de lançamento de seu livro aos 79 anos, ele questionou a inteligência média dos africanos negros e foi imediatamente alvo41 de uma tempestade de críticas públicas e vitupérios da mídia, perdendo muitas de suas honrarias, e mais tarde ele enfrentou uma segunda onda de difamação42 quando comentários semelhantes vieram à tona em um documentário de 2018. Foi um destino chocante para um cientista na casa dos 90 anos que passou toda a sua carreira no auge do reconhecimento e das realizações mundiais.

Na época da primeira tempestade de fogo envolvendo Watson, a Slate era nossa principal publicação online, geralmente neoliberal e respeitada, e William Saletan, um de seus editores seniores, começou a publicar uma longa série de cinco partes intitulada “Criacionismo Liberal,”43 na qual ele explicava a sólida base científica dos comentários casuais de Watson. Mas Saletan imediatamente se deparou com uma onda tão feroz de denúncias que logo se desculpou por ter usado “fontes de reputação duvidosa,” em meio a dúvidas generalizadas sobre se conseguiria manter seu emprego.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Continua ...

Notas:

35 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: Race, Genes and I.Q. a – Na Apologia – The case for conservative multiculturalismo, The New Republic.

https://newrepublic.com/article/120887/race-genes-and-iq-new-republics-bell-curve-excerpt

36 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: What Is Intelligence, and Who Has It?, por Malcolm W. Browne, 16 de outubro de 1994, The New York Times.

https://www.nytimes.com/1994/10/16/books/what-is-intelligence-and-who-has-it.html

37 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: Daring Research or 'Social Science Pornography'?: Charles Murray, Jason Deparle, 09 de outubro de 1994, The New York Times.

https://www.nytimes.com/1994/10/09/magazine/daring-research-or-social-science-pornography-charles-murray.html

38 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz:

https://www.unz.com/print/NationalRev-1994dec05/

40 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: The HANDLE’S HAUS List of PC Purgees—and Dogma, Dissent, and Duty, por John Derbyshire, 16 de janeiro de 2014, The Unz Review – Na Alternative Media Selection.

https://www.unz.com/jderbyshire/the-handles-haus-list-of-pc-purgees-and-dogma-dissent-and-duty/

41 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: James Watson Retires After Racial Remarks, por Cornelia Dean

25 de outubro de 2007, The New York Times.

https://www.nytimes.com/2007/10/25/science/25cnd-watson.html

42 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: He Made Things Worse. - The Nobel-winning biologist has drawn global criticism with unfounded pronouncements on genetics, race and intelligence. He still thinks he’s right, a new documentary finds, por Amy Harmon, 01 de janeiro de 2019, The New York Times.

https://www.nytimes.com/2019/01/01/science/watson-dna-genetics-race.html

43 Fonte utilizada por Ron Keeva Unz: Liberal Creationism, por William Saletan, 18 de novembro de 2007, SLATE.

https://slate.com/technology/2007/11/liberal-creationism.html

Fonte: American Pravda: Twelve Unknown Books and Their Suppressed Racial Truths, por Ron Keeva Unz, 17 de novembro de 2025, The Unz Review – An Alternative Media Selection.

https://www.unz.com/runz/american-pravda-twelve-unknown-books-and-their-suppressed-racial-truths/

Sobre o autor: Ron Keeva Unz (1961 -), de nacionalidade americana, oriundo de família judaica da Ucrânia, é um escritor e ativista político. Possui graduação de Bachelor of Arts (graduação superior de 4 anos nos EUA) em Física e também em História, pós-graduação em Física Teórica na Universidade de Cambridge e na Universidade de Stanford, e já foi o vencedor do primeiro lugar na Intel / Westinghouse Science Talent Search. Seus escritos sobre questões de imigração, raça, etnia e política social apareceram no The New York Times, no Wall Street Journal, no Commentary, no Nation e em várias outras publicações.

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