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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Mnemosyne e Lethe; A cultura da lembrança e do esquecimento no sistema ocidental - Por Tomislav Sunić, Ph.D.

 

Tomislav Sunić


A cultura da lembrança molda a fundação política de cada estado do mundo. Ao abordar a cultura da lembrança na Alemanha, o que passa pela cabeça imediatamente é a memória coletiva prescrita pelos Aliados para o povo alemão instalado no final da Segunda Guerra Mundial. As raízes psicológicas dessa cultura da lembrança do pós-guerra e seu significado para os alemães, bem como para outros povos da Europa, voltam ao fundo do passado deles. Por que a cultura da lembrança, em oposição à cultura do esquecimento, desempenha um papel tão proeminente na Alemanha, mas também em menor medida em todo o Ocidente – como se o curso real da história mundial tivesse começado depois das consequências do desastre de 1945?

A memória e a memória coletiva são as fundações do processo de formação da identidade, independentemente de nosso ódio ou amor por nossos formadores de opinião ou por nossos políticos, respectivamente, ou, nesse caso, independentemente do zeitgeist {em alemão, algo como a mentalidade da época} predominante. Deve-se primeiro esclarecer uns poucos termos e separar alguns nomes da mitologia e história europeias, e também colocar este assunto em um contexto histórico e filosófico mais amplo. Inevitavelmente, tentamos resgatar alguns poetas e pensadores.

Na mitologia grega antiga, Mnemosyne é o nome da deusa da memória; ela é o símbolo da onisciência e de todo o conhecimento. Sem Mnemosyne não há vida humana, nenhuma linguagem, nenhuma cultura, e sem ela, todas as pessoas estão condenadas a vegetar como animais despojados de sua memória. Em contraste com a deusa da memória Mnemosyne, a deusa Lethe é retratada como um rio de esquecimento; isto é, Lethe é a corrente do esquecimento fluindo no notório mundo subterrâneo. Aquele que ousa beber deste rio esquece sua vida anterior, mas também suas preocupações e sua weltschmerz {em alemão, algo como dor adquirida na vida na Terra}, na esperança de alcançar uma vida relativamente despreocupada no submundo, ou reconstituir uma nova vida na terra.[1] Essas duas deusas são frequentemente evocadas por poetas, e figurativamente falando por todos nós diariamente quando lutamos para suprimir ou obliterar eventos passados embaraçosos, incluindo aqueles de natureza política. Paralelamente, ansiamos por ressuscitar nossas belas memórias, ou melhor ainda, reviver os momentos de nossa bem-aventurança do passado.

Há, no entanto, diferenças entre as memórias individuais e coletivas. Memórias coletivas, que geralmente são administradas em dias de memória ou comemorações públicas, ou outros eventos públicos, são sempre politicamente supervisionadas. Por exemplo, incontáveis ​​dias de memória coletiva homenageando as vítimas do fascismo ou colonialismo em países do antigo bloco comunista Oriental se transformaram em espetáculos políticos – mas de natureza transitória. No dia seguinte, a maioria daqueles dias memoriais ou foram esquecidos coletivamente ou foram recebidos com desinteresse geral. Depois disso, cidadãos da ex-Alemanha Oriental ou da ex-Iugoslávia contaram piadas a portas fechadas sobre os espetáculos comunistas e seus organizadores. Pode-se lembrar de eventos memoriais gigantescos na ex-Alemanha Oriental ou na ex-Iugoslávia, realizados em honra aos soldados soviéticos ou guerrilheiros {partisans} comunistas caídos na Segunda Guerra Mundial. Claro, comemorações públicas para as vítimas do comunismo não eram permitidas; vítimas anônimas do comunismo foram empurradas para a cultura do esquecimento. Na cultura oficial da memória comunista, não poderia haver nenhuma vítima do comunismo, visto que os termos “vítima” e “memória” eram aplicados apenas a heróis comunistas selecionados. Seguindo a queda do Muro de Berlim em 1989, bem como na esteira do colapso da Iugoslávia em 1991, os eventos memoriais comunistas tiveram que ser remodelados e substituídos por novas palavras memoriais, com ex-autopromotores comunistas tendo que se adaptar ao zeitgeist {em alemão, algo como a mentalidade da época} liberal. Nesses novos eventos comemorativos, o antigo simbolismo comunista está sendo substituído agora por uma verborragia e iconografia liberais. Poucas coisas mudaram, entretanto, até onde é concernido o conteúdo antifascista. Aliás, os dias de comemoração coletiva das vítimas do fascismo e, especialmente, a homenagem às vítimas do Holocausto {cujas investigações críticas atuais desmentem a existência do alegado holocausto judaico}[2] constituem a base do direito internacional na Europa Ocidental, Europa Oriental e na América.

 

Lembrando o pensamento positivo

Nossa lembrança individual, por outro lado, especialmente se ela traz imagens de encontros felizes do passado ou momentos alegres dos bons velhos ou antigos tempos, muitas vezes funciona como uma quimera, por meio da qual projetamos nostalgicamente essas imagens felizes do passado no presente, ou o futuro próximo na esperança de revivê-los mais uma vez. Todo pensamento positivo, entretanto, é uma consequência lógica de uma memória desfigurada. Pode-se relembrar aqui as palavras do poeta Hölderlin em seu poema “Mnemosyne”, em que expressa seu anseio pelo renascimento dos tempos míticos:

E há uma lei,

Que as coisas se arrastam na maneira de cobras,

Profeticamente, sonhando nas colinas do céu.

E há muito que precisa ser retido,

Como uma carga de madeira nos ombros.

Mas os caminhos são perigosos.[3]

A cada um de nós as suas próprias memórias, a cada um dos outros também a sua interpretação das suas memórias. Minha interpretação de minhas memórias de meus encontros anteriores é elaborada de forma diferente daquelas compostas por indivíduos que compartilharam esses encontros anteriores. Mesmo pessoas sem imaginação têm necessidade de memórias imaginárias, muitas vezes beirando o pensamento positivo que nega a realidade.O contraste entre a realidade e o pensamento positivo, entretanto, desempenha um papel especial nas memórias individuais, porque o pensamento positivo muitas vezes beira o autoengano. A fim de ilustrar melhor o pensamento positivo, pode-se enumerar inúmeros poetas alemães e especialmente Romanticistas Sombrios alemães descrevendo suas memórias que geralmente levam a catástrofes, suicídio ou mortes.

Em particular, surgem grandes decepções com as lembranças relacionadas a pontos de vista políticos. Muitos de nós conhecemos colegas que são críticos astutos do Sistema, mas cujos sonhos alternativos sobre o futuro da Europa ou dos Estados Unidos se baseiam em julgamentos irreais. Sempre que nós fazemos referência a sonhos políticos, o que vem à mente é o simbolismo da novela An Incident at the Owl Creek Bridge, do escritor americano Ambrose Bierce.[4] O personagem principal é um político local do sul que foi capturado e condenado à morte no meio da Guerra Civil Americana. Ele já está balançando na forca, mas imaginando como ele escapou habilmente do laço de seus algozes ianques, enquanto ao mesmo tempo saboreia seu retorno para sua família dentro de seu tempo sobrecarregado. O desejo por seu doppelganger {algo como a parte duplicada da alma, a qual é mais ativa durante o sono, e que é um conceito comum em vários povos} que pudesse trocar de lugar era uma grande ilusão, entretanto. Ele já estava morto e se foi.

A diferença entre memória individual e coletiva é ofuscante. Nossas memórias individuais, mesmo que não sejam geradas por um político poderoso, também podem se transformar em um pesadelo. Cada memória, seja individual ou coletiva, corre o risco de se esgotar em uma noção subjetiva de extensão do tempo. Pensar profunda e extensamente sobre aqueles momentos felizes do passado devora mais tempo do que o tempo real que levou para viver esses momentos felizes. 

Pior, pensar profunda e extensamente sobre momentos felizes pode se transformar na sensação de um eu distorcido o qual anseia por melhorias mundiais. Por outro lado, também ansiamos por abandonar algumas de nossas memórias ruins, especialmente se elas nos lembrarem, em retrospecto, de nosso comportamento grotesco do passado ou de nossos encontros anteriores embaraçosos, ou de nosso antigo estilo de vida político. Ernst Jünger descreve vividamente a sensação do tempo sobrecarregado resultante de ponderar incessantemente sobre nossas memórias.

A memória coletiva, ou uma memória imposta por um governo ou um tirano, gera facilmente psicose em massa, como vivemos hoje com os regulamentos de Covid decretados pelo Estado. A propósito, também se pode notar uma série de comemorações histórico-políticas na EU {União Europeia} e na América em favor dos migrantes não europeus e de sua história de colonização. Os políticos alemães em tais ocasiões gostam de se posicionar como modelos para uma nação transgressora autoinduzida (“Tätervolk”) – uma nação que deve realizar em público e por toda a eternidade os rituais de lembrança em nome das vítimas do fascismo. Esse exagero na compulsão alemã de agradar os estrangeiros é muito antigo, tendo suas raízes na política de abnegação estendendo profundamente por centenas de anos de história alemã sem Estado {até antes de 1871}. Erwin Stransky, um pensador alemão e neurologista de ascendência judaica e muito amigo dos alemães, notou pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial, ou seja, que bem antes do pós-Segunda Guerra Mundial a lavagem cerebral dos Aliados e a reeducação liberal comunista começaram. Ele observou como os alemães[5] gostam de desvairar sobre alienígenas e “que em nenhum lugar é mais fácil do que na Alemanha engodar e confundir os espíritos com bordões pseudocientíficos ou pseudolegais habilmente ‘lançados.’”[6] Tal memória desfigurada tem agora se tornado uma marca registrada de todos os povos ocidentais.

 

Ficando alto no esquecimento

Onde fica a cultura do esquecimento? O esquecimento coletivo é frequentemente encorajado por políticos da EU {União Europeia} e dos EUA e pela mídia, especialmente em relação a milhões de vítimas desconhecidas do comunismo ou incontáveis vítimas do atentado terrorista aéreo aliado na Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, essas vítimas só apareceram como notas de rodapé na mídia ocidental. Ainda mais grotesco é o desejo de esquecimento por parte de muitos intelectuais e políticos do establishment dos Estados Unidos e da UE {União Europeia} em relação ao defasagem de suas antigas visões políticas – visões das quais eles eram ardorosos porta-estandartes não muito tempo atrás. Este é o caso dos ex-intelectuais marxistas após o colapso de sua mística marxista. A maioria dessas pessoas agora mudou completamente para a ideologia do livre mercado capitalista.

O sono é uma ferramenta útil para o autoesquecimento e, acima de tudo, ajuda muito no combate às más lembranças. O sono sem sonhos é a melhor maneira de se livrar das lembranças ruins. Os protagonistas de Shakespeare costumam falar do sono como o melhor método de salvação, pelo qual uma boa noite de sono de um prisioneiro político traz mais felicidade do que dias memoráveis e sem dormir de um tirano. O cansado Hamlet, sempre traído e enganado por sua família real, fala consigo mesmo:

Dormir! Possibilidade de sonhar; sim, aí está o problema;

Pois nesse sono de morte que sonhos podem vir

Quando nós tivermos saído se arrastando desta sequência espiral mortal,

Deve nos dar uma pausa: há o respeito

Isso faz a calamidade de uma vida tão longa;

Para quem suportaria os chicotes e os escárnios do tempo[7]

O poderoso governante Rei Henrique IV em outro drama de Shakespeare elogia ainda mais a salvação de um sono tranquilo:

Quantos milhares de meus assuntos mais pobres

A esta hora estão dormindo! Ó sono, ó sono suave,

Ama doce da natureza, como eu te assustei,

Que tu não mais percas a força em minhas pálpebras

E mergulhes meus sentidos no esquecimento?[8]

Em adição ao sono, existem métodos mais vívidos para aproveitar o processo de esquecimento e livrar-se das lembranças ruins, ou pelo menos mantê-las temporariamente sob controle. O remédio antigo é o álcool, ou melhor ainda, a droga ópio, a qual retarda o fluxo do tempo e mantém as memórias embaraçosas em xeque. Uma vez novamente, devemos nos referir a Ernst Jünger, que não foi apenas o melhor observador do nosso fim dos tempos, mas também o melhor conhecedor alemão de numerosos narcóticos.

Jünger foi um cavalheiro refinado que lidou muito com a ingestão de “ácido” – LSD – a fim de circunavegar melhor as paredes do tempo liberal-comunista ácidas. Em adição, Jünger era amigo do descobridor do LSD, Dr. Albert Hoffmann. Ambos viveram por mais de cem anos. “O ácido é ótimo!” – diriam seus discípulos viciados em seu nome.

Sob a influência de narcóticos, o tempo fica mais lento. O rio flui com mais suavidade; os bancos recuam. O tempo se torna ilimitado; ele se transforma em um mar.[9]

            É preciso ter cuidado, porém, com viagens de drogas, pois sempre há o risco de esquecer o destino.[10] Odisseu de Homero enfrentou esse perigo com seus marinheiros no caminho de volta para casa. Depois de sua longa perambulação pelo mar, um dia todos eles acabaram na terra dos comedores de lótus – homens que se entregaram a comer a droga de lótus, adquirindo assim as habilidades para se livrar de suas memórias e todas as preocupações que os acompanham. Odisseu teve muitos problemas para fazer seus camaradas intoxicados e sem memória voltarem a bordo.[11] Na verdade, aqueles comedores de lótus míticos que Odisseu conheceu são uma imagem primitiva de cidadãos contemporâneos na Alemanha, na EU {União Européia} e nos EUA. Não há mais necessidade de o Sistema fabricar mártires, como era o caso sob o comunismo; o Sistema sabe como usar métodos muito mais elegantes para impor a vontade geral através do esquecimento em massa forçado. Na Geórgia, no Cáucaso, onde o tirano Stalin nasceu, há solo fértil bom para o cultivo de cannabis. Em vez dos gulags {campos de concentração soviéticos} na Sibéria, Stalin poderia ter tido mais sucesso na criação de campos de maconha na ex-União Soviética.

Mais tarde, Odisseu acaba nas instalações da deusa bruxa Circe – a deusa cujos poderes transformaram seus marinheiros perdidos em porcos. Essas novas criaturas suínas, embora dotadas de compreensão humana, não reclamam mais de sua nova vida. Pelo contrário. O processo de esquecimento pode ser bom.[12] Em um ambiente tão propenso ao esquecimento, as famosas palavras de Nietzsche parecem bastante desatualizadas: “Bem-aventurados os esquecidos; pois eles superam suas estupidezes também.” Lembrar de uma vida anterior na Terra pode ser um inferno para muitas pessoas. O Sistema, com seus contos que melhoram o mundo, agora usa métodos semelhantes de transformação de porcos homéricos de emburrecimento em massa, prometendo o nascimento de La La Land {expressão inglesa para uma existência fora da realidade}, mas adiando-o repetidas vezes até o futuro indefinido, quando todo o mal tiver sido eliminado. Além disso, o Sistema emprega técnicas refinadas para manter seus cidadãos sob controle, seja por meio do esquecimento forçado ou da memorização seletiva.

            E isso não é nada novo na história. Damnatio memoriae ou danação da memória era um processo comum na Roma antiga contra políticos desprezíveis, embora já falecidos. Poucos são os que têm coragem de atacar os tiranos vivos. O mesmo processo de amaldiçoar a memória dos hereges ou dissidentes modernos continua a atuar com raiva e com força total na Alemanha moderna, nos Estados Unidos e na EU {União Europeia}. O que é novo, entretanto, é o aumento da autocensura e do autopoliciamento da vasta maioria dos políticos, mas também da maioria dos acadêmicos estabelecidos convencionalmente. A censura sempre fez parte do esquecimento coletivo imposto pelo Estado, tendo estado ao redor desde tempos antigos. No Ocidente contemporâneo, contudo, autocensura significa abnegação, por meio da qual até mesmo pessoas inteligentes em algum momento de sua carreira decidem voluntariamente renunciar a si mesmas. O poeta e médico alemão Gottfried Benn, junto com muitos outros pensadores europeus que conseguiram sobreviver aos bombardeios terroristas e expurgos aliados durante e após a Segunda Guerra Mundial, escreveu em seu poema “The Lost Self” sobre o indivíduo perdido no tempo e no espaço, sem direção ou valores.

Perdido eu – destruído por estratosferas,

vítima de íon -: cordeiro de raios gama -

partícula e campo -: quimeras e infinito

em sua grande pedra de Notre-Dame.[13]

 

Autocensura e autonegação

É digno de lembrar o muito elogiado filólogo e acadêmico alemão, professor Harald Weinrich, que é frequentemente citado pela mídia amiga do Sistema e que escreveu um bom livro sobre a cultura do esquecimento e da memória na literatura europeia. Como acontece com incontáveis acadêmicos convencionalmente estabelecidos, no entanto, ele é mandatado para ocasionalmente realizar ritos de expiação. Isso chama a atenção no Capítulo IX de seu livro Lethe: The Art and Critique of Forgetting, onde ele insiste na perpétua lembrança de Auschwitz {cujas investigações críticas atuais desmentem a existência do alegado holocausto judaico.}[14] “Esquecer não é mais permitido aqui. Não pode haver uma arte de esquecer aqui também e não deveria haver nenhuma.”[15] Em seus comentários para a mídia, ele continua com suas declarações de sinalização de virtude: “Eu só posso, portanto, concordar de todo o coração que deveria haver uma proibição absoluta de esquecer o genocídio.”[16]

Essas confissões de culpa semelhantes às de Canossa[17] fazem hoje parte do folclore político da Alemanha. Nem uma palavra de Weinrich e outros companheiros de viagem antifa {anti-fascistas} sobre o esquecimento forçado imposto pelo Sistema em relação a milhões de alemães, croatas e outros europeus orientais perseguidos após a marcha vitoriosa dos Aliados em 1945. Weinrich e muitos de seus espíritos de mesmo parentesco, com sua religião da lembrança recém-adquirida, se encaixam no arquétipo hipermoralista de Nietzsche, “onde este homem de má consciência tem se apossado de pressupostos religiosos a fim de prover sua autotortura com suas mais horríveis aspereza e agudeza.”[18] Weinrich é somente um pequeno exemplo da maioria dos jovens acadêmicos da EU {União Europeia}, todos competindo por uma visibilidade brilhante na mídia acadêmica por meio de sua autoflagelação e abnegação. Há muito tempo, a alegoria dessa auto-emasculação espiritual alemã foi descrita pelo poeta e pintor alemão Wilhelm Busch em sua história sarcástica sobre Santo Antônio. O sempre arrependido Santo Antônio, o grande amante dos animais, decide ficar noivo de um porco, presumivelmente para melhor assegurar sua ascensão zoófila de transgênero ao céu por toda a eternidade:

Bem vinda! Entre em paz!

Nenhum amigo está divorciado do amigo aqui. Bastante

poucas ovelhas entram,

porque não um bom porco também!![19]

Vários autores escreveram criticamente sobre a consciência histórica distorcida e um processo seletivo de memória dos brancos. Parece que quanto mais se fala hoje sobre a necessidade de lembrar as vítimas do fascismo, mais essas memórias antifascistas regurgitadas se transformam em objetos de incredulidade e ridículo em massa. Enquanto isso, a memória de milhões de vítimas do comunismo está sendo relegada ao reino do esquecimento. Lembrar o destino de civis alemães expulsos e mortos após a Segunda Guerra Mundial está se tornando gradualmente de interesse apenas para arquivos de antiquários, e somente esporadicamente. A mídia alemã, norte-americana e da União Europeia, incluindo historiadores e políticos convencionalmente estabelecidos, se e quando narrarem os campos de extermínio comunistas, são extremamente cuidadosos para nunca ofuscar a memória da contagem de cadáveres do Holocausto {o qual as investigações críticas atuais desmentem a existência do alegado holocausto judaico.}[20] Por exemplo, a catástrofe croata pós-Segunda Guerra Mundial com suas centenas de milhares de mortos, conhecida entre os croatas de mentalidade nacionalista como a “tragédia de Bleiburg,”[21] dificilmente é alguma vez referida como parte da memória coletiva ocidental.[22] Por outro lado, a superlicitação nas memórias antifascista, judaica e anticolonial, onde o proverbial “mau alemão” sempre aparece no palco, desempenha um papel central no direito internacional. Memórias anticomunistas esporádicas que estão um tanto alinhadas com as festividades memoriais patrocinadas pelo Sistema estão sendo rebaixadas a eventos semimitológicos e folclóricos que podem ser observados de vez em quando na Europa Oriental de hoje.

Assim como há diferenças entre os vivos, deve haver diferenças entre os mortos. A questão que surge é se o Sistema e seus desdobramentos pós-comunistas e liberais na Alemanha, na UE {União Europeia} e nos Estados Unidos podem sobreviver sem chamar para resgatar as memórias das “bestas fascistas”? Sem invocar demônios domésticos como Ante Pavelic, Francisco Franco, Vidkun Quisling, etc.? E sem se lembrar constantemente de Adolf Hitler, o demônio cósmico atemporal? A cultura da lembrança do horário nobre de hoje, ou seja, o destino dos judeus na Segunda Guerra Mundial, há muito tempo se transformou no ato de um psicodrama religioso que vai muito além da lembrança histórica. Além disso, muitos povos não europeus também estão agora lutando apaixonadamente por seu próprio pedestal de vitimização, a fim de destacá-lo como o único digno de memória mundial. Aqui podemos nos referir à citação de A. de Benoist:

A ferramenta favorita do exagero da vitimização é o “dever de lembrar”. A memória está escrita contra um fundo de esquecimento, porque somente se pode lembrar selecionando o que não deve ser esquecido. (Essa tarefa não teria sentido se tivéssemos que nos lembrar de tudo). A memória é, portanto, altamente seletiva. ... Um dos destaques do “dever de lembrar” significa que não há estatuto de limitações para o “crime contra a humanidade” – uma noção a qual é igualmente desprovida de significado. Estritamente falando, apenas um extraterrestre poderia cometer um crime contra a humanidade (a propósito, os perpetradores de tais crimes são geralmente retratados no sentido metafórico como “extraterrestres.”) – e em total contradição com a tradição cultural europeia, que ao conceder anistia fornece a forma judicial do esquecimento.[23]

É preciso lembrar as palavras críticas de Nietzsche aqui, quando ele escreve sobre o exagero de nossas memórias “monumentais” e “antiquárias”: “O enfartamento de história de uma época me parece hostil e perigoso para a vida ...”[24] Aviso de Nietzsche, no entanto, aplica-se hoje a todos os povos europeus e suas respectivas vitimologias, sejam elas de natureza antiquária ou monumental. Até que ponto os europeus, e especialmente o povo alemão, devem expandir suas memórias históricas? Até o massacre dos saxões em Verden em 782 d.C., ou até os milhões de mortos na Guerra dos Trinta Anos, ou até os milhões de alemães étnicos e europeus orientais mortos no rescaldo da Segunda Guerra Mundial? Pensar profunda e extensamente sobre as memórias opostas está se tornando inútil hoje. Com ou sem seus mortos esquecidos e ressuscitados, todo o Sistema Alemanha-União Europeia-Estados Unidos se assemelha a uma grande livraria de antiquários multicultural, desatualizada, onde falsos aprendizes de feiticeiro continuam dando palestras sobre memórias seletivas e não genuínas.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas

[1] Nota de Tomislav Sunić: T. Sunic, Titans are in Town (A Novella and Accompanying Essays), prefácio de Kevin MacDonald (Londres, Budapeste: Arktos, 2017). 

[2]  Nota de Mykel Alexander: Ver especialmente Germar Rudolf (Ed.), Dissecting the Holocaust - The Growing Critique of ‘Truth’ and ‘Memory’, Castle Hill Publishers, P.O. Box 243, Uckfield, N22 9AW, UK, novembro de 2019 (3ª edição revisada).

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1&page_id=1

Também ver de modo mais abrangente toda a série Holocaust Handbooks:

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1  

[3] Nota de Tomislav Sunić: Poems of Friedrich Hölderlin, selecionados e traduzidos por James Mitchell; bilíngue, em alemão e inglês (San Francisco: Ithuriel’s Spear, 2007), página 95. 

[4] Nota de Tomislav Sunić: Ambrose Bierce, An Occurrence at Owl Creek Bridge and other stories –Ein Vorfall an der Eulenfluß-Brücke und andere Erzählungen) (editado por Angela Uthe-Spencker), (München: Deutscher Taschenbuch-Verlag,bilingual 1980). 

[5] Fonte utilizada por Tomislav Sunić: The Paranoid German Mind: Counting Down to the Next War, por Tomislav Sunić, 28 de setembro de 2015, The Occidental Observer.

https://www.theoccidentalobserver.net/2015/09/28/the-paranoid-german-mind-counting-down-to-the-next-war/  

[6] Nota de Tomislav Sunić: Erwin Stransky, Der Deutschenhass (Wien und Leipzig: F. Deuticke Verlag, 1919), página 71. 

[7] Nota de Tomislav Sunić: William Shakespeare, Hamlet (Act III, Sc 1) (Philadelphia: J.B. Lippincott & Co., 1877) páginas 210-211. 

[8] Nota de Tomislav Sunić: Dramatic Writings of Shakespeare, Henry IV, Part 2, Act III, Sc. I, London: ed. John BellBritish Library, 1788), página 60. 

[9] Nota de Tomislav Sunić: Ernst Jünger, Annäherungen: Drogen und Rausch (München: DTV Klett-Cotta, 1990), página 37. 

[10] Nota de Tomislav Sunić: Conferir Tomislav Sunic, “Rechter Rausch; Drogen und Demokratie”, Neue Ordnung (Graz, IV/2003). 

[11] Nota de Tomislav Sunić: The Oddyssey of Home, Book IX, with explanatory notes por T.A. Buckley, (London: George Bell and Sons, 1891). página 118. 

[12] Nota de Tomislav Sunić: The Oddyssey of Home, Book X, páginas 137-146. Harald Weinrich, Lethe-Kunst und Kritik des Vergessens, (München: Verlag C.H Beck, 1997), página 230. 

[13] Nota de Tomislav Sunić: Gottfried Benn, “Das verlorene Ich”, Statische Gedichte (Hamburg: Luchterhand Ver., 1991), página 48. Também traduzido em inglês por Mark W. Roche: https://mroche.nd.edu/assets/286548/roche_benn_verlorenes_ich_english.pdf  

[14]  Nota de Mykel Alexander: Ver especialmente Germar Rudolf (Ed.), Dissecting the Holocaust - The Growing Critique of ‘Truth’ and ‘Memory’, Castle Hill Publishers, P.O. Box 243, Uckfield, N22 9AW, UK, novembro de 2019 (3ª edição revisada).

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1&page_id=1

Também ver de modo mais abrangente toda a série Holocaust Handbooks:

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1  

[15] Nota de Tomislav Sunić: Harald Weinrich, Lethe-Kunst und Kritik des Vergessens (München: Verlag C.H Beck, 1997), página 230.

Conferir Lethe, The Art and Critique of Forgetting (Cornell University Press, 2004). 

[16] Nota de Tomislav Sunić: H. Weinrich, “Bayerischer Rundfunk” progam 4 de abril de 1999.

https://www.br.de/fernsehen/ard-alpha/sendungen/alpha-forum/harald-weinrich-gespraech100~attachment.pdf 

[17] Fonte utilizada por Tomislav Sunić: Definição de Canossa: um lugar ou ocasião de submissão, humilhação ou penitência {referente a uma disputa entre autoridades políticas e religiosas na Europa durante o século XI d.C.}. Dicionário Merriam Webster.

https://www.merriam-webster.com/dictionary/Canossa  

[18] Nota de Tomislav Sunić: Friedrich Nietzsche, On the Genealogy of Morality, Second Essay, Section 22. Traduzido por Carol Diethe (Cambridge University Press, 2007), página 63. 

[19] Nota de Tomislav Sunić: See the whole German text, Wilhelm Busch, Der Heilige Antonius von Padua, (Straßburg; Verlag von Moritz Schauenburg, sem data), página 72. Também partes em inglês:

https://second.wiki/wiki/der_heilige_antonius_von_padua#:~:text=Saint%20Anthony%20of%20Padua%20is,anti%2Dclerical%20attitude%20Wilhelm%20Buschs  

[20]  Nota de Mykel Alexander: Ver especialmente Germar Rudolf (Ed.), Dissecting the Holocaust - The Growing Critique of ‘Truth’ and ‘Memory’, Castle Hill Publishers, P.O. Box 243, Uckfield, N22 9AW, UK, novembro de 2019 (3ª edição revisada).

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1&page_id=1

Também ver de modo mais abrangente toda a série Holocaust Handbooks:

https://holocausthandbooks.com/index.php?main_page=1  

[21] Fonte utilizada por Tomislav Sunić: Tomislav Sunić, Dysgenics of a Communist Killing Field: The Croatian Bleiburg, 15 de março de 2009, The Occidental Observer.

https://www.theoccidentalobserver.net/2009/03/15/sunic-bleiburg/   

[22] Nota de Tomislav Sunić: Conferir Tomislav Sunić, “Es leben meine Toten! – Die Antifa-Dämonologie und die kroatische Opferlehre”. Neue Ordnung (Graz, I/2015). 

[23] Nota de Tomislav Sunić: Alain de Benoist, Les Démons du Bien (Paris: éd. P. Guillaume de Roux, 2013), páginas 34-35. 

[24] Nota de Tomislav Sunić: F. Nietzsche, On the Advantage and Disadvantage of History for Life, Section 5, traduzido por Preuss (Indianapolis: Hackett Publishing Co., 1980), página 28. 


Fonte: Mnemosyne and Lethe; The Culture of Remembrance and Oblivion in the Western System, por Tomislav Sunić, 25 de novembro de 2021, The Occidental Observer.

https://www.theoccidentalobserver.net/2021/11/25/mnemosyne-and-lethe-the-culture-of-remembrance-and-oblivion-in-the-western-system/#_edn17

Sobre o autor: Tomislav Sunić (1953 – ), nascido na Croácia, é um autor, diplomata, tradutor, professor de Ciência Política, historiador. Estudou francês, inglês e literatura na Universidade de Zagreb. Tem mestrado na Califórnia State University e recebeu seu doutorado em Ciência Política na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara. De 1993 até 2001 ele trabalhou como funcionário do governo croata em diversas posições diplomáticas em Zagreb, Londres, Compenhagen e Bruxelas. Entre seus livros estão:

 Against Democracy and Equality: The European New Right – 1ª edição (New York: P. Lang, 1990), 2ª edição (Newport Beach, CA: Noontide Press, 2004), e 3ª edição (London: Arktos Media, 2011). Em espanhol foi publicado como Contra la Democracia y la Igualdad: La Nueva Derecha Europea (Tarragona: Ediciones Fides, 2014).

Homo americanus: Child of the Postmodern Age (USA: Book Surge Publishing, 2007).Tradução espanhola: Homo Americanus: Hijo de la Era Postmoderna (Barcelona: Ediciones Nueva República, 2008).Tradução francesa: Homo Americanus: Rejeton de l’ère postmoderne (Saint-Genis-Laval: Akribeia, 2010).

Postmortem Report: Cultural Examinations from Postmodernity (Shamley Green, UK: The Paligenesis Project, 2010).

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domingo, 28 de julho de 2019

O que é realmente “cultura”? - parte 2 - Por Mykel Alexander


Mykel Alexander
Disputas para definir o que é cultura

Quando se estuda o significado de uma palavra, adentra-se no ramo dos estudos linguísticos denominado de semântica, o qual se ocupa dos processos que concorreram para gerar o significado de uma palavra, e para isso a semântica se vale de várias áreas do saber, obviamente das regras linguísticas, bem como da História, Filosofia, Filologia, Arqueologia, entre outras.

Se por um lado, há o uso múltiplo da palavra cultura, por outro lado, há uma profundidade e complexidade implícita em algumas das definições acima elencadas, e parte desta complexidade é que nas definições em questão se recorre a vocábulos que em si são de longínqua origem e também, como a palavra cultura, adquiririam vários significados, isto é, são as denominadas palavras polissêmicas, como é o caso da palavra arte, no item ‘f’, ou da palavra tradição, no item ‘e’, as quais foram, como não é raro, perdendo através do tempo seu significado original e adquirindo outros significados. É digno de observação que especialmente a palavra arte, caso fosse aqui examinada, também traria amplos significados, semelhante ao que ocorre com a palavra cultura.

Tanto por aprofundamento como por diversificação a palavra cultura tem adquirido uma variedade espantosa de significados. Josep Picó, catedrático de Sociologia na Universidade de Valencia, observa:
“[...] recentemente o termo cultura tem se convertido na pátria comum de toda classe de discursos públicos e tem saltado do campo acadêmico a terrenos até agora desconhecidos como a política, a economia, a saúde, ou inclusive hostis a sua própria definição como a delinquência. Não parece que haja um limite em sua aplicação a quase todos os contextos sociais [...] tudo o qual tem contribuído para esvaziar seu conteúdo tradicional mais específico. A medida que se usa com mais frequência, mais necessita de um qualificativo para definir seu campo de aplicação. [5]
            Picó se pergunta se existe algum fio condutor pelo qual a palavra cultura atravessou a história, seja conservando seu fundamento original ou ao menos numa continuidade de suas diversas transformações[6]. Na apuração a tal indagação encontramos as transformações de significados que a palavra cultura experimentou.

De modo geral os estudos sobre o significado de cultura evidenciam que há apenas pouco mais de 100 anos, durante o século XIX, as concepções do que significava cultura eram bem menos numerosas do que são na atualidade. A definição ‘c’ para a palavra cultura extraída do dicionário Houaiss, “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.”, possivelmente foi a que prevaleceu no Ocidente durante o século XX, e frequentemente é a definição que a maioria das pessoas nascidas no século XX associam à palavra cultura. Esta definição ‘c’ para a palavra cultura seria o ponto de partida na atualidade para uma pessoa mediana e com instrução escolar não deficiente, e com o mínimo hábito de leitura no decorrer da vida.

Contudo a definição ‘c’ por mais que tenha se consolidado entre as massas, passou ser desafiada gradualmente durante o século XX, e lentamente perdendo-se na multidão de definições propostas para a palavra cultura, dando a impressão de que se trata de um processo que não para de crescer conforme avançamos através século XXI. É muito instrutiva a explicação de Picó sobre a dinâmica que subjaz tal diversidade de propostas pretendendo afirmar o que seria ou o que não seria cultura:
“As mudanças semânticas, em aparência de natureza puramente simbólica, correspondem, em realidade, a mudanças de outra ordem, a mudanças na estrutura das relações de força entre os grupos sociais que protagonizam o governo da sociedade, por uma parte, e entre as sociedades e seu posicionamento internacional, por outra. Nesse sentido a cultura, sua gênese, mudança e evolução têm tido diversas acepções e significados ao longo da época histórica que temos denominado modernidade, e em seu seio tem sido porta-voz e bandeira de luta que percorrem nossa história mais recente e desvelam seus anseios e contradições.[7]
Na colocação acima pode-se extrair inferências imediatas bem como algumas considerações implícitas que exigem um aprofundamento.

Como inferências imediatas Picó alude:

a) Às mudanças no significado, isto é, na semântica, da palavra cultura não apenas por simples substituição decorrentes dos efeitos do tempo na memória das pessoas, mas devido a existência de uma luta, uma disputa para definir e fixar o que significa a palavra cultura.

b) Estas disputas, em primeiro lugar, ocorriam dentro de cada Estado, e em segundo lugar entre os Estados. Sendo mais preciso, estas disputas desvelam que eram motivadas por “anseios” e por “contradições” provenientes dos grupos que lideram a sociedade dentro de cada Estado, resultando que cada Estado terá uma concepção do que é cultura conforme esta seja definida tanto pelas lideranças governamentais como não-governamentais do Estado. Os Estados, no decorrer da Idade Moderna e da Idade Contemporânea, então disputam entre si para impor sobre os outros sua própria definição de cultura.

Como considerações implícitas temos duas maneires de nos posicionar.

a) A de compreender um determinado conceito ou palavra priorizando apenas o critério de busca pela verdade, o que implica em se posicionar diante de uma dada questão, indiferente ao como essa nos agrade ou desagrade, com o máximo de imparcialidade possível.

b)  O de não estarmos necessariamente priorizando definir um conceito ou palavra nos baseando na busca pela verdade do modo mais imparcial possível, mas sim impulsionados por outros anseios.

 Reunindo tanto as inferências imediatas a) e b) bem como as considerações implícitas a) e b) pode-se admitir que no empreendimento de definir um determinado conceito ou palavra, a humanidade apresentou basicamente duas linhas através da história: a que se baseia na medida do possível na imparcialidade em busca pela verdade, e a que que prioriza mais anseios particulares do que a busca pela verdade.

No desenvolver desta exposição sobre o que é realmente cultura, até aqui, nos deparamos com a importância da definição no processo de compreensão de um conceito ou palavra, e recorri à tradição grega antiga ao atentar que a definição de um conceito ou palavra era uma questão que os gregos deram máxima importância. Depois nos deparamos na importância da mente, especificamente no que denominei de anatomia da mente, recorrendo novamente aos antigos gregos, pois estes também deram a máxima importância e que é a origem arcaica da psicologia ocidental. E agora ao nos depararmos com a terceira questão, a da imparcialidade, após a constatação de que o tipo de perfil psicológico de um indivíduo pode ser o de imparcialidade e busca pela verdade ou o de seguir anseios particulares sem rigoroso compromisso em buscar a verdade, recorro uma vez mais aos gregos antigos, e como observou o grande historiador da Filosofia do século XIX, o alemão Eduard Zeller (1814-1908), em seu manual de História da Filosofia, Grundriss der Geschichte der Griechischen Philosophie (1ª edição 1883 e 5ª edição 1898):
“Nunca um povo julgou sua própria natureza e instituições, moral e costumes, os quais ele produziu, com maior imparcialidade que os gregos.[8]
Alguém poderia agora afirmar que estou me inclinando a não ser imparcial ao recorrer aos gregos para me basear em três questões que nos deparamos, a da definição, a da psicologia e a da imparcialidade, mas ao menos no Ocidente em seus tempos históricos foram os gregos os precursores em se deterem e desenvolverem com excelência estas três questões. E se temos por objetivo descobrir o conceito real de cultura devemos necessariamente compreender o conceito em questão e todo o contexto em que tal conceito pertence.




Notas


[5] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, páginas 10-11.

[6] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, páginas 12-13.

[7] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, página 14.

[8] Nota do autor: Eduard Zeller ,Outlines of the History of Greek Philosophy, The World Publishing Company, 13ª edição, 15ª impressão, Nova Iorque, 1971. Originalmente escrito em 1883, e traduzido da 13ª edição alemã, aos cuidados de Wilhelm Nestle, por L. R. Palmer. Página 19).
                Em rigor tal visão se aplica mais ao Ocidente, devido às grandes disputas ideológicas que surgiram após o fim da Antiguidade ocidental, uma vez que nas tradições hindus e extremo orientais a imparcialidade também era muito prezada, e continua em certa medida assim.



Sobre o autor: Mykel Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000).


O que é realmente “cultura”? - parte 1 - Por Mykel Alexander



domingo, 21 de julho de 2019

O que é realmente “cultura”? - parte 1 - Por Mykel Alexander


Mykel Alexander
                               O que é cultura?

            Parece uma pergunta fácil de responder, já que a palavra cultura faz parte do vocabulário geral de praticamente qualquer povo do mundo ocidental. Mas quando um indivíduo se depara com tal pergunta, possivelmente ele subitamente perceba que se trata de uma palavra tão usada que ele tenha mais dificuldade em responder a indagação do que poderia supor, talvez porque mais de um significado atribuído a palavra cultura possa lhe vir na mente.

            Dentre tantos conflitos nas últimas décadas, certamente podemos afirmar que o conflito cultural ou o conflito de culturas ocupa uma posição das mais destacadas. Abundaram notícias nos meios de comunicação que afirmaram ser devido às diferenças culturais as irrupções de violência que ocorrem em vários locais do mundo, no Ocidente e no Oriente, no hemisfério norte e no sul. Seria a cultura então um problema? Mas então o que é cultura afinal?

            Atualmente se fizermos essa pergunta para várias pessoas, iremos inevitavelmente ter respostas contraditórias por parte dos que irão emitir algum parecer, mas talvez alguns nem tentem alguma explicação e irão até admitir que não sabem o que é a cultura. De modo generalizado essa conclusão também foi a de André Malraux (1901-1976) que chegou a admitir a ignorância das pessoas sobre o que era cultura:
“Il faut bien comprendre qu'un fait extrêmement mystérieux se produit aujourd'hui dans le monde entier: les peuples sont en train de demander la culture, alors qu'ils ne savent pas ce que c'est.[1]” (Deve ser compreendido que um fato extremamente misterioso está se produzindo em todo o mundo hoje: as pessoas estão demandando cultura, enquanto elas não sabem o que é isso.)
Ao menos um indivíduo que se sinta perdido em responder tal indagação terá algum respaldo para sua hesitação, já que houve até um episódio com o próprio André Malraux, então o mui celebrado ministro da Cultura francês, que anteriormente admitiu ele mesmo não saber responder o que era cultura:
“Vous savez que j'ai obtenu quelque succès au conseil des ministres lorsque j'ai dit que j'étais le seul à ne pas savoir ce qu'était la culture. En définitive, c'est vrai. ( Sourires .)[2]” (Você sabe que obtive algum sucesso no gabinete quando disse que era o único que não sabia o que era cultura. Em definitivo, é verdade. (Sorrisos)).
André Malraux (1901-1976), o célebre ministro de Cultura francês. O insólito caso
em que o mais famoso ministro da cultura do mundo não sabia o que era cultura.
Foto domínio público - Wikipédia   Bibliothèque nationale de France

A dificuldade de definir o significado das palavras

            A verdade é que definir o que é algo não é tão simples como possa sugerir em nossa mente a voz da impulsividade. A razão para isto é que a precisão de conceitos e seus respectivos conteúdos operam na mente numa quantidade e velocidade as quais necessitam, para serem expressadas verbalmente de modo satisfatoriamente compreensível a outra pessoa, de um vocabulário amplo e de um domínio na formulação de sentenças que relaciona conceitos e palavras. Relacionar conceitos e palavras foi algo que os antigos gregos desenvolveram com excelência, e tendo em plena consideração as dificuldades acima mencionadas. O ponto mais fundamental dos gregos nessa questão residia na psicologia deles onde a razão era resultado de uma equação psicológica, a qual explicava como se relacionava no homem seus sentimentos e racionalidade, sendo que estes dois na concepção grega compunham a alma do homem, isto é, a alma era vista como uma reunião de sentimento e razão, mas para fins explicativos irei usar não a palavra alma, pois esta adquiriu amplo significado o qual se fosse abordado agora complicaria mais que ajudaria o tema aqui tratado, e por isso a palavra mente será usada em lugar da palavra alma justamente pela fácil constatação que as pessoas na atualidade automaticamente incluem razão e emoção como componentes da mente

            Essa equação psicológica baseava na compreensão profunda que os gregos tinham de como opera a mente humana. Pode-se dizer que eles conceberam um tipo de anatomia da mente humana, a qual de modo simplificado continha uma parte capaz de compreender instantaneamente os conceitos e era denominada de nous (νοῠς, comumente traduzida por intelecto ou mente ou inteligência ou pensamento) e situada na ‘parte’ superior da mente, uma outra parte que é vigorosa e ao mesmo tempo amorosa e obediente à verdade e honra, denominada de thymos (τιμῇς, pode-se entender como força e coragem) e sendo o centro de coragem, estando situada na ‘parte’ intermediária da mente, e uma parte que residia os desejos, apetites e impulsos a qual era denominada de epithūmíā (ἐπιθυμία, pode-se entender como desejo), situando-se na ‘parte’ inferior da mente. Conforme a mentalidade da época equaciona estas três ‘partes’ da mente, resulta em diferentes maneiras de se pensar, usando mais razão, mais coragem ou mais desejo[3]

A definição de conceitos e palavras foi e é motivo de investigações e de disputas.  Cada época apresenta suas temáticas mais marcantes ou um modo de pensar característico, e se na antiguidade a mente humana, com a profundidade filosófica grega ainda viva, priorizava a precisão, isto é, a definição, dos conceitos baseando-se na abstração mais impessoal e racional, de modo que as palavras utilizadas fossem o menos vagas e mais precisas possíveis, por outro lado na atualidade a mentalidade ocidental faz o uso das palavras, baseando-se não tanto na racionalidade e na precisão, mas sim num critério do que é agradável ou desagradável de conhecer mais profundamente.

Assim colocado, pode-se dizer que na Antiguidade a livre reflexão sobre um conceito precedia a fixação da palavra na mente no processo educativo, de modo que a força e coragem (thymos) serviam mais à razão (nous) que ao desejo (epithūmíā), importando mais a conclusão da reflexão em si mesma do que as inclinações motivadas por desejo e os impulsos que motivam este, fossem medo, carências ou apetites. O resultado é que na Antiguidade o conceito primeiro era examinado pelo indivíduo através da pura reflexão e somente depois fixado numa palavraO processo mental opera aqui da ‘parte’ superior da mente para a ‘parte’ inferior, surgindo a partir da razão (nous).

 Por outro lado, na atualidade pode-se constatar que a atual mentalidade é a de tender a assimilar uma palavra automaticamente sem priorizar a reflexão prévia do conceito, aceitando quase passivamente a carga de emoções e afetos que as palavras acumularam conforme os significados foram nelas adicionados, subtraídos ou alterados no decorrer dos períodos posteriores à Antiguidade, e deixando tal processo de assimilação mental sujeito ao gosto das preferências pessoais, em nosso exemplo correspondendo ao desejo (epithūmíā), o que neste caso ocorre sem a intervenção necessária da força e da coragem (thymos) que impediria de se associar passiva e automaticamente uma palavra a um conceito, mas obrigaria, com força e coragem que tal associação ocorresse somente com aprovação da razão (nous), com o mínimo de interferências possíveis sobre a pura reflexão. O resultado é que na atualidade a palavra é aceita quase sempre passivamente em seu significado final conforme chegou até a atualidade sem a devida reflexão dos conceitos que anterior e originalmente possuía, sem que se saiba minimamente discernir se as alterações, adições e subtrações de significado se justificam. O processo mental opera aqui da ‘parte’ inferior da mente para a ‘parte’ superior, surgindo a parir do desejo (epithūmíā). 
 
Levantado o questionamento sobre o que é realmente cultura, e tendo em consideração que a mente das pessoas, conforme acima exposto, não possui a mesma dinâmica, talvez a sensação que hoje prevaleça seja mesmo a de que cultura é algo disputável, onde cada boca arrisca um significado do que é cultura, mas, não obstante, se ao tentarem investigar tal questão, e após ouvirem opiniões de todos os tipos, pode ser bem provável que muitos desistam no meio do processo ao pressentirem que de fato não se sabe exatamente o que é cultura. Então, por onde começar a buscar com alguma segurança o verdadeiro significado da palavra cultura? A resposta para isso é a mais simples de todas: um dicionário.

            É inevitável, logo se descobre, após consultar um bom dicionário que a palavra cultura terá vários significados por ela ter vários usos, mas as palavras, conforme o estudo da filologia evidencia, costumam ter menos ambiguidade de significados em seus estágios iniciais, quando são restritas ao ambiente original, do que quando se difundem e alcançam ambientes e países diferentes através dos tempos, podendo não raramente perderem o significado original que possuíam originalmente, e justamente esta última situação parece ser a de que padece atualmente a palavra cultura.

            O primeiro passo para saber o que é cultura é o mais simples possível, a saber, consultar um bom dicionário. No dicionário Houaiss dentre alguns dos principais usos da palavra cultura temos[4]:
a) “Ação, processo ou efeito de cultivar a terra; lavra, cultivo” do solo. Trata-se de uso agronômico.
b) “Criação de alguns animais” como peixes. 
c) “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.” 
d) “Conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social.” 
e) “Forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais”, tal como cultura clássica ou cultura muçulmana. 
f) “Complexo de atividades, instituições, padrões sociais ligados à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins.” 
g) “Aprimoramento regular do organismo mediante a prática do esporte, da ginástica.” 
h) Produções cinematográficas, musicais, teatrais etc. sendo eruditas e restritas a pequenos redutos ou amplamente difundidas em meios de comunicação de massas. 
i) “Conjunto de atitudes, linguagens, conhecimentos, costumes etc. explicita ou implicitamente difundidos e estimulados pelos meios de comunicação mantidos ou utilizados pelo Estado e suas autoridades constituídas.” 
j) A etimologia da palavra cultura é originária do latim, cultūra, ‘ação de cuidar, tratar, venerar (no sentido físico e moral)’.
            Todas as linhas de usos acima são sem muito esforço bem compreensíveis e relacionáveis com nosso cotidiano, e recorrerei constantemente a elas através deste artigo para exemplificar determinadas situações históricas que serão mencionadas, uma vez que procedem de um dicionário de excelência no idioma português destinado à consulta geral de qualquer indivíduo instruído basicamente. Recorrerei sistematicamente a cada uma das definições acima elencadas pelas letras, a, b, c, etc, mesmo sob risco de recair em monotonia, conquanto que facilite a compreensão dos exemplos utilizados através desta exposição.

Continua em O que é realmente “cultura”? - parte 2 - Por Mykel Alexander


Notas


[1] Nota do autor: André Malraux: Apresentação do orçamento da cultura na Assembleia Nacional, 27 de outubro de 1966:

[2] Nota do autor: André Malraux: Apresentação do orçamento de assuntos culturais, 9 de novembro de 1963:

[3] Nota do autor: Sobre os componentes da alma/mente abordados, ver:
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 38, nº 2 (abril, 1943), pp. 79-93. ΝΟΟΣ and Noein in Homeric Poems.
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 40, nº 4 (outubro, 1945), pp. 223-242. ΝΟΟΣ, Noein and Their  Derivatives in Pre-Socratic Philosophy (Excluding Anaxagoras): Part I. From the Beginnings to Parmenides.
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 40, nº 4 (janeiro, 1946), pp. 12-34. ΝΟΟΣ, Noein and Their Derivatives in Pre-Socratic Philosophy (Excluding Anaxagoras): Part II. The Post-Parmenidean Period.
- Jean Chateau, As grandes psicologias na antiguidade, Publicações Europa-América, Lisboa, 1978. Originalmente escrito em francês 1978, tradução de Antônio Gonçalves.
- Jean Bremmer, The Early Greek Concept of the Soul, Princeton University Press, Princeton (USA), 1983.
- Giovanni Reale, História da Filosofia Grega e Romana – Vol. IX – Léxico da Filosofia Grega e Romana, Edições Loyola, edição corrigida, São Paulo, 2014. Originalmente escrito em italiano em 1975-1980, 10ª edição de 1992, traduzida ao português por Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine.
  
[4] Nota do autor: As definições foram elencadas valendo-me de letras, a, b, c etc., sem incluir todas definições contidas no dicionário Houaiss (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição), pois selecionei as que estimei ser mais difundidas nos usos e costumes na atualidade ocidental e suficientes para a proposta deste artigo.
   
          
     
Sobre o autor: Mykel Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000).