| Povl H. Riis-Knudsen |
É
desanimador ver a reação da chamada direita à guerra de agressão não provocada de Israel (e seus vassalos
americanos) contra o Irã. Pode-se duvidar seriamente que ainda exista
inteligência suficiente na ala nacionalista. Há muitos aspectos nessa questão –
eu não posso prometer que conseguiremos abordá-los todos aqui, mas vamos ao
menos tentar tocar os mais importantes.
1: Muitos poucos
ocidentais têm qualquer noção sobre o
Irã e os assuntos iranianos – e certamente não sobre a história do Irã. Contudo,
esse conhecimento é um pré-requisito para se ter qualquer opinião sobre esse
ataque criminoso. Se você não sabe nada sobre o Irã, é melhor se manter longe
de seu teclado.[1]
2: Os iranianos que,
infelizmente, se encontram neste país vieram principalmente porque estavam
fugindo do serviço militar durante a guerra dos Estados Unidos (ou seja, de
Israel) contra o Irã na década de 1980 — porque era isso que a guerra
representava. O Iraque era apenas um instrumento dos Estados Unidos — e a
gratidão que Saddam Hussein recebeu por seus esforços demonstra claramente que
ser amigo dos EUA é literalmente mortal — Saddam Hussein simplesmente sabia
demais. Desde o início, esses iranianos pertenciam ao segmento da população que
apoiava a ditadura sangrenta do Xá contra a maioria do povo iraniano. A opinião
deles sobre o assunto é irrelevante. Eles foram traidores de seu povo desde o
primeiro dia. Eles não representam o povo iraniano, mas somente uma pequena
minoria.
3: O Irã não é um país
árabe, mas sim um país indo-europeu. Sua cultura remonta a milhares de anos e
se estende muito além da conquista muçulmana. O idioma iraniano é uma língua
indo-europeia, assim como o dinamarquês e o inglês. Os iranianos são nossos irmãos
— ou pelo menos nossos primos. No entanto, a história fez com que existam
muitas minorias dentro das fronteiras do Irã, como azeris, curdos, árabes e
muitas outras. Esta é uma fragilidade à qual nós retornaremos.
4: O Irã é um país
muçulmano. Há duas vertentes muito diferentes do Islã: sunita e xiita. O Irã é
um país muçulmano xiita. Há muçulmanos xiitas na maioria dos países do Oriente
Médio, mas nos países árabes a liderança é predominantemente sunita.
Compreender o Irã exige um conhecimento básico do Islã xiita. Contudo, existe
ampla liberdade religiosa no Irã. Há diversas denominações cristãs, o Islã
sunita e o zoroastrismo (adoradores do fogo, uma antiga religião persa). O
trabalho missionário de religiões que não o Islã é proibido, assim como em
outros países muçulmanos.
5: A força, o tamanho e
a população do Irã (93 milhões) o tornaram o principal inimigo de Israel, já
que o Irã também apoia a luta palestina pela liberdade. É o último país na
lista de Israel para os EUA de países do Oriente Médio que devem ser
destruídos. Todos os outros já foram destruídos: Síria, Líbano, Iraque, Líbia,
Sudão. Os demais países árabes são meros estados vassalos de Israel. Em todos
os casos, o vilão são os EUA – o inimigo número 2 da humanidade. O número 1 é
Israel. Se o mundo quiser ter paz, esses dois estados devem desaparecer do mapa
em sua forma atual.
6: O Irã é um país
imensamente rico. Uma parte significativa de sua riqueza vem do petróleo. Isso
também se provou uma das maldições do Irã, pois sempre tem atraído interesses
estrangeiros.
7: O Irã de fato havia
estabelecido um governo democrático até que a Inglaterra e os EUA derrubaram
conjuntamente o governo democrático de Mohammad Mosaddegh em 1953, porque
Mosaddegh havia cometido o pecado mortal de nacionalizar a indústria
petrolífera do país. Quando os EUA falam em querer “democratizar” o Irã,
portanto, soa mais do que vazio. Em vez de Mosaddegh, Mohammad Reza Pahlavi foi
instalado como governador, pois era isso que ele era, embora mais tarde tenha
assumido o título de xá. Pahlavi não representava o povo iraniano, mas os EUA,
e iniciou uma ocidentalização dura e forçada do país. Isso significa que, na
Europa e nos EUA, há uma tendência a ver a ditadura Pahlavi como uma era de
ouro e o Xá como um homem do progresso – porque, da nossa perspectiva, somos
naturalmente muito mais desenvolvidos e civilizados do que todos os outros. O
Xá fez o possível para que o país se assemelhasse aos Estados Unidos, mas esses
esforços inevitavelmente mobilizaram a população contra ele, pois a população
era e é muçulmana e desejava viver como muçulmana, mesmo naquela época. O
movimento de resistência muçulmana foi combatido com medidas brutais. Prisões,
uso generalizado de tortura, execuções arbitrárias, etc., eram parte da
desordem diária. O líder muçulmano Ruhollah Khomeini foi forçado ao exílio em
Paris, de onde liderou o movimento de resistência. Apesar do apoio maciço dos
Estados Unidos à ditadura, o regime de Pahlavi entrou em colapso, e Khomeini
pôde retornar e foi recebido como um herói pelo povo iraniano — ainda há alguns
de nós que se lembram das imagens da televisão daquela época. O regime atual é precisamente o resultado de
uma subelevação popular. A embaixada americana foi invadida e exposta pelo
que realmente era: um centro de espionagem — e a sede do verdadeiro governo
secreto do Irã.
A
maioria do povo iraniano odeia os Estados Unidos pelo que o país fez ao Irã
(principalmente durante a guerra por procuração de oito anos com o Iraque).
8: O Irã TEM um governo
muçulmano com o Conselho dos Guardiães e o Líder Supremo como garantidores de
que o governo do país não adote políticas que se desviem do Islã. Mas há
eleições que determinam quem será o presidente e quem ocupará as cadeiras no
parlamento. Os candidatos precisam ser aprovados – o que não é uma má ideia.
Isso protege contra a eleição de completos idiotas, como sabemos pelo exemplo
do parlamento e do governo ocidentais. No Irã, as qualificações da
primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, seriam suficientes apenas
para limpar um banheiro público. Como
ocidentais, NÓS podemos gostar ou não desse sistema. Não é da nossa conta. É um
assunto interno iraniano e nenhum estrangeiro tem o direito de interferir. Nós
podemos provavelmente concordar que não queremos esse sistema aqui, mas, então
novamente, nós não o temos, e o Irã não representa qualquer ameaça aos EUA ou à
Europa.
9: Donald Trump também
não conhece nada sobre o Irã, como ele demonstrou claramente. No geral, Donald
Trump tem sido uma grande decepção. Ele tem feito consistentemente o oposto do
que prometeu durante a campanha eleitoral: manter os EUA fora de guerras
insensatas. No entanto, ele não fez nada além de envolver os EUA em guerras e
conflitos – e a guerra contra o Irã pode muito bem ser sua ruína. É ilegal –
tanto sob o direito internacional quanto sob a Constituição dos EUA – mas Trump
declarou abertamente que não reconhece nenhuma lei – apenas sua própria
consciência. Contudo, é duvidoso que ele tenha uma. Esta não é a guerra de
Trump, porém; é a guerra de Netanyahu. Mas por que Trump está travando esta
guerra – que ameaça sua posição como presidente e o fará perder as eleições de
meio de mandato em novembro, deixando-o paralisado pelo resto de seu mandato
presidencial, caso não sofra impeachment antes disso? Por que se envolver nesta
guerra? Sabemos que Israel controla os EUA. Judeus ricos controlam a capital, a
indústria do entretenimento, a mídia e quase todas as instituições de ensino
superior — e, por meio de sua riqueza, determinam quem pode ser eleito para o
Congresso — e para a presidência. A campanha eleitoral de Trump foi financiada
com dinheiro judeu — e sua filha é casada com um judeu e se converteu ao
judaísmo. Quando ele permite que Jared Kushner, seu genro judeu — que não tem
qualquer função no governo americano — e seu amigo de golfe, Steve Wittkoff,
também judeu — que também não ocupa nenhum cargo oficial, mas, assim como
Kushner, é apenas um especulador — viajem pelo mundo como negociadores,
inclusive em relação às relações com o Irã, ele está zombando dos diplomatas profissionais
em geral e dos iranianos em particular.
Mas
Trump não está concorrendo à reeleição, e as eleições de meio de mandato
provavelmente não serão vencidas neste momento, então por que ele está fazendo
isso? Não é difícil imaginar que Netanyahu esteja de posse de todos os arquivos
de Epstein. Será que Netanyahu tem provas incriminatórias contra Trump? Em
qualquer caso, esta guerra é uma ótima distração do escândalo Epstein, do qual,
subitamente, ninguém mais fala...
Mas
provavelmente Trump também tem sido mal informado sobre a situação real no Irã
de propósito! Ele acreditava que a mudança de regime poderia ser alcançada
matando o líder do país. Que ingenuidade. Trump pode ter acreditado que o país
inteiro acolheria os americanos (e os judeus?) como libertadores. Isso só
demonstra sua ignorância sobre o Irã, sua história e o país. Os iranianos ainda
odeiam os EUA. Como essa estratégia falhou, nós temos ouvido inúmeras outras
razões pelas quais este ataque bárbaro foi necessário:
9.1
Para impedir o Irã de desenvolver armas nucleares; aliás, eles estavam a apenas
uma semana de ter uma bomba nuclear. Bem, isso vem sendo dito há 40 anos*1 – e eles ainda não desenvolveram uma.
Além disso, Trump afirma ter destruído completamente o programa nuclear
iraniano na Guerra dos Doze Dias, há seis meses. Como isso se encaixa? Ademais,
o líder supremo, recentemente assassinado, havia emitido uma fatwa {ou fátua, pronunciamento legal de
um líder religioso islâmico} contra o desenvolvimento de armas nucleares – uma
proibição motivada por questões religiosas. Trump assassinou aquela que
provavelmente era a figura mais moderada da liderança iraniana. Imagino que
seus sucessores reconsiderarão essa fatwa.
A razão pela qual o Irã se encontra em sua situação atual é justamente por não
ter desenvolvido armas nucleares, vide Coreia do Norte, que vive em paz justamente
por possuir armas nucleares. Aliás, alguém se lembra da lenda das inexistentes
armas de destruição em massa de Saddam Hussein?
9.2
Porque o Irã alegadamente controla todos os movimentos terroristas do mundo.
Outra alegação inventada. O Irã apoia o povo palestino e defende o sul do
Líbano contra a agressão israelense. É uma reação ao terror israelense.[2]
9.3
Para impedir mais execuções de rebeldes. Que comovente. E quanto aos quase
100.000 palestinos assassinados em Gaza? Que tal impedir isso? Seria fácil.
Mas, ah não, eles eram apenas palestinos. No Irã, estávamos falando de agentes
da CIA e do Mossad que haviam entrado clandestinamente. Era a raça superior, ou
pelo menos seus servos.
9.4
Porque o Irã ameaçava os EUA. É preciso muita imaginação para visualizar isso!
9.5
Entre as explicações mais bizarras está a do Ministro da Guerra, Hegseth, de
que Trump foi ungido por Deus para iniciar o Armagedom, que é um pré-requisito
para o retorno de Jesus. Ele realmente disse isso. E são pessoas como ele que
querem governar o mundo. Que Deus nos ajude a todos!
O
fato é que as ideias de Trump sobre o Irã não tinham qualquer base na
realidade. Ele é um homem estúpido e, como a maioria dos americanos,
desinformado sobre o mundo que deseja governar como sua propriedade pessoal. É
precisamente isso que o torna, e aos EUA, perigoso.
Ao
matar Khamenei, ele não matou apenas o líder político supremo do Irã. Ele matou o líder religioso supremo da vasta maioria dos iranianos – o segundo líder
mais importante de todos os muçulmanos xiitas. Ele o transformou em um mártir –
e o martírio ocupa um lugar especial no islamismo xiita. Com esse assassinato,
Trump fez a pior coisa possível que poderia fazer se seu objetivo era derrubar
o regime.
Há
muita especulação sobre o porquê de todas essas pessoas estarem reunidas na
residência oficial de Ali Khamenei naquele momento – e não em um bunker. Uma
explicação é que Khamenei buscava deliberadamente o martírio. Ele pode ter
buscado o martírio para si mesmo, mas dificilmente para seus associados mais
próximos, muito menos para seus filhos e netos. Acredita-se que ele tenha
recebido uma oferta de paz americana que precisava ser discutida e respondida.
Como diz o lema do Mossad: “Por meio do engano!”
10: Esta guerra pode
mudar o mundo. Os estados do Golfo perceberam que é perigoso ser amigo dos
Estados Unidos. Bases americanas estão sendo bombardeadas, a vida econômica
está sendo afetada e os turistas estão sendo afastados. Um bloqueio no Estreito
de Ormuz poderia triplicar o preço do petróleo em poucos dias. A Europa se
isolou da energia russa, barata e confiável. A Rússia pode suprir a China com
tudo o que lhe faltar dos estados do Golfo. A Europa está indo à bancarrota.
11: O objetivo de
Israel é criar um Israel do Mediterrâneo ao Rio Eufrates, expulsando a
população árabe nativa, que inundará a Europa (e outros países de maioria
europeia) como refugiados. Isso contribuirá para o colapso da Europa (e de
outros países de maioria branca) e criará ainda mais ódio contra os muçulmanos
e, implicitamente, maior apreço pelo estado criminoso judeu no Oriente Médio,
que é a origem do desastre. É satânico – mas bem planejado. Os judeus são
pessoas inteligentes – e os europeus e americanos brancos são estúpidos. O
apoio do Irã aos palestinos impede a concretização desses planos.
12: A CIA está armando
os curdos, que também são numerosos no Irã, para incitá-los a se rebelarem
contra os iranianos. Como recompensa, foi prometido a eles um Estado próprio –
um sonho que os curdos acalentam há séculos. Isso pode incitar outras minorias
no Irã a lutarem por seu próprio Estado, fragmentando o país em átomos,*2 mas inevitavelmente forçará a Turquia
a entrar na guerra ao lado do Irã. A Turquia jamais aceitará voluntariamente um
Estado curdo, assim como o Iraque e a Síria, mas Israel já castrou esses dois
Estados. A Turquia, contudo, é uma poderosa força militar. Que direito têm os
americanos de interferir em tais assuntos?
13: A grande incógnita.
A China e a Rússia aceitarão uma derrota iraniana? Não creio – e isso
significaria a Terceira Guerra Mundial, que inevitavelmente terminaria em
guerra nuclear. Depois disso, preocupações posteriores serão supérfluas.
14: Israel é um Estado
terrorista – e os EUA são o braço estendido de Israel. As ambições
imperialistas dos EUA e de Israel representam a maior ameaça à paz mundial, à
humanidade e à própria existência do planeta. Nós não podemos ter uma ordem
mundial em que um único país – os EUA – dite os rumos em todo o planeta. É
preciso criar um tribunal internacional para julgar todos esses belicistas e
criminosos contra a humanidade. Oficiais e políticos alemães foram enforcados
em Nuremberg por muito menos!
15: Pode-se debater se
são os EUA que dirigem e facilitam Israel – ou vice-versa. O fato é que os dois
estão intimamente ligados. Israel é o irmão mais novo, mas é o irmão mais novo
quem dá as cartas, porque é ele quem detém o poder econômico nos EUA.
Lembrem-se do filme “Wag the Dog” – essa é a situação que nós estamos enfrentando.
É o rabo que abana o cachorro. Nesse contexto, Epstein desempenha um papel
muito importante. Israel possui provas incriminatórias contra grande parte das
elites americanas e europeias!
16: Será que a
democracia é sequer uma forma desejável de governo? Basta observar os governos
que essa forma de organização dos Estados criou. Os Estados Unidos e a Europa
dificilmente são exemplos a serem seguidos! Como diz o ditado: o ouro afunda –
a merda flutua!
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Notas
[1] Nota do editorial de The Occidental Observer: Se você quiser
saber mais sobre o Irã, confira um dos artigos anteriores de Povl:
*1 Fonte utilizada por Povl H.
Riis-Knudsen:
[2] Nota do editorial de The Occidental Observer: Povl escreveu
sobre o conflito Israel-Palestina nos seguintes artigos (em dinamarquês):
https://danmarksfrihedsraad.com/2023/04/09/on-palestine/
https://danmarksfrihedsraad.com/2024/03/03/israel-et-mislykket-samfund-en-mislykket-stat/ ↩︎
*2 Fonte utilizada por Povl H.
Riis-Knudsen:
Fonte: IRAN
– the latest victim of the Jewish master race mentality, por Povl H.
Riis-Knudsen, 12 de março de 2026, The
Occidental Observer.
Sobre o autor: Povl H.
Riis-Knudsen (1949) é um linguista (graduado na Universidade de Aarhus em
alemão e inglês) e ativista político dinamarquês.
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