| Tamara Turki |
O Centro Palestino para
os Direitos Humanos reuniu relatos de detidos recém-libertados em Gaza, que
descreveram estupro, desnudamento forçado e humilhação psicológica.
Israel[1] está
operando “uma prática organizada e sistemática de tortura sexual” contra
prisioneiros palestinos[2] da
Faixa de Gaza sob sua custódia, de acordo com um novo relatório de uma
importante organização de direitos humanos.
Pesquisadores
e advogados do Palestinian Centre for Human Rights[3] {Centro
Palestino para os Direitos Humanos} (PCHR) entrevistaram[4]
homens e mulheres da Faixa de Gaza que foram libertados da detenção israelense.
Os detidos relataram estupro, nudez forçada, filmagens de abusos, agressão
sexual com objetos e cães, além de humilhação psicológica.
“Eu
desejava a morte a cada instante”, disse uma mãe de 42 anos que foi detida ao
cruzar um posto de controle israelense no norte de Gaza em novembro de 2024.
Ela
contou ao PCHR {Centro Palestino para os Direitos Humanos} que sofreu estupros
repetidos e abusos físicos que duraram dias.
A
ex-prisioneira descreveu ter sido despida, eletrocutada, espancada e filmada
nua.
“Eles
me colocaram em uma mesa de metal, pressionaram meu peito e minha cabeça contra
ela, algemaram minhas mãos na cabeceira da cama e abriram minhas pernas à
força”, disse ela.
“Senti um pênis penetrando meu ânus e um homem me estuprando. Comecei a gritar e eles me bateram nas costas e na cabeça enquanto eu estava vendada.”
Ela
adicionou: “Eu conseguia ouvir uma câmera, então acredito que estavam me
filmando.”
Outro
homem, um pai de 35 anos preso no Hospital Al Shifa em março de 2024, contou ao
PCHR {Centro Palestino para os Direitos Humanos} que foi estuprado por um
cachorro dentro do campo militar de Sde Teiman após semanas de humilhação,
nudez forçada e ameaças.
Ele
disse que soldados levaram os detidos para uma área longe das câmeras e
soltaram os cães contra eles.
“O cachorro fez isso deliberadamente, sabendo exatamente o que estava fazendo, e inseriu seu pênis no meu ânus, enquanto os soldados continuavam nos batendo, torturando e borrifando spray de pimenta em nossas faces.”
A
agressão o deixou com um ferimento na cabeça que exigiu sete pontos, além de
hematomas, fraturas nos membros e uma costela fraturada.
“Eu
sofri um severo colapso psicológico e uma profunda humilhação. Perdi o controle
porque jamais imaginei vivenciar algo assim”, disse ele.
O
centro de detenção militar de Sde Teiman tornou-se notório por tortura após o
vazamento de um vídeo[5] em
agosto de 2024, que mostrava soldados israelenses agredindo violentamente um
detento palestino de Gaza, incluindo estupro anal.
De
acordo com a acusação, o homem foi levado ao hospital com costelas quebradas,
um pulmão perfurado e graves ferimentos retais.
Cinco
soldados foram acusados de abuso agravado e lesão corporal grave, mas nenhum
deles está sob custódia ou sujeito a restrições legais, reportou a mídia
israelense.
| “O Canal 12 israelense divulgou um vídeo mostrando soldados alegadamente abusando sexualmente de um prisioneiro palestino na prisão de Sde Teiman em 7 de agosto de 2024 (Reuters).” Ver nota 6. |
Enquanto
isso, Yifat Tomer Yerushalmi, o procurador-geral militar que vazou as imagens, tinha
sido desde então preso[6]
sob acusações que incluem fraude, quebra de confiança, abuso de poder,
obstrução da justiça e divulgação ilegal de informações oficiais.
‘Pura angústia’
Outro
ex-detento, um homem de 41 anos mantido em cárcere privado no Hospital Kamal
Adwan no final de 2023, relatou 22 meses de tortura sexual, incluindo ameaças
de agressão à sua esposa.
Ele
contou ao PCHR {Centro Palestino para os Direitos Humanos} que um soldado o
estuprou com um pedaço de madeira enquanto ele estava amarrado e vendado.
O
detido disse que a dor e o terror foram tão intensos que “de tanta angústia,
perdi a consciência por alguns minutos, até que uma policial chegou e os
obrigou a parar de me bater”.
O
PCHR {Centro Palestino para os Direitos Humanos} também entrevistou um jovem de
18 anos que já havia sido detido e foi preso novamente perto de um centro de
distribuição de ajuda humanitária este ano.
Ele
descreveu soldados o obrigando, juntamente com outros, a se ajoelhar enquanto
os agrediam com uma garrafa.
O
homem acrescentou que isso aconteceu repetidamente, inclusive em agressões
coletivas.
“Eles
violaram nossa dignidade e destruíram nosso espírito e nossa esperança de vida.
Eu queria continuar meus estudos; agora eu estou perdido depois do que
aconteceu comigo”, disse ele.
O
PCHR {Centro Palestino para os Direitos Humanos}, cujos investigadores
documentaram extensa violência sexual contra mulheres e homens palestinos
detidos em Gaza nos últimos dois anos, afirmou que os relatos “não refletem
incidentes isolados, mas constituem uma política sistemática” perpetrada no
genocídio israelense.
Sob
o cessar-fogo acordado em outubro, Israel libertou 1.700[7]
palestinos detidos em Gaza que tinham sido mantidos presos indefinidamente sem
acusação ou julgamento.
Ainda,
a escala das detenções israelenses permanece enorme. Mesmo após a libertação em
massa, pelo menos 1.000 palestinos de Gaza ainda estão detidos nas mesmas
condições, e muitos outros estão em prisões e campos militares isolados de
observadores internacionais, incluindo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Uma
investigação recente do Guardian[8]
descobriu que Israel mantém dezenas de detidos da Faixa de Gaza em isolamento
total dentro de uma prisão subterrânea, onde eles nunca veem a luz do dia,
sobrevivem com alimentação inadequada e são completamente isolados de
informações de suas famílias.
Líderes
israelenses e figuras da extrema direita têm alertado que os relatos de tortura
sexual em prisões israelenses prejudicaram gravemente a imagem do país no
mundo.
“O
incidente em Sde Teiman causou imenso dano à imagem do Estado de Israel e das IDF
[Forças de Defesa de Israel]”, disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, em novembro.
“Este é talvez o ataque de relações públicas mais grave que o Estado de Israel já sofreu desde a sua fundação.”
Tradução
por Dignus {academic auctor pseudonym - studeo liber ad collegium}
Revisão
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
[1] Fonte utilizada por Tamara
Turki:
[2] Fonte utilizada por Tamara
Turki:
[3] Fonte utilizada por Tamara
Turki:
[4] Fonte utilizada por Tamara
Turki: PCHR Documents Testimonies of Systematic Rape and Sexual Torture in
Israeli Detention against Released Palestinian Detainees, 10 de novembro de 2025,
Palestinian Centre for Human Rights.
[5] Fonte utilizada por Tamara
Turki: Israeli media publishes video of soldiers allegedly raping Palestinian
detainee, por Alex MacDonald, 07 de agosto de 2024, MIDDLE EAST EYE.
[6] Fonte utilizada por Tamara
Turki: Israel to appoint new army lawyer after Palestinian prisoner rape
scandal, editorial, 02 de novembro de 2025, MIDDLE
EAST EYE.
[7] Fonte utilizada por Tamara
Turki: Hamas and Israel swap prisoners as Trump declares war's end, por Lubna
Masarwa e Mohammed Nazzal e Huthifa Fayyad, 13 de outubro de 2025, MIDDLE EAST EYE.
https://www.middleeasteye.net/news/hamas-begins-releasing-israeli-captives-part-gaza-ceasefire-deal
[8] Fonte utilizada por Tamara
Turki: Israel’s underground jail, where Palestinians are held without charge
and never see daylight, por Emma Graham-Harrison, 08 de novembro de 2025, The Guardian.
Fonte: Rape and
humiliation: Report accuses Israel of 'systematic' torture of Palestinian
prisoners, por Tamara Turki, 11 de novembro de 2025, MIDDLE EAST EYE.
Sobre a autora: Tamara
Turki é uma jornalista palestina-austríaca radicada em Nova York. Ela é formada
em Direito pelo King's College London e atualmente frequenta a Escola de
Jornalismo da Universidade Columbia.
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