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| Robert Grözinger |
Quando então torna-se grande a inadimplência por parte dos clientes, qualquer banco acredita que alguém – o Estado ou o Banco Central – irá tirá-los do buraco. […] Portanto, os bancos realizam a “obra de Deus”? De forma alguma. Seu costume em declarar “nada” como algo de valor lembra à tentativa de Cristo, quando Jesus foi desafiado pelo diabo a transformar pedra em pão.
O moderno sistema bancário está pervertido
Segundo
as palavras de um rabino, através de nosso trabalho nós nos tornamos “parceiros
de Deus na obra da criação”. Talvez Lloyd Blankfein (J) tenha este ditado em
mente quando declarou recentemente ao Sunday
Times,[1]
que os bancos realizam a obra de Deus. O chefe do Goldman Sachs desencadeou
severas reações com esta declaração.
Infelizmente
o artigo do Sunday Times não
contribui para o esclarecimento do assunto. O autor do Times, John Arlidge, acusa o banqueiro de ter “emprestado muito
dinheiro”. Porém, o que seja exatamente “muito”, ele não disse. Blankfein
respondeu a Arlidge, esclarecendo a “função de um moderno sistema bancário”:
“Nós somos muito importantes. Nós ajudamos as empresas a crescer à medida que as ajudamos a conseguir capital. Com isso é possível que as pessoas tenham emprego, que geram mais crescimento e melhores condições de vida. É um ciclo positivo”.
Isto
é uma formidável propaganda sucinta e expressiva para justificar a existência
dos bancos. Mas o que deva ser “moderno”, em oposição à função dos bancos no
século passado, o leitor não consegue concluir. Nem é perceptível, se Arlidge
tenha perguntado algo parecido, nem se Blankfein discorrera sobre o tema. No
mais, o artigo descreve e informa detalhadamente sobre a vida social interna
dos grandes bancos norte-americanos.
O
problema que o artigo do Times não
aborda, é esse: O “moderno” sistema bancário tende facilmente à tentação de
emprestar “muito” dinheiro, pois permite aos bancos emprestar mais do que
possuem. Trata-se da chamada reserva parcial do sistema bancário, a qual é
descrita pelo professor Guido Hülsmann como a perversão do sistema das
instituições monetárias, de crédito e que apareceu como reação à tentação de
saque por parte do Estado. O aparecimento do papel-moeda, sua total
desvinculação dos valores reais, assim como o estabelecimento dos Bancos
Centrais como monopólio territorial para criação de dinheiro, facilitou a
manutenção deste sistema.
Este
“dinheiro que surgiu do nada”, sem lastro, dos Bancos Centrais, o meio de
produção do sistema bancário “moderno”, não é capital de verdade, mas sim ele
transmite a ilusão de bem-estar. Esta ilusão de bem-estar leva a investimentos
equivocados; estes por sua vez levam às chamadas bolhas conjunturais, que devem
estourar a curto ou longo prazo, pois não existe valor real atrás das intensas
linhas de créditos iniciais.
No
fundo, este procedimento é uma mentira, um engodo. Sem relevar que os bancos
exigem juros em troca de seus “do nada”. Juros em si não é imoral, até as
igrejas pregam isso entrementes. Como única exceção permanece a igreja católica
condenando a usura em alguns casos de crédito para consumo, quando ela vê uma
afronta ao mandamento do amor ao próximo. Mas juros a troco de nada não é
apenas um problema econômico, mas passa a ser também um problema de ordem
moral.
Quando
então torna-se grande a inadimplência por parte dos clientes, qualquer banco
acredita que alguém – o Estado ou o Banco Central – irá tirá-los do buraco. Por
este motivo, e por nenhum outro, os bancos emprestam “muito”. Primeiro porque
eles têm permissão e segundo, venha o que vier, eles serão salvos – o chamado
“moral Hazard”. Não é por acaso que eles acreditam nisso. Eles sabem
exatamente, o Estado não pode permitir que um grande banco quebre. Os bancos
segurados com apenas reservas parciais estão tão dependentes uns dos outros,
que a falta de um banco através dos “créditos em cascata” provocaria dentro de
poucos dias ou horas um completo colapso de todo o sistema financeiro mundial.
Alega-se que o mundo esteve à beira deste colapso em outubro do ano passado.
Portanto,
os bancos realizam a “obra de Deus”? De forma alguma. Seu costume em declarar
“nada” como algo de valor lembra à tentativa de Cristo, quando Jesus foi
desafiado pelo diabo a transformar pedra em pão. A resposta que ele recebeu
foi:
“O homem não vive apenas de pão, mas de cada palavra que vem da boca de Deus”.
E
quais seriam tais palavras em relação ao “moderno” sistema bancário? Em primeiro
lugar seriam os mandamentos de não mentir e não roubar. Porém, ambos acontecem
quando se tenta ganhar dinheiro com “nada”. Quem toma emprestado dos “modernos”
bancos dinheiro parcialmente lastreado, ou seja, ilusão de bem-estar, e ele
mesmo não possui uma impressora de dinheiro, este terá que pagar juros com
salário de seu trabalho ou quitá-los com suas posses. Desta forma, pedra é
transformada em pão, mas apenas para os bancos.
Além
disso, encontra-se no Novo Testamento
uma correspondência para o moderno sistema bancário. São os comerciantes
expulsos do templo por Jesus. Os comerciantes do templo aproveitavam os
privilégios concedidos pelos sacerdotes, à medida que vendiam por um período
pré-estipulado oferendas a preços elevadíssimos. Em um mercado livre sem
restrição de acesso, eles nunca teriam condição de manter seus preços de
agiotas. É um erro equiparar os comerciantes do templo daquela época com as
atuais redes de lojas ou a uma “cultura consumista”. A verdadeira base de
equiparação é com os bancos centrais, enquanto a atual correspondência com os
fariseus do tempo neste contexto da Bíblia são os governos ocidentais. Os
bancos centrais utilizam o privilégio concedido a eles pelos governos, na
prática, declarando papéis sem valor como dinheiro, para vendê-los então por um
valor mais alto, ou seja, através dos bancos ou do Estado como crédito na
economia e exigindo então soberanamente juros excessivos. Em um mercado livre,
ao contrário, os bancos centrais compartilhariam do mesmo destino dos comerciantes
do templo. Eles seriam – mesmo se apenas em sentido figurado – linchados para
fora do mercado, a benefício dos comerciantes que oferecem dinheiro verdadeiro
– certificados de ouro e prata – a troco de juros, que não são determinados por
um órgão público qualquer, mas sim através do livre comércio de divisas.
A
comparação com os sacerdotes daquela época e atuas governos é bastante oportuna
também por outros motivos. A crença no Deus redentor é semelhante à crença no
Estado redentor. A reação à atual crise financeira é somente um exemplo dentre
vários desta forma de religião.
Os
bancos realizam a obra de Deus? Somente se eles se atentarem aos mandamentos
divinos. Nenhuma pessoa é livre de pecado. Mas se o pecado for levado ao nível
institucional, então não há mais motivo em se falar da realização da obra de
Deus.
Tradução
por Marcelo Franchi
Notas:
Fonte original: Verrichten
Banken „Gottes Werk“? - Das moderne Bankwesen ist pervertiert, por Robert
Grözinger, Eigentümlich Frei.
https://ef-magazin.de/2009/11/12/1642-finanzsystem-verrichten-banken-gottes-werk
Traduzido ao português
por editorial Inacreditável:
https://inacreditavel.com.br/wp/os-bancos-realizam-a-obra-de-deus/
Sobre o autor: Robert
Grözinger, (1965-) é graduado em economia (equivalente hoje ao Bacharel e
Mestrado) pela Universität Stuttgart, jornalista
freelancer, tradutor e editor-chefe da Equity
& Freedom, sendo adepto da direita liberal, especialmente da Escola
austríaca e da tradição Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe.
É autor de Jesus, der Kapitalist: Das
christliche Herz der Marktwirtschaft, 2012; Why Libertarianism Needs Christianity to Succeed, 2020; Kulturkampf, 2025.
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