| Karl Nemmersdorf |
Zemliachka, o Demônio.
O escritor russo Ivan Shmelev — que vivenciou esses acontecimentos (os
comunistas fuzilaram seu filho, um tenente do Exército Branco) e escreveu sobre
eles o pungente romance O Sol dos Mortos
— prestou depoimento sobre Zemliachka (com toques impressionistas) perante um
tribunal de Lausanne, em 1923:
Ela corria de vila em
vila, com a face de uma palidez doentia, a boca sem lábios, os olhos
desbotados; vestindo uma jaqueta de couro... de baixa estatura, portando uma
enorme Mauser... Era o seu momento de glória. Ali, Zemliachka-Zalkind conseguiu
superar a todos... “Atirem, atirem, atirem...”, repetia ela incessantemente,
satisfazendo uma paixão pelo assassinato há muito acumulada... Na Crimeia,
Rozalia Samuilovna revelou-se a cadela mais leal de seu mestre Lenin. Ela fez
tudo isso sem esperar [recompensa] — carne e sangue não lhe faltavam —, pois o
processo em si lhe era caro. Ela orquestrou na Crimeia uma epopeia tão brutal
que “as montanhas ficaram encharcadas de sangue, e o Mar Negro, junto à costa,
tornou-se vermelho”.81
Esse
retrato do “Demônio” encontra eco no relato de um alto funcionário bolchevique
enviado à Crimeia na primavera de 1921 para investigar as condições locais.
Mirsaid Sultan-Galiev, um funcionário muçulmano do Partido Comunista, disse
sobre Zemliachka:
A camarada Samoylova (Zemliachka) era uma mulher extremamente nervosa e doente, que rejeitava qualquer método de persuasão em seu trabalho... Nervosismo desnecessário, um tom excessivamente ríspido ao conversar com quase todos os camaradas, exigências extremas... repressões imerecidas contra qualquer um que tivesse ao menos um pouco de coragem para “ousar ter seu próprio julgamento”... Quando a camarada Samoylova estava na Crimeia, literalmente todos os trabalhadores tremiam diante dela, não ousando desobedecer nem mesmo às ordens mais estúpidas ou errôneas.82
Eu
abstive-me de repetir as descrições mais macabras a respeito de Zemliachka por
carecerem de fontes sólidas, mas estes dois relatos dão uma ideia de sua loucura
homicida. Alguns autores afirmam que ela operava metralhadoras, torturava
prisioneiros e sofria acessos de fúria. Talvez fosse verdade. Um escritor
russo-judeu contemporâneo (Arkady Vaksberg), profundo conhecedor desses judeus
comunistas, descreve-a como “uma sádica e um monstro,” embora, infelizmente,
sem fornecer detalhes.83
Resta-nos aguardar pesquisas mais aprofundadas nos arquivos soviéticos.
O massacre prossegue.
Enquanto isso, em 5 de dezembro, um certo N. Margolin publicou um artigo no
jornal Krasny Krim (“Crimeia Vermelha”):
Com a espada implacável do Terror Vermelho, nós percorreremos toda a Crimeia e a expurgaremos de todos os carrascos, exploradores e algozes da classe trabalhadora. Mas nós seremos mais espertos e não repetiremos os erros do passado! Nós fomos generosos demais após a Revolução de Outubro. Nós, tendo aprendido com a amarga experiência, não seremos generosos agora.84
Ele
chama as vítimas desse grande massacre de “carrascos”! Seria esse o mesmo “N.
Margolin” que Solzhenitsyn descreve como um comissário judeu implacável, um
requisitador de grãos, “famoso por açoitar os camponeses que não entregavam os
grãos. (E ele também os assassinava.)”?85
Eu acredito que sim.
A
matança na Crimeia correu com tudo até a primavera seguinte. Além disso,
dezenas de milhares de pessoas foram confinadas em campos de concentração
improvisados antes de serem enviadas da Crimeia para campos maiores.
Cinquenta mil tártaros muçulmanos foram enviados para a Turquia ou para campos
na Rússia. Há relatos posteriores de que 37.000 homens do exército de Wrangel
definhavam em condições terríveis em campos na região de Kharkov.86 Infelizmente, dadas as condições nos
campos russos, muitos desses homens certamente morreram. Quando a Cheka local
enviou uma mensagem a Lenin perguntando o que poderia ser feito para melhorar
as condições no local, ele não fez nada, limitando-se a anotar no papel: “para
o arquivo.”87
A convocação de volta de Kun e
Zemliachka. Após um mês de derramamento de sangue, as tensões
entre os executores chegaram ao limite. Alguns funcionários ficaram
insatisfeitos, acreditando que o expurgo estava saindo do controle, com os
destacamentos de assassinato agindo desenfreadamente — roubando, mantendo
haréns e matando por razões pessoais. Esses funcionários também se ressentiam
da intensidade fanática de Zemliachka e Kun, que estavam liquidando toda a
classe média da Crimeia, incluindo especialistas de que os bolcheviques
precisavam para ajudar a administrar a região após estabelecerem a ordem. Um
dos membros não judeus do Comitê Revolucionário, Yuri Gaven, escreveu uma carta
a um amigo do Comitê Central em Moscou (em 14 de dezembro) afirmando que Kun
havia se tornado um “gênio do terror em massa” e precisava ser internado em um
hospital psiquiátrico. Gaven argumentou que ele também defendia o terror em massa,
mas que pessoas valiosas demais estavam sendo mortas.88
Naquele mesmo dia, Zemliachka escreveu uma longa carta a Moscou queixando-se da
“maciez” e da incompetência dos quadros locais, dizendo que era forçada a
realizar todo o trabalho.89 (Ela
escrevia cartas muito semelhantes a Lenin desde 1904.90) Ela exigiu o retorno a Moscou de
vários funcionários locais — nenhum deles judeu (incluindo o irmão mais novo de
Lenin, Dmitry Ulyanov, que integrava o Comitê do Partido na Crimeia). Existe um
possível componente étnico nessa controvérsia, com alguns dos não judeus
defendendo uma moderação do terror, enquanto os judeus apoiavam o terror
máximo. No final das contas, Moscou respondeu ordenando o retorno de Zemliachka
e Kun no início de janeiro de 1921. Eles haviam permanecido na Crimeia por somente
sete semanas.
Zemliachka
e Kun assim não foram responsáveis pela totalidade
das 50.000 mortes, uma vez que alguns desses assassinatos ocorreram após o
retorno deles. No entanto, as fontes parecem indicar que a maior parte das
mortes ocorreu, de fato, enquanto eles estavam na Crimeia.
Não
há evidências de que Lênin tenha repreendido os dois maníacos homicidas, ou de
que eles tenham caído em desgraça. Eles rapidamente encontraram emprego em
outros lugares: Zemliachka, no Comitê do Partido em Moscou; e Kun, no Presidium
do Comintern. Zemliachka foi condecorada com a Ordem da Bandeira Vermelha por
seus “serviços” exemplares durante a Guerra Civil.91
É
interessante o relato da Universal Jewish
Encyclopedia, publicada em Nova York na década de 1940, sobre as atividades
de Zemliachka durante a Guerra Civil Russa. Zemliachka, dizia o texto, “tornou-se útil no front”. [Grifo adicionada]
Um belo exemplo de historiografia judaica.
O
rescaldo
Após
chegar a Constantinopla, o Barão Wrangel esforçou-se e lutou contra
dificuldades para manter a ordem e a unidade entre os exilados russos brancos.
Em 1924, ele estabeleceu a União Militar de Toda a Rússia com esse objetivo e
para preservar a possibilidade de derrubar o regime comunista na Rússia. Em ele
1927, mudou-se com a família para Bruxelas, vivendo em condições próximas à
miséria. Ele escreveu suas memórias, Always
with Honor, obra publicada após sua morte. Ele faleceu inesperadamente em
abril de 1928, levando muitos a suspeitar que ele havia sido envenenado por
agentes bolcheviques — os quais, mais tarde, sequestraram e mataram os dois
homens que o sucederam na liderança da União Militar de Toda a Rússia: os
generais Kutepov e Miller.92 Os
restos mortais de Wrangel repousam na Igreja da Santíssima Trindade, em
Belgrado.
Na Crimeia.
Embora as autoridades comunistas tenham reforçado sua organização e disciplina,
elas continuaram matando até a primavera. Mais judeus chegaram; Alexander Rotenberg
assumiu o comando da Cheka da Crimeia unificada em setembro de 1921.93 Neste ponto, contudo, a fome —
frequentemente concomitante ao domínio bolchevique — já estava começando. O já
mencionado Mirsaid Sultan-Galiev relatou ao Comitê Central, em abril de 1921:
A situação alimentar está ficando pior a cada dia. Todo o distrito do Sul, habitado principalmente pela população tártara, está literalmente passando fome neste momento. Pão é fornecido apenas aos funcionários soviéticos, e o restante da população... não recebe nada. Observam-se casos de inanição nas aldeias tártaras... Na conferência regional... os delegados tártaros indicaram que as crianças tártaras estão “morrendo como moscas”.94
A
situação geral na Crimeia era terrível, mas o principal fator para o
desenvolvimento da fome — que matou cerca de 100.000 pessoas — foi a má gestão
bolchevique, particularmente as requisições de alimentos e o confisco de
propriedades rurais para a criação de fazendas estatais (ineficientes). Em
março de 1922, a Cheka da Crimeia relatava que o canibalismo estava “se
tornando comum.” Enquanto isso, crianças estavam desaparecendo e, “em
Karasubazar, em abril de 1922, foi descoberto um depósito contendo 17 cadáveres
salgados, a maioria de crianças.”95
Somente em 1923 a normalidade começou a retornar à Crimeia, na medida do
razoavelmente possível sob o domínio comunista.
A
tomada da Crimeia pelos Vermelhos foi um banho de sangue horrendo que deixou
toda a população da Crimeia em estado de choque e horror, nutrindo um profundo
ódio pelo domínio bolchevique. Grande parte da população aliou-se aos alemães
durante a Segunda Guerra Mundial, desencadeando novas ondas de repressão*15 e deportação quando as forças de
Stalin retomaram a região na primavera de 1944.
Aqui,
devemos deixar esse povo desafortunado e voltar nossa atenção para a história
posterior dos carniceiros que haviam banhado suas terras em sangue.
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Continua ...
81 Nota de Karl Nemmersdorf: avel
Paganuzzi, Красный террор в Крыму “Terror Vermelho na Crimeia”). Acessado em 25
de maio de 2025. https://www.belrussia.ru/page-id-3316.html.
O tribunal julgava o assassino de um diplomata soviético, Vatslav Vorovsky. A
defesa transformou o julgamento em um referendo sobre as atrocidades
soviéticas.
82 Nota de Karl Nemmersdorf: Dmitry
Sokolov, “A Mão Punitiva do Proletariado.”
83 Nota de Karl Nemmersdorf: Arkady
Vaksberg, Stalin Against the Jews
(Alfred Knopf, 1994), p. 23.
84 Nota de Karl Nemmersdorf: Wikipédia
em russo, “Red Terror in Crimea.” (https://ru.wikipedia.org/wiki/Красный_террор_в_Крыму)
85 Nota de Karl Nemmersdorf: Solzhenitsyn,
capítulo 16.
86 Nota de Karl Nemmersdorf: Para
os tártados, ver Robert Forczyk, Where
the Iron Crosses Grow: The Crimea 1941-44, p. 27; Para as tropas de Wrangel
ver Richard Pipes, Russia Under the
Bolshevik Regime (Vintage Books, 1995), p. 135.
87 Nota de Karl Nemmersdorf: Richard
Pipes, Russia Under the Bolshevik Regime
(Vintage Books, 1995), p. 135.
88 Nota de Karl Nemmersdorf: Wikipédia
em russo, “Terror Vermelho na Crimeia”. Acessado em 17 de maio de 2025. https://ru.wikipedia.org/wiki/Красный_террор_в_Крыму
89 Nota de Karl Nemmersdorf: Andrey
Sorokin, “Красный террор омрачил великую победу Советской власти…” (“O Terror
Vermelho ofuscou a grande vitória do poder soviético…”) Acessado em 3 de junho
de 2025. https://rodina-history.ru/2016/08/10/rodina-krymu.html
90 Nota de Karl Nemmersdorf: Barbara
Evans Clements, Bolshevik Women, p.
77.
91 Nota de Karl Nemmersdorf: Janina
Cottam, Women in War and Resistance:
Selected Biographies of Soviet Women Soldiers, p. 434.
92 Nota de Karl Nemmersdorf: Kutepov
foi sequestrado em uma rua de Paris pelo tchekista judeu Yakov Serebryansky e
sua esposa, que se passaram por policiais franceses. Seu corpo jamais foi
encontrado. Pavel Sudoplatov, Special
Tasks: The Memoirs of an Unwanted Witness – A Soviet Spymaster (Little,
Brown and Co., 1994), p. 91.
93 Nota de Karl Nemmersdorf: “Alexander
Rotenberg”, acessado em 20 de maio de 2025. https://www.hrono.ru/biograf/bio_r/rotenberg.html
94 Nota de Karl Nemmersdorf: “Uma
tragédia esquecida. Cem anos da fome em massa na Crimeia em 1921–1923.”
Acessado em 4 de junho de 2025. https://holodomormuseum.org.ua/en/news/a-forgotten-tragedy-one-hundred-years-since-the-mass-famine-in-the-crimea-in-1921-1923/
95 Nota de Karl Nemmersdorf: Mykola
Semena, “Uma tragédia esquecida. Cem anos da fome em massa na Crimeia em
1921–1923.” Acessado em 4 de junho de 2025. https://holodomormuseum.org.ua/en/news/a-forgotten-tragedy-one-hundred-years-since-the-mass-famine-in-the-crimea-in-1921-1923/
fonte
*15 Fonte utilizada por Karl
Nemmersdorf: Complete Destruction of National Groups as Groups - The Crimean
Turks, por Edige Kirimal, International
Committee for Crimea.
Fonte: Jewish Bolsheviks and Mass Murder: Rozalia Zemliachka and the Jews Responsible for the Bloodbath in Crimea, 1920, por Karl Nemmersdorf, 30 de junho de 2025, The Occidental Observer.
Sobre o autor: Karl Nemmersdorf é um escritor que contribui com artigos no The Occidental Observer, sob pseudônimo em decorrência dos riscos de coerção por exposição de temas de alta polêmica.
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