sexta-feira, 23 de setembro de 2022

{Retrospectiva 2014} – Ucrânia: o fim da guerra fria que jamais aconteceu - Por Alain de Benoist

 

Alain de Benoist


Numa altura em que a batalha pelas sanções envenena as relações entre a Europa e a Rússia, Alain de Benoist entrega para a revista Elements as 7 chaves para compreender as origens da crise ucraniana.

O caso ucraniano é um assunto complexo e também um assunto grave (em outra época e em outras circunstâncias, ele poderia muito bem ter dado lugar a uma guerra regional ou mesmo mundial). Sua complexidade resulta do fato de que os dados de que dispomos podem levar a julgamentos contraditórios. Em tais circunstâncias, é, portanto, necessário determinar o que é essencial e o que é secundário. O que é essencial para mim é a relação de forças existente em escala global entre os partidários de um mundo multipolar, do qual eu faço parte, e aqueles que desejam ou aceitam um mundo unipolar sujeito à ideologia dominante que representa o capitalismo liberal. De uma tal perspectiva, tudo o que contribua para diminuir o domínio americano-ocidental sobre o mundo é uma coisa boa, qualquer coisa que tenda a aumentá-la é uma coisa ruim.

1 - A Europa tendo abandonado hoje toda vontade de poder e de independência, é obviamente a Rússia que agora constitui o principal poder alternativo ao hegemonismo americano, senão à ideologia dominante da qual o Ocidente liberal é o principal vetor. O “principal inimigo” está, portanto, no Ocidente.

Eu não experimento, portanto, alguma simpatia pelo presidente ucraniano deposto. Yanukovych era por toda evidência um personagem detestável, ao mesmo tempo um autocrata profundamente corrupto. Putin ele mesmo finalmente percebeu isso – um pouco tarde, é verdade. Eu também não sou um incondicional de Vladimir Putin, que é obviamente um grande estadista, muito superior aos seus homólogos europeus e americanos, e também um experiente praticante de artes marciais comprometido com os princípios do realismo político, mas que também é muito mais pragmático do que um “ideólogo.” Isso não muda o fato de que, portanto, se pode julgar hoje, que a “revolução de Kyiv” tem servido antes todos os interesses americanos.

Eu ignoro se os americanos inspiraram ou até financiaram esta “revolução” como já haviam inspirado e financiado as precedentes “revoluções de cor” (Ucrânia, Geórgia, Quirguistão, etc.), buscando canalizar o descontentamento popular muitas vezes justificado para integrar os povos na órbita econômica e militar ocidental. O fato é que, em todo caso, eles o sustentaram desde o início sem qualquer ambiguidade. O novo primeiro-ministro ucraniano, o economista e advogado bilionário Arseni Yatseniuk, que obteve apenas 6,9% dos votos nas eleições presidenciais de 2010, correu imediatamente para Washington, onde Barack Obama o recebeu no Salão Oval, honra geralmente reservada aos chefes de Estado. Salvo uma reversão imprevisível, os eventos que levaram à destituição brutal do chefe de Estado ucraniano depois das manifestações na Praça Maidan não podem, por isso, ser considerados uma coisa boa por todos aqueles que lutam contra a hegemonia mundial dos Estados Unidos. 

2 - Fala-se por toda parte de um “retorno à Guerra Fria”. Devemos sim nos perguntar se ela já terminou. Na época da União Soviética, os americanos desenvolviam já uma política que, sob o pretexto de anticomunismo, era fundamentalmente antirrussa. O fim do sistema soviético não mudou nada aos dados fundamentais da geopolítica. Eles, ao contrário, tornaram-se mais evidentes. Depois de 1945, os Estados Unidos sempre procuraram impedir a emergência de uma potência concorrente no mundo. A União Europeia sendo reduzida à impotência e à paralisia, eles jamais deixaram de ver a Rússia como uma ameaça potencial para seus interesses. No momento da reunificação alemã, eles estavam solenemente engajados a não procurar estender a OTAN aos países do Leste. Eles estavam mentindo. A OTAN, que deveria ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia, não só foi mantida, mas estendida à Polônia, à Eslováquia, à Hungria, à Romênia, à Bulgária, à Lituânia, à Letônia e à Estônia, ou seja, até as fronteiras da Rússia. O objetivo é sempre o mesmo: enfraquecer e cercar a Rússia desestabilizando ou tirando o controle de seus vizinhos.

Toda a ação dos Estados Unidos visa, assim, impedir a formação de um grande “bloco continental”, persuadindo os europeus de que seus interesses são contrários aos da Rússia, quando na realidade são perfeitamente complementares. Tal é a razão para aquela “integridade territorial” da Ucrânia que é mais importante para eles do que a integridade histórica da Rússia. “Retornar à Guerra Fria,” para os americanos, significa retornar às condições mais propícias à sujeição da Europa por Washington. O projeto de “grande mercado transatlântico” atualmente em curso de negociação entre a União Europeia e os Estados Unidos também via igualmente nesse sentido.

3 - A complicação vem da característica heterogênea da oposição à Yanukovych. A imprensa ocidental geralmente apresentou essa oposição como “pró-europeia,” o que é uma mentira evidente. Entre os opositores do antigo presidente ucraniano, nós achamos na realidade duas tendências completamente opostas: por um lado, aqueles que querem se vincular efetivamente ao Ocidente e sonham em integrar a OTAN sob o guarda-chuva americano, por outro, aqueles que aspiram a uma “Ucrânia ucraniana” independente de Moscou a partir de Washington ou Bruxelas. O único ponto em comum destas duas tendências é sua total alergia à Rússia. Os protestos de Maidan foram, portanto, os primeiros protestos antirrussos, e foi como um “presidente pró-russo” que Yanukovych foi destituído.

Os nacionalistas ucranianos, agrupados em movimentos como “Svoboda” ou “Setor Direito” (Pravy Sektory), são regularmente apresentados na imprensa como extremistas e nostálgicos do nazismo. Como eu não os conheço, não sei se é verdade. Alguns deles parecem ser partidários de um ultranacionalismo convulsivo e odioso que eu abomino. Mas não está evidente que todos os ucranianos desejando a independência da Rússia e dos Estados Unidos partilhem os mesmos sentimentos. Muitos deles lutaram na Praça Maidan, sem se sentirem manipulados, com uma coragem que merece respeito. A questão toda é a de saber se eles não serão despossuídos de sua vitória por uma “revolução” cujo principal efeito terá sido substituir o “big brother russo” pelo big brother americano.

4 - Em que concerne à Crimeia, as coisas são mais claras e mais simples. Depois de ao menos quatro séculos, a Crimeia tem sido um território russo povoado essencialmente por populações russas. É também o lar da frota russa, com Sebastopol constituindo o ponto de acesso da Rússia aos “mares quentes.” Imaginar que Putin poderia tolerar que a Otan assumisse o controle dessa região é evidentemente impensável. Mas ele não precisava agir nesse sentido, pois durante o referendo de 16 de março, quase 97% dos habitantes da Crimeia expressaram inequivocamente seu desejo de se unir à Rússia, ou mais precisamente de retornar a ela, desde que eles foram arbitrariamente cortados em 1954 por uma decisão do ucraniano Nikita Khrushchev. Essa decisão de atribuir administrativamente a Crimeia à Ucrânia foi tomada na época no âmbito da União Soviética – portanto, sem grandes consequências – e sem qualquer consulta à população envolvida. A magnitude da votação de 16 de março, juntamente com uma participação de 80%, não deixa dúvidas sobre a vontade do povo da Crimeia. Falar nessas condições de um “Anschluss” da Crimeia, fazer a comparação com as intervenções da URSS na Hungria (1956) ou na Tchecoslováquia (1968), é, portanto, simplesmente ridículo. Denunciar este referendo como “ilegal” é ainda mais. A “revolução” de 21 de fevereiro de fato pôs fim à ordem constitucional ucraniana, uma vez que substituiu o poder de fato por um presidente eleito regularmente, o que levou à dissolução do Tribunal Constitucional ucraniano. É por esta razão que os dirigentes da Crimeia, estimando que os direitos desta região autónoma já não estavam garantidos, decidiram organizar um referendo sobre o seu futuro. Não se pode ao mesmo tempo reconhecer um poder nascido de uma ruptura da ordem constitucional, que liberta todos os atores da sociedade de suas restrições constitucionais, e ao mesmo tempo referir-se a essa mesma ordem constitucional para declarar “ilegal” o referendo em questão. Velho adágio latino: Nemo auditur propriam turpitudinem allegans (“Ninguém pode reivindicar sua própria torpeza.”)

Em apoiar no 21 de fevereiro último {2014} um novo governo ucraniano diretamente resultante de um golpe, os americanos também demonstraram que sua preocupação com a “legalidade” é relativa. Ao agredir a Sérvia, ao bombardear Belgrado, ao sustentar a secessão e independência do Kosovo em 2008, ao declarar guerra ao Iraque, ao Afeganistão ou à Líbia, eles mostraram também quão pouco tratam o direito internacional como um princípio da “intangibilidade das fronteiras” que eles invocam apenas quando este lhes convém. Além disso, os Estados Unidos parecem ter esquecido que seu próprio país nasceu de uma secessão da Inglaterra... e que a anexação do Havaí aos Estados Unidos, em 1959, não foi autorizada por nenhum tratado.

Os dirigentes europeus e americanos, que se arrogam a qualidade de únicos representantes da “comunidade internacional,” não contestaram o referendo que, há alguns anos, separou a ilha de Mayotte das Comores para a anexar à França. Eles admitem que em setembro próximo os escoceses poderão se pronunciar um por referendo sobre uma eventual independência da Escócia. Por que os habitantes da Crimeia não deveriam ter os mesmos direitos que os escoceses? Os comentários de dirigentes europeus e americanos sobre a natureza “ilegal e ilegítima” do referendo da Crimeia apenas mostram que eles nada entenderam sobre a natureza deste voto e que se recusam a reconhecer tanto o princípio do direito dos povos à autodeterminação a soberania do povo que é o fundamento da democracia

5 - Quanto às ameaças de “sanções” econômicas e financeiras brandidas pelos ocidentais contra a Rússia, elas nos emprestam um sorrizo, e Putin não errou ao dizer abertamente como eles são indiferentes a ele. Putin sabe que a União Europeia não tem poder, nem unidade, nem vontade. Com razão, ele não dá crédito a países que pretendem “defender os direitos humanos”, mas não podem prescindir do dinheiro dos oligarcas. Como disse Bismarck: “Diplomacia sem armas é música sem instrumentos”. Putin sabe que a Europa está deliquescente, que só é capaz de posturas e provocações verbais, e que os próprios Estados Unidos a consideram como quantidade negligenciável (“Foda-se a União Europeia!” {disse a enviada judia dos EUA para relações exteriores na Europa} Victoria Nuland). Ele sabe sobre tudo que se eles realmente desejassem “sancionar” a Rússia, o Ocidente se sancionaria, porque eles se exporiam a represálias em grande escala pelas quais obviamente não estão dispostos a pagar o preço. É a velha história do aspersor regado.

É suficiente recordar aqui que o gás e o petróleo russos representam cerca de um terço do aprovisionamento energético dos 28 países da União Europeia, para não falar da dimensão dos investimentos europeus, notavelmente alemães e britânicos, na Rússia. Hoje, contam nada menos que 6.000 empresas alemãs ativas no mercado russo. Na França, o ministro das Relações Exteriores {então em 2014}, Laurent Fabius, ameaçou a Rússia de não lhe entregar dois porta-helicópteros do tipo “Mistral” atualmente em construção nos estaleiros de Saint-Nazaire. Num país onde já contam mais de cinco milhões de desempregados, a consequência seria a perda de vários milhares de empregos... reembolso dos créditos que os bancos americanos acordaram às estruturas russas.

A Ucrânia hoje {2014} é um país arruinado. Terá a maior dificuldade em prescindir do apoio econômico da Rússia e remediar o fechamento do mercado da CEI {Comunidade dos Estados Independentes – organização intergovernamental regional envolvendo então 11 das 15 repúblicas que integravam a extinta União Soviética e que em 2014 a Ucrânia fazia parte ainda, se desligando em 2018} (a Rússia representou até agora 20% de suas exportações e 30% de suas importações). Alhures, nós mal vemos os europeus encontrarem os meios para lhe conceder um aporte financeiro que já nem mesmo querem mais conceder à Grécia: dada a crise que atravessa desde 2008, a União Europeia simplesmente não tem simplesmente mais meios de desbloquear somas de vários bilhões de euros. Uma presa de seus próprios problemas, começando com déficits colossais, os Estados Unidos vão querer sustentar a Ucrânia esticando os braços? Nós podemos duvidar. Cheques de Washington e do Fundo Monetário Internacional (FMI) não resolverão os problemas da Ucrânia.

6 – O futuro permanece por hora tão incerto quanto inquietante. O caso ucraniano não foi finalizado, mesmo porque ainda não está claro quem representa exatamente o novo poder ucraniano.[1] Se a Ucrânia optar por se ancorar resolutamente no Ocidente, a grande questão é como reagirá a parte oriental da Ucrânia, que é a mais pró-Rússia e a mais industrializada (a parte ocidental representa apenas um terço da produção do PIB). Como a Rússia, por sua vez, pode aceitar que um governo radicalmente antirrusso deve liderar um país onde metade da população é russa? Toda tentativa de impor uma solução pela força se arrisca terminar em guerra civil e, finalmente, na divisão de um país onde as principais linhas divisórias políticas, linguísticas e religiosas se sobrepõem largamente às linhas compartilhadas territoriais. Nós veríamos então uma reprodução do cenário que levou ao desmembramento da ex-Iugoslávia.

De imediato, o maior risco é o de uma deterioração da situação em Kyiv, acompanhada por uma série de iniciativas irresponsáveis ​​(criação de milícias, etc.)[2] e incidentes isolados que escalariam ao extremo. Nem a Europa nem a Rússia (que agora fortalecerá sua aliança militar com a China) têm interesse nisso. Do outro lado do Atlântico, por outro lado, não faltam partidários da guerra.[3]

7 – A explosão da mídia ocidental é indicativo de seu grau de submissão a Washington. Putin é regularmente descrito como um “novo czar”, um “KaGeBista”, um “neo-soviético”, mas também um “fascista” e um “marrom vermelho,” embora não tenha sido ele quem iniciou a crise na Ucrânia, e que ele, em vez disso, mostrou extraordinária paciência neste assunto. A Rússia é apresentada senão como uma “ditadura,” ao passo que nunca conheceu tal grau de democracia em sua história, pelo menos como um regime “insuficientemente liberal,” ou seja, não suficientemente complacente com as exigências da “abertura sociedade.” Mas, como Henry Kissinger muito bem viu, “diabolizar Putin não é uma política, mas uma forma de mascarar uma ausência de política”. Certamente, como eu disse acima, não há razão para considerar Putin como um “salvador” que pouparia os europeus de levarem seu destino eles mesmos em suas próprias mãos. A Europa não pretende ser o ramo ocidental de um grande império russo (a ideia de império não é redutível ao imperialismo). Por outro lado, tem o dever de admitir a necessidade de uma aliança com a Rússia de um grande projeto coletivo de uma lógica continental eurasiana, que é toda diferente.

A Rússia, por sua vez, teria todo o interesse em admitir o pluralismo de identidades de seus vizinhos “estrangeiros próximos”. A cólera ucraniana tem sido nutrida por uma tendência russa de negar a identidade ucraniana que não é imaginária, mesmo que às vezes tenha sido exagerada.[4] Provavelmente nós não teríamos chegado a isso se a Rússia tivesse tratado a Ucrânia de forma igualitária e recíproca. Numa lógica federal, as identidades locais devem ser respeitadas tanto quanto os direitos das minorias. As noções de descentralização, de autonomia e de regionalismo devem entrar na cultura política russa, assim como devem entrar na cultura política ucraniana, que visivelmente não está mais disposta (como mostra a incrível decisão do novo governo ucraniano de negar a língua russa estatuto de segunda língua oficial). A noção de zona de influência tem um significado, e esse significado deve ser reconhecido, mas os países “satélites” devem agora ceder lugar aos países parceiros e aliados. Como escreveu o croata Jure Vujic, o “grande projeto geopolítico eurasista europeu deve ser acima de tudo um projeto unificador, de cooperação geopolítica, fundado no respeito a todos os povos europeus e no princípio da subsidiariedade”.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas

[1] Nota de Mykel alexander:  Sobre a presença e influência do judaísmo internacional na Ucrânia ver:

- {Retrospectiva Ucrânia - 2014} Nacionalistas, Judeus e a Crise Ucraniana: Algumas Perspectivas Históricas, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 18 de abril de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/04/retrospectiva-ucrania-2014.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} O Fatídico triângulo: Rússia, Ucrânia e os judeus, por Israel Shamir, 25 de fevereiro de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/02/retrospectiva-2014-russia-ucrania-e-os.html  

- {Retrospectiva 2022 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - Bastidores e articulações do judaísmo {internacional} na Ucrânia, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 27 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2022-assedio-do-ocidente.html

- Crepúsculo dos Oligarcas {judeus da Rússia}?, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 17 de junho de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/06/crepusculo-dos-oligarcas-judeus-da.html  

[2] Nota de Mykel alexander: Sobre os grupos de direita ucranianos e sua ação na agitação ucraniana de 2014, bem como seus antecedentes articuladores ver:

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} A Revolução Marrom na Ucrânia, por Israel Shamir, 13 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/a-revolucao-marrom-na-ucrania-por.html 

[3] Nota de Mykel alexander:  Sobre o desdobramento da crise ucraniana refletindo na Rússia como resultado da articulação de neoconservadores americanos, democratas americanos e os segmentos do judaísmo internacional ver:

- {Retrospectiva 2008 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} Os Neoconservadores versus a Rússia, por Kevin MacDonald, 19 de março de 2022, World Traditional Front.

 https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/os-neoconservadores-versus-russia-por.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - As armas de agosto - parte 1, por Israel Shamir, 08 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2014-assedio-do-ocidente.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - As armas de agosto II - As razões por trás do cessar-fogo, por Israel Shamir, 15 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2014-assedio-do-ocidente_15.html

- Odiar a Rússia é um emprego de tempo integral Neoconservadores ressuscitam memórias tribais para atiçar as chamas, por Philip Girald, 18 de julho de 2018, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2018/07/odiar-russia-e-um-emprego-de-tempo.html

- {Retrospectiva 2021 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - Flashpoint Ucrânia: Não cutuque o urso {Rússia}, por Israel Shamir, 22 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2021-assedio-do-ocidente.html   

- {Assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia em 2022} - Neoconservadores, Ucrânia, Rússia e a luta ocidental pela hegemonia global, por Kevin MacDonald, 21 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/neoconservadores-ucrania-russia-e-luta.html 

[4] Nota de Mykel alexander: Sobre a relação do nacionalismo russo e ucraniano dentro do contexto da URSS ver:

- Nacionalismo e genocídio – A origem da fome artificial de 1932 – 1933 na Ucrânia, por Valentyn Moroz, 11 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/nacionalismo-e-genocidio-origem-da-fome.html

 


Fonte: Ukraine : la fin de la guerre froide n’a jamais eu lieu, por Alain de Benoist, 23 de março de 2014, Éléments.

https://www.revue-elements.com/ukraine-la-fin-de-la-guerre-froide-na-jamais-eu-lieu/

Sobre o autor: Alain de Benoist (1943 –) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.

Dentre seus livros foram traduzidos para português:

Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.

Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.

Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.

Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.

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{Retrospectiva 2021 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - Flashpoint Ucrânia: Não cutuque o urso {Rússia} - por Israel Shamir

{Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia}- As armas de agosto II - As razões por trás do cessar-fogo - Por Israel Shamir

{Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - As armas de agosto - parte 1 Por Israel Shamir

{Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} A Ucrânia em tumulto e incerteza - Por Israel Shamir

Neoconservadores, Ucrânia, Rússia e a luta ocidental pela hegemonia global - por Kevin MacDonald

Os Neoconservadores versus a Rússia - Por Kevin MacDonald

{Retrospectiva 2014} O triunfo de Putin - O Gambito da Crimeia - Por Israel Shamir

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{Retrospectiva 2014 - Rússia-Ucrânia-EUA-Comunidade Europeia} O pêndulo ucraniano - Duas invasões - Por Israel Shamir

{Retrospectiva 2013 - Rússia-Ucrânia-EUA-Comunidade Europeia} - Putin conquista nova vitória na Ucrânia O que realmente aconteceu na crise ucraniana - Por Israel Shamir

{Retrospectiva 2014 - Rússia-Ucrânia... e os judeus} O Fatídico triângulo: Rússia, Ucrânia e os judeus – por Israel Shamir

Odiar a Rússia é um emprego de tempo integral Neoconservadores ressuscitam memórias tribais para atiçar as chamas - Por Philip Girald


Sobre a difamação da Polônia pela judaísmo internacional ver:

Um olhar crítico sobre os “pogroms” {alegados massacres sobre os judeus} poloneses de 1914-1920 - por Andrew Joyce {academic auctor pseudonym}


Sobre a influência do judaico bolchevismo (comunismo-marxista) na Rússia ver:

Revisitando os Pogroms {alegados massacres de judeus} Russos do Século XIX, Parte 1: A Questão Judaica da Rússia - Por Andrew Joyce {academic auctor pseudonym}.  Parte 1 de 3, as demais na sequência do próprio artigo.


Mentindo sobre o judaico-bolchevismo {comunismo-marxista} - Por Andrew Joyce, Ph.D. {academic auctor pseudonym}

Os destruidores - Comunismo {judaico-bolchevismo} e seus frutos - por Winston Churchill

A liderança judaica na Revolução Bolchevique e o início do Regime soviético - Avaliando o gravemente lúgubre legado do comunismo soviético - por Mark Weber

Líderes do bolchevismo {comunismo marxista} - Por Rolf Kosiek

Wall Street & a Revolução Russa de março de 1917 – por Kerry Bolton

Wall Street e a Revolução Bolchevique de Novembro de 1917 – por Kerry Bolton

Esquecendo Trotsky (7 de novembro de 1879 - 21 de agosto de 1940) - Por Alex Kurtagić

{Retrospectiva Ucrânia - 2014} Nacionalistas, Judeus e a Crise Ucraniana: Algumas Perspectivas Históricas - Por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}

Nacionalismo e genocídio – A origem da fome artificial de 1932 – 1933 na Ucrânia - Por Valentyn Moroz


Sobre a questão judaica, sionismo e seus interesses globais ver:

Conversa direta sobre o sionismo - o que o nacionalismo judaico significa - Por Mark Weber

Judeus: Uma comunidade religiosa, um povo ou uma raça? por Mark Weber

Controvérsia de Sião - por Knud Bjeld Eriksen

Sionismo e judeus americanos - por Alfred M. Lilienthal

Por trás da Declaração de Balfour A penhora britânica da Grande Guerra ao Lord Rothschild - parte 1 - Por Robert John {as demais 5 partes seguem na sequência}

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Ex-rabino-chefe de Israel diz que todos nós, não judeus, somos burros, criados para servir judeus - como a aprovação dele prova o supremacismo judaico - por David Duke

Grande rabino diz que não-judeus são burros {de carga}, criados para servir judeus - por Khalid Amayreh

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Congresso Mundial Judaico: Bilionários, Oligarcas, e influenciadores - Por Alison Weir

Um olhar direto sobre o lobby judaico - por Mark Weber


sábado, 17 de setembro de 2022

Dealing in Hate {Lidando com o Ódio - contra a Alemanha} - por David McCalden (escrito sob o pseudônimo Lewis Brandon)

 

David McCalden
(pseudônimo Lewis Brandon)

Dealing in Hate, pelo Dr. Michael F. Connors. Edição do Institute for Historical Review, 1979. 40 páginas. Capa mole.

Revisão por David McCalden (escrito sob o pseudônimo Lewis Brandon)

Este novo livreto é uma excelente introdução para qualquer estudante de propaganda negra. O autor argumenta que nós temos sido deliberadamente manipulados para uma atitude de “ódio à Alemanha” e levados a acreditar que os hunos são muito mais propensos à guerra do que qualquer outra nação. Ele registra os surtos de guerra ao longo do século passado e mostra que a Alemanha cometeu muito menos atos de agressão do que seus vizinhos europeus.

Ele examina a manipulação da opinião pública através da invenção de rumores de atrocidades e mostra como algumas das mentiras – como a famosa “fábrica de sabão” – foram realmente recicladas durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo depois de terem sido expostas após o fim da Primeira Guerra Mundial![1] Ele conclui dando alguns exemplos das explosões histéricas e antigermânicas que emanam de fontes sionistas e censura autores como William L. Shirer que ainda continuam nessa vendetta neurótica.

{Para fazer download do livro acessar:
https://archive.org/details/dealing-in-hate-the-development-of-anti-german-propaganda-dr-michael-f-connors/mode/2up }

Embora o livro tenha sido escrito e publicado pela primeira vez em 1962, ele permanece mais fresco do que nunca nesta nova edição, com uma capa gráfica atraente. Deve-se continuar a partir daqui e ler The First Casualty de Phillip Knightly e Falsehood in Wartime de Arthur Ponsonby.[2]

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas

[1] Nota de Mykel Alexander: Ver:

- A fábrica de cadáveres - Uma infame fábula de propaganda da Primeira Guerra Mundial, Por Arthur Ponsonby, 02 de fevereiro de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/02/a-fabrica-de-cadaveres-uma-infame.html 

[2] Nota de Mykel Alexander: Ver:

- A fábrica de cadáveres - Uma infame fábula de propaganda da Primeira Guerra Mundial, Por Arthur Ponsonby, 02 de fevereiro de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/02/a-fabrica-de-cadaveres-uma-infame.html

 


Fonte: The Journal of Historical Review, verão de 1980 (Vol. 1, nº 2), página 184.

http://www.ihr.org/jhr/v01/v01p184_Connors.html

Sobre o autor: David McCalden (1951-1990) nasceu em Belfast, Irlanda do Norte. Frequentou a Universidade de Londres, Goldsmiths College, graduando-se em 1974 com um Certificado em Educação (Sociologia). Ele ajudou a organizar Hunt Saboteurs, um grupo contra caçadores de raposas, e editou seu diário. Em meados da década de 1970, ele atuou no National Front, um grupo nacionalista britânico. Por um tempo foi editor do Nationalist News e colaborador regular do jornal Britain First. David McCalden foi um ardente defensor dos direitos e interesses da população protestante da Irlanda do Norte. McCalden era um enérgico e tenaz intelectual que fez carreira no desconfortando os confortáveis e cômodos pontos de vista, ele se deliciava em desafiar de forma combativa as suposições ortodoxas, sendo fervorosamente antiautoritário e um defensor intransigente da liberdade de expressão e da investigação aberta.

Um ponto marcante em sua relativamente breve vida foi o de ser o fundador do Institute for Historical Review. Por dois anos e meio, e trabalhando com o pseudônimo de “Lewis Brandon.” McCalden foi o primeiro diretor do IHR. Ele organizou a primeira “Conferência Revisionista Internacional,” a principal reunião pública do IHR, realizada em setembro de 1979 na Northrop University, perto de Los Angeles. Ele supervisionou a produção de livros, fitas e folhetos revisionistas e fez aparições em programas de rádio. Em 1980 e no início de 1981, ele editou o Journal of Historical Review do IHR.

McCalden foi o autor de vários livretos, incluindo Nuremberg and Other War Crimes Trials, que apareceu em 1978 com o pseudônimo de “Richard Harwood (pseudônimo também usado pelo bacharel em História Richard Verral),” Exiles From History e The Amazing, Rapidly Shrinking ‘Holocaust’ (1987). Ele também produziu um vídeo baseado em suas visitas a Auschwitz e os locais de outros campos alemães durante a guerra, e seu exame cético das alegadas “câmaras de gás” dali.

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domingo, 11 de setembro de 2022

As raízes da civilização {resultado de acidentes ou da força criadora?} - por Alain de Benoist

 

Alain de Benoist


            A grande revolução cultural teve lugar há 35.000 anos. Se não mesmo mais cedo. “Parece”, escreve o professor Marshack, “que numa época tão recuada, durante o período glacial[1], o caçador da Europa ocidental usava já um sistema de notação evoluído e complexo, cuja tradição poderia já então remontar a vários milhares de anos. Esta notação procedia de uma técnica cognitiva, crono-factorizada e crono-factorizante”

            Trata-se, provavelmente, de uma das mais importantes descobertas do século em matéria de pré-história[2].

            Tudo começou no inicio dos anos sessenta. Alexander Marshack, sólido, jovial, encarregado de investigação no Museu Peabody de tecnologia e de arqueologia da Universidade de Harvard, interroga-se sobre o problema das “origens”. Procurava determinar a natureza dos processos mentais que poderiam ser os do homem dos tempos recuados.

            “Dentro dos limites da evolução da espécie”, observa ele, “o cérebro permaneceu uma constante desde há cem a duzentos mil anos”. Não há, pois “progresso da humanidade” mas uma transformação continua do mundo por um homem que se mantém o mesmo desde os mais recuados tempos. Se o fenômeno humano se constitui como um todo, a “cultura” é tão antiga quanto ele.

            “Pus então, como hipótese, que o homem anterior ao período histórico, o homem do período glacial, não diferia grandemente do homem contemporâneo. O que acima de tudo diferia eram os fatos, as ideia e as relações inculcadas no seu cérebro, mas não a sua maneira de funcionar, nem seus hábitos, as suas capacidades ou a sua inteligência.”

            Por outras palavras, o Homo sapiens[3] teria sido algo mais do que um “fabricante de utensílios”, capaz unicamente de reconhecer e de empregar formas. Ele teria consciência das noções de “depois” de símbolo e de tempo. O autor qualifica tal fato com um termo: as suas atividades teriam já sido “crono-factorizadas” (time-factored)

            Mas era ainda imprescindível fundamentar devidamente tal hipótese. Alexander Marshack pensa tê-lo conseguido. Decifrando ossos gravados.

Alexander Marshack 
 

As “frases” lunares

            Até aqui, os especialistas em pré-história, quando da descoberta de sinais gravados, contentavam-se com falar em “motivos decorativos” ou “marcas de caça” Parecia, contudo, conveniente uma mais cuidada análise.

            Entre 1965 e 1970, o professor Marshack estudou mais de um milhar de objetos pré-históricos, provenientes de nove países da Europa, tendo-os submetidos a minuciosa análise: fotográfica, moldagem, decalques e exames ao microscópio. Os resultados ultrapassaram todas as expectativas, detalhes houve que apareceram e que jamais tinham sido notados.

            Sobre a maioria dos objetos os coches, os pontos e as estrias que se encontravam dispostos em linhas ou em grupos apareceram como tendo sido gravados “em momentos diferentes, sob ângulos diferentes e com pontas diferentes sobre as quais tinham sido exercidas pressões diferentes”. Certos signos revelam a marca de um só golpe, outros, a de vários. As técnicas variam igualmente: simples golpes, em movimentos parcialmente torneados de utensílios, buracos largos e pouco profundos, buracos profundos e estreitos, etc. Torna-se difícil falar de coincidência. Constata-se uma bem precisa intenção. Qual? 

            “Essas marcas”, indica Marshack, “não foram feitas no mesmo momento, com o mesmo ritmo, o mesmo pensamento ou o mesmo utensílio. Pode-se, pois, dizer que são ‘crono-factorizadas’”...

            Prosseguindo os seus trabalhos, Marshack apercebeu-se de que, igualmente, as marcas se não encontravam dispostas ao acaso. Encontra-se, geralmente um numero múltiplo de vinte e nove ou trinta, o que deixa imediatamente entrever uma relação com os meses do ciclo lunar (o mais fácil de observar). Ora, no interior de uma mesma “sequencia”, os “subgrupos” de signos gravados correspondem exatamente as diferentes fases da lua. Obtém-se, assim, o que Marshack chama “uma frase lunar quase perfeita até nas suas próprias subdivisões.”

            No seu livro, abundante mente ilustrado, Marshack dá inumeráveis exemplos de tais “frases” e apresenta esquemas verificados por computadores.

            Cita, igualmente, peças características: o osso de la Marche (21 cm) cujas cento e vinte e uma marcas correspondem acerca de sete meses lunares; o osso de abri-Blanchard, na Dordonha, que apresenta, na sua face principal, uma linha dupla de sessenta e nove cúpulas arredondadas, para o traçado das quais se mudou de ponta vinte e quatro vezes; o galet de Barma Grande, etc.

 

Grandes caçadores

            O homem da pré-história dispunha, pois, de um “caderno de apontamentos das estações e das luas”. Sistema de anotação comum a todo o paleolítico[4] superior europeu, e de uma técnica já bem mais amadurecida do que a de certos sistemas encontrados já em épocas históricas, nomeadamente entre os índios da América do Norte.

            Na segunda parte do livro, o professor Marshack aproxima este sistema de notação das gravuras rupestres. Mais especialmente das representações de animais, de silhuetas femininas e de símbolos vulgares próprios do período aurignaciano[5]. O exame microscópico demonstra que estas figuras foram igualmente compostas em diversos períodos, que são, pois, igualmente “crono-factorizadas”. O que permite situa-las num contexto “dramático-narrativo” e ritual.

            Comentando estas descobertas, Henri de Saint-Blanquat escreveu em Sciences et Avenir: “as representações de animais podem, à sua maneira, trazer um testemunho. Um dos cavalos que se podem ver sobre o osso de la Marche revela, quando bem examinado, possuir três orelhas e três olhos, duas crinas e duas linhas por meio de três pontas diferentes, tal como os três olhos e as duas crinas. A estratigrafia das marcas demonstra que duas das orelhas foram gravadas após uma das crinas. Tudo se passa como se o cavalo tivesse sido “empregue” diversas vezes, a cada “utilização” correspondendo uma adição de órgão a gravura”.

            “Suponhamos”, acrescenta Marshack, “que um primeiro mês conta a história de um herói lunar que se faz devorar por qualquer espírito animal. Esta história poderia ser própria de uma estação do ano. Um segundo mês poderia, então, contar as aventuras do mesmo herói com qualquer outro animal sazonal ou qualquer espírito divino. A anotação poderia então sublinhar um momento narrativo ou simbólico destas aventuras, etc”

            Originada no ritmo essencialmente sazonal da vida no paleolítico, vê-se assim desenharem-se os contornos de uma religião de grandes caçadores, em que os ritos de fertilidade, por exemplo, seriam associados aos “antepassados” animais do clã: o mamute, a rena, o bisonte ou rinoceronte.         

            De passagem, Marshack afasta as interpretações “sexuais” ou psicanalíticas com as quais se satisfazem certos especialistas da pré-história. “A magia da fecundidade”, escreve, “não é senão uma das formas de participação na história e no mito que envolve a gravidez e o nascimento (...). A própria vulva é, ate um certo ponto, um símbolo não sexual, isto é, não copulador e não erótico, representando as histórias de processos que incluem o nascimento e a morte, a menstruação e os ciclos crono-factorizados ligados a natureza”        

            Ate onde remonta no tempo este sistema de anotação? É difícil sabê-lo. Marcas encontradas no osso de Pech-de-Lazé (-230.000 anos), o mais antigo dos ossos gravados ate hoje descobertos – foi encontrado em 1968, perto de Salat, pelo pré- historiador François Bordes – abrem perspectivas fantásticas ainda a explorar.

            A tradição, em todo o caso, manteve-se até o mesolítico e ao neolítico. Talvez até mesmo ao dealbar da História. A propósito de um calendário lunar gravados no alvião de Urgerlose (Dinamarca), Alexander Marshack escreve:

“Este calendário poderia explicar a presença de uma tradição de notação e de observação na Europa setentrional e central numa época em que as longínquas culturas agrícolas do sul praticavam uma tradição regional diferente. Poderia explicar a origem das varas-calendários e dos calendários rúnicos descobertos no norte da Europa na moderna era histórica. É igualmente possível que esta tradição europeia não seja de todo estranha aos extremamente tardios alinhamentos megalíticos de Stonehenge[6].”

 

Um papel revolucionário

 

Pré-história e escrita constituíam-se, até então, como termos contraditórios. Mas a linguística e a arqueologia haviam-nos já permitido franquear o muro que nos separava dos “milênios silenciosos”. Marschack vem-nos, agora, falar das “raízes da ciência e da escrita”.

 “Teríamos então”, faz notar Saint-Blanquat, “algo de semelhante a uma pré-escrita, uma notação pré-numérica, em suma, os alicerces sobre os quais, muito mais tarde, puderam ser edificadas a escrita verdadeira e a verdadeira numeração”.

 “Esta capacidade de anotar e de simbolizar”, acrescenta, “parece, de momento, pertencer apenas às culturas europeias do paleolítico superior (...). As antigas culturas europeias poderiam, assim, ter desempenhado um papel relativamente dinâmico, conformador e revolucionário em relação aos desenvolvimentos culturais posteriores”.

Tendo isto em conta, o homem pré-histórico surge a nossos olhos sob uma luz diferente. O hominídio primitivo, acocorado junto a fogueira, talhando o sílex ao longo do dia, apaga-se, para deixar lugar a um homem “acabado”, na posse de um conhecimento prático do tempo, do lugar, da direção, dos limites do seu território, capaz de descrever as suas experiências e de as exprimir por símbolos. Um homem, diz Marshack, de um “nível de evolução e de sofisticação a que se poderia dar o nome de proto-moderno”.

            A hominização surge, assim. Como ligada ao sentimento da diferença na duração. O “facto humano” caracteriza-se pela aparição de uma percepção “de dois andares”: o homem é um animal consciente de ter consciência. A dimensão histórica é, por excelência, a dimensão humana.

            À simples noção do homem fabricante de utensílios, diretamente derivada dos trabalhos de Darwin sobre a seleção natural e a luta pela vida, vem-se agora acrescentar a ideia de “homem crono-factorizante”. A arqueologia estava a correr sérios riscos de se tornar em “mania de colecionador” (Glyn Daniel). Mas eis que agora devem uma ciência auxiliar de etno-sociologia .

* * *

            “Les Racine de la Civilization”, ensaio de Alexander  Marshack, Plon, 415 paginas. {Originalmente publicado em inglês, 1972, como The Roots of Civilization

* * *

            Desde 1970 que as teses do professor Marshack não tem deixado de suscitar apaixonados arrebates. Após o aparecimento de “Racine de la Civilisation” nos Estados Unidos (“the Roots of Civilization: The Cognitive Beginnings of Mans First Art, Symbol and Notation”. Mac Grarc-Hill, New York, 1972),  a polemica estendeu-se a diversas disciplinas, enquanto que a imprensa assegurava à obra vasta publicidade (conf., nomeadamente “The New Post”, 16 de Maio de 1972; “the Washington Post” 17 de Abril de 1972; “Mosaic”, outono de 1972; Antiquity”, Dezembro de 1972; “The Bosnton Globe”, 2 de Dezembro de 1972; News-week”, 18 de Dezembro 1972). Numerosos especialistas, tal como Alan L. Movius Jr., da Universidade de Harvard, e Gerald S. Hawkins (autor de “Stonehenge Decoded”), do Smithsonian Astrophysical Observatory deram-se por convencidos. “Não é apenas a antropologia, mas toda a concepção do passado do homem que se encontra posta em questão”, observou Lewis Munmford, autor de “La Cité dans l’Histoire” (Seuil, 1972). “Um documento revolucionário”, acrescentou o professor Carlton S. Coon (“The Origin  f Races”, “The Living Races of Man”).

            Em Novembro de 1972, Alexander Marshack apresentou uma importante comunicação ao congresso antropológico de Toronto. Publicou igualmente uma atualização dos trabalhos em três artigos de primordial importância: “Cognitive Aspects of Upper Paleolithic Engravin” (in “Current Anthropology”, Junho-Outubro de 1972) e “Exploring The Mind of Ice Age Man” (in “National Geographic Magazine”, Janeiro de 1975).

            Em França, onde procedeu ao estudo de numerosas estações pré-históricas (Pech-Merl, Cougnac, Noaux, etc), Marshack publicou, em 1970, uma monografia, de caráter assaz técnico, que infelizmente passou quase desapercebida: “Notações nas gravuras do paleolítico superior” (Imprimerie Delmas, 6 place Saint-Christoly, 33000 Bordeaux). Sobre o acolhimento reservado a “Racines de la Civilisation”, podemos reportamo-nos ao artigo de Henri de Saint-Blanquat, em “Sciences et Aveir” (“um pithecanthope dessinateur”, Fevereiro de 1973) e no “Monde” de 27 de Dezembro de 1972. Cf. igualmente a interessante obra de Maxime Gorce, “Les Pré-Êcritures et l’Evolution dês Civilisations” (Klincksieck , 1974).

            Os trabalhos do professor Marshack inscrevem-se no quadro de uma reavaliação geral da antiguidade e da importância das culturas pré e proto-históricas da Europa ocidental e setentrional, que se desenvolveu, sobretudo, nos países anglo-saxônicos a partir dos anos 1965-1970. As obras-chaves sobre este assunto são a de Colin Renfrew (“Before Civilization”, “The Emergence of Civilization”), sobre a cronologia e as datações: de Alexander Thom (“Megalithic Luna Observatories”, “Megalithic Sites in Britain”), sobre a astronomia pré-histórica; e de John Daytoin (“Minerals, Metals Glaizing and Man”), sobre a tecnologia e a metalografia

            Colin Renfrew e Alexander Marshack estavam presentes no IX Congresso da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-Históricas, que teve lugar em Nice entre os dias 15 e 18 de setembro de 1976.

Notas e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas

[1] Nota de Mykel Alexander: “Período de arrefecimento do globo terrestre e de alargamento das massas glaciares. (...) Durante as glaciações, os territórios cobertos pelos gelos não puderam ser ocupados pelo homem. As zonas que rodeavam as calotas glaciares (...) permitiam, apesar da pobreza da sua vegetação, a subsistência de certas espécies animais. Explorando a caça, os caçadores (...) conseguiam sobreviver nas regiões submetidas a este clima (...)”.  Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Glaciações.

Os períodos glaciares vão desde antes de 650.000 anos até 10.000 anos. Entre cada período glaciar há os períodos de interglaciações. 

[2] Nota de Mykel Alexander: Período da humanidade que vai “desde os tempos mais recuados até ao aparecimento dos primeiros testemunhos escritos. Na ausência de textos, funda-se essencialmente na interpretação dos vestígios materiais que chegaram até nós.”  Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Pré-História. 

[3] Nota de Mykel Alexander: “Em 1735, Carl Linneu (...) situou, no seu Systema Naturae, o homem ao lado das outras espécies animais. Incluiu-o no gênero Homo com os antropoides (v. Primatas) e precisou a espécie como sapiens. Quando foram descobertas as outras formas antropídeos, a denominação de Lineu foi reservada apenas às formas modernas (...) Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Homo sapiens. 

[4] Nota de Mykel Alexander: O Paleolítico é o período arqueológico da era geológica quartenária a qual é caracterizada pela presença do homem e pela instabilidade climática, em especial as glaciações.

A era quartenária tem uma duração estimada, conforme o autor, entre 500.000 e 2 milhões de anos. As subdivisões adotadas pelos historiadores são o Paleolítico (a Idade da Pedra Lascada), o Neolítico (a idade da Pedra Polida), o período dos metais (as Idades do Cobre, do Bronze e de Ferro), e o período histórico.

“O termo foi criado por J. Lubbock em 1865, para designar a ‘Idade da Pedra Lascada’, por oposição ao Neolítico ou ‘Idade da Pedra Polida’”. O Paleolítico é dividido em Paleolítico Antigo ou Inferior, Paleolítico Médio, e em Paleolítico Superior. “O em Paleolítico Antigo ou Inferior, tem início com o aparecimento das primeiras indústrias humanas há, por certo, mais de um milhão de anos.”  Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. 

[5] Nota de Mykel Alexander: Um período do Paleolítico Superior. Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. 

[6] Nota de Mykel Alexander: Importante monumento situado na Inglaterra (na região de Salisbury) e pertencente ao final do período Neolítico. Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990; vocábulo Stonehenge.

 

Fonte: Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal. Capítulo As raízes da civilização.

Sobre o autor: Alain de Benoist (1943 –) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.

Dentre seus livros foram traduzidos para português:

Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.

Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.

Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.

Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.

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