terça-feira, 28 de agosto de 2018

Esquecendo: Shulamith Firestone (07/01/1945 – 28/08/2012) – Por Alex Kurtagić

28/08/2014
Alex Kurtagić

Há dois anos atrás, Shulamith Firestone foi encontrada morta. Uma figura chave na ruptura da radical Segunda Onda Feminista que ocorreu nos anos 60 e 70, ela foi membro fundadora do New York Radical Women, Redstockings, e do New York Radical Feminists. Apesar de transparecer depois que ela sofria de uma doença mental grave, o seu trabalho maldoso, A Dialética do Sexo: O caso da Revolução Feminista (1970), ainda é levado a sério nos dias de hoje.

        Shulamith Firestone, nascida Shulamith Bath Shmuel Bem Ari Feuerstein, filha de judeus ortodoxos residentes em Ottawa, Canadá. Depois de se mudarem para os Estados Unidos, seus pais “americanizaram” seu sobrenome quando ela ainda era uma criança. Cresceu no Kansas e St. Louis, ela estudou no Yavneh Rabbinical College of Telshe, em Wicklife, Ohio, uma das principais instituições no estudo da Torá. Em seguida, ela frequentou a Universidade de Washington em St. Louis, de onde se transferiu para a Escola do Instituto de Artes de Chicago. Lá, após os “ovesters[1]” necessários (semestre é patriarcal), obteve um BFA (Bacharel em Belas Artes) em Pintura. Ainda que Firestone tenha entrado para a “herstory {a história escrita de uma perspectiva feminina}” (História também é patriarcal) como uma feminista radical, ela se via principalmente como uma artista.


Shulamith Bath Shmuel Bem Ari Feuerstein, ou simplesmente Shulamith Firestone
Durante seu último ano como estudante de Artes, um documentário “cinéma vérité” (também conhecido como cine realidade) foi feito sobre ela. Feito em 1967, o documentário foi esquecido em um cofre sem ser visto, porém foi descoberto anos mais tarde por uma pós-moderna cineasta feminista chamada Elisabeth Subrin, que em 1997 fez uma edição revisionista quadro a quadro do original, eliminando a narração masculina deste último (patriarcal, novamente), substituindo por sua própria voz. O filme ganhou diversos prêmios, mas ninguém parece tê-lo assistido, exceto os juízes nos festivais de cinema onde foi exibido, e ninguém na IMDB se preocupou em dar-lhe uma nota diferente de 10. No Chicago Reader, um semanário alternativo em declínio para solteiros “hip” com 20 e poucos anos, Jonathan Rosenbaum decepcionado deu-lhe uma avaliação mediana. Firestone opôs-se à película e em 2012 Subrin retirou-a de circulação.

Chude Pamela Allen, judia
também, militante com Firestone
           Após se formar na Escola de Artes, Firestone se mudou para Nova Iorque, com a intenção de se tonar uma artista e escritora. Infelizmente, somos levados a entender que ela descobriu o mundo da arte alternativo e cuidado por pervertidos – o que nós podemos imaginar é um submundo politicamente esquerdista (não ao contrário de Hollywood) no qual as mulheres avançaram em troca de favores “especiais”. Em resposta, e em conjunto com outras feministas radicais – Robin Morgan, Carol Hanisch e Chude Pamela Allen, todas co-étnicas, ela co-fundou em outubro de 1967 o New York Radical Women. Por sua munição intelectual, extraídas das ideais da Nova Esquerda, sobre cujo titular fundador nós abordamos há pouco tempo. Aparentemente, como suas associadas, ruidosas e teimosas intratáveis, ela estava aborrecida com as ideias de feminilidade tradicional e ao fato de que os Direitos Civis e os movimentos contrários à Guerra do Vietnã serem dominados por homens.
Carol Hanisch, também judia, militante com
Shulamith Firestone.

Nessa época, Firestone participou da Conferência Nacional de Novas Políticas, a qual foi, felizmente, realizada somente uma vez. Juntamente com a ativista de Direitos Humanos Jo Freeman, ela liderou a bancada feminina, apenas para ser completamente apadrinhada pelo diretor do evento, William F. Pepper[2], que a tinha rejeitado como histérica e irrelevante. Isso só serviu para reanimar Firestone.

      O New York Radical Women protestou contra a edição de 1968 do Miss América (reconhecidamente, um concurso idiota, tendo hoje em dia mulheres magras com abdômen definido), no que foi a primeira grande manifestação do chamado “Movimento de Libertação das Mulheres”. Elas vieram com esfregões, potes e panelas, revistas Playboy, cílios postiços, sapatos de salto alto, rolos, spray de cabelo, maquiagem, cintas, espartilhos e sutiãs, pretendendo uma conflagração, mas tiveram que se contentar com apenas jogá-los no lixo, após preocupações de saúde e segurança serem expressas para elas. Elas argumentaram que esses itens eram “instrumentos de tortura feminina”. Não importa que o sapato de salto alto, por exemplo, foi inventado por Catarina de Médici[3], a mulher mais poderosa na França por 30 anos até sua morte em 1589, e uma patrona entusiasta das artes. Muito tempo lendo Marx e Freud, e muito pouco tempo educando-se em história, obviamente.

Robin Morgan, também judia,
militando com Firestone.
O NYRW durou 16 meses antes de se desintegrar em acrimônia. Feministas políticas como Robin Morgan, membro do Movimento Internacional Juvenil anarco-comunista, juntamente com o sociopata maníaco-depressivo e criminoso Abbie Hoffman[4], saíram para fundar o Women’s International Conspiracy fom Hell (W.I.T.C.H.) – um nome muito apropriado, de fato. Suas companheiras de queima de sutiãs incluindo Naomi Jaffe, que passou a fazer parte da organização terrorista Weather Underground. Por sua vez, as feministas radicais como Firestone, fundaram a Redstockings. Elas tomaram o nome de “bluestockings” (sabichonas), um termo pejorativo para as mulheres intelectuais, derivado do grupo literário de Elizabeth Montagu no século 18, o Blue Stockings Society. Red substituiu o Azul em deferência a associação do grupo com a esquerda revolucionária. Co-fundadora e camarada de Firestone era Ellen Willis, cujas críticas de autoritarismo se baseavam nas teorias de Wilhelm Reich, um charlatão condenado e ufólogo, e na psicanálise freudiana, uma pseudo-ciência[5]. Tal era a seriedade deste grupo, que Firestone viu um “boicote ao sorriso” como o protesto ideal.

Firestone deixou o Redstockings dentro de alguns meses, e juntamente com Anne Koedt, autora de The Myth of the Vaginal Orgasm {O Mito do Orgasmo Vaginal} (1970), fundou o New York Radical Feminists. O NYRF foi impulsionado por uma teoria da conspiração, segundo a qual os homens conscientemente subordinavam as mulheres para impulsionar seus egos. O grupo era um centro de propaganda enganosa.

Durante esse período e após dele, Firestone editou Notes from the First Year  {Notas do Primeiro Ano} (1968), Notes from the Second Year {Notas do Segundo Ano} (1970) e, com Koedt, Notes from the Third Year  {Notas do Terceiro Ano} (1971). Ela também viu a publicação de seu primeiro e único livro de teoria feminista, The Dialectic of Sex {A Dialética do Sexo}.

Agora, o feminismo radical deu à luz a uma ninhada de textos venenosos, neste momento, e este é um deles. Firmemente enraizada na tradição escolástica freudo-marxista, Firestone argumentou que a opressão das mulheres teve suas origens na biologia, que em seguida forneceu um modelo de dominação racial e socioeconômico. Ela via a gravidez e o parto como “bárbaros”, e advogou a destruição do núcleo familiar e a utilização da tecnologia para separá-las do sexo e da criação dos filhos. Sua visão utópica eram crianças ciberneticamente incubadas que não conheceriam os seus pais e seriam criadas por comunidades de voluntários aleatórios. Este texto define o tom para futuros esforços de feministas radicais para “libertar” as mulheres da feminilidade.

Além de que estavam a criar este estranho ódio a si mesmo, deve-se perguntar a si mesmo como alguém poderia pensar que uma mulher solteira de 25 anos, que vive em Nova Iorque, firmemente dentro de um ambiente étnico fortemente unido de solteironas feministas furiosas, que sabia absolutamente nada sobre maternidade e educação dos filhos. Em que base se pensava que a dela era uma ‘solução’ com autoridade para esses ‘problemas’?

Felizmente, quando apareceu o tedioso discurso, Firestone tinha-se tornado menos politicamente ativa. Por meados de 1970, ela havia sumido de vista. E posteriormente quase ninguém ouviu nada mais até o final dos anos 90, quando ela reapareceu com um novo livro, Airless Spaces {Espaços sem Ar}.

Acontece que Firestone sofria de esquizofrenia paranoide. Reclusa por causa de sua doença, ela viveu na pobreza em um quarto com uma cama de solteiro forrada de livros[6], entrando e saindo de instituições de saúde mental. Espaços sem Ar é um relato ficcional da sua vida como um doente mental regular. O livro é curto, mas triste e angustiante de ler. E embora obscuro, é de mérito muito maior do que o alegado “magnus opus” da teoria feminista, por revelar a triste realidade de indivíduos cujas lutas são conhecidas a muito poucos.

Pouco depois, Firestone retirava-se de volta para a reclusão. Ela não mantinha contato com ninguém, e apenas uma pessoa – descrita como “abertamente lésbica” – era confiável de visita-la de vez em quando[7]. Parece que por um tempo, ela trabalhou em um romance de ficção cientifica, mas decidiu jogar fora o manuscrito, alegando que tinha mostrado a um leitor e disseram que ela tinha plagiado a ideia do leitor[8]. Ela sobreviveu com benefícios do Estado e, possivelmente, com apoio financeiro de sua família.

Em 28 de agosto de 2012, sua vizinha encontrou seu corpo sem vida no chão do de seu apartamento, tendo morrido mais de uma semana antes[9].

Nessa perspectiva, parece-me evidente que The Dialectic of Sex {A Dialética do Sexo}, ao invés de um sério trabalho teórico, como muitas feministas insistem em tratá-lo, precisa ser reclassificado como uma obra de literatura, talvez uma obra de ficção científica sob o disfarce de um trato, mais dentro da disciplina de Hans Prinzhorn {médico psiquiatra e historiador da arte, alemão, (1886 – 1933)} do que no âmbito de departamento de estudos femininos de uma universidade. Fazer o contrário é pura maldade. Não que a doença mental seja motivo suficiente para descartar o trabalho intelectual de uma pessoa: Cesare Lombroso {médico, criminologista, pesquisador judeu italiano (1835 – 1909)} mostrou em 1891 que vários homens de gênio foram afligidos por uma ou mais condições psicopatológicas e nem por isso eles possuem menos méritos. Temos de fazer nossa avaliação caso a caso. E, quando se trata de feminismo radical, muito disto é dirigido por puro e simples ódio aos homens. Isto se torna evidente quando examinamos as vidas de algumas das principais feministas radicais. Valerie Solanas veio de um lar profundamente disfuncional; ela também sofria de esquizofrenia paranoide e acabou dando tiros em Andy Warhol, pelo qual ela foi condenada e sentenciada a três anos de prisão. No seu The S.C.U.M. Manifesto. que ela escreveu: “Chamar um homem de um animal é agradar-lhe; Ele é uma máquina, um vibrador ambulante”. (A proposito, ela aparece em Airless Spaces, sem teto e implorando por um prato de comida). Andrea Dworkin tornou-se uma feminista radical depois de ter sido gravemente abusada pelo seu primeiro marido, Cornelius Dirk de Bruin, um colega ativista radical envolvido no movimento de protesto da Guerra do Vietnã. Mary Daly não tinha experiências reais com homens, sendo lésbica (Eu não penso sobre os homens. Eu realmente não me importo com eles). E Phyllis Chesler cita suas experiências no início dos anos 1960 com seu marido afegão em Kabul como inspiradora a tornar-se uma feminista ardente. Como era costume para mulheres estrangeiras no Afeganistão, ela foi obrigada a entregar seu passaporte americano para as autoridades e viveu como uma prisioneira virtual na casa polígama dos sogros.

Na verdade, é dito que Firestone pediu que The Dialecting of Sex {A Dialética do Sexo} fosse retirado de impressão logo após a saída de uma nova edição, mas ficou feliz por Airless Spaces {Espaços Sem Ar} continuar disponível.

O caso de Firestone deve, portanto, ser tratado com compaixão. Na verdade, é uma tragédia que ela tenha tido sua mente envenenada por ideias feministas Freudo-Marxistas e radicais, em primeiro lugar, porque a feminilidade tradicional pode render pelo menos uma existência financeiramente mais confortável com o apoio de um cônjuge amoroso. Ironicamente, tal contexto poderia ter oferecido melhores oportunidades para ela prosseguir com seus esforços artísticos e até, talvez, a retirada de sua medicação durante os períodos em que trabalhava em projetos (Firestone havia relatado que os anti-psicóticos embotavam sua mente). Firestone foi, na realidade, uma vítima, e o feminismo radical a levou ao único fim possível: isolamento. O desprezo deve ser direcionado para os enganadores da politização de gêneros que promovem e transmitem como teorias sérias, ideias praticamente insanas para difundir o ódio na sua falsa guerra dos sexos. Sua militância é chamada de “esquerda lunática” com razão.

Tradução por Daniel Falkenberg
Palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas


[1] Nota do tradutor: “Ovesters” (12ª linha) é uma palavra inventada, para ser utilizada no lugar de "semestre", pois algumas feministas ignorantes pensam "semestre" tem algo a ver com o sêmen. Isso não é correto, “semestre” vem de “cursus semestris” em latim, que significa “um curso de seis meses”. “Sémen" significa “semente” em latim enquanto “óvulo” significa “ovo”.

[2] Nota do autor: William F. Pepper atualmente está associado com teorias da conspiração, incluindo o 9/11 Truth Movement.

[3] Nota do autor: David C. Saidoff, Stuart C. Apfel, The Healthy Body Handbook: A Total Guide to the Prevention and Treatment of Sports Injuries (New York: Demos Medical Publishing, 2004).

[4] Nota do autor: Kerry Bolton, The Psychotic Left (London: Black House Publishing, 2013) 168 - 173.

[5] Nota do autor: Kevin MacDonald, 'Freud's Follies', Skeptic, 4(3), 94–99.

[6] Nota do autor: Kevin MacDonald, 'Freud's Follies', Skeptic, 4(3), 94–99.

[7] Nota do autor: “Shulamith Firestone, escreveu o best-seller, 67”. The Villager. 30 de Agosto de 2012. Web. Recuperado 27 de agosto de 2014.

[8] Nota do autor: “Shulamith Firestone, escreveu o best-seller, 67”. The Villager. 30 de Agosto de 2012. Web. Recuperado 27 de agosto de 2014.

[9] Nota do autor: Jennifer Baumgardner, 'On Firestone, Part 2', n + 1 magazine . 26 de Setembro de 2012. Web. Recuperado 27 de Agosto de 2012.






Sobre ou autor: Alex Kurtagić (1970 – ) nasceu na Croácia filho de pais eslovenos. Devido a profissão do pai, viajou e viveu em vários países. Tem fluência em inglês e espanhol, e pratica o francês e alemão. Após completar os estudos nos EUA graduou-se na Universidade de Londres (M.A. entre 2004 – 2005) em Estudos Culturais. Também é músico, desenhista, pintor, escritor e editor (Wermod and Wermod Publishing Group). Seus artigos são publicados nas revistas virtuais The Occidental Quarterly, Vdare, Counter Currents, Taki Mag, e American Renaissance.

_________________________________________________________________________________

Relacionado, leia também:

Esquecendo Trotsky (7 de novembro de 1879 - 21 de agosto de 1940) - Por Alex Kurtagić

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Esquecendo Trotsky (7 de novembro de 1879 - 21 de agosto de 1940) - Por Alex Kurtagić

21/08/2014

Alex Kurtagić
            Leon Trotsky morreu há 74 anos atrás hoje {em 2014}. Ele foi um teórico e revolucionário marxista, comissário soviético, primeiro líder do exército vermelho, e fundador da Quarta Internacional. Trotskismo, sua teoria do marxismo envolveu apoio para um partido de vanguarda da classe operária, internacionalismo proletário, a necessidade pela ‘revolução permanente’, e advocacia de uma Frente Unida de revolucionários e trabalhadores através do mundo opondo-se ao capitalismo e fascismo.

            Ele nasceu como Leiba Davidovich Bronstein em 7 de novembro de 1879. Ele foi uma de oito crianças. Seus pais, David Leontyevich Bronstein (1847 – 1922) e Anna Bronstein (1850 – 1910) eram ricos fazendeiros judeus de classe média, sediados em Yanovka, a qual agora é no sul da Ucrânia.

            David não era um judeu observante, e o que ele desejava mais para seu filho era que ele não ficasse em desvantagem educacional, como ele tinha estado. Para este propósito ele estava contente em enviar Leiba para uma escola cristã. Na idade de 9 ele foi para Odessa, onde ele foi matriculado em uma escola alemã, St. Paul’s Realschule. A cidade, fundada por Catarina a Grande, tinha sido um livre porto intermediário por aproximadamente 40 anos, e na qual tinha se transformado em um fervilhante caldo de etnias, nacionalidades e religiões – um ambiente que pode ter influenciado sua visão. Como um estudante, Leiba era brilhante, de forte pegada, e confiável. Ele viveu com seu primo Moshe Shpentser e sua esposa Fanni. Moshe ensinou a ele urbanidade e polidez. David estava orgulhoso de seu filho e fez questão de mantê-lo no caminho reto: um filho mais velho, Alexander, não tinha ido nem de longe tão bem na escola, e tinha ainda conseguido se formar como um médico. Leiba mostrou tanto a inteligência e a ambição para realmente fazer alguma coisa por si mesmo.

Trotsky jovem.
            Enquanto ainda com 15 anos de idade, Bronstein moveu-se para Nikolaev, empenhado em se tornar um matemático. Isto foi contra os desejos de seu pai, que pensou que uma carreira de engenharia iria ser mais lucrativa; ainda, o obstinado adolescente não prestou atenção. Ele mesmo associou-se com o racionalismo e progresso. Agora, se ele tivesse se apegado nos exercícios de cálculo integral e na régua de cálculo, a história poderia ter sido diferente, mas, infelizmente, depois de um par de anos, ele se misturou com uma multidão podre, se entediou com matemática, e adentrou permanentemente no caminho errado. Isto muito para aflição de seu pai que tinha quebrado as costas nos campos para pagar sua educação.

            Como é sempre o caso, isso aconteceu pela oportunidade: na Nikolaev Realschule, onde ele estava matriculado, ele se deparou com Vyacheslav Shvogovski, que tinha um irmão mais velho intelectual já no final de seus vinte anos, Franz. Não mais sob o atencioso olhar de Shpentser, ele, Bronstein estava livre para fazer as coisas como quisesse. E conseguiu conhecer este Franz. Agora tanto ele e outro mais jovem aderiram às ideias revolucionárias e eram tolerantes para com o marxismo. Eles tinham um círculo de amigos muito interessados em política, e eles se reuniam para discussões no jardim de Franz. Este círculo de amigos incluía Alexandra Sokolovskaya, uma ‘obstinada’ marxista. Leiba juntou-se a este círculo e tornou-se aproximado com a literatura deles. Não somente isto, mas ele descobriu que gostava desta liberal atmosfera intelectual muito mais que à da família Bronstein. Ele adotou o nome russo Lëva (diminutivo de Lev) e tornou-se um narodnik (populista revolucionário).

            Depois de um tempo, a discussão não mais era suficiente; o grupo decidiu que eles queriam ação. Bronstein jogou-se ele mesmo na propaganda revolucionária comunista criativa com grande deleite, e estava logo fazendo nome para ele mesmo na cidade, forrando as ruas com panfletos e proclamações, vomitando ideias socialistas entre os estudantes e trabalhadores industriais ingênuos.

            Naturalmente, isto poderia não terminar bem, e pelo início de 1898, ele tinha sido preso e encarcerado. De fato, eles tinham estado sob vigilância por um tempo – o governo do czar não era estúpido. Transferido de uma prisão à próxima, ele terminou em Moscou, onde ele encontrou outros condenados com ideias revolucionárias, ouviu falar sobre Lenin e leu seu livro O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Nosso chapa já tinha sido introduzido no marxismo três anos antes, e Alexandra, que não era flor que se cheire, tinha estado a ganhar influência sobre ele, apesar de ser um valentão intelectual, embora ele tinha ainda o discernimento suficiente para resistir o veneno. Infelizmente não por muito tempo: influenciado por criminosos e pela diatribe de Lenin, ele finalmente sucumbiu e tornou-se um pleno marxista. Dentro de dois meses de seu encarceramento, o recém-formado Partido Trabalhista Social Democrata Russo realizava seu primeiro congresso, após o qual Bronstein identificou-se ele mesmo como um membro.

            Durante os dois anos de espera por seu julgamento, Bronstein e a agora companheira de gaiola Alexandra se apaixonaram. Um capelão judeu casou eles em 1900. O tempo estava tramando para manter eles juntos, por  causa que Bronstein estava então sentenciado e ele não teria casado então com a garota, se ele  tivesse tido de desfrutar seus quatro anos de exílio na Sibéria, não somente congelando, mas também em celibato.

            Pelos próximos dois anos, Bronstein estudou os clássicos marxistas. Ele poderia ter estudado filosofia, e conhecer o amor pela sabedoria; ao invés, ele aprendeu a reconhecer as correntes do partido. Uma facção não estava aborrecida sobre a questão da mudança de governo, e cuidava somente por melhores condições para os trabalhadores; a outra queria derrubar a monarquia e pensou ser essencial ter um bem organizado e disciplinado partido revolucionário. Bem, adivinhe qual lado este companheiro escolheu? Claro, Bronstein se aliou com o pior do lote e começou  escrever para o órgão de propaganda deles, Vostochnoe obozrenie. Ele também envolveu-se com a erupção das ‘organizações democráticas’ ao longo da ferrovia transiberiana, produzindo folhetos escritos à mão e proclamações. 

            Então, tendo apenas sido pai de duas meninas, ele decidiu fugir, abandonando sua esposa e os dois bebês nos ventos da Sibéria para se defender da melhor forma possível no inverno que se aproximava. Ele posteriormente alegou que Alexandra apoiou sua decisão, mas isto foi uma mentira[1]. O grande homem ansiou o palco do mundo, e ele não ia deixar uma família ficar em seu caminho. Bronstein foi à frente, escondendo-se em um vagão cheio de feno. Alexandra viu o resto de sua sentença, mas neste então, Bronstein, o canalha ingrato, tinha pego uma nova amante em Paris – Natalya Sedov – e o casamento terminou em divórcio. As garotas foram transferidas para outros parentes, e Alexandra iria, muitos anos depois, ser engolida pelo Grande Terror, terminando seus dias na Sibéria, meramente por causa que ela um dia tinha sido casada com este homem, enquanto Trotsky expôs-se ele mesmo à luz na Cidade do México. 

            Foi nesta conjuntura que Bronstein mudou seu nome, assumindo ‘Trotsky’ a partir de um carcereiro que ele tinha conhecido em Odessa. Da Sibéria ele foi para Londres, onde ele se juntou aos editores do Iskra, do qual ele tornou-se um assíduo contribuidor. Isto chamou a atenção de Lenin e, vendo uma promessa no convicto fugitivo de 23 anos de idade, ele usou-o como um peão em suas manobras políticas visando assumir o controle da publicação da ‘velha guarda’ dentro do conselho editorial, então liderado pelo fundador do marxismo russo, Georgy Plekhanov. (Lenin tinha o ‘Nova Guarda’, junto com Julius Martov).

            Os políticos comunistas eram um assunto sujo e bagunçado, contudo, não demorou que Trotsky se virasse contra seu mentor. Depois de anos de prisão, condenações, e confusão interna, em 1903 o RSDPL gerenciou uma reunião num segundo congresso do partido, o qual ocorreu primeiro em Bruxelas, mas que, não bem vindo pela polícia belga, foi então forçado a reuniões numa fumacenta sala do English Club em Charlotte Street em Bloomsbury {uma área do centro de Londres, Inglaterra}. Apoiadores do Iskra, os quais constituíam 60% dos delegados, brigavam sobre pontos no programa e caíram em cima de pontos sobre a redação e definições de filiação. Todos queriam clandestinidade. Mas Lenin queria um partido de profissionais revolucionários barra pesada, enquanto Martov queria uma adesão mais solta. O voto favoreceu Martov, mas alguns então mudaram suas ideias e saíram raivosamente, deixando Lenin em posição de maioria, apoiado por Plekhanov, que iria subsequentemente açoitá-lo com críticas. Por conseguinte, o Iskraits dividiu-se em Bolcheviques (facção majoritária) e Menchevique (facção minoritária). Martov representou esta designação, e Trotsky foi com ele, o qual levou Lenin a denunciá-lo como um ‘Judas’, um ‘canalha’, e um ‘suíno’.

            Mas no dia seguinte Trotsky também mudou sua mente e deixou os mencheviques. No verão, cansado das disputas de facções e da mudança de lados de uma hora para outra, ele se mudou para Munique, onde encontrou Alexander Parvus (nascido como Israel Lazarevich Helphand, ou Gelfand, um teórico marxista que tinha sido descarrilhado quando jovem pelas ideias socialistas de Alexander Herzen, um precursor ideológico para o Narodniki. Parvus tinha reavivado a ideia de Marx de ‘revolução permanente’ e transmitiu a um muito atento Trotsky suas visões sobre ela.

Os três judeus  marxistas Alexander Parvus, Leon Trotsky e  Lev Deutsch
            O ano de 1905 começou com agitação em São Petersburgo. Uma greve de fábrica tornou-se uma greve geral, a qual terminou com uma marcha para o Palácio de Inverno do Czar em 9 de janeiro. Liderada por Georgi Gapon, um padre ortodoxo de origem camponesa que tinha se tornado envolvido com trabalhadores de fábricas, a marcha pretendia que o Czar proclamasse os direitos civis universais. Ela foi pacífica, e a união de Gapon legal, mas a atmosfera estava tensa e os guardas do Palácio atiraram neles, matando centenas de indivíduos. Isto tornou-se conhecido como Segunda-Feira Sangrenta.

            Vendo uma oportunidade, Trotsky voltou para a Rússia, onde ele rapidamente colocou-se a trabalhar disseminando propaganda, misturando indiscriminadamente com bolcheviques e mencheviques. Estes últimos ele trabalhou para radicalizá-los, mas eles tinham sido infiltrados pela polícia secreta e Trotsky foi forçado a fugir por todos os caminhos para a área rural da Finlândia. Lá ele pegou a ideia de Parvus da ‘revolução permanente’ e tocou com ela, resultando nos artigos que posteriormente foram recolhidos em dois volumes, 1905 e Revolução Permanente

            Em seguida foi a vez de Moscou ser paralisada por greves. Como antes, ela começou com uma fábrica e espalhou-se em outros lugares: dentro de duas semanas, o inicial avanço da greve na tipografia Sytin tinha se espalhado para os tipógrafos de toda Moscou e São Petersburgo, e de lá para a ferrovia Moscou-Kazan. E, como antes, vendo uma oportunidade, Trotsky escorregou para a Rússia, onde ele novamente colocou-se a disseminar propaganda. Com Parvus, ele assumiu a Gazeta Russa e aumentou sua circulação de 30,000 para 500,000 cópias. Trotsky também se juntou ao soviete de São Petersburgo[2], do qual ele tornou-se seu vice-presidente e então presidente depois da prisão de seu líder. Um orador capaz, ele mesmo começou eclipsando politicamente Lenin. Contudo, os bons tempos não eram para durar, por volta de dezembro ele foi preso e encarcerado sob acusações de apoiar rebelião armada, e em outubro de 1906 ele foi devidamente julgado e condenado. Sua sentença: Exílio na Sibéria.

            Mas nesta ocasião Trotsky nem mesmo foi para tal região; ele escapou  durante o percurso e retornou para Londres, a tempo de assistir o congresso do RSDLP, então em sua quinta iteração. Ele então retirou-se para Viena, onde além de participar das atividades de ambos partidos social-democrata da Áustria e Alemanha, ele fez amizade com Adolph Joffe, um emigrante russo que tinha também tido sua mente envenenada pelas ideias sociais-democráticas enquanto ainda na escola. Juntos eles lançaram o Pravda, ostensivamente, um jornal bissemanal, o qual era então contrabandeado para dentro da Rússia – quando ele apareceu, isto é, por causa que Trostsky não pôde manter regularidade, e gerenciou somente cinco números no primeiro ano. O fato é que, já nas necessidades básicas para o jornal Trotsky tinha de contar seus centavos para continuar avançando, e foi forçado a pedir esmola para o Comitê Central Russo. Ele finalmente conseguiu instaurar um órgão central financiado pelo partido, aproveitando-se do antigo requerimento de Lenin de ter um bolchevique como coeditor através do nepotismo: ele instalou seu cunhado nesta posição. O cunhado, contudo, pediu demissão acrimoniosamente e Trotsky mais ou menos conseguiu gerenciar o jornal  em atividade até abril de 1912, quando ele finalmente faliu.

            Naquele mesmo mês, contudo, os bolcheviques de Lenin iniciaram o próprio jornal deles, chamando ele também de Pravda. Trostsky estava inflamado pela usurpação, e escreveu uma carta rancorosa denunciando Lenin. Ela foi interceptada pela polícia e eles arquivaram-na para uso futuro. Posteriormente, os inimigos comunistas de Trotsky tramaram para desenterra-la afim de embaraçar ele.

            Agora, se Trotsky era ruim, Lenin era ainda pior, por causa de um dos desacordos que aquele e os mencheviques tinham com Lenin que era a política bolchevique de financiamento do partido deles através de assaltos armados. O 5º congresso tinha mostrado o suficiente de consciência para banir esta prática, mas os bolcheviques não se importavam, e Lenin teve seus oponentes expulsos do partido. Trotsky tentou reunir o partido em Viena, mas falhou.

            Ainda em Viena, enquanto um jovem Adolf Hitler ganhava a existência como operário e colorista de aquarela boêmio, Trotsky manteve-se espalhando agitação para vários jornais russos e ucranianos, sobre a cobertura de vários pseudônimos. Enquanto um correspondente nos Balcãs para lá cobrir a guerra, ele tornou-se amigo de Christian Rakovsky, que posteriormente provou-se útil para ele, pois ele iria tornar-se um líder político soviético e um aliado dentro do Partido Comunista Soviético, até Stalin pegar ele.

            Ele estava de volta em Viena em 1913, mas a Grande Guerra eclodiu no ano seguinte, e com a Áustria-Hungria lutando contra o Império Russo, Trotsky, encarou uma prisão como um emigrante russo, fugiu para a neutra Suíça.

            A guerra realinhou completamente o RSDLP. Agora Lenin, Trotsky, e Martov estavam no mesmo lado, opondo-se a guerra. Trotsky gastou algum de seu tempo escrevendo um livro contra a guerra (A Guerra e a Internacional), e então foi para a França como um correspondente de guerra para o Kievskaya Mysl. Em Paris, ele começou editar ainda outro jornal. Nashe Slovo, inicialmente com Martov, que brevemente se tornou descontente conforme o jornal guinou ainda mais para a esquerda. Trotsky também participou de um congresso anti-guerra de socialistas. Não muito depois disto, as autoridades francesas decidiram que eles tinham já o suficiente, e deportaram Trotsky para a Espanha. A Espanha, todavia não quis ele, e rapidamente passou ele para os Estados Unidos, um número daqueles poderosos financistas estava já financiando os bolcheviques. Trotsky chegou em Nova Iorque em janeiro de 1917 e  pegou uma residência no Bronx.

            E ele não perdeu tempo: escreveu artigos para um jornal socialista local em linguagem russa e para um diário yiddish, e usou sua oratória para agitar emigrantes russos. Oficialmente ele viveu com $15 semanais.

            Em março de 1917, o que era ainda fevereiro na Rússia, desde que eles utilizavam o calendário Juliano, o Czar Nicolau II abdicou, abrindo caminho para o Governo Provisório russo. Trotsky zarpou de volta para a Rússia, onde ele chegou com algumas vicissitudes em maio. Ele apoiou os bolcheviques e se juntou à Mezhraiontsky, uma organização social-democrática regional baseada em São Petersburgo, e tornou-se um líder. Em agosto ele foi uma vez mais preso, mas, tolamente, ele foi solto depois de somente 40 dias. Em outubro (calendário Juliano)  os bolcheviques tinham invadido  o Palácio de Inverno e pelo final do ano, com os bolcheviques firmemente no poder, Trotsky era segundo em poder apenas abaixo de Lenin.     

            Lenin queria sair da guerra, então Trotsky foi feito Comissário de Assuntos Estrangeiros e enviado para negociar com os alemães. Novamente, existiam divisões. Comunistas da esquerda queriam a inteira Europa sob as garras soviéticas e nenhuma paz com um país capitalista. Lenin temia que os militares herdados da Rússia estavam caindo em pedaços, e ele imaginou que o recém formado Exército Vermelho, o qual era débil e consistia de  camponeses mau treinados, era uma piada de mau gosto, particularmente depois de ter seus traseiros chutados pelo disciplinado exército alemão; sua principal preocupação era manter o poder. Por isso, ele defendeu um tratado de paz com a Alemanha capitalista no caso de um ultimato, embora ele estava disposto a afogar o negócio tanto quanto fosse possível. Trotsky também reconheceu a inutilidade do Exército Vermelho, mas ele era contra um tratado, achando que isso seria um golpe na moral e prestígio soviético. Eventualmente, a cara foi salva pelos usuais meios: submetendo o assunto para o voto, dispersando assim a responsabilidade. E conforme o Comitê Central Bolchevique votou em favor de um tratado da paz, este último foi devidamente assinado e Trotsky não viu opção alguma a não ser demitir-se.  

            (Tratado da paz ou não, a Alemanha perderia a guerra, e o já mencionado Hitler, agora um soldado no exército alemão, iria aprender disto enquanto se recuperava da cegueira decorrente de um ataque de gás mostarda. Ele iria culpar a mão dos agitadores marxistas de traição dentro do front alemão, e isto brevemente iria colocar ele em um curso de colisão com o bolchevismo.)  

            Na época de sua demissão, Trotsky tinha já formado um Conselho Militar Supremo, para resolver a situação do Exército Vermelho, e dentro de dias ele foi apontado Comissário do Povo para os Assuntos do Exército e da Marinha, e presidente do conselho acima mencionado.  Em um pleno controle do exército, Trotsky respondia somente para a liderança do Partido Comunista. Ele tomou medidas duras: recrutamento forçado, esquadrões de bloqueio comandados pelo partido, obediência compulsória, oficiais escolhidos pela liderança, e comissários políticos. Naturalmente e pena de morte era essencial, soldados tinham de encarar a possibilidade de morte no fronte, e a morte certa na retaguarda.

Os três judeus marxistas-bolcheviques Leon Trotsky, Vladmir Lenin e Lev Kamenev: Comunismo entrando na Rússia.

            A Rússia era agora um estado de guerra civil, então Lenin apontou um Politburo[3], consistindo de cinco membros, dois dos quais eram Trotsky e Joseph Stalin, o ‘homem de aço’. Trotsky enviou Stalin para Tsartsyn, onde, com novos aliados, Stalin impôs sua vontade sobre o exército, desafiando muitas das decisões de Trotsky. O Homem de Aço organizou matanças em massa de contrarrevolucionários, o incêndio de aldeias, e a execução pública de desertores e renegados, bem como de traidores.

            Trotsky era vaidoso, arrogante, espinhoso, egoísta, e dominador, e como um líder ele rotineiramente pisava nos dedos e dava cotoveladas nas pessoas ao lado, sem se incomodar em não se desculpar, por isso não é surpreendente que em muito pouco tempo sua liderança veio a estar sob ataque. Stalin para cujo acampamento foram muitos dos quais Trotsky tinha ofendido e perturbado, encorajou as críticas com gosto. A situação veio a um ponto culminante e Stalin tinha já pressionado Lenin para despedir Trotsky, mas quando o último antecipou isto ao propor sua renúncia, e foi recusada, ele sobreviveu por então.

Trotsky retratado num poster polonês de 1920

            Em 1920, o último ano da Guerra Civil Russa, Trotsky queria focar em reconstruir a economia, mas Lenin estava fixado em guerrear pelo Comunismo, e encarregou Trotsky de militarizar as ferrovias enquanto permitia-o manter o controle do Exército Vermelho. A Guerra Polaco-Russa então eclodiu, e Trotsky pensou que exército estava exausto demais para fazer qualquer outra coisa que assinar um tratado de paz tão rapidamente quanto possível, mas a demoníaca sede de sangue de Lenin não tinha sido saciada ainda. De fato, tanto quanto ele estava interessado, ele somente estava começando, e pensou em mudar da guerra ‘defensiva’ (contra o imperialismo) para a guerra ‘ofensiva’. Mas a ofensiva sobre Varsóvia foi uma catástrofe de Stalin por causa que ele ignorou as ordens de Trotsky, de modo que no final este último conquistou seu caminho.

            No entanto, não era para haver nenhuma paz para este inquieto homem, e em seguida veio uma discussão sobre sindicatos, a qual dividiu o Partido Comunista, atiçando Trotsky contra Lenin. Este último acusou seu oponente de 'chatear burocraticamente os sindicatos’, Em 1921, foi a vitória de Lenin e ele rapidamente clamou por escalpos, os quais incluíam vários apoiadores de Trotsky  (eles foram sumariamente demitidos). Lenin disse que Trotsky era ‘apaixonado por organização’, mas que em trabalhar política ‘ele não tinha a menor ideia’. De fato, Trotsky era um solitário, um escrevinhador, e um pobre companheiro de equipe; certamente não um revolucionário profissional.

Trotsky retratado pela resistência russa num poster de 1920

            Em 1922 Trotsky era ainda segundo em relação a Lenin, mas quando a saúde do líder desceu colina abaixo, Stalin, agora o secretário geral do Comitê Central armou com outros dois para assegurar que Trotsky não iria conseguir uma mordida na cereja. Eles formaram uma troika {palavra russa que designa um comitê de três membros} e começaram nomeando Trotsky para trabalhos secundários, na expectativa que ele iria, se indignado, se recusar e eles poderiam então usar isso como desculpa para se livrar dele.  A especulação também circulou como se o propenso a apagões Trotsky fosse um epilético. Lenin ficou sabendo disto e considerou idiotice, pois ele via Trotsky como um recurso útil; contudo, debilitado pela sucessão de acidentes vasculares cerebrais, suas manobras falharam em prosperar. O diabólico Stalin tinha estado, neste meio tempo, usando seu poder de nomeação para encher o Comitê Central de lacaios, minando também seus parceiros na troika. Nesta última ele tinha o aliado de Trotsky, Christian Rakovsky, realocado em uma nova posição em Londres; os secretários regionais do partido que protestaram foram também realocados, espalhados através da União Soviética. Além disso, as recomendações de Trotsky por democracia intrapartidária, as quais receberam uma ovação de pé no XII Congresso do Partido, foram ignoradas. Enquanto isso, a relação de Stalin com Lenin, a qual tinha estado se deteriorando, eventualmente quebrou-se quando o Homem de Aço rudemente insultou a esposa do líder. Ainda, era tudo o mesmo para ele {Trotsky}, por causa que desta vez ele estava no controle e indo a nenhum lugar. 

            Trotsky manteve toda suas posições, e foi publicamente mantido que não havia nenhuma questão de removê-lo, mas Stalin conseguiu gradualmente tê-lo cortado do processo de tomada de decisões.

            Trotsky, que tinha estado doente, viajou para um resort em Abkhazia a fim de se recuperar. Enquanto estava lá, Lenin morreu finalmente. Trotsky, ao ouvir isto, começou a fazer seu caminho de volta, mas chegou um telegrama via Cheka[4] dizendo a ele que o funeral seria no sábado daquela semana; muito cedo para ele retornar a tempo, ele pensou, dado que sua jornada de retorno tinha sido retardada pela neve. No fim, o funeral foi realizado no domingo, o qual levou Trotsky especular que ele tinha sido enganado de forma a danificar suas chances de suceder Lenin, mas ele nunca descobriu o que realmente aconteceu. Stalin, que era naturalmente desonesto, assegurou que Trotsky recebesse o maior cuidado e atenção, realçando que sua segurança física era preeminente.

Trotsky organizando o início do Exército Vermelho

            A insatisfação dentro do partido levou a Oposição de Esquerda a tomar forma. Naturalmente, Trotsky estava no lado sinistro, enojado do Homem de Aço. Suas tentativas de conciliação caíram em ouvidos surdos, e Stalin assegurou que o testamento de Lenin, o qual teria favorecido Trotsky, fosse inutilizado. Stalin também assegurou que referências aos ‘erros’ de Trotsky fossem constantemente feitas. Os encontros no Politburo foram performances teatrais, indo os debates adiante com todas as decisões já tomadas. E quando Trotsky publicou Lições de Outubro, um polêmico ensaio sobre a revolução, a troika denunciou ele em várias frentes. Ainda mais, enquanto Trotsky caia de novo, tornando-se incapaz de responder, seus inimigos não perderam nenhum tempo, forçando cada tendão para desacreditá-lo – uma tarefa fácil. Eventualmente, eles conseguiram mesmo o retalhamento de sua reputação militar, forçando ele a renunciar como Comissário dos Assuntos do Exército e da Marinha. Ele manteve seu posto no Politburo (embora em liberdade condicional) e escapou de ser expulso do Partido Comunista, o que era uma pressão tática de Stalin. Ao mesmo tempo, Trotsky começou 1925 desempregado.

            Uns poucos meses depois, foi dado a Trotsky três novas posições, mas (de acordo com ele) a interferência e sabotagem instigada por Stalin levou ele a se demitir de duas. Nesse meio tempo, enquanto o jovem e bravo Ayn Rand – cuja família foi levada a pobreza pelos comunistas – estava fazendo sua travessia pelo Atlântico, em rota para Nova Iorque, Stalin finalmente se livrou de seus aliados da troika, Zinoviev e Kamenev, tendo deles nenhuma utilidade posterior, e este formaram uma Nova Oposição. Trotsky inicialmente recusou-se envolver, mas ao longo do tempo manobrou eles, persuadindo-os, para seus bons livros, e com eles formou a Oposição Unida. Tendo em mente que Zinoviev tinha há não muito tempo antes solicitado que Trotsky fosse expulso do Partido Comunista – é este o tipo de hipocrisia que estamos lidando aqui.

            Mas se eles achavam que iriam conseguir alguma coisa de um Stalin superado, tinha para eles outra coisa vindo. Stalin ajustou o assédio, e na XV Conferência do Partido, Trotsky encarou várias vais, escárnios e interrupções constantes. Isto foi seguido de expulsões em massa, prisões, e exílio de membros opositores. Muitos cederam e renunciaram a todas as oposições. Trotsky se manteve firme, mas seus apoiadores gradualmente deram-se por vencidos, e iriam eventualmente desaparecer no Grande Terror. Ele iria, depois, perder todos seus postos, e não somente ser expelido do Partido Comunista, mas também expelido completamente da União Soviética.  Dominou-se ele completamente.

            Trotsky encontrou-se na Turquia, onde ele ficou quatro anos. O político radical, Édouard Daladier, que em 1933 estava desfrutando seu primeiro breve período como Primeiro Ministro da França, ofereceu a ele um asilo na França. Mas dois anos depois, o sucessor de Daladier disse a Trotsky para sumir. Alguns danos tinham já sido feitos, todavia, porque Trotsky tinha se envolvido com os comunistas franceses; fundou a Quarta Internacional, impulsionado pelo triunfo do Partido de Hitler na Alemanha; e mesmo teve o conforto a ponto de ler romances franceses, tudo o qual ele desprezava.

            Trotsky foi então para a Noruega, então sob um governo trabalhista. Mas Stalin não tinha feito tudo com Trotsky ainda, e, tendo organizado julgamentos-espetáculo nos quais Trotsky foi vinculado para um plano de assassinato, conspiração, e vários crimes, o tinha considerado culpado e o sentenciado, mesmo ausente, à morte. O governo norueguês imaginou o valor de ficar sob as graças de Stalin, então eles rapidamente removeram {Trotsky} para uma remota região e colocaram ele sob prisão domiciliar.

            Felizmente para ele, o ex-cobrador de impostos e carcereiro Lázaro Cárdenas, o Presidente do México, necessitou manter o apoio da esquerda e das uniões sindicais para sustentar o poder e manter sua reforma agrária independente do capitalismo americano, assim ele deu boas vindas a Trotsky. Este teria preferido a imigração para os Estados Unidos, mas esta nação não queria saber disto[5]. A opção foi o México. Cárdenas, tendo obtido as garantias de Trotsky que ele não iria se intrometer na política mexicana, organizou um trem para trazer ele para a Cidade do México.

            Neste então, em pobre condição física e desempregado, não havia mais nada para ele a não ser escrever para a apelação popular. Um destes escritos foi A Moral Deles e a Nossa (1938), na qual este vaidoso velho homem ridiculariza seus muitos jovens críticos sem adentrar nos argumentos destes. Seus livros não produzem dinheiro, contudo, ele deu palestras e começou a cobrar por entrevistas – ele exigiu $1000 para falar ao Baltimore Sun, por exemplo, esquecendo que ele não era mais alguém importante. Ele também vendeu cópias de suas velhas correspondências por dinheiro rápido. Tudo enquanto era mantido sob forte vigilância: o governo mexicano observava ele junto ao girar do ponteiro do relógio; o Partido Comunista Mexicano fazia o mesmo, e enviava relatórios sobre ele para Moscou; e o governo dos Estados Unidos, que tinha barrado ele permanentemente de viver lá, também mantinha um arquivo sobre ele. Ainda, ele trabalhou intimamente com os comunistas americanos, procurando organizar a Quarta Internacional e mesmo encontrando tempo para ter um caso com Frida Kehro, uma jovem pintora, bem debaixo do nariz de Natalya.

            Trotsky gastou os anos da década de 1930 vendo a ascensão de Hitler com impotência, então quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, ele esperou que isso iria destruir a estabilidade política da Europa e instigar a ‘revolução proletária’. Mas ele estava fora de sintonia, cada vez mais errático, intelectualmente rígido, e completamente irrelevante, salvo para seus sonhadores admiradores.

            Em Moscou, Stalin tinha ainda guardado mais para Trotsky, e organizou seu assassinato. Uma incursão armada na casa de Trotsky foi a primeira tentativa, liderada por um agende da polícia secreta e assassinos locais recrutados. O ataque foi antecipado por seus guardas. Mas a segunda tentativa foi bem sucedida. Ramón Mercader tinha começado visitando Trotsky, posando como um simpatizante. Um dia, em de agosto de 1940, em quanto eles estavam sozinho no estúdio de Trotsky e o velho homem estava sentado em sua escrivaninha, olhando para um artigo escrito por Mercader e preparando para opinar sobre isso enquanto ele tinha concordado, Mercader andou para trás dele e, segurando um machado de gelo de alpinista escondido em sua capa de chuva, sacando-o e desferindo um tremendo golpe na cabeça. O machado de gelo de Mercader penetrou três polegadas na cabeça de Trotsky, mas ele foi desferido com imprecisão e não foi severamente fatal. Um grito lastimável alertou os guardas e estes rapidamente em avanço fulminante bateram no atacante o deixando inconsciente. Trotsky foi levado ao hospital, onde ele sobreviveu mais que um dia inteiro ainda, antes dele finamente ter morrido.

Leiba Davidovich Bronstein ou simplesmente Leon Trotsky
(7 de novembro de 1879 - 21 de agosto de 1940) 
            Trotsky causou enormes danos durante seus sessenta anos de vida. Sem ele não iria ter havido nenhuma Revolução de Outubro. Sem ele não iria ter havido nenhuma vitória comunista na Guerra Civil Russa. Nem iria, consequentemente, a Europa ter terminado nas garras do comunismo por meio século. E sem ele, não teria havido nenhuma Quarta Internacional. Ou trotskistas. Ele falhou em muito, mas quando ele foi bem sucedido, ele mudou a história para pior. Em sua consciência – não que ele tivesse uma em qualquer estado funcional – deve haver dezenas de milhões de mortos, incluindo artistas, doutores, e intelectuais.

             Se alguma vez houve um lugar para a alma de Trotsky ela estava queimando na Geena {na cultura judaico cristã é um lugar no pós-morte de sofrimento para os hediondos}, junto com todos os outros tipos de escória; purificando ela irá provavelmente custar a eternidade.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander        


Notas


[1] Nota do autor: Robert Service, Trotsky: A Biography (London: Macmillan, 2009) página 44.

[2] Nota do autor: Robert Service, Trotsky: A Biography (London: Macmillan, 2009) página 67.

[3] Nota do tradutor: Politischeskoe Biuró: Oficina Política (do comitê central do Partido Comunista da URSS). Foi um organismo criado em março de 1919. Segundo Stalin, o Politburó é “o organismo mais alto não dentro do Estado, mas sim dentro do Partido, e o Partido é a força mais alta dentro do Estado”. (Alberto Falcionelli, El LICENCIADO el SEMINARISTA y el PLOMERO, breve glossário del comunismo en accion; Editorial La Mandragora, Buenos Aires, 1961 , vocábulo POLITIBURO).

[4] Nota do tradutor: Chrezvichainaia Komissiia: Comissão Extraordinária. Esta comissão teve como consigna “a repressão da sabotagem e da contrarrevolução. Tinha por missão a liquidação física das classes e das pessoas classificadas, segundo métodos singulares, como “inimigos da classe operária”. Nos anos do Comunismo de Guerra (1917 – 1921) , o membro da associação (saco de couro , pistola na cintura, gorro de chofer) se chamava chekist. O chekista era um terrorista e Lenin dizia que ele era uma “engrenagem essencial do Estado Soviético”. Os chekistas enviaram multidões aos campos de trabalho forçado na Ásia, Sibéria e no círculo polar. (Alberto Falcionelli, El LICENCIADO el SEMINARISTA y el PLOMERO, breve glossário del comunismo en accion; Editorial La Mandragora, Buenos Aires, 1961 , vocábulo CHEKA).
  
[5] Nota do autor: Robert Service, Trotsky: A Biography (London: Macmillan, 2009) página 427.





Sobre ou autor: Alex Kurtagić (1970 – ) nasceu na Croácia filho de pais eslovenos. Devido a profissão do pai, viajou e viveu em vários países. Tem fluência em inglês e espanhol, e pratica o francês e alemão. Após completar os estudos nos EUA graduou-se na Universidade de Londres (M.A. entre 2004 – 2005) em Estudos Culturais. Também é músico, desenhista, pintor, escritor e editor (Wermod and Wermod Publishing Group). Seus artigos são publicados nas revistas virtuais The Occidental Quarterly, Vdare, Counter Currents, Taki Mag, e American Renaissance.

_________________________________________________________________________________

Relacionado, leia também:

Odiar a Rússia é um emprego de tempo integral Neoconservadores ressuscitam memórias tribais para atiçar as chamas - Por Philip Girald