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domingo, 1 de dezembro de 2019

Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização - Por Mark Weber

Ver parte 1 Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulentas - Por Mark Weber


Mark Weber
            Uma das fontes de informações mais amplamente citadas sobre a personalidade de Hitler e de suas intenções secretas são as supostas memórias de Hermann Rauschning, o Presidente Nacional-Socialista do Senado de Danzig[1] em 1933 – 1934 que foi expulso do movimento de Hitler pouco tempo depois e então seguiu por si mesmo uma nova vida como um anti-nazi profissional.

            No livro conhecido na Alemanha como Conversações com Hitler (Gespraech mit Hitler) e publicado pela primeira vez nos EUA em 1940 como The Voice of Destruction, Rauschning apresenta página após página do que é alegado ser as mais íntimas opiniões de Hitler e seus planos para o futuro, supostamente baseado em dezenas de conversas privadas ocorridas entre 1932 e 1934. Depois da guerra as memórias foram introduzidas como o documento do processo Aliado URSS-378 no principal julgamento de “crimes de guerra” em Nuremberg.  

            Entre as citações condenatórias atribuídas à Hitler por Rauschning estão estas memoráveis declarações: 
“Nós devemos ser brutais. Nós devemos recuperar uma clara consciência sobre brutalidade. Somente então podemos expulsar o carinho de nosso povo... Não me proponho a exterminar nacionalidades inteiras? Sim, isso irá dar resultados... Eu naturalmente tenho o direito de destruir milhões de homens das raças inferiores que aumentam como vermes... Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros. Isso é um título honroso.” 
            Hitler é também suposto ter confidenciado para Rauschning, um quase desconhecido oficial provincial, fantásticos planos para um império mundial germânico que iria incluir África, América do Sul, México e, eventualmente, os Estados Unidos.

            Muitos historiadores prestigiosos, incluindo Leon Poliakov, Gerhard Weinberg, Alan Bullock, Joaquim Fest, Nora Levin e Robert Payne, utilizaram citações escolhidas das memórias de Rauschning em seus trabalhos de história. Poliakov, um dos mais proeminentes escritores do Holocausto, especificamente elogiou Rauschning pela sua “excepcional precisão”, enquanto Levin, outro historiador do Holocausto vastamente lido, chamou ele de “um dos mais penetrantes analistas do período nazi.”

{Léon Poliakov (1910-1997) e Nora Levin (1916-1989)
Historiador e historiadora judaicos que recorreram  à falsificação
histórica de Hermann Rauschning e a difundiram pelo mundo.
O revisionismo histórico desvelou tal falsificação}

            Mas nem todos têm sido tão crédulos. O historiador suíço Wolfgang Haenel passou cinco anos investigando diligentemente o livro de memórias antes de anunciar suas descobertas em 1983 em uma conferência de história revisionista na Alemanha Ocidental. A renomada Conversations with Hitler [Conversações com Hitler], declarou ele, são uma fraude total. O livro não tem valor “exceto como um documento da propaganda de guerra Aliada.”

            Haenel foi capaz de estabelecer de forma conclusiva que as alegações de Rauschning de ter se encontrado com Hitler “mais que uma centena de vezes” é uma mentira. Os dois se encontraram, de fato, somente quatro vezes, e nunca a sós. As palavras atribuídas para Hitler, ele mostrou, foram simplesmente inventadas ou levantadas de muitas outras diferentes fontes, incluindo escritos de Junger[2] e Friedrich Nietzsche. Um relato de Hitler ouvindo vozes, andando a noite com gritos convulsivos e, aterrorizado, apontando para um canto vazio enquanto gritava “lá, lá no canto!” foi tomado de um conto do escritor francês Guy de Maupassant[3].

             O livro de memórias falsas foi designado para incitar a opinião pública nos países democráticos, especialmente nos Estados Unidos, em favor da guerra contra a Alemanha. O projeto foi ideia do jornalista, nascido na Hungria, Emery Reves, que dirigia uma influente agência de imprensa e propaganda anti-alemã em Paris durante os anos 1930. Haenel tem também encontrado evidência que um proeminente jornalista britânico chamado Henry Wickham-Steele ajudou produzir o livro de memórias. Wickham-Steele foi um braço direito de Sir Robert Vansittart, talvez a figura mais veementemente anti-alemã na Grã-Bretanha.

            Um relatório sobre as descobertas sensacionais de Haenel apareceu na edição de outono de 1983 no The Journal of Historical Review. Mais recentemente, os jornais periódicos semanários   mais influentes da Alemanha Ocidental, Die Zeit, e Der Spiegel (7 de setembro de 1985), têm feito longos artigos sobre a histórica farsa. Der Spiegel concluiu que as Conversations with Hitler de Rauschning “são uma falsificação, uma distorção histórica da primeira até a última página... Haenel não somente prova a falsificação, ele também mostra como a impressionante montagem foi rapidamente compilada e quais ingredientes foram misturados juntos.”

              Existem algumas valiosas lições a serem aprendidas da história desta sórdida farsa, a qual levou mais de 40 anos para finalmente ser desmascarada: Ela mostra que mesmo as mais descaradas fraudes podem ter um tremendo impacto se ela serve a importantes interesses, que é mais fácil inventar uma grande mentira histórica que desmascarar uma e, finalmente, que todos devem ser extremamente cautelosos diante de “autorizados” retratos da emocionalmente carregada era Hitler.

            Uma nota de rodapé: Leitores interessados em um autêntico registro da personalidade e das opiniões pessoais de Hitler devem olhar para o fascinante e abrangente livro de memórias de  Otto Wagener, publicado em agosto de 1985 pela Yale University Press sobre o título de Hitler: Memoirs of a Confidant. Wagener foi o primeiro chefe do Estado Maior da SA (“tropas da tempestade”) e Diretor do Departamento de Política Econômica do Partido Nacional Socialista. Ele passou centenas de horas com Hitler entre 1929 e 1932, muitas destas horas a sós.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas


[1]    Nota do tradutor: Danzig é uma cidade que durante o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi o centro de muitas disputas, de teor histórico e de questões urgentes na época, entre o Reich Alemão e a Polônia. O insucesso em resolver estas disputas pacificamente resultou no conflito entre o Reich Alemão e a Polônia, resultando na reincorporação de Danzig ao território alemão.

[2]    Nota do tradutor: Ernst Jünger (1895 – 1998) foi um escritor e ex-combatente alemão da Primeira Guerra Mundial. No período nazista serviu no exército e também como administrador de uma província da França quando esta estava ocupada pelas forças alemãs. Esteve perifericamente envolvido com a oposição à Hitler que havia dentro do Reich, e, anteriormente, em 1938, foi proibido de publicar livros.

[3]    Nota do tradutor: James Herbert Brennan que, ao contrário de muitos acadêmicos que rejeitam absolutamente temáticas não-materialistas, se aventura em considerar algumas possibilidades não-materialistas, neste caso, forças não compreendidas na maior parte da ciência contemporânea, pisou em quase todas armadilhas da desinformação e manipulação sobre o tema nazista. Neste caso, então, citações com teor macabro tiveram passagem livre, já que davam um tom de obscurantismo ou patologia mental na imagem de Adolf Hitler.
Em seu livro Occult Reich  de 1974 (publicado no Brasil como Reich Oculto, Editora Madras, São Paulo, 2007, tradução Julia Vidili), entre um mar de distorções, Brennan cita (página 65 da edição brasileira) Hermann Rauschning ao colocar a passagem que Hitler histericamente gritava para o canto vazio, passagem a qual Wolfgang Haenel desvelou como sendo um plágio que Hermann Rauschning fez de um conto de Guy de Maupassant. Além disso, Brennan utiliza durante seu livro muitas citações do livro Hitler, a Study in Tyranny, de Alan Bullock, o qual, por sua vez, também se sustenta em muitas passagens do trabalho de Hermann Rauschning, e tudo isso, lastimavelmente, com o aviso na contracapa, tanto da edição em inglês quanto da edição em português, de que o livro cita informações de fontes autênticas (na edição inglesa ainda colocam como investigado a partir de fontes de inquestionável autenticidade).
               




Sobre o autor: Mark weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.

  
Informação Bibliográfica

Autor
Mark Weber
Título
Rauschning's Phony 'Conversations With Hitler': An Update
Fonte
The Journal for Historical Review (http://www.ihr.org)
Data
Inverno de 1985 - 1986
Fascículo
Volume 6, número 4
Localização
Página 499
Endereço
  
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Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulentas - Por Mark Weber

Parte 2: Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização - Por Mark Weber

Mark Weber
            Praticamente todas as principais biografias de Adolf Hitler ou da história do Terceiro Reich fazem citações da memória de Hermann Rauschning, um ex-Presidente do Senado Nacional-Socialista de Danzig[1]. No livro publicado na Grã-Bretanha como Hitler Speaks (Londres, 1939) e na América como The Voice of Destruction (Nova Iorque, 1940) Rauschning apresenta página após página do que são supostamente as mais íntimas visões de Hitler e os planos deste para o futuro. Elas são supostamente baseadas em uma centena de conversações privadas entre os dois homens.

            Agora, depois de mais de quarenta anos, um historiador suíço tem exposto minuciosamente este suposto documento da loucura de Hitler como completamente fraudulento. Wolfgang Haenel apresentou os resultados de sua pesquisa na conferência anual em maio de 1983 do Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt na Alemanha Ocidental.

            O Hitler de Rauschning é nada mais que um revolucionário niilista totalmente carente de ideias, objetivos, princípios ou ideologia sistemática, o qual demagogicamente explorou as palavras e os homens para acumular poder para seu próprio bem. Ele era inteligente, mas completamente inescrupuloso e oportunista, que não acreditava em nada do que ele próprio dizia. Seu Nacional -Socialismo, de acordo com Rauschning, era apenas uma “Revolução do Niilismo”. Ele estava  supostamente preocupado com a guerra. Suas numerosas propostas de desarmamento e ofertas de paz eram apenas hipócrita retórica designada para enganar suas futuras vítimas.

            Do homem que unificou a Alemanha, Hitler é suposto ter dito: “Bismarck foi estúpido. Ele era apenas um protestante.” Ele teria repreendido Rauschning por seus escrúpulos: “Por que você balbucia sobre brutalidade e se aborrece em relação ao sofrimento. As massas querem isso. Elas necessitam de um pouco de crueldade.” “Eu quero uma juventude violenta, magistral, sem medo e cruel,” ele é citado como tendo dito. Em outra ocasião, Hitler teria, de acordo com relatos, declarado: “Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros. É um título honroso.”

            Wolfgang Haenel passou muitos anos em uma pesquisa detalhada, em comparações de textos e entrevistando testemunhas contemporâneas. Ele descobriu que ao invés de “cerca de uma centena de conversações” com Hitler, Rauschning na verdade se encontrou com o líder alemão somente quatro ou cinco vezes. E estes poucos encontros não foram nem em tempo privado e nem foram longos, mas sempre na companhia de altos funcionários enquanto visitava Hitler em Berlim ou em Obersalzberg. Rauschning nunca teve a oportunidade de ouvir as opiniões íntimas de Hitler ou seus planos secretos para o futuro, conforme ele se vangloriou em suas espúrias “memórias.”

            Haenel mostra que algumas palavras atribuídas a Hitler por Rauschning eram na verdade levantadas dos trabalhos de Ernst Jünger[2] e Friedrich Nietzsche. Hitler é citado como tendo feito afirmações as quais não poderiam ter sido feitas na alegada época. Algumas citações supostamente feitas em privado foram de fato retiradas de discursos feitos por Hitler depois de 1935, o ano que Rauschning foi para a França. Haenel também expõe sérias contradições entre eventos conforme apresentados por Rauschning e a forma de como eles realmente ocorreram, como no caso de uma alegada conversação após o incêndio do Reichstag em março de 1933.

            Haenel mostra que o livro de memórias espúrias foi encomendado por alguns jornalistas franceses e por editoras de Nova Iorque como uma arma na propaganda de guerra contra a Alemanha Nacional Socialista. Por muitos anos a soma paga para o quase falido Rauschning por seu trabalho permaneceu um recorde na França se tratando de um livro político.

            Os meios de comunicação de massa democráticos, os quais devotaram intermináveis colunas de impressão e horas de transmissão em denunciar o livro chamado de Hitler diaries[3] como falso, ignoraram caracteristicamente a história desta grande farsa histórica. Uma exceção foi o geralmente sóbrio jornal da Alemanha Ocidental Die Welt (19 de maio) o qual, no entanto, encerrou seu relatório na página 21. A imprensa diária americana publicou nada.

            Para seu crédito, o historiador americano John Toland não fez uso do trabalho de Rauschning em seu detalhado estudo, Adolf Hitler. E o historiador alemão Werner Maser colocou a observação em sua biografia de Hitler que “As declarações de Rauschning podem, na melhor das hipóteses, serem consideradas como uma fonte histórica secundária. Elas não têm valor documental.”

{Hermann Rauschning (1887-1982). Quatro livros que fizeram a cabeça de leitores no Ocidente a partir dos anos da década de 1960 se utilizaram de uma fraude, a obra de Rauschning, para difamar Hitler e o Nacionalsocialismo (nazismo). William Shirer em Rise and Fall of the Third Reich, 1962; Alan Bullock  em  Hitlera Study in Tyranny, 1952; Joachim Fest, Hitler, 1973; e Robert Payne em Life and Death of Adolf Hitler, 1973. Os livros de Shirer e Fest continuam inclusive sendo publicados no Brasil em português como obras supostamente sem falsificações.}

            É sempre mais fácil produzir um documento forjado ou memórias falsas que provar que elas sejam falsas. Mas é ainda notável que levou tanto tempo para alguém expor o trabalho de Rauschning como fraudulento. Qualquer leitor de mente aberta e familiar com a literatura sobre Hitler pode determinar mais rapidamente que The Voice of Destruction é uma imaginativa mistura. O leitor simplesmente sente falta da “sensação” de autenticidade. Em contraste, a genuína memória de Otto Wagener, Hitler aus naechster Naehe, fornece prolongados e detalhados esboços dentro do pensamento de Hitler e suas opiniões privadas. Como primeiro chefe da equipe da SA (“os Camisas Pardas”) e diretor do Departamento de Econômico Político do Partido Nacional Socialista, Wagener conseguiu conhecer Hitler intimamente. Eles gastaram centenas de horas juntos entre 1929 e 1932, muitos deles sozinhos.

            O Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt merece crédito por seu papel em expor esta grande fraude. Seu diretor, o Dr. Alfred Schickel, tem escrito numerosos ensaios substanciais de revisionismo histórico.

            O desmascaramento que Haenel fez sobre o livro de memórias de Rauschning é uma bem-vinda contribuição para o lento e doloroso processo de esclarecimento em uma época de ofuscação histórica.


Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas:


[1]    Nota do Tradutor: Danzig é uma cidade que durante o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi o centro de muitas disputas, de teor histórico e de questões urgentes na época, entre o Reich Alemão e a Polônia. O insucesso em resolver estas disputas pacificamente resultou no conflito entre o Reich Alemão e a Polônia, resultando na reincorporação de Danzig ao território alemão.

[2]    Nota do Tradutor: Ernst Jünger (1895-1998) foi um escritor e ex-combatente alemão da Primeira Guerra Mundial. No período nazista serviu no exército e também como administrador de uma província da França quando esta estava ocupada pelas forças alemãs. Esteve perifericamente envolvido com a oposição à Hitler que havia dentro do Reich, e, anteriormente, em 1938, foi proibido de publicar livros.

[3]    Nota do Tradutor: Refere-se ao evento ocorrido em 1983 quando foi anunciado nos meios de comunicação a descoberta de documentos que seriam diários de Adolf Hitler. Contudo duas semanas depois esta descoberta foi classificada como uma fraude devido a muitas inconsistências tais como o texto ter sido escrito em papel e com tinteiro de época posterior à Hitler, e também devido a muitas incoerências históricas.  



Sobre o autor:

Mark Weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.



Informação Bibliográfica

Autor
Mark Weber
Título
Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulenta
Fonte
The Journal for Historical Review (http://www.ihr.org)
Data
Outono de 198
Fascículo
Volume 4, número 3
Localização
Página 378 – 380
Endereço


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Hitler queria Guerra? - Por Patrick Joseph Buchanan