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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

{Retrospectiva 2014} – Ucrânia: o fim da guerra fria que jamais aconteceu - Por Alain de Benoist

 

Alain de Benoist


Numa altura em que a batalha pelas sanções envenena as relações entre a Europa e a Rússia, Alain de Benoist entrega para a revista Elements as 7 chaves para compreender as origens da crise ucraniana.

O caso ucraniano é um assunto complexo e também um assunto grave (em outra época e em outras circunstâncias, ele poderia muito bem ter dado lugar a uma guerra regional ou mesmo mundial). Sua complexidade resulta do fato de que os dados de que dispomos podem levar a julgamentos contraditórios. Em tais circunstâncias, é, portanto, necessário determinar o que é essencial e o que é secundário. O que é essencial para mim é a relação de forças existente em escala global entre os partidários de um mundo multipolar, do qual eu faço parte, e aqueles que desejam ou aceitam um mundo unipolar sujeito à ideologia dominante que representa o capitalismo liberal. De uma tal perspectiva, tudo o que contribua para diminuir o domínio americano-ocidental sobre o mundo é uma coisa boa, qualquer coisa que tenda a aumentá-la é uma coisa ruim.

1 - A Europa tendo abandonado hoje toda vontade de poder e de independência, é obviamente a Rússia que agora constitui o principal poder alternativo ao hegemonismo americano, senão à ideologia dominante da qual o Ocidente liberal é o principal vetor. O “principal inimigo” está, portanto, no Ocidente.

Eu não experimento, portanto, alguma simpatia pelo presidente ucraniano deposto. Yanukovych era por toda evidência um personagem detestável, ao mesmo tempo um autocrata profundamente corrupto. Putin ele mesmo finalmente percebeu isso – um pouco tarde, é verdade. Eu também não sou um incondicional de Vladimir Putin, que é obviamente um grande estadista, muito superior aos seus homólogos europeus e americanos, e também um experiente praticante de artes marciais comprometido com os princípios do realismo político, mas que também é muito mais pragmático do que um “ideólogo.” Isso não muda o fato de que, portanto, se pode julgar hoje, que a “revolução de Kyiv” tem servido antes todos os interesses americanos.

Eu ignoro se os americanos inspiraram ou até financiaram esta “revolução” como já haviam inspirado e financiado as precedentes “revoluções de cor” (Ucrânia, Geórgia, Quirguistão, etc.), buscando canalizar o descontentamento popular muitas vezes justificado para integrar os povos na órbita econômica e militar ocidental. O fato é que, em todo caso, eles o sustentaram desde o início sem qualquer ambiguidade. O novo primeiro-ministro ucraniano, o economista e advogado bilionário Arseni Yatseniuk, que obteve apenas 6,9% dos votos nas eleições presidenciais de 2010, correu imediatamente para Washington, onde Barack Obama o recebeu no Salão Oval, honra geralmente reservada aos chefes de Estado. Salvo uma reversão imprevisível, os eventos que levaram à destituição brutal do chefe de Estado ucraniano depois das manifestações na Praça Maidan não podem, por isso, ser considerados uma coisa boa por todos aqueles que lutam contra a hegemonia mundial dos Estados Unidos. 

2 - Fala-se por toda parte de um “retorno à Guerra Fria”. Devemos sim nos perguntar se ela já terminou. Na época da União Soviética, os americanos desenvolviam já uma política que, sob o pretexto de anticomunismo, era fundamentalmente antirrussa. O fim do sistema soviético não mudou nada aos dados fundamentais da geopolítica. Eles, ao contrário, tornaram-se mais evidentes. Depois de 1945, os Estados Unidos sempre procuraram impedir a emergência de uma potência concorrente no mundo. A União Europeia sendo reduzida à impotência e à paralisia, eles jamais deixaram de ver a Rússia como uma ameaça potencial para seus interesses. No momento da reunificação alemã, eles estavam solenemente engajados a não procurar estender a OTAN aos países do Leste. Eles estavam mentindo. A OTAN, que deveria ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia, não só foi mantida, mas estendida à Polônia, à Eslováquia, à Hungria, à Romênia, à Bulgária, à Lituânia, à Letônia e à Estônia, ou seja, até as fronteiras da Rússia. O objetivo é sempre o mesmo: enfraquecer e cercar a Rússia desestabilizando ou tirando o controle de seus vizinhos.

Toda a ação dos Estados Unidos visa, assim, impedir a formação de um grande “bloco continental”, persuadindo os europeus de que seus interesses são contrários aos da Rússia, quando na realidade são perfeitamente complementares. Tal é a razão para aquela “integridade territorial” da Ucrânia que é mais importante para eles do que a integridade histórica da Rússia. “Retornar à Guerra Fria,” para os americanos, significa retornar às condições mais propícias à sujeição da Europa por Washington. O projeto de “grande mercado transatlântico” atualmente em curso de negociação entre a União Europeia e os Estados Unidos também via igualmente nesse sentido.

3 - A complicação vem da característica heterogênea da oposição à Yanukovych. A imprensa ocidental geralmente apresentou essa oposição como “pró-europeia,” o que é uma mentira evidente. Entre os opositores do antigo presidente ucraniano, nós achamos na realidade duas tendências completamente opostas: por um lado, aqueles que querem se vincular efetivamente ao Ocidente e sonham em integrar a OTAN sob o guarda-chuva americano, por outro, aqueles que aspiram a uma “Ucrânia ucraniana” independente de Moscou a partir de Washington ou Bruxelas. O único ponto em comum destas duas tendências é sua total alergia à Rússia. Os protestos de Maidan foram, portanto, os primeiros protestos antirrussos, e foi como um “presidente pró-russo” que Yanukovych foi destituído.

Os nacionalistas ucranianos, agrupados em movimentos como “Svoboda” ou “Setor Direito” (Pravy Sektory), são regularmente apresentados na imprensa como extremistas e nostálgicos do nazismo. Como eu não os conheço, não sei se é verdade. Alguns deles parecem ser partidários de um ultranacionalismo convulsivo e odioso que eu abomino. Mas não está evidente que todos os ucranianos desejando a independência da Rússia e dos Estados Unidos partilhem os mesmos sentimentos. Muitos deles lutaram na Praça Maidan, sem se sentirem manipulados, com uma coragem que merece respeito. A questão toda é a de saber se eles não serão despossuídos de sua vitória por uma “revolução” cujo principal efeito terá sido substituir o “big brother russo” pelo big brother americano.

4 - Em que concerne à Crimeia, as coisas são mais claras e mais simples. Depois de ao menos quatro séculos, a Crimeia tem sido um território russo povoado essencialmente por populações russas. É também o lar da frota russa, com Sebastopol constituindo o ponto de acesso da Rússia aos “mares quentes.” Imaginar que Putin poderia tolerar que a Otan assumisse o controle dessa região é evidentemente impensável. Mas ele não precisava agir nesse sentido, pois durante o referendo de 16 de março, quase 97% dos habitantes da Crimeia expressaram inequivocamente seu desejo de se unir à Rússia, ou mais precisamente de retornar a ela, desde que eles foram arbitrariamente cortados em 1954 por uma decisão do ucraniano Nikita Khrushchev. Essa decisão de atribuir administrativamente a Crimeia à Ucrânia foi tomada na época no âmbito da União Soviética – portanto, sem grandes consequências – e sem qualquer consulta à população envolvida. A magnitude da votação de 16 de março, juntamente com uma participação de 80%, não deixa dúvidas sobre a vontade do povo da Crimeia. Falar nessas condições de um “Anschluss” da Crimeia, fazer a comparação com as intervenções da URSS na Hungria (1956) ou na Tchecoslováquia (1968), é, portanto, simplesmente ridículo. Denunciar este referendo como “ilegal” é ainda mais. A “revolução” de 21 de fevereiro de fato pôs fim à ordem constitucional ucraniana, uma vez que substituiu o poder de fato por um presidente eleito regularmente, o que levou à dissolução do Tribunal Constitucional ucraniano. É por esta razão que os dirigentes da Crimeia, estimando que os direitos desta região autónoma já não estavam garantidos, decidiram organizar um referendo sobre o seu futuro. Não se pode ao mesmo tempo reconhecer um poder nascido de uma ruptura da ordem constitucional, que liberta todos os atores da sociedade de suas restrições constitucionais, e ao mesmo tempo referir-se a essa mesma ordem constitucional para declarar “ilegal” o referendo em questão. Velho adágio latino: Nemo auditur propriam turpitudinem allegans (“Ninguém pode reivindicar sua própria torpeza.”)

Em apoiar no 21 de fevereiro último {2014} um novo governo ucraniano diretamente resultante de um golpe, os americanos também demonstraram que sua preocupação com a “legalidade” é relativa. Ao agredir a Sérvia, ao bombardear Belgrado, ao sustentar a secessão e independência do Kosovo em 2008, ao declarar guerra ao Iraque, ao Afeganistão ou à Líbia, eles mostraram também quão pouco tratam o direito internacional como um princípio da “intangibilidade das fronteiras” que eles invocam apenas quando este lhes convém. Além disso, os Estados Unidos parecem ter esquecido que seu próprio país nasceu de uma secessão da Inglaterra... e que a anexação do Havaí aos Estados Unidos, em 1959, não foi autorizada por nenhum tratado.

Os dirigentes europeus e americanos, que se arrogam a qualidade de únicos representantes da “comunidade internacional,” não contestaram o referendo que, há alguns anos, separou a ilha de Mayotte das Comores para a anexar à França. Eles admitem que em setembro próximo os escoceses poderão se pronunciar um por referendo sobre uma eventual independência da Escócia. Por que os habitantes da Crimeia não deveriam ter os mesmos direitos que os escoceses? Os comentários de dirigentes europeus e americanos sobre a natureza “ilegal e ilegítima” do referendo da Crimeia apenas mostram que eles nada entenderam sobre a natureza deste voto e que se recusam a reconhecer tanto o princípio do direito dos povos à autodeterminação a soberania do povo que é o fundamento da democracia

5 - Quanto às ameaças de “sanções” econômicas e financeiras brandidas pelos ocidentais contra a Rússia, elas nos emprestam um sorrizo, e Putin não errou ao dizer abertamente como eles são indiferentes a ele. Putin sabe que a União Europeia não tem poder, nem unidade, nem vontade. Com razão, ele não dá crédito a países que pretendem “defender os direitos humanos”, mas não podem prescindir do dinheiro dos oligarcas. Como disse Bismarck: “Diplomacia sem armas é música sem instrumentos”. Putin sabe que a Europa está deliquescente, que só é capaz de posturas e provocações verbais, e que os próprios Estados Unidos a consideram como quantidade negligenciável (“Foda-se a União Europeia!” {disse a enviada judia dos EUA para relações exteriores na Europa} Victoria Nuland). Ele sabe sobre tudo que se eles realmente desejassem “sancionar” a Rússia, o Ocidente se sancionaria, porque eles se exporiam a represálias em grande escala pelas quais obviamente não estão dispostos a pagar o preço. É a velha história do aspersor regado.

É suficiente recordar aqui que o gás e o petróleo russos representam cerca de um terço do aprovisionamento energético dos 28 países da União Europeia, para não falar da dimensão dos investimentos europeus, notavelmente alemães e britânicos, na Rússia. Hoje, contam nada menos que 6.000 empresas alemãs ativas no mercado russo. Na França, o ministro das Relações Exteriores {então em 2014}, Laurent Fabius, ameaçou a Rússia de não lhe entregar dois porta-helicópteros do tipo “Mistral” atualmente em construção nos estaleiros de Saint-Nazaire. Num país onde já contam mais de cinco milhões de desempregados, a consequência seria a perda de vários milhares de empregos... reembolso dos créditos que os bancos americanos acordaram às estruturas russas.

A Ucrânia hoje {2014} é um país arruinado. Terá a maior dificuldade em prescindir do apoio econômico da Rússia e remediar o fechamento do mercado da CEI {Comunidade dos Estados Independentes – organização intergovernamental regional envolvendo então 11 das 15 repúblicas que integravam a extinta União Soviética e que em 2014 a Ucrânia fazia parte ainda, se desligando em 2018} (a Rússia representou até agora 20% de suas exportações e 30% de suas importações). Alhures, nós mal vemos os europeus encontrarem os meios para lhe conceder um aporte financeiro que já nem mesmo querem mais conceder à Grécia: dada a crise que atravessa desde 2008, a União Europeia simplesmente não tem simplesmente mais meios de desbloquear somas de vários bilhões de euros. Uma presa de seus próprios problemas, começando com déficits colossais, os Estados Unidos vão querer sustentar a Ucrânia esticando os braços? Nós podemos duvidar. Cheques de Washington e do Fundo Monetário Internacional (FMI) não resolverão os problemas da Ucrânia.

6 – O futuro permanece por hora tão incerto quanto inquietante. O caso ucraniano não foi finalizado, mesmo porque ainda não está claro quem representa exatamente o novo poder ucraniano.[1] Se a Ucrânia optar por se ancorar resolutamente no Ocidente, a grande questão é como reagirá a parte oriental da Ucrânia, que é a mais pró-Rússia e a mais industrializada (a parte ocidental representa apenas um terço da produção do PIB). Como a Rússia, por sua vez, pode aceitar que um governo radicalmente antirrusso deve liderar um país onde metade da população é russa? Toda tentativa de impor uma solução pela força se arrisca terminar em guerra civil e, finalmente, na divisão de um país onde as principais linhas divisórias políticas, linguísticas e religiosas se sobrepõem largamente às linhas compartilhadas territoriais. Nós veríamos então uma reprodução do cenário que levou ao desmembramento da ex-Iugoslávia.

De imediato, o maior risco é o de uma deterioração da situação em Kyiv, acompanhada por uma série de iniciativas irresponsáveis ​​(criação de milícias, etc.)[2] e incidentes isolados que escalariam ao extremo. Nem a Europa nem a Rússia (que agora fortalecerá sua aliança militar com a China) têm interesse nisso. Do outro lado do Atlântico, por outro lado, não faltam partidários da guerra.[3]

7 – A explosão da mídia ocidental é indicativo de seu grau de submissão a Washington. Putin é regularmente descrito como um “novo czar”, um “KaGeBista”, um “neo-soviético”, mas também um “fascista” e um “marrom vermelho,” embora não tenha sido ele quem iniciou a crise na Ucrânia, e que ele, em vez disso, mostrou extraordinária paciência neste assunto. A Rússia é apresentada senão como uma “ditadura,” ao passo que nunca conheceu tal grau de democracia em sua história, pelo menos como um regime “insuficientemente liberal,” ou seja, não suficientemente complacente com as exigências da “abertura sociedade.” Mas, como Henry Kissinger muito bem viu, “diabolizar Putin não é uma política, mas uma forma de mascarar uma ausência de política”. Certamente, como eu disse acima, não há razão para considerar Putin como um “salvador” que pouparia os europeus de levarem seu destino eles mesmos em suas próprias mãos. A Europa não pretende ser o ramo ocidental de um grande império russo (a ideia de império não é redutível ao imperialismo). Por outro lado, tem o dever de admitir a necessidade de uma aliança com a Rússia de um grande projeto coletivo de uma lógica continental eurasiana, que é toda diferente.

A Rússia, por sua vez, teria todo o interesse em admitir o pluralismo de identidades de seus vizinhos “estrangeiros próximos”. A cólera ucraniana tem sido nutrida por uma tendência russa de negar a identidade ucraniana que não é imaginária, mesmo que às vezes tenha sido exagerada.[4] Provavelmente nós não teríamos chegado a isso se a Rússia tivesse tratado a Ucrânia de forma igualitária e recíproca. Numa lógica federal, as identidades locais devem ser respeitadas tanto quanto os direitos das minorias. As noções de descentralização, de autonomia e de regionalismo devem entrar na cultura política russa, assim como devem entrar na cultura política ucraniana, que visivelmente não está mais disposta (como mostra a incrível decisão do novo governo ucraniano de negar a língua russa estatuto de segunda língua oficial). A noção de zona de influência tem um significado, e esse significado deve ser reconhecido, mas os países “satélites” devem agora ceder lugar aos países parceiros e aliados. Como escreveu o croata Jure Vujic, o “grande projeto geopolítico eurasista europeu deve ser acima de tudo um projeto unificador, de cooperação geopolítica, fundado no respeito a todos os povos europeus e no princípio da subsidiariedade”.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas

[1] Nota de Mykel alexander:  Sobre a presença e influência do judaísmo internacional na Ucrânia ver:

- {Retrospectiva Ucrânia - 2014} Nacionalistas, Judeus e a Crise Ucraniana: Algumas Perspectivas Históricas, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 18 de abril de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/04/retrospectiva-ucrania-2014.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} O Fatídico triângulo: Rússia, Ucrânia e os judeus, por Israel Shamir, 25 de fevereiro de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/02/retrospectiva-2014-russia-ucrania-e-os.html  

- {Retrospectiva 2022 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - Bastidores e articulações do judaísmo {internacional} na Ucrânia, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 27 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2022-assedio-do-ocidente.html

- Crepúsculo dos Oligarcas {judeus da Rússia}?, por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}, 17 de junho de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/06/crepusculo-dos-oligarcas-judeus-da.html  

[2] Nota de Mykel alexander: Sobre os grupos de direita ucranianos e sua ação na agitação ucraniana de 2014, bem como seus antecedentes articuladores ver:

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} A Revolução Marrom na Ucrânia, por Israel Shamir, 13 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/a-revolucao-marrom-na-ucrania-por.html 

[3] Nota de Mykel alexander:  Sobre o desdobramento da crise ucraniana refletindo na Rússia como resultado da articulação de neoconservadores americanos, democratas americanos e os segmentos do judaísmo internacional ver:

- {Retrospectiva 2008 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} Os Neoconservadores versus a Rússia, por Kevin MacDonald, 19 de março de 2022, World Traditional Front.

 https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/os-neoconservadores-versus-russia-por.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - As armas de agosto - parte 1, por Israel Shamir, 08 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2014-assedio-do-ocidente.html

- {Retrospectiva 2014 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - As armas de agosto II - As razões por trás do cessar-fogo, por Israel Shamir, 15 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2014-assedio-do-ocidente_15.html

- Odiar a Rússia é um emprego de tempo integral Neoconservadores ressuscitam memórias tribais para atiçar as chamas, por Philip Girald, 18 de julho de 2018, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2018/07/odiar-russia-e-um-emprego-de-tempo.html

- {Retrospectiva 2021 - assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia} - Flashpoint Ucrânia: Não cutuque o urso {Rússia}, por Israel Shamir, 22 de maio de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/05/retrospectiva-2021-assedio-do-ocidente.html   

- {Assédio do Ocidente Globalizado na Ucrânia em 2022} - Neoconservadores, Ucrânia, Rússia e a luta ocidental pela hegemonia global, por Kevin MacDonald, 21 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/neoconservadores-ucrania-russia-e-luta.html 

[4] Nota de Mykel alexander: Sobre a relação do nacionalismo russo e ucraniano dentro do contexto da URSS ver:

- Nacionalismo e genocídio – A origem da fome artificial de 1932 – 1933 na Ucrânia, por Valentyn Moroz, 11 de março de 2022, World Traditional Front.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2022/03/nacionalismo-e-genocidio-origem-da-fome.html

 


Fonte: Ukraine : la fin de la guerre froide n’a jamais eu lieu, por Alain de Benoist, 23 de março de 2014, Éléments.

https://www.revue-elements.com/ukraine-la-fin-de-la-guerre-froide-na-jamais-eu-lieu/

Sobre o autor: Alain de Benoist (1943 –) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.

Dentre seus livros foram traduzidos para português:

Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.

Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.

Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.

Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.

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Odiar a Rússia é um emprego de tempo integral Neoconservadores ressuscitam memórias tribais para atiçar as chamas - Por Philip Girald


Sobre a difamação da Polônia pela judaísmo internacional ver:

Um olhar crítico sobre os “pogroms” {alegados massacres sobre os judeus} poloneses de 1914-1920 - por Andrew Joyce {academic auctor pseudonym}


Sobre a influência do judaico bolchevismo (comunismo-marxista) na Rússia ver:

Revisitando os Pogroms {alegados massacres de judeus} Russos do Século XIX, Parte 1: A Questão Judaica da Rússia - Por Andrew Joyce {academic auctor pseudonym}.  Parte 1 de 3, as demais na sequência do próprio artigo.


Mentindo sobre o judaico-bolchevismo {comunismo-marxista} - Por Andrew Joyce, Ph.D. {academic auctor pseudonym}

Os destruidores - Comunismo {judaico-bolchevismo} e seus frutos - por Winston Churchill

A liderança judaica na Revolução Bolchevique e o início do Regime soviético - Avaliando o gravemente lúgubre legado do comunismo soviético - por Mark Weber

Líderes do bolchevismo {comunismo marxista} - Por Rolf Kosiek

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Wall Street e a Revolução Bolchevique de Novembro de 1917 – por Kerry Bolton

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{Retrospectiva Ucrânia - 2014} Nacionalistas, Judeus e a Crise Ucraniana: Algumas Perspectivas Históricas - Por Andrew Joyce, PhD {academic auctor pseudonym}

Nacionalismo e genocídio – A origem da fome artificial de 1932 – 1933 na Ucrânia - Por Valentyn Moroz


Sobre a questão judaica, sionismo e seus interesses globais ver:

Conversa direta sobre o sionismo - o que o nacionalismo judaico significa - Por Mark Weber

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domingo, 11 de setembro de 2022

As raízes da civilização {resultado de acidentes ou da força criadora?} - por Alain de Benoist

 

Alain de Benoist


            A grande revolução cultural teve lugar há 35.000 anos. Se não mesmo mais cedo. “Parece”, escreve o professor Marshack, “que numa época tão recuada, durante o período glacial[1], o caçador da Europa ocidental usava já um sistema de notação evoluído e complexo, cuja tradição poderia já então remontar a vários milhares de anos. Esta notação procedia de uma técnica cognitiva, crono-factorizada e crono-factorizante”

            Trata-se, provavelmente, de uma das mais importantes descobertas do século em matéria de pré-história[2].

            Tudo começou no inicio dos anos sessenta. Alexander Marshack, sólido, jovial, encarregado de investigação no Museu Peabody de tecnologia e de arqueologia da Universidade de Harvard, interroga-se sobre o problema das “origens”. Procurava determinar a natureza dos processos mentais que poderiam ser os do homem dos tempos recuados.

            “Dentro dos limites da evolução da espécie”, observa ele, “o cérebro permaneceu uma constante desde há cem a duzentos mil anos”. Não há, pois “progresso da humanidade” mas uma transformação continua do mundo por um homem que se mantém o mesmo desde os mais recuados tempos. Se o fenômeno humano se constitui como um todo, a “cultura” é tão antiga quanto ele.

            “Pus então, como hipótese, que o homem anterior ao período histórico, o homem do período glacial, não diferia grandemente do homem contemporâneo. O que acima de tudo diferia eram os fatos, as ideia e as relações inculcadas no seu cérebro, mas não a sua maneira de funcionar, nem seus hábitos, as suas capacidades ou a sua inteligência.”

            Por outras palavras, o Homo sapiens[3] teria sido algo mais do que um “fabricante de utensílios”, capaz unicamente de reconhecer e de empregar formas. Ele teria consciência das noções de “depois” de símbolo e de tempo. O autor qualifica tal fato com um termo: as suas atividades teriam já sido “crono-factorizadas” (time-factored)

            Mas era ainda imprescindível fundamentar devidamente tal hipótese. Alexander Marshack pensa tê-lo conseguido. Decifrando ossos gravados.

Alexander Marshack 
 

As “frases” lunares

            Até aqui, os especialistas em pré-história, quando da descoberta de sinais gravados, contentavam-se com falar em “motivos decorativos” ou “marcas de caça” Parecia, contudo, conveniente uma mais cuidada análise.

            Entre 1965 e 1970, o professor Marshack estudou mais de um milhar de objetos pré-históricos, provenientes de nove países da Europa, tendo-os submetidos a minuciosa análise: fotográfica, moldagem, decalques e exames ao microscópio. Os resultados ultrapassaram todas as expectativas, detalhes houve que apareceram e que jamais tinham sido notados.

            Sobre a maioria dos objetos os coches, os pontos e as estrias que se encontravam dispostos em linhas ou em grupos apareceram como tendo sido gravados “em momentos diferentes, sob ângulos diferentes e com pontas diferentes sobre as quais tinham sido exercidas pressões diferentes”. Certos signos revelam a marca de um só golpe, outros, a de vários. As técnicas variam igualmente: simples golpes, em movimentos parcialmente torneados de utensílios, buracos largos e pouco profundos, buracos profundos e estreitos, etc. Torna-se difícil falar de coincidência. Constata-se uma bem precisa intenção. Qual? 

            “Essas marcas”, indica Marshack, “não foram feitas no mesmo momento, com o mesmo ritmo, o mesmo pensamento ou o mesmo utensílio. Pode-se, pois, dizer que são ‘crono-factorizadas’”...

            Prosseguindo os seus trabalhos, Marshack apercebeu-se de que, igualmente, as marcas se não encontravam dispostas ao acaso. Encontra-se, geralmente um numero múltiplo de vinte e nove ou trinta, o que deixa imediatamente entrever uma relação com os meses do ciclo lunar (o mais fácil de observar). Ora, no interior de uma mesma “sequencia”, os “subgrupos” de signos gravados correspondem exatamente as diferentes fases da lua. Obtém-se, assim, o que Marshack chama “uma frase lunar quase perfeita até nas suas próprias subdivisões.”

            No seu livro, abundante mente ilustrado, Marshack dá inumeráveis exemplos de tais “frases” e apresenta esquemas verificados por computadores.

            Cita, igualmente, peças características: o osso de la Marche (21 cm) cujas cento e vinte e uma marcas correspondem acerca de sete meses lunares; o osso de abri-Blanchard, na Dordonha, que apresenta, na sua face principal, uma linha dupla de sessenta e nove cúpulas arredondadas, para o traçado das quais se mudou de ponta vinte e quatro vezes; o galet de Barma Grande, etc.

 

Grandes caçadores

            O homem da pré-história dispunha, pois, de um “caderno de apontamentos das estações e das luas”. Sistema de anotação comum a todo o paleolítico[4] superior europeu, e de uma técnica já bem mais amadurecida do que a de certos sistemas encontrados já em épocas históricas, nomeadamente entre os índios da América do Norte.

            Na segunda parte do livro, o professor Marshack aproxima este sistema de notação das gravuras rupestres. Mais especialmente das representações de animais, de silhuetas femininas e de símbolos vulgares próprios do período aurignaciano[5]. O exame microscópico demonstra que estas figuras foram igualmente compostas em diversos períodos, que são, pois, igualmente “crono-factorizadas”. O que permite situa-las num contexto “dramático-narrativo” e ritual.

            Comentando estas descobertas, Henri de Saint-Blanquat escreveu em Sciences et Avenir: “as representações de animais podem, à sua maneira, trazer um testemunho. Um dos cavalos que se podem ver sobre o osso de la Marche revela, quando bem examinado, possuir três orelhas e três olhos, duas crinas e duas linhas por meio de três pontas diferentes, tal como os três olhos e as duas crinas. A estratigrafia das marcas demonstra que duas das orelhas foram gravadas após uma das crinas. Tudo se passa como se o cavalo tivesse sido “empregue” diversas vezes, a cada “utilização” correspondendo uma adição de órgão a gravura”.

            “Suponhamos”, acrescenta Marshack, “que um primeiro mês conta a história de um herói lunar que se faz devorar por qualquer espírito animal. Esta história poderia ser própria de uma estação do ano. Um segundo mês poderia, então, contar as aventuras do mesmo herói com qualquer outro animal sazonal ou qualquer espírito divino. A anotação poderia então sublinhar um momento narrativo ou simbólico destas aventuras, etc”

            Originada no ritmo essencialmente sazonal da vida no paleolítico, vê-se assim desenharem-se os contornos de uma religião de grandes caçadores, em que os ritos de fertilidade, por exemplo, seriam associados aos “antepassados” animais do clã: o mamute, a rena, o bisonte ou rinoceronte.         

            De passagem, Marshack afasta as interpretações “sexuais” ou psicanalíticas com as quais se satisfazem certos especialistas da pré-história. “A magia da fecundidade”, escreve, “não é senão uma das formas de participação na história e no mito que envolve a gravidez e o nascimento (...). A própria vulva é, ate um certo ponto, um símbolo não sexual, isto é, não copulador e não erótico, representando as histórias de processos que incluem o nascimento e a morte, a menstruação e os ciclos crono-factorizados ligados a natureza”        

            Ate onde remonta no tempo este sistema de anotação? É difícil sabê-lo. Marcas encontradas no osso de Pech-de-Lazé (-230.000 anos), o mais antigo dos ossos gravados ate hoje descobertos – foi encontrado em 1968, perto de Salat, pelo pré- historiador François Bordes – abrem perspectivas fantásticas ainda a explorar.

            A tradição, em todo o caso, manteve-se até o mesolítico e ao neolítico. Talvez até mesmo ao dealbar da História. A propósito de um calendário lunar gravados no alvião de Urgerlose (Dinamarca), Alexander Marshack escreve:

“Este calendário poderia explicar a presença de uma tradição de notação e de observação na Europa setentrional e central numa época em que as longínquas culturas agrícolas do sul praticavam uma tradição regional diferente. Poderia explicar a origem das varas-calendários e dos calendários rúnicos descobertos no norte da Europa na moderna era histórica. É igualmente possível que esta tradição europeia não seja de todo estranha aos extremamente tardios alinhamentos megalíticos de Stonehenge[6].”

 

Um papel revolucionário

 

Pré-história e escrita constituíam-se, até então, como termos contraditórios. Mas a linguística e a arqueologia haviam-nos já permitido franquear o muro que nos separava dos “milênios silenciosos”. Marschack vem-nos, agora, falar das “raízes da ciência e da escrita”.

 “Teríamos então”, faz notar Saint-Blanquat, “algo de semelhante a uma pré-escrita, uma notação pré-numérica, em suma, os alicerces sobre os quais, muito mais tarde, puderam ser edificadas a escrita verdadeira e a verdadeira numeração”.

 “Esta capacidade de anotar e de simbolizar”, acrescenta, “parece, de momento, pertencer apenas às culturas europeias do paleolítico superior (...). As antigas culturas europeias poderiam, assim, ter desempenhado um papel relativamente dinâmico, conformador e revolucionário em relação aos desenvolvimentos culturais posteriores”.

Tendo isto em conta, o homem pré-histórico surge a nossos olhos sob uma luz diferente. O hominídio primitivo, acocorado junto a fogueira, talhando o sílex ao longo do dia, apaga-se, para deixar lugar a um homem “acabado”, na posse de um conhecimento prático do tempo, do lugar, da direção, dos limites do seu território, capaz de descrever as suas experiências e de as exprimir por símbolos. Um homem, diz Marshack, de um “nível de evolução e de sofisticação a que se poderia dar o nome de proto-moderno”.

            A hominização surge, assim. Como ligada ao sentimento da diferença na duração. O “facto humano” caracteriza-se pela aparição de uma percepção “de dois andares”: o homem é um animal consciente de ter consciência. A dimensão histórica é, por excelência, a dimensão humana.

            À simples noção do homem fabricante de utensílios, diretamente derivada dos trabalhos de Darwin sobre a seleção natural e a luta pela vida, vem-se agora acrescentar a ideia de “homem crono-factorizante”. A arqueologia estava a correr sérios riscos de se tornar em “mania de colecionador” (Glyn Daniel). Mas eis que agora devem uma ciência auxiliar de etno-sociologia .

* * *

            “Les Racine de la Civilization”, ensaio de Alexander  Marshack, Plon, 415 paginas. {Originalmente publicado em inglês, 1972, como The Roots of Civilization

* * *

            Desde 1970 que as teses do professor Marshack não tem deixado de suscitar apaixonados arrebates. Após o aparecimento de “Racine de la Civilisation” nos Estados Unidos (“the Roots of Civilization: The Cognitive Beginnings of Mans First Art, Symbol and Notation”. Mac Grarc-Hill, New York, 1972),  a polemica estendeu-se a diversas disciplinas, enquanto que a imprensa assegurava à obra vasta publicidade (conf., nomeadamente “The New Post”, 16 de Maio de 1972; “the Washington Post” 17 de Abril de 1972; “Mosaic”, outono de 1972; Antiquity”, Dezembro de 1972; “The Bosnton Globe”, 2 de Dezembro de 1972; News-week”, 18 de Dezembro 1972). Numerosos especialistas, tal como Alan L. Movius Jr., da Universidade de Harvard, e Gerald S. Hawkins (autor de “Stonehenge Decoded”), do Smithsonian Astrophysical Observatory deram-se por convencidos. “Não é apenas a antropologia, mas toda a concepção do passado do homem que se encontra posta em questão”, observou Lewis Munmford, autor de “La Cité dans l’Histoire” (Seuil, 1972). “Um documento revolucionário”, acrescentou o professor Carlton S. Coon (“The Origin  f Races”, “The Living Races of Man”).

            Em Novembro de 1972, Alexander Marshack apresentou uma importante comunicação ao congresso antropológico de Toronto. Publicou igualmente uma atualização dos trabalhos em três artigos de primordial importância: “Cognitive Aspects of Upper Paleolithic Engravin” (in “Current Anthropology”, Junho-Outubro de 1972) e “Exploring The Mind of Ice Age Man” (in “National Geographic Magazine”, Janeiro de 1975).

            Em França, onde procedeu ao estudo de numerosas estações pré-históricas (Pech-Merl, Cougnac, Noaux, etc), Marshack publicou, em 1970, uma monografia, de caráter assaz técnico, que infelizmente passou quase desapercebida: “Notações nas gravuras do paleolítico superior” (Imprimerie Delmas, 6 place Saint-Christoly, 33000 Bordeaux). Sobre o acolhimento reservado a “Racines de la Civilisation”, podemos reportamo-nos ao artigo de Henri de Saint-Blanquat, em “Sciences et Aveir” (“um pithecanthope dessinateur”, Fevereiro de 1973) e no “Monde” de 27 de Dezembro de 1972. Cf. igualmente a interessante obra de Maxime Gorce, “Les Pré-Êcritures et l’Evolution dês Civilisations” (Klincksieck , 1974).

            Os trabalhos do professor Marshack inscrevem-se no quadro de uma reavaliação geral da antiguidade e da importância das culturas pré e proto-históricas da Europa ocidental e setentrional, que se desenvolveu, sobretudo, nos países anglo-saxônicos a partir dos anos 1965-1970. As obras-chaves sobre este assunto são a de Colin Renfrew (“Before Civilization”, “The Emergence of Civilization”), sobre a cronologia e as datações: de Alexander Thom (“Megalithic Luna Observatories”, “Megalithic Sites in Britain”), sobre a astronomia pré-histórica; e de John Daytoin (“Minerals, Metals Glaizing and Man”), sobre a tecnologia e a metalografia

            Colin Renfrew e Alexander Marshack estavam presentes no IX Congresso da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-Históricas, que teve lugar em Nice entre os dias 15 e 18 de setembro de 1976.

Notas e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas

[1] Nota de Mykel Alexander: “Período de arrefecimento do globo terrestre e de alargamento das massas glaciares. (...) Durante as glaciações, os territórios cobertos pelos gelos não puderam ser ocupados pelo homem. As zonas que rodeavam as calotas glaciares (...) permitiam, apesar da pobreza da sua vegetação, a subsistência de certas espécies animais. Explorando a caça, os caçadores (...) conseguiam sobreviver nas regiões submetidas a este clima (...)”.  Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Glaciações.

Os períodos glaciares vão desde antes de 650.000 anos até 10.000 anos. Entre cada período glaciar há os períodos de interglaciações. 

[2] Nota de Mykel Alexander: Período da humanidade que vai “desde os tempos mais recuados até ao aparecimento dos primeiros testemunhos escritos. Na ausência de textos, funda-se essencialmente na interpretação dos vestígios materiais que chegaram até nós.”  Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Pré-História. 

[3] Nota de Mykel Alexander: “Em 1735, Carl Linneu (...) situou, no seu Systema Naturae, o homem ao lado das outras espécies animais. Incluiu-o no gênero Homo com os antropoides (v. Primatas) e precisou a espécie como sapiens. Quando foram descobertas as outras formas antropídeos, a denominação de Lineu foi reservada apenas às formas modernas (...) Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. Vocábulo Homo sapiens. 

[4] Nota de Mykel Alexander: O Paleolítico é o período arqueológico da era geológica quartenária a qual é caracterizada pela presença do homem e pela instabilidade climática, em especial as glaciações.

A era quartenária tem uma duração estimada, conforme o autor, entre 500.000 e 2 milhões de anos. As subdivisões adotadas pelos historiadores são o Paleolítico (a Idade da Pedra Lascada), o Neolítico (a idade da Pedra Polida), o período dos metais (as Idades do Cobre, do Bronze e de Ferro), e o período histórico.

“O termo foi criado por J. Lubbock em 1865, para designar a ‘Idade da Pedra Lascada’, por oposição ao Neolítico ou ‘Idade da Pedra Polida’”. O Paleolítico é dividido em Paleolítico Antigo ou Inferior, Paleolítico Médio, e em Paleolítico Superior. “O em Paleolítico Antigo ou Inferior, tem início com o aparecimento das primeiras indústrias humanas há, por certo, mais de um milhão de anos.”  Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. 

[5] Nota de Mykel Alexander: Um período do Paleolítico Superior. Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990. 

[6] Nota de Mykel Alexander: Importante monumento situado na Inglaterra (na região de Salisbury) e pertencente ao final do período Neolítico. Fonte utilizada: Michel Brézillon, Dicionário de Pré-História. Edições 70, edição de 1990; vocábulo Stonehenge.

 

Fonte: Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal. Capítulo As raízes da civilização.

Sobre o autor: Alain de Benoist (1943 –) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.

Dentre seus livros foram traduzidos para português:

Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.

Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.

Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.

Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.

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Relacionado, leia também:

O mundo dos indo-europeus - Por Alain de Benoist

Politeísmo e Monoteísmo - Por Mykel Alexander

Monoteísmo x Politeísmo – por Tomislav Sunić


domingo, 19 de maio de 2019

{Lembrando} Julius Evola {19/05/1898-11/06/1974} - por Alain de Benoist


Alain de Benoist

“O que se vai ler diz respeito somente ao homem que, apesar de integrado ao mundo atual, no ponto mais paradoxal e problemático da vida moderna, não lhe quer, no entanto, ceder e que se sente, na sua essência, de uma raça diferente da maioria dos homens de hoje” (Cavalcare la tigre).

De barba curta e aristocrática, feições regulares, alto, o filósofo Julius Evola escrevia para um pequeno número de leitores, para os homens que ficam “de pé entre as ruínas”. Morreu em 11 de junho de 1974, aos 76 anos de idade, na sua casa de Corso Vittorio Emanuele, em Roma.

            – Cerca das 15 horas e 15 minutos, como lhe tinha sido predito e ele tão ansiosamente desejava, declara Pierre Pascal, amigo de Evola, escritor e tradutor em francês de vários dos seus livros.

Julius Evola era o mais iminente representante de um pensamento “tradicional” em Itália, o que o fez referir-se a Joseph de Maistre, Taparelli d’Azeglio e Solaro della Margherita. Foi muitas vezes comparado com o alemão Ernst Jünger ou, ainda mais corretamente, ao esoterista francês René Guénon.

No velho conflito entre os guelfos, partidários exclusivos do papado e os gibelinos, para quem o Império Romano-Germânico era ao mesmo tempo que a Igreja, uma instituição de caráter sobrenatural, Evola era partidário dos segundos.


Contra o mundo moderno

Nascido em Roma a 19 de maio de 1898, J. Evola declara-se primeiramente contra a obra de Nietzsche, Michelstäder e Otto Weininger (Geschlecht Und Charakter). Durante a Primeira Grande Guerra é oficial de artilharia na frente. Participa em seguida aos movimentos culturais de vanguarda que se desenvolvem em Itália: dadaísmo com Tristan Tzara, futurismo com Marinetti. Poemas, quadros. Em 1920 publica uma brochura sobre L’Art Abstrait, na coleção Dada de Zurique, que é a sua consagração.
Evola ainda jovem.

A sua formação científica, no entanto, leva-o mais longe. Uma primeira série de ensaios que publica, traduzem o seu interesse pela filosofia (Teoria dell'individuo assoluto, 1920), pelo esoterismo (La tradizione ermetica, 1931) e pelo movimento das idéias (Maschera e volto dello spiritualismo contemporaneo, 1932).

Dirige a revista Ur desde 1927 até 1929. Um ano mais tarde anima La Torre. “A palavra ur – explicará – é a velha denominação do ‘fogo’, mas refere-se também a tudo o que é ‘primordial’, ‘original’ (sentido que ainda conserva a língua alemã).”

Em 1934 publica uma obra capital, Rivolta contro il mondo moderno, que é uma espécie de manifesto. Aí, Evola vai descrever, como opostos, “dois tipos universais, duas categorias a priori da civilização”: o mundo moderno e o mundo da tradição – uma tradição que associa o esoterismo ocidental (aventura templária e mistério do Graal) a um retorno às fontes da antiguidade pré-cristã e de um passado “hiperbóreo”.

Logo de início, a ideia de progresso é rejeitada: “Não há nada mais absurdo que essa ideia de progresso que, com o seu corolário da superioridade da civilização moderna, criou álibis ‘positivos’ falsificando a história e insinuando nos espíritos mitos deletérios, e proclamando a sua superioridade nas encruzilhadas da ideologia plebeia que, afinal, lhe deu origem”.

Para Evola, o mundo moderno é “uma floresta petrificada tendo o centro o caos”. Daí, que a história dos últimos dois milênios seja, não de progresso, mas sim de involução.

Evola compara o Ocidente a um corpo: “Depois de ter tido os organismos vivos e móveis, estes foram tomados pela rigidez que transforma o corpo em cadáver. Depois, vem a última fase da decomposição”. “Nós entramos”, acrescenta, “no último grau de um ciclo: o reino da máquina, da expansão do materialismo e do igualitarismo são as provas evidentes disso. Em volta da cultura europeia aperta-se o torno do bolchevismo e do americanismo, ambos fundados numa concepção economista da vida. Nós vivemos na idade sombria dos velhos hindus[1] (o kali-yuga), na idade de ferro da tradição clássica, na idade do lobo da tradição nórdica. Esqueceu-se a tradição”.

1ª edição de Rivolta contro il mondo
 moderno, de 1934. Uma obra prima 
escrita quando Evola tinha 36 anos.
Dando-nos, assim, uma visão diferente da perspectiva histórica. Evola não dissimula o seu parti pris {viés} metodológico: “As questões que mais nos absorvem são aquelas em que os elementos com valor ‘histórico’ e ‘científico’ menos contam; em que tudo o que, quanto é mito, lenda ou saga, está desprovido de verdade histórica e de força demonstrativa e adquire, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro. É por isso que a Roma da lenda nos falará numa linguagem mais clara do que a Roma temporal e que as lendas de Carlos Magno nos farão compreender melhor o que significava o rei para os francos, do que as crônicas e os documentos positivos da época. Não nos preocuparemos, pois, em discutir e ‘demonstrar’. As verdades que nos podem fazer compreender o mundo tradicional, não são das que se ‘aprendem’ ou se ‘discutem’. Elas apenas são ou não são: apenas podem relembrar”.

E conclui: “Só um regresso tradicional a uma nova consciência unitária europeia pode salvar o Ocidente”.

O livro produz grande celeuma desde a sua publicação. O poeta Gottfried Benn, depois de o ler, declare-se “transformado”. Na Itália as reações são menos retumbantes. Apesar de ligado a Mussolini, J. Evola conta com grande número de adversários nas fileiras do partido fascista. O filósofo Giovanni Gentile é-lhe hostil. O pessimismo aristocrático que se desprende de sua obra não é coisa que convenha a uma época triunfalista por encomenda. A sua obra intitulada Imperialismo pagano, publicada em 1928, ainda hoje nos faz os meios contraditórios rangerem os dentes.

Evola continua a interessar-se pelo esoterismo e depois da publicação de La tradizione ermetica, publica La dottrina del risveglio (1943), sobre a ascese do budismo, e ainda Lo Yoga della potenza. Em Il Mistero del Graal (1937), estuda os fundamentos da “tradição gibelina no Império”, lançando bases, também, de uma “antropologia espiritual”. A exemplo de Ludwig Ferdinand Clauss (Rasse und Seele, 1933), define a raça segundo critérios estritamente biológicos (Il mito del sangue, 1937; Sintesi di dottrina della razza, 1941)[2].

Em 1945, Evola encontra-se em Viena por altura de um violento bombardeio. Ferido na coluna vertebral, Evola é hospitalizado por vários meses. Ficará com os membros inferiores paralisados.

Regressa a Itália em 1948, e dois anos depois apresenta novas ideias que desenvolverá mais tarde na obra Gli uomini e le rovine (1953), num pequeno ensaio intitulado Orientamenti, undici punti. A este seguem-se: Metafisica del sesso (1958), Cavalcare la tigre (1961), Il cammino del cinabro (1963), L'arco e la clava (1968), etc.


O Estado orgânico

No livro Gli uomini e le rovine, Evola aborda diretamente a questão política, dirigindo-se à jovem direita italiana e propondo-lhe “uma visão geral da vida e uma doutrina rigorosa do Estado”. Ao Estado moderno ele opõe o ideal de Estado orgânico cantado já por Vico e Fustel de Coulanges: o Estado em que cada um tem o seu lugar – como, no organismo cada órgão tem o seu. O Estado, diz ele, é o conjunto tanto espiritual como “físico”. Não é “o reflexo” da sociedade, é o agente que transforma e estrutura essa sociedade e que, apontando-lhe um destino, faz de um agregado sem coesão um verdadeiro conjunto elevado à dignidade de político.
“O fundamento de qualquer Estado verdadeiro”, escreve Evola, “é a transcendência do seu princípio, quer dizer, do princípio da soberania, da autoridade e da legitimidade. Por exemplo, a antiga noção romana de impérium pertence essencialmente ao domínio do sagrado: antes de significar um sistema de hegemonia territorial supranacional, designa sobretudo o puro poder do comando, a força quase mística e a auctoritas próprias daquele que exerce as funções e a qualidade de chefe, tanto na ordem religiosa e guerreira, como na família patrícia (a gens) e no Estado (a república).”
O Estado aparece, assim, como uma noção essencialmente masculina. As suas relações como povo (a pátria, a nação), são análogas às do homem para com a mulher, do pater famílias como a família, e, no domínio das crenças indo-européias, do céu com a terra. “É assim que, na Roma antiga, a noção de Estado e de impérium, de poder sagrado, se ligava fortemente ao culto simbólico das divindades viris do céu, da luz e do mundo superior, por oposição à região obscura das Mães e das divindades infernais gregas.”
Só quando os recursos do impéruim se esgotaram e a população não estava em estado de perceber o que isto significava, é que os chefes de Estado, não conseguindo tirar a sua legitimidade “do alto”, se viram obrigado a ir buscá-las “em baixo”: foi a democracia, o cesarismo, a ditadura e a tirania – sistemas diferentes, mas cuja força provém do demos e que levam ao comunismo, cujo objetivo confesso é a supressão do Estado.
De passagem, J. Evola denuncia a ilusão igualitária como um simples absurdo lógico: “Vários seres iguais não seriam ‘vários, mas um. Querer a ‘igualdade de vários’ implica uma contradição nos termos. Pelo contrário, numa sociedade hierarquizada, podem conceber-se facilmente diferentes ‘níveis de igualdade’: quando a ideia hierárquica, no passado, era reconhecida a noção de ‘par’ e de ‘igual’ significaram muitas vezes uma ideia aristocrática. Em Esparta, o título de omoioi, de ‘iguais’, aplicava-se exclusivamente à elite que detinha o poder, título revogável em caso de indignidade por parte de detentor. Da mesma forma, na antiga Inglaterra, o título de pair (peer), foi, como se sabe, reservado aos lordes.”
Já Jean-Batista Vico, inspirador de Montesquieu, dizia: “Os homens querem primeiro a liberdade dos corpos e depois das almas, ou seja, a liberdade do pensamento e a igualdade com os outros; em seguida querem ultrapassar os iguais; e, finalmente, colocar os seus superiores por baixo deles” (Scienza Nuova, II, 23).
Ao mesmo tempo, Evola preocupa-se em distinguir o elitismo do bonapartismo e do maquiavelismo. Considera Bonaparte o sucessor dos condottieri da Renascença, dos tribunos da plebe romana e dos “tiranos populares” surgidos na Grécia antiga depois do declínio das aristocracias. Há bonapartismo todas as vezes que o chefe retira sua autoridade de outro que não ele, cada vez que se apresenta como “filho do povo” e não como “o representante de uma humanidade mais perfeita, que afirma um princípio superior”. “Enquanto que o conceito tradicional de soberania e autoridade implica distância”, escreve Evola, “porque é o sentimento da distância que provoca nos inferiores a veneração, o respeito natural, uma disposição instintiva para a obediência e lealdade para com o chefe, neste caso tudo se passa inversamente: de um lado o poder, a abolição da distância e do outro a aversão a ela. O chefe bonapartista ... ignora o princípio qual quanto maior for a base mais alto se deve manter o cume. Sucumbo do complexo de “popularidade”, o bonapartista faz questão de todas as manifestações que lhe possam dar a certeza, ainda que ilusória, de que o povo o segue e o aprova. Neste caso, é o superior que precisa do inferior para experimentar o sentimento do seu próprio valor e não o contrário, como seria normal.”
Evola toma, assim, partido por uma ascese do poder: “É bom que a superioridade e o poder se associem, mas com a condição de que o poder se funda na superioridade e não a superioridade no poder. E cita Platão: “Os verdadeiros chefes são aqueles que apenas assumem o poder por necessidade, porque não conhecem nem melhores nem iguais a quem essa tarefa possa ser confiada” (Republica, 347 c).

Direito às armas e dever militar
O “estilo militar”, que não é senão uma das facetas dos valores heróicos, não deve, da mesma forma, confundir-se com o militarismo ou com a guerra: “A ideia guerreira não se reduz a um materialismo, nem é sinônimo de exaltação do uso brutal da força e da violência destrutiva. A formação calma, consciente e dominada do ser interior e do comportamento, o amor pela distância, pela hierarquia, pela ordem, a faculdade de subordinar o elemento passional e individualista de si mesmo a princípios e fins superiores, sobretudo aos da honra e do dever, são elementos essenciais a esta ideia e o fundamento de um estilo preciso, que viria a perder-se quando estes Estados, em que tudo isto pertencia a uma severa e longa tradição quase de casta, foram substituídos por democracias tradicionalistas, em que o dever do serviço militar substituiu o direito às armas.”
Hoje, lembra Julius Evola, as guerras estão longe de ter desaparecido, antes pelo contrário: tornaram-se totais. Elas atingem o conjunto da população, que, em virtude do princípio igualitário, é obrigada a vestir o uniforme – toca a totalidade dos civis.
O homem da elite, para Evola, não é portanto nem o homem de exceção, nem o brilhante orador e nem sequer o gênio. É “aquele em que se revela uma tradição e uma ‘raça de espírito’, aquele que deve a sua grandeza não ao homem, mas sim ao princípio, à ideia, numa certa impessoalidade soberana”. Os critérios decisivos são aqui, antes da inteligência, o caráter e a forma do espírito, porque “a visão do mundo (Weltanschauung) pode ser mais clara num homem sem instrução do que num escritor, mais firme num soldado, num membro de família aristocrática ou num camponês fiel à terra do que num intelectual burguês, num professor ou num jornalista.”
A “visão de mundo” também não é qualquer coisa individual. Também ela procede de uma tradição, “resultante orgânica das forças às quais um tipo de civilização deve a forma que lhe é própria.”
“A cultura”, acrescenta Evola, “não cessa de ser um perigo para quem tem uma visão de mundo, porque essa pessoa dispõe de uma configuração interior que lhe serve de guia seguro para discernir (como em todos os processos orgânicos), o que pode ser assimilável e o que deve ser rejeitado (...). Uma das consequências mais graves da ‘livre cultura’ ao alcance de todos, é que os espíritos incapazes de discriminar segundo julgamento acertado, os espíritos que ainda não possuem forma própria, são os que se encontram mais desarmados no plano espiritual, para fazer face a todos os tipos de influências.”
Julius Evola volta afirmar que não se dirige às massas, mas sim aos égrégoroi: àqueles que trazem consigo a ideia de uma regeneração; àqueles que, depois de terem “cristalizado” na história, ainda se mantêm de pé. (“Resta saber quantos homens ainda se mantêm de pé por entre as ruínas para compreenderem.”) Evola diz a esses homens bem-nascidos que é inútil resistir directamente ao caos reinante: a corrente é demasiado forte para ser reprimida. Mas vale que se esforcem por tomar o comando de um processus que se considera inevitável. “É preciso determinar até que ponto se pode tirar partido das perturbações destruidoras; até que ponto, graças a uma firmeza interior e a uma orientação no sentido da transcendência, o não-humano do mundo moderno, em vez de levar ao sub-humano (como na maioria das formas atuais), pode favorecer as experiências de uma vida superior e de uma liberdade também superior.”
Um ditado do Extremo Oriente resume este conselho: “Cavalgar o tigre”, para o impedir de morder, e, talvez, para o poder dirigir na sua correria.

Evola em 1973. Um ano antes de falecer,
e completamente lúcido com 75 anos.
Conseguir uma ultrapassagem por cima
O que, portanto, Evola propõe, é uma contestação radical da sociedade burguesa, mas uma contestação inversa à que hoje vemos, e que não passa da sua antítese relativa. Não é, aliás, a burguesia como classe que Evola ataca, mas sim a burguesia como forma de espírito, como “tudo o que sai da mentalidade burguesa com o seu conformismo, os seus prolongamentos psicológicos e românticos, o seu moralismo e a sua preocupação por uma vidinha segura, em que o materialismo fundamental encontra a sua compensação no sentimentalismo e na grandiloquência humanitária e democrática.”
E tal como, precisa ele, “a burguesia nas civilizações tradicionais ocupava um lugar intermediário entre a aristocracia guerreira e política e o povo, também existem duas maneiras – uma positiva e outra negativa – de ultrapassá-la com categoria e de tomar posição contra o tipo, a civilização, os valores e o espírito burgueses. A primeira possibilidade consiste em seguir uma direção que leva ainda mais abaixo, que dizer, aos valores sociais marxistas opostos àquilo que se chama “decadentismo burguês” (...). O resultado não poderá ser senão uma nova regressão: vai-se em direção a algo que se situa abaixo da pessoa e não acima dela...”
“Mas existe outra possibilidade: uma exigência e uma luta contra o espírito burguês, contra o individualismo e o falso idealismo, mais decididos que os dos movimentos de esquerda, mas, desta vez, orientados para o alto. Esta segunda possibilidade obriga-nos a retomar e assumir, uma forma natural e clara, sem retórica nem grandiloquência, os valores heróicos e aristocráticos. Porque podemos deste modo manter a distância em relação a tudo o que não passa de humano e principalmente subjetivo; podemos desprezar o conformismo burguês, o seu egoismozinho e seu moralismozinho; podemos assumir um estilo ativo de impersonalidade, amar o que é essencial e real (no sentido superior), pondo de parte as brumas do sentimentalismo e as estruturas intelectualistas; podemos consagrar-nos a uma ‘desmistificação’ radical – tudo isso mantendo-nos de pé, sentindo a evidência daquilo que na vida vai para o além da vida e extraindo daí regras precisas para a ação e comportamento.”

Era do partido da estrela polar
Julius Evola vivia retirado há trinta anos, com as duas pernas paralisadas, entre os seus quadros, os seus livros e os amigos que ainda o visitavam, quando chegou o momento da sua morte. Tendo tornado-se mestre da maneira de pensar duma parte da direita italiana e, sobretudo de um número crescente de jovens, não cessou de ser atacado pela esquerda que fingia ver nele o ideólogo de uma nova Ordem de Sainte Vehme[3]. Ficou sempre impassível, visto ter optado, de uma vez para sempre, por não se deixar arrastar para o campo da polemica.
– O homem que tem virtude não discute, dizia ele citando o Lao-Tse.
Um livro de homenagem, publicado em 1973, orientado por Gianfranco de Turris (Testimonianze su Evola), mostra bem a influência que ele exercia.
Pierra Pascal compara a expressão grave e altaneira de Evola com a de Montherlant: dois gigantes solitários .
– Eram os dois, diz ele, do partido da estrela polar.

Julius Evola 19/05/1898-11/06/1974
Um dos faróis da regeneração humana na Idade das Trevas atual

{Bibliografia}
Les Hommes au Milleu des Ruines”, ensaio de Julius Evola, Sept Couleurs, 252 páginas.
Testimonianze su Evola”, ensaios publicados sobre a direção de Gianfranco de Turris, Ed. Mediterranee, Roma, 235 páginas.

Um dos últimos livros de Evola publicados na Itália é uma coletânea de artigos: “Ricognizioni” (Mediterranee, Roma, 1974). Na França, para além de “Les Hommes au Milieu des Ruines”, existem traduções de “La Doctrine de l’Eveil” (Adyar, 1956, 2° edição: Archè, Milano, 1976), “Métaphysique du Sexe” (Payot, 1959 e 1976), “La Tradition Hermétique” (Ed. Tradicionnelles, 1961 e 1968), “Chevaucher le Tigre” (La Colombe, 1964), “Le Mystère du Graal” (Ed. Traditionnelles, 1967), “Le Yoga Tantrique” (Fayard, 1971), “Révolte Contre l’Homme Moderne” (Ed. De l’Homme, Bruxelles, 1972), “Masques et Visages du Spiritualisme Contemporain” (Ed. De l’Homme, Bruxelles, 1972).

Dirigida por Paolo Andriani, a Fundação Julius Evola propõe-se velar pela conservação dos livros e manuscritos deixados por Evola, e “defender os valores de uma cultura conforme a tradição”. A Fundação instalou a sede no antigo domicílio do escritor (Corso Vittorio Emanuele, 197, Roma).
Foi publicada em 1977, nas edições Copernic, uma obra coletiva sobre “Julius Evola. L’Homme et l’Ouevre”. Podem aí ler-se textos de Jean Varenne, Michel Angebert, Pierra Pascal, Renato Del Ponte, Robert de Herte e Vintila Horia.



Notas


[1] Nota do editor: Na tradução do francês ao português foi colocado originalmente índios e não hindus, este último termo opção que escolhi como editor para não deixar espaço para confusão entre índios e os povos indo-europeus.

[2] Nota do editor: É preciso fazer um esclarecimento, pois na realidade o trabalho de Julius Evola Il mito del sangue (O mito do sangue), de 1937 é uma análise das diversas concepções raciais que registravam decisiva, mas não única, importância ao fator biológico na apreciação racial, e o trabalho de Ludwig Ferdinand Clauss, um dos principais nomes da Alemanha de Hitler na questão racial, era revolucionário justamente por priorizar o componente psicológico, sendo, portanto, uma contraparte aos outros eruditos e cientistas raciais da Alemanha que priorizavam componente biológico. Posteriormente, Evola escreveu o trabalho racial que trazia as concepções dele próprio, Sintesi di dottrina della razza (Síntese da doutrina da raça), de 1941, na qual o homem é delineado em suas partes transcendental, psicológica e biológica.

[3] Nota do editor: Refere-se à uma organização medieval remontando ao início da Idade Média no período de Carlos Magno, porém com heranças mais arcaicas, que atuava na Europa, especialmente na Alemanha, impondo severa patrulha sobre os costumes de então.


Fonte: Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal. Este capítulo foi traduzido da edição francesa ao português por Maria João de Serpa Pacheco de Amorim.
Edição do artigo e palavras entre chaves por Mykel Alexander. Isso inclui a escolha pelos nomes das obras de Evola no decorrer do artigo no original italiano e não francês como fez Benoist.  


Nota do editor: Em português das obras de Julius Evola vertidas a partir do italiano temos:
A Tradição Hermética, Edições 70, Lisboa, 1971, tradução de Maria Teresa Simões.
O Mistério do Graal, Editora Pensamento, São Paulo, 1972, tradução de Pier Luigi Cabram.
Revolta contra o Mundo Moderno, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1989, Tradução de José Colaço Barreiros.
Metafísica do Sexo, Editora Vega, Lisboa, 1993 (2ª edição), tradução de Elisa Teixeira Pinto.
Revolta contra o Mundo Moderno, Editora Irget, São Paulo, 2010, Edição de Luiz Pontual.

Sobre o autor: Alain de Benoist (1943 – ) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.
Dentre seus livros foram traduzidos para português:
Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.
Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.
Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.
Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.

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