domingo, 25 de novembro de 2018

Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce


Êxodo judaico

               Eu tenho estado intrigado pela história do Êxodo israelense do Egito por mais de uma década. Mais que qualquer de seus rivais mais próximos, incluindo o conto de Hamã no Livro de Ester, o Êxodo avulta-se grandemente como um primitivo e extremamente influente marco psicológico na lacrimosa e altamente duvidosa pseudo-história do povo judeu. Bem obviamente, a putativa liberação do Egito é comemorada pelo judaísmo todo ano, na forma da Pessach, ou festival da Páscoa. Na verdade, este festival é uma das mais importantes marcas do calendário religioso judaico. O historiador Paul Johnson observa que o Êxodo “tornou-se uma memória esmagadora” e “gradualmente substituiu a criação própria como o evento central, determinante, na história judaica[1]

            O Êxodo tem um poder que existe independentemente das armadilhas do mito religioso, atuando através dos séculos como uma narrativa definidora da vitimização, reivindicação de grupo, e auto validação. Os judeus vivendo sob o Czar produziram intermináveis peças e sátiras yiddish contendo alusões cruamente escondidas ao Czar como a última encarnação do faraó[2]. O Êxodo é uma fundação sobre a qual a identidade judaica, bem como a religiosidade judaica, é construída, e por esta razão ele tem preocupado grandemente mesmo os mais ateus dos judeus, Karl Marx e Sigmund Freud entre eles. Moisés, como arquétipo subconsciente, agacha-se nas sombras da psique judaica.

            A recepção inicial do Êxodo pelos não-judeus também desempenha um importante papel na concepção de mundo judaica, no sentido que o “vírus” do “antissemitismo” é dito ter originado em resposta a ele. A esse respeito, existe um quase universal consenso entre os judeus intelectuais que as primitivas origens do “antissemitismo” podem ser traçadas aos escritos de um sacerdote egípcio supostamente ofendido pelo relato da fuga israelita do Faraó. A teoria relaciona-se especificamente à história do Egito, a Aegyptiaca, escrita pelo sacerdote egípcio chamado Mâneton ao redor de século terceiro a.C. Embora a Aegyptiaca esteja perdida para nós, somos capazes de reunir muito de seu conteúdo baseado em réplicas subsequentes por escritores judeus posteriores tais como Flávio Josefo, e também referências do texto por vários intelectuais gregos e greco-egípcios.

            Em resumo, Mâneton relatou que séculos antes uma população estrangeira tinha entrado na fronteira leste do Egito através da “infiltração do Delta”. Esta população estrangeira subsequentemente subiu no poder dentro do Egito, tornando-se um fardo e uma pestilência para os nativos. Em algum momento, a população estrangeira desenvolveu uma séria doença de pele, e os egípcios estavam finalmente motivados a expulsar os invasores, que posteriormente foram realocados para Jerusalém.

            A narrativa de Mâneton certamente provocou alguns dos primeiros exemplos de apologia judaica. Seu relato filtrou-se através dos tempos e foi retomado pelo egípcio helenizado Apião o alexandrino (30 – 20 a.C. –  aproximadamente 45 – 48 d.C.), e por sua vez provocando um polêmico texto do historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C. – aproximadamente 100 d.C) intitulado simplesmente Contra Apião. Neste texto, Josefo comentou desdenhosamente que “Sob o pretexto de registrar fábulas e relatos atuais sobre os judeus, ele [Mâneton] tomou a liberdade de introduzir algumas incríveis histórias, desejando representar nós como... condenados ao banimento do Egito.” É interessante que Josefo estava mais preocupado em rejeitar a acusação que os judeus tinham uma aflição de pele, e estava muito preparado para aceitar que a hostilidade egípcia era baseada no “agravo original de dominação de nossos ancestrais [judeus] sobre o país deles.”

Hoje, historiadores são quase unânimes que Mâneton foi um criador malicioso de calúnias anti-judaicas. A filosemita A History of the Jews de Paul Johnson é um bom exemplo neste respeito, embora seu tratamento da antiga história judaica é cheio de contradições. Por exemplo, Johnson reconhece que as populações proto-judaicas eram altamente problemáticas para as autoridades egípcias. Referindo-se as Cartas Amarna (datadas de 1389 – 1358 a.C.), Johnson concede que os relatos dos antigos egípcios referem-se a um hebreu chamado Labaya ou Homem Leão que “causou grandes dificuldades para as autoridades egípcias e os aliados delas... [Ele] era difícil de controlar, um estorvo. Ele finalmente encontrou uma morte violenta no reino do faraó Akhenaton.”[3]

            Johnson acrescenta ainda que a somente parte da nação hebraica tinha vivido no Egito, “uma quinta coluna dentro da terra” que desempenhou uma crucial parte nas estratégias geopolíticas mais ampla do grupo[4]. Mesmo deixando de lado os elementos supernaturais inerentes do conto do Êxodo, Johnson também parece ceder à improbabilidade de uma partida instigada pelos judeus desde que isso representaria “uma bem sucedida revolta e fuga de um povo escravo, o único registrado na antiguidade.”[5] Apesar destes reconhecimentos, Johnson descreve o relato de Mâneton da expulsão do infiltrados proto-judeus para fora do Egito e para Jerusalém como uma “matriz fundamental do antissemitismo, o Ur-Libelo {Ur é uma expressão germânica para original ou primitivo}”[6].

            O ativista acadêmico judeu Robert Wistrich, agora falecido, descreve Mâneton como “malevolente” e “um dos primeiros polemistas antissemitas da antiguidade.”[7] Kenneth Roseman argumenta que Mâneton “disseminou virulenta propaganda antissemita.”[8] Ernst Abel chamou o padre egípcio “pai da literatura antissemita.”[9] Uma edição especial de 1985 do Jewish Social Studies rotulou Mâneton “o primeiro expoente literário da tendência antijudaica no mundo greco-romano egípcio e o homem que foi instrumental na criação, ou no mínimo em popularizar, alguns dos motivos recorrentes de antissemitismo.”[10]

            A fim de explicar porquê Mâneton possa ter construído seu “Ur-libelo”, Wistrich se referiu a uma mais vasta atmosfera em Alexandria na qual os judeus estavam em “competição sócio-política com os egípcios helenizados.”[11] Em meio desta competição judeus passaram a ser vistos como exclusivistas, não patrióticos, possuindo duas lealdades, e possuindo uma “posição de privilégio, riqueza e poder.”[12]

            Estas acusações foram tratadas com a mais duradoura articulação pelos principais intelectuais da época, incluindo Apião, Lisímaco, Queremão, que atuou como um dos instrutores de Nero[13]. A antipatia frente aos judeus era tão abundante que mesmo após a conquista da Judéia, ambos Tito e Vespasiano iriam recusar a adotar o título honorário “judaico”.

            Mâneton foi assim, pelo consenso acadêmico moderno, meramente o primeiro a registrar os primeiros resmungos ciumentos, de uma civilização não-judaica.

            Enquanto os agravos não-judaicos durante este período são vistos pelos guardiões acadêmicos com grande ceticismo e alarme, o auto engrandecimento judaico da mesma era é aceito sem contestação. Assim como Mâneton é dito ter feito empréstimos do Êxodo para sua Aegyptiaca, assim todo escritor helenístico foi alegado ter meramente enxertado ideias a partir de um judaísmo superior intelectualmente. Ao contrário, em meu próprio parecer abrangendo tudo, os judeus não interagiram com a cultura grega em Alexandria  em qualquer outra maneira que não fosse a cooptação das realizações dela.

            Este é, naturalmente, o fenômeno atemporal do chauvinismo cultural judaico, construído sobre a reescrita da história. O ativista acadêmico Simon Schama escreve que, em Alexandria, muitos escritores e filósofos judeus argumentaram que o judaísmo “foi a antiga raiz e o helenismo a jovem árvore. Zeus foi apenas uma versão paganizada do Todo-Poderoso YHWH, e Moisés foi o legislador definitivo de quem todos os estabelecedores e lei e ética tinham surgido. O judeu Aristóbolo de Paneas, escrevendo em meio do segundo século a.C. quis que seus leitores acreditassem que Platão tinha estudado minunciosamente a Torá e que Pitágoras possuía seu teorema dos antigos ensinamentos judaicos.”[14] Esta é a antiga raiz do familiar impulso para perpetuar a ideia do “gênio judeu,” um tema agora vem documentado em The Occidental Observer (por exemplo, meu “Pariah to Messiah: The Engineered Apotheosis of Baruch Spinoza” para uma discussão de como os intelectuais judeus têm reescrito a história do Iluminismo para ser o resultado da influência judaica).

Rusell Gmirkin
            Embora as narrativas contérminas com a fábula do Êxodo permaneçam envaidecidas e inertes dentro do corpus acadêmico, eu desejaria chamar a atenção dos leitores para um livro bastante notável publicado em 2006. Largamente ignorado pelos guardiões da acadêmica, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch de Rusell Gmirkin  representa nada menos que um ataque em múltiplas frentes em ambas interpretação judaica de Mâneton e o próprio relato do Êxodo. O estudo de Gmirkin oferece evidências convincentes que Mâneton não reagiu ao Êxodo, mas, ao invés, o Êxodo foi escrito por intelectuais judeus em Alexandria em reação à Mâneton, cujo relato era mais antigo e mais preciso. Ou, conforme o autor coloca, ao invés de Mâneton atacar os judeus, “o empréstimo e polêmicas ocorreu em direção oposta; o Pentateuco polemizou contra as histórias de expulsão egípcias em Mâneton.”[15] A implicação da tese de Gmirkin é que, ao escrever o Êxodo, um texto, mais tarde, dado à proteção cultural e maior credibilidade e autoridade pela difusão do cristianismo, os judeus essencialmente capturaram a história, reescrevendo-a em uma maneira que salvou o orgulho judaico.

            Todavia o que nós entendemos como a estratégia evolucionária do grupo judaico, e os códigos culturais que a sustentam, certamente existiram anteriormente ao terceiro século a.C., Gmirkin argumenta que o “Pentateuco hebreu foi composto em sua totalidade ao redor de 273 a.C. por 72 estudiosos judeus em Alexandria.”[16] Combinando descobertas arqueológicas com meticulosas análises textuais, Gmirkin demonstra um dependência pesada do Gênesis em relação à Babyloniaca de Beroso (278 a.C.) e do Êxodo em relação ao Aegyptiaca de Mâneton (aproximadamente 285 – 280 a.C.), bem como uma geral dependência do Êxodo em relação as fontes literárias disponíveis na Grande Biblioteca de Alexandria. Contrário às alegações que Mâneton engajou-se em polêmicas contra os judeus como uma resposta ao Êxodo, Gmirkin aponta que sua narrativa não menciona os judeus pelo nome, referindo-se, ao invés, a uma tribo de origem étnica mista conhecida como Hicsos (nome egípcio para ‘governantes dos países estrangeiros’). Além do mais, o relato de Mâneton “não mostra nenhuma consciência do relato bíblico,” e “pode ser demonstrado ter sido redigido exclusivamente sobre fontes nativas egípcias.”[17]

            Substanciais elementos do Êxodo parecem ter sido plagiados ou corrompidos a partir da Aegyptiaca. Gmirkin escreve que:
A história do Êxodo, entrementes, mostra um considerável conhecimento dos relatos de Mâneton em relação aos Hicsos e egípcios expulsos, mostrando um sistemático acordo com Mâneton em todos os detalhes favoráveis ou neutros aos judeus mas contém polêmicas precisamente naqueles pontos em Mâneton que refletiam desfavoravelmente aos judeus[18].
            Gmirkin destaca fatos cruciais os quais trazem a indagação de como o mito de “Mâneton como antissemita” veio a ser dominante por tanto tempo, mesmo levando em consideração que a marcha do cristianismo protegeu o Êxodo da crítica por séculos. O mais contundente é o fato que “Mâneton pré-datou a Septuaginta, a primeira tradução grega dos escritos judaicos. Esta consideração cronológica somente exclui a possibilidade da influência da história do Êxodo judaico sobre o relato de Mâneton sobre os hicsos.”[19] O conhecimento explícito dos judeus em Mâneton é “realmente muito limitado.”[20] A real ligação entre os judeus de Alexandria e o relato de Mâneton parece ter sido um número de agora obscuras “tradições judaicas equiparando os hicsos com os judeus.”[21]

            Expresso de forma mais simples, os judeus foram ofendidos indiretamente por Mâneton por causa que ele apresentou um retrato negativo dos hicsos, quem os judeus tinham, pelo século terceiro a.C., passado a considerar em alguns aspectos como quase ancestrais.

            Enquanto o relato de Mâneton “tinha nada a ver com os judeus e não foi dependente da tradição do Pentateuco,” ele de fato pôs em marcha um relato negativo dos hicsos no Egito[22]. Utilizando antigas listas de reis, a vida do último faraó Nectanebo II e a mais antiga Aegyptiaca de Hecateu de Abdera, Mâneton descreveu os hicsos como “invasores de uma raça obscura” que tinha trazido desgraças e pragas em seu rastro após a infiltração deles no Delta.[23] A arqueologia moderna tem sido capaz de determinar que os hicsos eram um povo híbrido combinando linhagens semitas ocidentais (canaanitas), indo-arianas, e asiática ocidental. Independente de se os judeus de Alexandria tinham ligações genéticas significantes com os hicsos, nós sabemos que os últimos foram expelidos do Egito duas vezes e mais tarde se estabeleceram “em Jerusalém e na Judeia geográfica.”[24] Talvez mesmo mais importante é o fato que por mais de dois mil anos os judeus têm tomado o relato de Mâneton como um insulto direto, evidência, se nada mais, da própria crença em alguma forma de conexão com os hicsos.

            Em relação a Mâneton, os compositores do Êxodo empregaram “um padrão previsível, consistente e sistemático nos pontos de semelhança e contradição violenta.”[25] Ambos relatos apresentam os judeus/hicsus como estrangeiros no Egito, e que são em alguma forma compelidos a saírem por causa das autoridades ou circunstâncias. Ambos relatos localizam a ação na fronteira oriental do Egito. Ambas referenciam o crescimento demográfico e a crescente influência de estrangeiros no Egito, bem como a contemporânea presença de pragas. Gmirkin explica estas similaridades ao assinalar que “os autores da história do Êxodo judaico escolheram as batalhas deles cuidadosamente, aceitando o quadro básico do relato de Mâneton, aceitando quaisquer detalhes que eram considerados inofensivos, mas elevando à defesa dos judeus em cada ponto de honra.”[26] Geralmente falando, “o Pentateuco aceitou tanto quanto possível do relato de Mâneton, devido a autoridade e reputação de Mâneton.”[27] Onde os escritores do relato bíblico necessitaram de corpo para a versão deles com referências à história egípcia, eles parecem ter repetidos erros já presentes em Mâneton, especialmente em relação às seções erradas da lista de antigos reis e crônicas.[28]

            Embora sucessivas gerações de intelectuais judeus tenham tido pontos controversos com antigas alegações egípcias “antissemitas” que os estrangeiros sofreram alguma forma de aflição da pele, e foram em parte exilados por causa dela, o Êxodo e outros livros do Pentateuco mostram óbvias tentativas de esquivar-se de tais inferências.  No Êxodo (4:6-7) Moisés é capaz de transformar sua mão leprosa e curar ela à vontade como um sinal mágico para o Faraó. Em Números (12:10) existe uma estranha história da breve lepra de Miriam, imposta pelo deus hebreu como uma punição por rebelião. Ambos Levítico e Números contém muitas proeminentes leis lidando com lepra. O mais condenatório de todos é talvez Deuteronômio (28:60), no qual o deus hebreu adverte os judeus que se eles alguma vez apostarem, ele iria “trazer a eles novamente as doenças do Egito.” Há, portanto, clara evidência que os compositores do Êxodo e do Pentateuco adotaram ou no mínimo reconheceram os relatos anteriores do hicsos no Egito nos quais aquela tribo estrangeira tinha sofrido alguma forma de aflição ou doença da pele durante o tempo de permanência deles.

            Pode-se perguntar qual a relevância de tal história tem para o presente. A título de resposta refiro-me às observações feitas no início deste ensaio. O Êxodo permanece um texto essencial no desenvolvimento do cenário mental judaico, moldando ideias sobre identidade, vitimização e validação. Sua recepção precoce tem também vindo a representar, na mente judaica, as origens do “antissemitismo” e o plágio de um putativo gênio judeu. Por causa da influência da cristandade em reter e reforçar o Pentateuco, e mesmo estender ele de alguma maneira na psique ocidental, a história do Êxodo tem sido imerecidamente preservada sob um tipo disfarce de camada arqueológica cultural, congelada e preservada. Nós temos na maior parte perdido o contato com o fato que ela, {a história do Êxodo}, era um ponto no tempo meramente de um repúdio tribal de um consenso esmagador. O historiador Gohei Hata tem argumentado que na época de Josefo no mínimo sete importantes escritores e intelectuais gregos ou greco-egípcios tinham publicado relatos afirmando que os judeus tinham alguma distante conexão com o Egito, que eles tinham sido banidos, que eles sofreram de uma aflição da pele, e que o próprio Moisés era um apóstata egípcio instável.[29]

            Embora nossas pessoas possam não lembrar destas crônicas, elas são extremamente familiarizadas com os contos de judeus oprimidos que são dados de alimento a elas pelas igrejas delas, e por uma Hollywood que continua a produzir ambos filmes adultos[30] e infantis[31] sobre um “heroico” Moisés despido das qualidades assassinas e psicopatas que encharcam as páginas do Pentateuco. Imagine se elas fossem ao invés confrontadas com o fato que o conto de Moisés familiar a elas é ainda mais distante da realidade do que elas poderiam imaginar, escondendo uma mais ainda sinistra história no Egito, revelando ao invés as imaginações psicóticas e febris de uma cabala de rabinos alexandrinos.

            Mesmo se Moisés nunca existiu senão como um tipo de golem espreitando nos recessos psicológicos de intelectuais que o conceberam, ele ainda retém um tipo de “realidade.” E em consideração a isto nós podemos considerar os comentários de Christian Bale, o ator galês escolhido para interpretar Moisés no filme de 2014 Exodus: Gods and Kings. Perguntado sobre o personagem que ele tinha sido convidado a interpretar, em sua própria pesquisa sobre o a figura, Bale respondeu[32] que Moisés “era ‘provavelmente esquizofrênico’ e foi um dos indivíduos mais ‘bárbaros’ que ele tinha jamais lido em sua vida.” Ele citou passagens públicas que não foram incluídas como eventos no filme: o capítulo em Números onde Moisés ordena a matança de todos os prisioneiros de guerra midianitas, salvo as garotas virgens; e a seção do Êxodo na qual Moisés pune os israelitas por adoração ao bezerro de ouro ao forçar eles a beber um líquido escaldante feito do material do ídolo antes de ordenar o abatimento de 3,000 hebreus pela transgressão. Bale encerrou seus comentários ao adicionar que “se Moisés estivesse vivo hoje, ele iria provavelmente ser julgado por crimes de guerra.”

            Questionando-nos entre escolher entre Êxodo e Mâneton, poderíamos lançar nossas mentes de volta a mais que dois milênios de história desde que ambos entraram no cânone ocidental. O êxodo ou a expulsão têm sido mostrado mais claramente na história dos judeus? A historiografia não tem sido gentil com o sacerdote egípcio, mas a história encontra ele vindicado.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas 


[1] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), página 26.

[2] Nota do autor: Ken Frieden, Classic Yiddish Fiction: Abramovitsh, Sholem Aleichem, and Peretz (State University of New York Press, 1995), página77.

[3] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 22 – 23.

[4] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), página 23.

[5] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 26.

[6] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 29.

[7] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[8] Nota do autor: Keneth D. Roseman, Of Tribes and Tribulations (Oregon: Wipf & Stock, 2014), página 82.

[9] Nota do autor: Ernest Abel, The Roots of Anti-Semitism (Fairleigh Dickinson University Press, 1974), página 49.

[10] Nota do autor: Jewish Social Studies, Volume 47 (Inverno de 1985), página 2.

[11] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 6.

[12] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[13] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[14] Nota do autor: Simon Schama, The Story of the Jews: Finding the Words, 1000 BCE-1492 CE (Ecco, 2014), página 93.

[15] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), páginas 2-3.

[16] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 1.

[17] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 3.

[18] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 3.

[19] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 187.

[20] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 210.

[21] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 210.

[22] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[23] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 173.

[24] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 187.

[25] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[26] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[27] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[28] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 211.

[29] Nota do autor: Gohei Hata, ‘The Story of Moses Interpreted within the Context of anti-Semitism,’ in Josephus, Judaism, and Christianity (Brill, 1987), página181.

[30] Fonte utilizada pelo autor: Exodus: Gods and Kings.

[31] Fonte utilizada pelo autor: The Prince of Egypt.

[32] Fonte utilizada pelo autor: “Christian Bale’s Moses in ‘Exodus’: Insecure? Schizophrenic?”, por  Naomi Pfefferman, 11/12/2014, Jewish Journal.







Sobre o autor: Andrew Joyce é o pseudônimo de um acadêmico PhD em História, especializado em filosofia, conflitos étnicos e religiosos, e imigração. Ele compõe o editorial do The Ocidental Quarterly e é contribuinte regular do The Occidental Observer, e assessor do British Renaissance Policy Institute.

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domingo, 18 de novembro de 2018

Democratite palaciana e o sufrágio teocrático: a sintetização republicana do “Direito Divino dos Reis” - por Antônio Caleari


Antônio Caleari

A sacrossanta “liberdade religiosa”, tida praticamente absoluta e cujo vetor coletivo está imiscuído com o fisiologismo político, tem se constituído em verdadeiro salvo-conduto para a exploração dos desesperados e dos suscetíveis à manipulação psicológica

Para além do comedimento de uma insípida digressão teórica, costumeiramente entrincheirada no padrão de discurso “técnico e jus-acadêmico”, há de se denunciar, sem subterfúgios e à vista dos mais altos valores envolvidos, o caráter nada menos do que bestialógico atinente à iniciativa do “socialista e libertário” deputado federal Cabo Daciolo (ex-PSOL/RJ), traduzida na Proposta de Emenda à Constituição nº 12 de 2015.

Pretende tal parlamentar que o parágrafo único do Art. 1º da Carta Magna passe a vigorar com a seguinte redação: “Todo o poder emana de Deus, que o exerce de forma direta e também por meio do povo e de seus representantes eleitos, nos termos desta Constituição .

Empreendida uma leitura bastante atenciosa, tanto da minuta normativa quanto de sua pretensa justificativa, chega a ser inacreditável constatar tamanha desinibição; esta última a indicar uma tendência de gradual receptividade ao rompimento com o Princípio da Laicidade do Estado.

Trata-se, unanimemente entre os cidadãos com o mínimo de massa encefálica, de uma rara e declarada coleção de impropérios obscurantistas. E pasmem: inconsequentes cento e setenta e dois congressistas subscreveram o documento!

Para além do ponto de partida, no qual o demérito do projeto é pressuposto, há de se simular um cenário futuro, muitíssimo factível, em que o fundamentalismo ganhe cada vez mais espaço na política nacional. Não há quem negue – salvo improvável juízo – o já elevado e ainda crescente nível de influência que as seitas religiosas detêm, insinuando-se em todas as esferas sociais: meios de comunicação, governos, editoras, instituições de ensino, grandes empresas, bancadas legislativas suprapartidárias e, inclusive, por meio de milícias paramilitares em formação.

A sacrossanta “liberdade religiosa”, tida praticamente absoluta, tem se constituído em verdadeiro salvo-conduto para a exploração dos desesperados e dos suscetíveis à manipulação psicológica. Seu vetor coletivo se mostra a cada dia mais imiscuído com o fisiologismo político, revelando um explícito projeto de poder, a pretexto do exercício de liberdades individuais irrestritas.

Até mesmo os partidos reputados historicamente ligados a esta ou aquela virtude ideológica têm sido, diuturnamente, apropriados pelo poderio econômico e tomados de assalto pelo crime organizado. Quem ousaria chamar à responsabilidade os líderes de quadrilhas sacerdotais, para os quais a salvação espiritual, no Reino de Deus, é antecedida pela dominação material, no Reino dos Homens?

No suposto “governo do povo”, à crua quantificação de vontades não corresponde qualquer compromisso qualitativo: a manada entoa seu coro e quem não gostou que vá, ingenuamente, elucubrar sobre o direito das minorias. Se todo o poder emana de uma maioria lobotomizada, e esta resolve delegar sua representação aos incólumes pontífices divinos, restará aos humanistas chuparem o dedo. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ou alguém realmente acredita que no âmbito dos ditos “movimentos sociais” e demais concílios populares não há alguém puxando a cordinha por detrás?

Só se vence eleição e se governa após anuir com as regras de um jogo sujo, de cartas marcadas, não nos cabendo encampar as teses embasadas na ilusão do institucionalismo, que é relegado à virtualidade quando de transições como as que se anunciam.

Soa irônico o fato de que a defesa dogmática do sufrágio universal, causa primária da atual ameaça, seja feita justamente pela “elite da elite” brasileira: parte dos intelectuais e das pessoas de destaque em nossa sociedade.

Nunca cogitaram eles próprios a fatalidade de serem fagocitados pela horda de inimputáveis?

Não vislumbram os esclarecidos e os catedráticos que, em hipótese-limite, fosse referida Emenda à Constituição declarada desconforme ao texto originário, o problema prático e conceitual restaria, ainda assim, muito longe de ser sanado. Nada impede que se tenha o acinte de convocar nova assembleia constituinte onipotente, incondicionada e cuja autonomia e desvinculação com a ordem anterior são características reconhecidas intrínsecas.

A Democratite Palaciana, disseminada entre os seres pensantes que se rebaixam ao nível da plebe, assenta, invariavelmente, as bases de um vindouro Sufrágio Teocrático.

Por ocasião desta possível refundação de nossa república, os democratas convictos terão de – finalmente – se assumir ventríloquos da mítica “Vox Populi”, relegados ao passado e submetidos, agora, ao império da “Vox Dei”. Superado o erro original, hão de declarar ilegítima a ditadura da ignorância.

A concepção aristocrática virtuosa deverá emergir impoluta e alheia ao discurso majoritário, tempestivamente, sob pena de ingressarmos em uma nova Idade das Trevas, em pleno Terceiro Milênio, ao molde das teocracias já existentes e que se encontram em nítido movimento de expansão. E o pior de tudo: a justa resistência acabará por desencadear uma guerra civil de prognóstico incerto.





Sobre o autor: Antonio Caleari é Bacharel em Direito pelo Largo de São Francisco (FD-USP) e autor do livro “Malleus Holoficarum: o estatuto jurídico-penal da Revisão Histórica na forma do Jus Puniendi versus Animus Revidere” (Chiado Editora: Lisboa, 2012).


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Esquecendo Dolores Ibárruri – La Pasionaria (09/12/1895 – 12/11/1989) - Por Alex Kurtagić

Artigo publicado originalmente em 2015

Alex Kurtagić
           
           Dolores Ibárruri morreu há 26 anos. Ela era uma comunista pró soviética, líder republicana, e feminista na Espanha, que lutou para impor o comunismo em seu país e que mais tarde trabalhou para o regime de Stalin em Moscou. Após seu retorno à Espanha, após a morte de Franco, os políticos democráticos a carregaram com honras. Ela é conhecida pelo slogan “¡No pasarán!” durante a Batalha de Madrid na Guerra Civil Espanhola.

           Isadora Dolores Ibárruri Gómez nasceu em Gallarta, no País Basco. Seu pai era um mineiro. Ele também era – e isso diz muito sobre o que ele teve de lidar – um torcedor do carlismo, um tradicionalista, legitimista, monarquista, movimento contrarrevolucionário, que surgiu na reação contra o Iluminismo e a Revolução Francesa, e que era semelhante a Joseph de Maistre e os reacionários franceses. Sua mãe era castelhana. E ela também estava exasperada pela jovem Dolores, que com 10 anos, foi finalmente levada para a Igreja de San Felicísimo para ser exorcizada.

            Ibárruri era uma criança voluntariosa e argumentativa, certamente com energia demoníaca, mas também com qualidades notáveis. Infelizmente, ela nasceu em um tempo e lugar que oferecia poucas oportunidades para canalizá-las de forma construtiva: as mulheres de sua época e Estado eram donas de casa ou servos ou ambos, que viviam em sacrifício e abnegação. A escolaridade foi dura e religiosa, com um mínimo e obtuso currículo e um monte de catolicismo. Sua diretora reconheceu que ela tinha possibilidades, e encorajou Ibárruri para começar a estudar para se tornar uma professora. No entanto, quando, devido aos meios exíguos da família, ela foi forçada a interromper sua educação, suas perspectivas reverteram-se para os habituais: tornar-se uma empregada, uma garçonete, ou uma dona de casa, desde que ela pudesse encontrar um marido.

Isso ela fez. E ela fez bem cedo. No entanto, de todos os homens da região, o único que teve sua atenção foi Julián Ruiz Gabina (1890 - 1977), um comunista mineiro e ex-presidiário que tinha entrado e saído de prisões desde seus 20 anos idade.[1] Ela ainda era adolescente quando eles se conheceram, e foi esse patife que encheu sua cabeça com veneno marxista. Ele também a engravidou, e, assim, eles tiveram um filho fora do casamento. Por último, ele se casou com ela, mas não sem coloca-la em apuros: em 1917, o jovem casal, que agora vivia em Somorrostro e com uma criança, participou de uma greve geral, o que levou Ruiz a ser devolvido ao seu devido lugar: a prisão. Ibárruri foi deixado sozinha para se defender, lendo Karl Marx e outras literaturas desse tipo na Biblioteca do Trabalhador Socialista em Somorrostro.

Ela não aprendeu nada com a experiência. Pelo contrário, ela se tornou mais ativa, e em 1918 estava escrevendo seu primeiro artigo de propaganda comunista. Este último, uma invectiva contra a hipocrisia religiosa, foi publicado em El Minero Vizcaíno. Uma vez que o artigo foi publicado durante a Semana Santa, ela assinou seu discurso como La Pasionaria (A flor da Paixão).


Dolores Ibárruri

O pior ainda estava por vir. Em 1920 ela se tornou uma completa comunista e ingressou no Partido Comunista Espanhol (Partido Comunista Español, ou PCE), que tinha acabado de ser criado. Eles a nomearam membro do Comitê Provincial do Partido Comunista Basco. O PCE havia sido formado da ala jovem do Partido Socialista do Trabalhador Espanhol (PSOE), que ainda existe, infelizmente, e que tinha sido fundado em um bar em Madrid por Pablo Iglesias, cuja mãe tinha sido reduzida a mendicância. O PCE, em seguida, se fundiu com o Partido Comunista dos Trabalhadores Espanhóis (PCOE) para se tornar o Partido Comunista de Espanha (PCE também). Esta ralé entrou para a Terceira Internacional, e, claro, esses esquerdistas se envolveram em violência política, embora felizmente contra outros esquerdistas.

Neste momento os partidos comunistas explodiram como uma erupção cutânea em todo o mundo, de modo que o aparecimento de um na Espanha não era em si notável. Na verdade, era de se esperar, porque os políticos democráticos tinham um histórico de fracasso que foi realmente surpreendente. Inepto, sem talento, impotente, e corrupto, as suas políticas, ou a falta delas, haviam deixado seu país economicamente atrasado e politicamente à deriva. As ferrovias eram antiquadas, os carros uma visão rara e a eletricidade ainda tinha que chegar a algumas áreas rurais. Isso na década de 1920; em outros países, havia cidades que tinham eletricidade desde o início da década de 1880. Era, portanto, uma questão de tempo antes que alguém cansado das travessuras parlamentares intermináveis, se decidisse a fazer algo por eles. E foi assim que em 1923, os militares, chefiados pelo Capitão General Miguel Primo de Rivera, em Barcelona, ​​varreram todo o establishment político para fora do poder e o estabeleceram como um ditador. O Rei também tinha crescido alimentando os políticos, e por isso apoiou este genuíno nacionalista e o nomeou primeiro-ministro.

Agora, enquanto Primo de Rivera pensava que era necessária esta limpeza geral, ele também queria que a ditadura fosse breve, por tempo suficiente para restabelecer a ordem e introduzir reformas muito necessárias. Algumas delas ele fez com sucesso: por exemplo, no momento em que ele deixou o cargo, a Espanha possuía a melhor rede rodoviária da Europa, barragens e hidrelétricas tinham sido construídas, as comunidades rurais remotas tinham sido abastecidas com eletricidade, e as estradas de ferro tinham sido atualizadas e modernizadas. Por outro lado, ele encontrou-se com uma enorme tarefa em suas mãos, e originalmente os 90 dias destinados tornaram-se sete anos, a essa altura o mundo já havia entrado em uma grande depressão econômica. Além disso, ele não tinha a capacidade política para legitimar seu regime. Com o passar do tempo, isso enfraqueceu sua posição até que, finalmente, descobriu que tanto o rei como o exército haviam retirado o seu apoio, e ele apresentou a sua demissão. A Espanha foi então jogada novamente no caos político – a ineficaz Segunda República. Não é surpresa que seu filho, José Antonio, encontrou o movimento falangista alguns anos mais tarde.

Durante todo esse período, entre 1920 e 1930, Ibárruri se jogou em militância de base. Ela teve seis filhos, mas quatro morreram rapidamente. Seu casamento acabou e ela tomou um garotão 17 anos mais novo que ela como amante, Fernando Antón, um trabalhador ferroviário que também era um militante comunista. Mas deixe isso para lá, porque no fim de tudo, ela foi nomeada para o Comitê Central do PCE. Poder, finalmente! Ela usou sua influência para que seu amante fosse promovido dentro do partido.

Com a instalação da Segunda República em 1931, Ibárruri mudou-se para Madrid, onde ela se tornou editora de Mundo Obrero, um jornaleco de propaganda comunista financiado pelo PCE. Poucos meses depois ela foi presa, desnecessário dizer, e presa com criminosos comuns (não eram comunistas criminosos de qualquer maneira?), mas isso não se mostrou um impedimento. Durante seu primeiro período na prisão, esta mulher arrogante organizou uma greve de fome a fim de obter que seus companheiros fossem libertados. Durante sua segunda passagem, não muito tempo depois, ela teve os presos assinando "The Internationale" na sala de visitas e até mesmo convenceu-os de que eles estavam acima do trabalho servil no pátio da prisão. (Note-se que eles foram todos os criminosos condenados, que estavam lá para serem punidos.) Não contente com isso, ela escreveu dois artigos para jornalecos do PCE.

Nesta época, o governo deveria ter jogado fora a chave, mas em vez disso a liberou para que ela pudesse fazer ainda mais danos.

Em 1933, em conjunto com o PCE, ela fundou “Mujeres Antifascistas” (Mulheres Antifascistas), um grupo feminista com um viés político pesado. Naquele mesmo ano, ela fez sua peregrinação para a URSS. Poderíamos pensar que, ao testemunhar o paraíso dos trabalhadores, em especial sob Joseph Stalin, qualquer pessoa inteligente teria dado uma pausa. Mesmo porque Stalin era suficientemente repulsivo para sacudir comunistas apaixonados. Tal foi o caso de Leszek Kołakowski. Não foi assim com Ibárruri. Na verdade, ela ficou emocionada com o stalinismo. Sobre sua visão de Moscou, ela escreveria mais tarde em sua autobiografia:
“Para mim, que vi através dos olhos da alma, era a cidade mais maravilhosa do mundo. A construção do socialismo estava a ser gerida por si mesma. Nele estavam tomando forma os sonhos terrestres da liberdade de gerações de escravos, servos, párias, proletários. A partir dele pode-se receber e perceber a marcha da humanidade rumo ao comunismo.”[2]
Nessa época, a Rússia Soviética já passado através do Terror Vermelho e da Cheka, e o Terror da Fome na Ucrânia só estava terminando, deixando cerca 7,5 milhões de mortos. Tanto para a caminhada da humanidade. No entanto, ela gostou tanto de lá que ela ficou até o ano seguinte.

Em seguida, ela foi para Paris para participar de uma reunião anti-guerra das mulheres antifascistas. E então, no final de 1934, ela fez o que muitos esquerdistas fazem: ela colocou as políticas de bem-estar à frente de seus próprios filhos. Na sequência de uma eleição recente, em que a Confederación Española de la Derecha Autónoma (CEDA), uma coalizão de partidos conservadores e de direita, tinha ganho, resultando na designação de três ministros da CEDA, uma multidão de bandidos comunistas entrou em fúria no norte da cidade de Oviedo: eles mataram funcionários, assassinaram clérigos, incendiaram teatros, e uma universidade. General Franco esmagou a revolta com força brutal, e com razão. Os bandidos foram rapidamente condenados, deixando suas esposas e filhos para sobreviver com o melhor que podiam. Poucos meses depois eles estavam morrendo de fome – o que foi uma surpresa é que Ibárruri foi ao norte, em uma missão de resgate arriscada, na esperança de trazer 100 das crianças de seus camaradas para Madrid. Embora ela tenha realizado seu objetivo, infelizmente, mais uma vez ela foi presa. Seus jovens filhos, depois de já terem sofrido angústia o suficiente, precisavam de uma mãe mais consciente, por isso, em 1935 Ibárruri teve a brilhante ideia de enviá-los para a União Soviética – casa de Stalin, da NKVD, e dos Gulags!

Agora uma mulher verdadeiramente livre, Ibárruri retornou à Rússia no verão de 1935 para frequentar o 7º Congresso Mundial da Internacional Comunista, realizada em Moscou. Não foi deliberada a atenuar o dogma marxista em favor da conveniência: o fascismo tinha de ser combatido a todo custo, eles pensavam. Ibárruri adorou, retornando para a Espanha com brilho nos olhos e cheia de esperança, apesar de que isso já era uma política PCE há muito tempo. O que ela não esperava é que isso os levaria logo após a um Acordo de Não-Intervenção (assinado pela França, Grã-Bretanha, Rússia, e muitos outros), que mais tarde iria deixar os republicanos em apuros durante a Guerra Civil Espanhola, uma vez que a política de Stalin priorizou a segurança coletiva contra o nacional-socialismo alemão, e a ideia do acordo era para evitar uma guerra por procuração que poderia se transformar em uma guerra pan-europeia.

Enquanto estava em Moscou, Ibárruri foi eleita deputada membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista (ECCI). Isso fez dela a comunista segunda em comando na Espanha, depois do secretário-geral do PCE.

Ibárruri foi presa novamente em 1936, mas foi, estupidamente, libertada a tempo de fazer campanha nas Astúrias durante a campanha eleitoral geral, que se desdobraria em seguida. Foi apenas porque os eleitores puderam escolher até 13 candidatos simultaneamente nas urnas – “um homem, qualquer um até treze votos” foi a regra – que o PCE conseguiu obter um assento nas Cortes (parlamento espanhol). Assim, além de uma comunista de alta patente, a democracia já tinha feito Ibárruri uma funcionária eleita também. Como se a Espanha já não tivesse problemas suficientes.

Seu primeiro ato foi liberar seus comparsas da prisão penal em Oviedo. Em suas próprias palavras:
“Assim que a vitória da Frente Popular nas eleições ficou conhecida eu, já um membro eleito do Parlamento, fui à prisão de Oviedo na manhã seguinte, fui ao escritório do diretor, que havia fugido em pânico como louco porque ele tinha se comportado como um verdadeiro criminoso na direção dos prisioneiros internados nas Astúrias após a revolução de outubro de 1934, e lá encontrei o administrador a quem eu disse: “Dê-me as chaves porque os prisioneiros devem ser libertados no dia de hoje ". Ele respondeu: "Eu não recebi nenhuma ordem”, e eu respondi: "Eu sou um membro do Parlamento da República, e eu exijo que você entregue as chaves imediatamente para deixar os prisioneiros livres. ” Ele os entregou e eu garanto-lhe que foi o dia mais emocionante da minha vida ativista, abrindo as celas e gritando, "Camaradas, saiam todos! ” Verdadeiramente emocionante. Eu não esperei sentar no Parlamento ou para dar a ordem de liberação. Eu raciocinei: “Executamos a promessa de liberdade para os prisioneiros da revolução de 1934 – nós ganhamos – hoje os prisioneiros foram libertados.”[3]
Boa jogada, Dolores, boa jogada.

O que motivou esta desagradável odiosa? Federico García Lorca, poeta, parece ter visto corretamente através da carapuça: enquanto conversavam sobre o café em uma casa de café em Madrid, ele disse: “Dolores, você é uma mulher de luto, das dores. . . Eu vou escrever-lhe um poema”[4]. [4] Ele nunca o fez.

Quando a guerra civil eclodiu, como era inevitável dado o caos político interminável, Ibárruri foi discursar no rádio. Seus partidários descreveram-na como uma boa oradora, e ela certamente improvisava e sua declamação entregue podia despertar seus companheiros, mas em grande parte, suas orações eram do tipo: “Levantem-se companheiros, contra os fascistas!”. Postura heroica, misturada com teoria da conspiração, misturada com uma negatividade implacável sobre os inimigos e traidores. Nada verdadeiramente inspirador, exceto para um comunista. E claramente para Jonathan Bowden Either, em termos de conteúdo intelectual.

Graças as hábeis e secretas manobras de Stalin, os trotskistas e anarquistas caíram em desgraça, e Ibárruri involuntariamente voltou-se contra eles. Mal ela sabia que Stalin queria simplesmente privar o fugitivo Trotsky, seu inimigo político, de um porto seguro espanhol, desejando fazê-lo correr e mantê-lo em alerta. Stalin tinha convencido Ibárruri de que Trotsky e os anarquistas eram o “inimigo fascista dentro da causa”, tudo parte de um plano com Hitler e Franco para esmagar os republicanos.

E, sem dúvida, a esquerda foi dividida, porque os trotskistas viram o PCE como autoritário. Que eles eram - afinal, eles estavam alinhados com Stalin e o NKVD.

Assim, os trotskistas e anarquistas foram erradicados, com Ibárruri tomando as medidas mais extremas e violentas. Ela considerou que, se há um ditado que diz que em tempos normais, é preferível absolver cem culpados do que punir um único inocente, quando a vida de um povo está em perigo é melhor para condenar uma centena de inocentes do que absolver um único culpado.

Em outras palavras: nunca fique no caminho dela!

Em 1938, Stalin havia formalmente abandonado a República Espanhola, tendo entrado em uma aliança com a França e a Grã-Bretanha. Por volta de maio do ano seguinte, os nacionalistas tinham limpado o chão com os republicanos, e Franco estava firmemente no poder. Ibárruri via sinais claros disso, logo, tinha percebido que Franco era um ditador não macio e amável (como Primo de Rivera), ela já tinha voado para fora da Espanha dois meses antes. Pela primeira vez ela estava certa: Franco era gelado e metódico, tinha provado ser implacável contra o comunismo, e logo demonstrou sua habilidade política através da reconfiguração da estrutura de poder inteira para qual ela fosse completamente dependente dele. E assim permaneceu por quase quarenta anos.

Ibárruri foi primeiro para a Argélia, então território francês, e, posteriormente, para a França, onde ela se reuniu com seus filhos. A partir daí, no final da Guerra Civil Espanhola, em 1939, eles, juntamente com outros comunistas espanhóis, emigraram para a União Soviética.

Ela deixou seu amante Antón para trás. Ele acabaria por ser capturado pelos alemães e enviado para um campo de concentração. Ibárruri, que era íntima de Stalin, viu o último mediar a libertação dele. Antón foi a Moscou, mas finalmente se cansou de Ibárruri e terminou o relacionamento. Ele substituiu sua namorada matronal, que então se aproximava dos 50 anos, por uma garota mais jovem, com quem teve uma filha, que nasceu com Síndrome de Down. Mas se ele achava que tinha ouvido falar pela última vez de Ibárruri, ele iria receber o troco, porque no inferno é mais brando do que a fúria de uma mulher desprezada. Após a derrota da guerrilha comunista e o fracasso da Operação Reconquista de España (que foi esmagada por Franco em 1944), ele se tornou alvo de La Pasionaria, que o culpava pela derrota e, chamando-o de traidor ao comunismo, tinha empreendido um expurgo radical do PCE da França. Alguns partidários de Antón, com medo de ver rolar suas próprias cabeças, eventualmente, o abandonaram, e ele foi forçado a ir para Varsóvia, junto com sua nova amante e a filha deficiente, e aceitar um emprego de baixa remuneração numa fábrica com longas horas e condições horríveis. Passaram-se muitos anos e penúrias antes do PCE reabilita-lo. Quando finalmente o fez, ele ficou cara a cara com Ibárruri; seus encontros foram gelados e governados pelo protocolo. Ela nunca o perdoou.

Franco estava feliz em vê-la partir, mas Stalin teve um imenso prazer de tê-la a se juntar às suas fileiras. Ibárruri ficou instalada perto do Kremlin, onde ela trabalhava na Secretaria da ECCI na sede da Internacional Comunista. Seu trabalho envolveu um acompanhamento constante e a discussão da expansão do comunismo para além da União Soviética, e as discussões no comitê central do PCE. O PCE e o PCUS (Partido Comunista da União Soviética) estavam em completo acordo em tudo, e permaneceria assim até 1968. As políticas de Stalin – a fome, o Grande Terror, os Gulags – tinham a aprovação exagerada de Ibárruri. Em janeiro de 1940, ela escreveu:
“Para falar sobre o triunfo do socialismo sobre um sexto da terra, para escrever sobre o desenvolvimento exuberante da agricultura na União Soviética, um desenvolvimento inigualável por qualquer outro país, para admirar o surpreendente crescimento da indústria socialista e os ganhos impetuosos dos trabalhadores, para se maravilhar com as realizações sem precedentes da poderosa força aérea soviética, na cada dia melhor e poderosa marinha soviética, para descrever as façanhas gloriosas do Exército Libertador Vermelho dos povos, para estudar a estrutura maravilhosa do enorme estado socialista com a sua múltiplas nacionalidades unidas por laços permanentes de amizade fraterna, para observar o progresso da ciência, da arte e da cultura de todos os povos soviéticos, a vida alegre de suas crianças, mulheres, trabalhadores, camponeses e intelectuais, a segurança permanente de todos e sua fé no futuro, para conhecer a vida quotidiana do socialismo e as ações heroicas do povo soviético, significa ver Stalin, citar Stalin, encontrar Stalin.”
Um exemplo da desconexão entre a percepção e a realidade na mente comunista, se ainda algum outro exemplo era necessário. Uma pergunta que Aleksandr Solzhenitsyn teria feito.

Um ano depois, ela foi convidada para criar uma estação de rádio para transmitir propaganda comunista na Espanha. Na mesma época, seus companheiros refugiados espanhóis, claramente não se cansavam de sangue ou morte, se ofereceram para lutar na guerra. Ibárruri ficou muito feliz em ver seus compatriotas morrerem pelo Kremlin. No entanto, os alemães estavam se aproximando, e o ECCI foi forçado a se retirar para Bashkortostan, entre o rio Volga e os Montes Urais.

Alguns meses mais tarde, o secretário-geral do PCE cometeu suicídio, provavelmente, a única coisa boa que ele tinha feito. Ibárruri herdou seu posto.

No período que se inicia em 1939 e até sua aposentadoria da política ativa em 1960, Ibárruri finalmente fez algum bem, pois ela realizou uma perseguição dentro do partido com vigor. Assassinato tornou-se uma ferramenta rotineira de gestão, além de prisões e denúncias de camaradas que fugiam para a Espanha para as autoridades fascistas. Sob sua liderança, não havia nada a que o PCE não se rebaixaria, mas por outro lado isso significava uma parcela mais fraca e menor de comunistas.
Após sua aposentadoria, ela começou a escrever suas memórias. O primeiro dos dois volumes foi publicado em 1962, com um título um tanto sádico El Camino Único (A única maneira). Enquanto isso, a Universidade Estadual de Moscou concedeu-lhe um doutoramento honoris causa, julgando que ela tinha contribuído para o avanço da teoria marxista. Isto foi obviamente uma política de tapinhas nas costas, porque Ibárruri tinha apenas o ensino secundário. Estava sem Lenin e escrevera textos não teóricos.

Na verdade, ela alcançou quase nada digno de nota posteriormente, gastando seu tempo em comer e beber em conferências e visitas com os líderes comunistas de toda a Europa, incluindo Josip Broz Tito (a quem ela tinha anteriormente acompanhado) e Nicolae Ceausescu. Ela, no entanto, presidiu o comitê editorial que supervisionou a produção de Guerra y Revolución en España, 1936 - 1939, uma propaganda comunista pura de quatro volumes, alegando ser a história da Guerra Civil Espanhola. Este desperdício de papel foi publicado entre 1966 e 1971.

Franco morreu em 1975. Inicialmente marcados pela devastação da Guerra Civil e ideologicamente motivados por sanções e boicotes de democracias ocidentais, foi preciso esperar até a década de 1950 antes da Espanha ser capaz de recuperar seus níveis de produção de antes da guerra. Durante este tempo, o regime de Franco construiu o sistema de autoestrada moderna, modernizou e ampliou o Porto de Barcelona, ​​e abriu uma fábrica de automóveis em massa, a SEAT, que se revelou um enorme sucesso. (Na verdade, quando eu visitei a Espanha na década de 1970, o icônico ASSENTO 600 era uma versão ligeiramente maior do Fiat 500 e estava em toda parte, e a partir daí o país se tornou um dos maiores mercados de automóveis na Europa.) No final dos anos 1950, Franco tinha substituído a velha guarda falangista por tecnocratas. Isto levou ao desenvolvimento da infraestrutura pesada, o crescimento de uma classe média saudável, e a abertura da Espanha como um popular destino turístico. Em meados dos anos 70, a economia havia crescido seis vezes mais, a produção de eletricidade era quase 30 vezes maior, e tinham começado a construção de uma rede de usinas nucleares. Isto veio a ser conhecido como o “milagre espanhol”.

E foi a essa estabilizada e próspera Espanha, agora com uma democracia restaurada, que Ibárruri retornou em 1977, não tendo ajudado em seu desenvolvimento. Exceto por ficar longe, é verdade, mas então Franco não tinha lhe dado uma escolha. Adolfo Suárez, então primeiro-ministro liberal, havia legalizado o PCE, alguns meses antes, então quando Ibárruri aterrou no aeroporto de Barajas, em Madrid, um punhado de seus fãs – entre os quais não estava seu marido distante – foram capazes de recebê-la abertamente. Ela teria sido expulsa pela polícia de fronteira se tivesse desembarcado dois dias antes, porque até mesmo o governo liberal não queria conceder-lhe um visto; de fato, o seu pedido inicial foi negado. No final, no entanto, acabou cedendo e permitiu a ela o visto. Ela tinha 82 anos de idade, afinal de contas.

Ainda assim, idosa como ela era, ainda não tinha aprendido nada em sua excessivamente longa vida, apesar de ter tido os exemplos de não só a URSS, mas também da China, Camboja, Vietnã, Coréia do Norte e Cuba, esta mulher voltou à atividade política. Ela participou de pequenos comícios, onde ambos os comunistas geriátricos recalcitrantes e jovens ingênuos, como quem sabia nada sobre o verdadeiro comunismo, adulavam-na em uma grande festa feliz. Havia o suficiente destes burros para instalar suas costas nas Cortes, mas só agora, porque só ela representava um quarto dos assentos do PCE na câmara. E parece que os políticos democráticos eram tão ignorantes como o punhado que votaram nela, porque o espetáculo embaraçoso de tratá-la com uma ovação de pé por um minuto seguido toda vez que viam a sua entrada. Este seria o primeiro item em um catálogo de idiotices políticas, porque, desde então, os espanhóis tiveram de suportar a transformação, pelos seus políticos e acadêmicos, de velhos comunistas em heróis. Tal é o seu estado de ignorância que foi autorizado passar esses fatos como apenas o mais manso dos protestos, do que os outros, e certamente sem controvérsia. Hoje, Izquierda Unida, do qual o PCE é agora uma parte, concede prêmios com seu nome, com total impunidade, e dos dez diferentes bustos urbanos na Europa com o seu nome, metade estão em Espanha.

Nessa época, a saúde de Ibárruri estava em declínio, mas isso não a impediu de viajar para Moscou, para comemorar o 60º aniversário da Revolução de Outubro, presidida por Leonid Brezhnev, um homem que expandiu as forças armadas soviéticas, durante a estagnação da economia soviética, e coletou 100 medalhas no processo. O resto de seus dias eram uma concatenação de comícios políticos e feministas e congressos do PCE e PCSU. As férias de verão que ela passou na União Soviética, assim, ela efetivamente usou o dinheiro dos contribuintes espanhóis para financiar a opressão soviética.

Em 1987, Ibárruri estava implorando o governo por dinheiro. Sem nunca ter contribuído para a segurança social da Espanha, a bruxa não tinha pensão. Isso não representava nenhum obstáculo para o PSOE, que tinha finalmente conseguido ser eleito ao escritório cinco anos antes: o governo de Felipe González, que iria afundar anos mais tarde em meio a escândalos de corrupção sem fim, concedeu-lhe uma gratificação mensal generosa. Ela durou mais dois anos, antes de uma pneumonia finalmente a fez partir da Terra.

É uma sorte que Ibárruri foi contida pelos acontecimentos antes que ela pudesse infligir um mal pior. Tivesse sido gangue criminosa bem-sucedida durante a Guerra Civil Espanhola, teria havido autoritarismo sem dúvida, mas sem o crescimento econômico e com mais mortes, perseguições e estado policial. A Espanha teria compartilhado o mesmo destino que as agora ex-repúblicas soviéticas, só que teria se saído ainda pior, então e depois, porque em relação ao resto da Europa, o país estava bem atrás economicamente e em infraestrutura durante seu declínio pós-imperial. Mesmo a Alemanha, a economia mais robusta e produtiva da Europa, um país com alto capital humano da Europa, ainda não tinha se recuperado totalmente dos quarenta e quatro anos de sua parte oriental por trás da Cortina de Ferro. Certamente, a ditadura de Franco tinha suas desvantagens, para não mencionar as suas próprias consequências negativas, ninguém há de contestá-la, mas entre ele ou José Díaz no poder, a escolha é clara.

Mais importante, alguns – Juiz Baltasar Garzón vem à mente - têm tentado (e não sem motivações políticas) para avançar suas carreiras desenterrar os métodos severos de Franco contra comunistas subversivos (apesar da anistia de 1977), deve-se ressaltar que há uma razão pela qual seu movimento Falangista seja descrito como “reacionário”; sim, os fascistas eram duros, mas eles tiveram reações proporcionais as empregadas pelos seus inimigos – e, provavelmente, nem mesmo proporcionais, porque onde os comunistas chegaram ao poder, os seus crimes foram ainda piores e em uma escala muito maior, ao ponto de que os números tornam-se tão grandes que tornaram-se sem sentido.


Dolores Ibárruri já anciã

Ele poderia ter sido evitado se todos os políticos democráticos tivessem feito o que era suposto fazerem: que eles realmente precisavam fazer no início do século, ou mesmo durante o século anterior. Eles não fizeram, então seguiu-se uma ditadura suave. E quando eles receberam uma segunda chance, eles desperdiçaram isso também. Então, uma guerra e uma ditadura mais vigorosa foi o resultado.

Mas a história de Ibárruri não terminou bem de qualquer maneira. Os meios de comunicação espanhóis retratam essa megera assassina como uma heroína e uma figura de avó. As gerações mais jovens, que cresceram em paz e prosperidade, deseducadas por acadêmicos marxistas, à deriva, vivendo exclusivamente, ao que parece, para o botellón, sem uma referência adequada ou ideais inspiradores. A narrativa histórica, revista agora, pinta os fascistas como demônios e os comunistas como santos. Os socialistas e os liberais que têm cargos políticos entre eles desde a restauração da democracia têm inundado Espanha com os imigrantes, principalmente da América Latina e África do Norte (visível através do estreito de Gibraltar a partir da costa sul), justificando isso da mesma maneira que os seus homólogos têm feito em todo o mundo ocidental. Sem dúvida, a analfabeta econômica Ibárruri ainda iria reclamar sobre o capitalismo, convencida, como ela era, que as pessoas viviam muito bem, mesmo sem países comunistas, mas – se um tanto indiretamente – no final da bruxa teve a gargalhada final.

Tradução por Daniel Falkenberg


Notas


[1] Nota do autor: Juan Cruz, 'Ha Fallecido en Baracaldo Julián Ruiz, Marido de 'Pasionaria', El Pais, 5 August 1977.

[2] Nota do autor: Dolores Ibárruri, María Carmen García-Nieto París, María José Capellín Corrada. El único camino. Madrid: Editorial Castalia, 1992.

[3] Nota do autor: Dolores Ibárruri quoted by Mariano Muniesa in: “Emocionado Recuerdo a una Mujer del Pueblo: La Camarada, Compañera y Hermana Dolores Ibárruri.” La Comuna. 13 November 2009.

[4] Nota do autor: Dolores Ibárruri, Me faltaba España, 1939-1977. (Barcelona: Editorial Planeta, 1984).



Sobre ou autor: Alex Kurtagić (1970 – ) nasceu na Croácia filho de pais eslovenos. Devido a profissão do pai, viajou e viveu em vários países. Tem fluência em inglês e espanhol, e pratica o francês e alemão. Após completar os estudos nos EUA graduou-se na Universidade de Londres (M.A. entre 2004 – 2005) em Estudos Culturais. Também é músico, desenhista, pintor, escritor e editor (Wermod and Wermod Publishing Group). Seus artigos são publicados nas revistas virtuais The Occidental QuarterlyVdareCounter CurrentsTaki Mag, e American Renaissance.

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