domingo, 4 de agosto de 2019

O que é realmente “cultura”? - parte 3 - Por Mykel Alexander


Mykel Alexander


O imaginário ocidental contemporâneo do que é cultura tem suas origens com o surgimento dos centros urbanos denominados de burgos

Antes de examinar o conceito original da palavra cultura será esclarecida a concepção de cultura que prevaleceu no século XX, pois é a que ainda ressoa na mentalidade atual das pessoas independentemente da idade que tenham. A definição ‘c’ para a palavra cultura extraída do dicionário Houaiss, “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.”, se apresentada a um indivíduo, qualquer que seja sua idade, será certamente admitida como verdadeira a não ser que ele não tenha a mínima instrução básica, uma vez que por mais precária que possa ser a condição atual do sistema educacional, por exemplo no Brasil, é de comum acordo que os professores e alunos admitem que a leitura e o estudo tendem a melhorar o “o saber de uma pessoa ou grupo social,” enquanto que as pessoas que hoje ultrapassaram os 50 anos de idade testemunharam a época em que as residências, especialmente nas estantes da sala de estar, tinham coleções de livros ou enciclopédias, estas sempre à venda inclusive nas bancas de jornais, e muito estimada era especialmente a denominada Enciclopédia Barsa, que feita com material de muita qualidade era um produto mais caro.

Essa maneira de definir a cultura, é a que se denomina de burguesa, isto é, o modo que o indivíduo burguês entende o que é cultura, e tem suas origens durante o período denominado de Renascimento, o qual sucedeu à Idade Média, a partir do século XV. Mas antes de examinarmos essa visão burguesa de cultura, devemos primeiro entender o que significa realmente o burguês. Explica Gian Mario Bravo, Decano da Faculdade de Ciências Políticas de Turim:
“Originariamente o termo Burguesia, cuja raiz se encontra no vocábulo latino medieval burgensis, caracteriza os habitantes do burgo, da cidade. Temos, assim, derivações nas diferentes línguas: Bürger na Alemanha e posteriormente, bourgeois na França, que se tornará apelido de uso comum após a Revolução Francesa. Na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, o habitante da cidade adquire uma sua configuração típica de classe: afirma-se como artesão, como comerciante, como pequeno e médio proprietário rural ou imobiliário, como representante da lei e, enfim, como ‘capitalista’.[9]
Henri Pirenne (1862-1935), o grande historiador medievalista belga, da Universidade de Gante, explica, por sua vez, a origem dos próprios burgos dentro do contexto do século IX d.C. duma Europa predominantemente rural e empesteada de saques e desordem:
“A primeira necessidade à qual era preciso fazer face era a da defesa, quer contra os Sarracenos e Normandos, quer contra os príncipes vizinhos. Deste modo, vemos, a partir do século IX, todo o território cobrir-se de fortalezas. Os textos contemporâneos dão-lhe os mais diversos nomes: castellum, castrum, oppidum, urbs, municipium; a mais usual, e em todo o caso a mais técnica destas designações, é a de burgus, palavra adoptada dos Germanos pelo latim do Baixo Império e que se conservou em todas as línguas modernas (burg, borough, bourg, borgo).[10]
As palavras burguês e burguesia, portanto, originalmente significavam o habitante ou classe de habitantes dos núcleos urbanos, fossem pequenas ou grandes cidades, que em geral tinham inicialmente sido fortalezas, aglutinando gradualmente pessoas que exerciam atividades variadas produtivas e comerciais, em contraposição aos vilarejos e aldeias rurais que possuíam sua própria dinâmica de vida peculiar. Esta dualidade é praticamente ignorada totalmente na atualidade, mas o modo de pensar do habitante do campo, particularmente em vilarejos e aldeias, o que significava a maior parte da população europeia até o período do Renascimento, ou seja, na passagem da Idade Média para a Idade Moderna nos séculos XV e XVI, possui muitas diferenças do modo de pensar do habitante das cidades que passa a ser um contingente da população europeia cada vez maior a partir do fim do período medieval. A Sociologia dos séculos XIX e XX produziu muitos estudos[11] mostrando as diferenças do homem do campo em relação ao homem da cidade ou burguês, e bastando para nossa temática, se pode citar três diferenças básicas, enumeradas abaixo:

1) Quanto às leis e ritmos da natureza, o homem do campo está mais próximo que o homem da cidade, o burguês. Em termos de negócios, por exemplo, o homem do campo dependia direta e totalmente em quase todas áreas de trabalho dos ciclos das estações do ano, enquanto que o homem da cidade dependia disso indiretamente e não em todas áreas do trabalho.

2) Concernindo às relações sociais, o homem da cidade, o burguês, lida com maior quantidade e maior variedade de tipos de pessoas que muitas vezes até procedem de regiões diferentes, distantes ou próximas, resultando em pouca intimidade nas relações da vida cotidiana, enquanto o homem do campo se relacionava com uma comunidade mais fixa e que pouco mudava através dos séculos, e em população bem menor, resultando em maior intimidade nas relações da vida cotidiana. Utilizando dois vocábulos alemães, decorrente dos avanços dos estudos da sociologia alemã do século XIX, especialmente a partir da obra do grande sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936), de modo muito simplificado pode-se estipular que o homem da cidade tende ao tipo de vida social fixado por contrato social e coerção jurídica, denominada de Gesellschaft, enquanto o homem do campo, ou dos núcleos urbanos de pequeno porte, vilas e aldeias, tende ao tipo de vida social por vínculo de afinidades e de usos e costumes, denominada de Gemeinschaft. Nestes dois termos alemães estão representados os dois principais modos de ser da humanidade, especialmente no Ocidente, os quais serão melhor explicados mais adiante, mas a importância destes dois termos é tanta que implica no ‘contrato social’, isto é, a Gesellschaft, vincular-se necessariamente tanto ao liberalismo quanto ao socialismo marxista de luta de classes, enquanto a Gemeinschaft, a ‘comunidade por vínculos e afinidades’ implica necessariamente vincular-se ao nacionalismo ou nacional-socialismo, isto fazendo uso das terminologias contemporâneas.

3) A combinação dos dois fatores acima resulta que a vida na cidade expõe o homem a uma pressão maior de mudanças, enquanto a vida no campo conserva maior estabilidade.

A sociedade na Europa, a partir do fim da Idade Média e início da Idade Moderna passará no decorrer do aumento de sua população a formação de dois tipos de mentalidade conforme as dualidades acima delineadas, a do homem do campo e a do homem da cidade que era denominado de burguês. Contudo, a definição ‘c’ para a palavra cultura extraída do dicionário Houaiss, “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.”, que consolidou-se no imaginário ocidental do século XX será um desenvolvimento, de modo geral, procedente da mentalidade do homem da cidade, isto é, do burguês.


A mentalidade medieval precedeu a mentalidade burguesa

A Idade Média do Ocidente foi uma época que, de modo simplificado, surgiu do fim do Império Romano no século VI d.C. e perdurou até o século XV d.C. somando um período de quase 1000 anos, o qual mesclava:

 1) Costumes semitas através da religião cristã, e irradiados da Igreja Católica e suas variações monásticas para os núcleos urbanos e também para os vilarejos e aldeias. Pode-se considerar como primeira força da Idade Média. É importante registrar que na Igreja Católica, em núcleos mais estudiosos, adentrou pequena parte da filosofia de Platão (cerca de 428-348 a.C.), de Aristóteles (384-322 a.C.) e de Plotino (204-270 d.C.), entre outros, e em grande medida em fontes indiretas de comentadores pagãos e cristãos, formando um acervo que foi ferramenta para estudos filosóficos e religiosos nestes núcleos eruditos.

 2) Costumes latinos que possuíam misturas de costumes de diversos povos asiáticos e do norte da África, decorrentes da herança do Império Romano, procedentes em parte da Igreja Católica e em parte da fração da população não-cristã, presentes, de modo geral, na parte mediterrânea da Europa. Todavia, certos costumes foram fundidos nas práticas e liturgias católicas através de uma reinterpretação cristã, tendo esta mais força nos centros urbanos e perdendo sua prevalência conforme se afastava destes e alcançava os vilarejos e aldeias longínquas no campo ou fronteiriças com as florestas denominadas de pagus, onde viviam os pagãos[12], isto é, os não cristãos, enquanto, por outro lado, outros costumes, o dos pagãos, conservaram de modo predominante a interpretação de outras religiões não-cristãs, com teor original ou alterado, mas num sentido de prevalência oposta, sendo mais relevante nos pagus, isto é, nos vilarejos e aldeias longínquas no campo ou fronteiriças com as florestas, e perdendo influência conforme aproximavam-se as pequenas cidades e demais centros urbanos. É importante registrar que nos costumes latinos penetrou alguma influência da filosofia greco-romana de teor de bons costumes, isto é, moral, ao menos em nível superficial. Pode-se considerar como a terceira força da Idade Média, entrando em dissolução devido ao advento do cristianismo, ao influxo dos costumes germânicos, e ao desgaste do tempo.

 3) Costumes indo-europeus dos chamados povos bárbaros, especialmente os germânicos, os quais também eram pagãos. Tais costumes eram mais fortes nas regiões de populações germânicas e se tornavam menos presentes conforme se adentrava em outras regiões com menor população germânica, mantendo com a Igreja uma relação de influência mútua. Um dos principais costumes indo-europeus em questão era o denominado de fides, que é o da mútua confiança entre as pessoas decorrente da força que possuíam em manterem suas palavras e promessas. Neste contexto, conforme prevaleciam os costumes indo-europeus, ia se formando no decorrer do tempo uma espécie de movimento político denominado de gibelino, que prevalecia nos segmentos políticos da sociedade, enquanto por outro lado, conforme prevaleciam os costumes da Igreja Católica, formava-se um movimento religioso-político denominado de guelfo, centrado nas autoridades papais. Ambos movimentos representavam as forças da sociedade e da Igreja com seus respectivos interesses, com pontos concordantes e divergentes. Pode-se considerar como a segunda força da Idade Média, mantendo disputa com os valores semitas do cristianismo.

A instituição central da Europa medieval era a Igreja Católica, que continha em si os três itens acima numa proporção que variava de região para região, todavia submetidos a dois conceitos fundamentais do cristianismo: a tradição semita baseada na Bíblia e a cristologia, isto é, o estudo da natureza de Cristo e de como essa alegadamente regeria a humanidade para seu melhor destino.

Se admitida a constatação que com o advento do cristianismo, em todas suas expressões, desde as ordens monásticas isoladas da vida mundana até as instituições que influíam fortemente na política e que somadas formavam a Igreja Católica, passou-se a ter os escritos bíblicos como a fonte mais autorizada no Ocidente durante a Idade Média, e que partindo das premissas contidas na Bíblia, tanto do Antigo Testamento como do Novo Testamento, a verdade e o bem estavam presentes somente entre as comunidades que a Bíblia afirmava terem aliança com Deus, esta alegadamente iniciada na Primeira Aliança da humanidade com Deus, através do personagem bíblico Abraão, dando origem ao povo judeu, depois de supostos séculos este povo através de seu então líder Moisés renovaram a aliança com Deus sob novos termos, e após um longo período, alegadamente superior a mais de mil anos, uma nova aliança entre Deus e a humanidade foi feita, outra vez em novos termos, intermediada por Jesus Cristo, pode-se ter como fato que as disputas no período medieval que concerniam a interpretação histórica da humanidade recorriam sempre aos escritos bíblicos para obterem o veredito final, sendo que a margem para tais disputas estava situada apenas dentro de interpretações que não feriam as bases de como as escrituras bíblicas viam Deus, o Universo, o mundo, o homem, os animais, impérios e reinos,  pode-se conceder que as fontes de conhecimento que provinham de impérios e reinos que não compartilhavam das concepções bíblicas dificilmente tinham difusão entre os povos cristãos ocidentais que estavam sob influência da Igreja Católica. 

Os únicos três povos que mantinham intercambio de conceitos com a Igreja Católica eram os judeus, os islâmicos e os cristãos de outras igrejas cristãs, como a Bizantina, isto é a ortodoxa, ou igreja copta, além de ramificações cristãs menos relevantes, desde igrejas menores até monastérios remotos. Esse intercâmbio de conceitos era possível pelo fato que tanto a Igreja Católica, como as variadas correntes judaicas, islâmicas e cristãs não católicas admitiam um passado comum baseado na alegada primeira aliança de Deus com a humanidade, intermediada supostamente por Abraão. Não obstante essa base comum, cada grupo acima reivindicava possuir a mais legítima interpretação dessa aliança, inclusive os islâmicos afirmavam ser os possuidores da mais atual aliança entre Deus e a humanidade, intermediada por Maomé, e que as alianças anteriores tinham deteriorado e, portanto, tinham caducado.

A população da Europa em sua maior parte era composta por camponeses[13], cerca de 90 por cento, enquanto a parte restante vivia nos centros urbanos, e ambas partes sob a influência dos três componentes acima enumerados, 1) costumes semitas, 2) costumes latinos com as mencionadas misturas, 3) costumes indo-europeus germânicos, conforme a área de influência destes acima descritas. Se termos em consideração a definição ‘c’ para a palavra cultura extraída do dicionário Houaiss, “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.”, que consolidou-se no imaginário ocidental do século XX, a cultura na Idade Média era muito polarizada, uma vez que, por um lado, a esmagadora parte da população era analfabeta[14], enquanto, por outro lado, uma minoria ínfima da população, mantinha-se em plena forma intelectual nas disputas e polêmicas, centradas na infalibilidade das escrituras bíblicas bem como das formulações das autoridades religiosas, que se sucediam através dos séculos medievais, especialmente na disciplina de Lógica, isto é, a coerência racional, mas também na disciplina de Metafísica, ou seja, a das constatações mais próximas das verdades absolutas universais.

Em resumo, a mentalidade da esmagadora maioria da população europeia era a soma de antigos costumes que eram sobrepostos a costumes mais antigos ainda procedentes dos costumes semitas, costumes latinos, costumes indo-europeus, cujos significados originais iam sendo esquecidos através de séculos e séculos de vivência mais automatizada que consciente, enquanto apenas uma minoria de cerca de 1 por cento da população se ocupava de investigar com profundidade a realidade do Universo, de Deus, do homem e da vida. Todo o contexto geral medieval avançou lentamente através de um período de quase 1000 anos durante a Idade Média até o século XV d.C., quando cinco marcos históricos radicalmente importantes transformam o lento ritmo de mudanças da vida medieval numa marcha de aceleração quase ininterrupta.

Destacadamente se pode enumerar dois marcos de total impacto geopolítico:

1) A colonização das Américas como parte da expansão europeia através dos avanços nas navegações. As três principais forças aqui eram os reinos europeus, a Igreja Católica e o judaísmo internacional, cuja equação de forças variava de região para região na Europa.

2) A invasão dos turcos otomanos no leste da Europa, resultando na aniquilação do Império Bizantino no oriente da Europa.

E mais três marcos de total impacto na mentalidade europeia.

3) Ressurgimento da tradição greco-romana, particularmente sua filosofia e sua ciência.

4) Avanço de concepções judaicas através da Reforma Protestante, que foi a origem das atuais igrejas evangélicas.

5) Advento da máquina de imprensa pelo alemão Johannes Gutenberg (1400-1468).

Com estes cinco marcos, estavam reunidos cinco dos seis ingredientes para formar o explosivo século XX, sendo que o sexto ingrediente será mencionado no devido momento.



Continua

Notas


[9] Nota do autor: Gian Mario Bravo, Dicionário de Política (Organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci, Gianfranco Pasquino), 2 volumes, 11ª edição, UnB, Brasília, 1998.  Tradução do italiano Dizionario di política, UTET, 1983, ao português por Carmen C. Varriale, Gaetano Lo Mônaco, João Ferreira, Luíz Guerreiro Pinto Cacais e Renzo Dini. Ver vocábulo burguesia.

[10] Henri Pirenne, As cidades da Idade Média, Publicações Europa-América, Mira Sintra, 1977. Traduzido do original em francês Les Villes du Moyen Âge, por Carlos Montenegro Miguel. Páginas 60-61.

[11] Nota do autor: Georges Vacher de Lapouge (1854-1936) talvez tenha sido o de maior destaque até a primeira metade do século XX na produção desta temática de diferenciação rural e urbana. Um ponto muito relevante é o da perda de natalidade do melhor do campesinato, quando os mais bem-dotados habitantes do meio rural ao emigrarem do campo para a cidade, se submetem a uma voluntária restrição de reprodução, assumida pelo bem da promoção social e conquistas no meio competitivo. Outro fator também deletério à genética saudável procedente do ambiente rural marcante refere-se ao envolvimento com práticas viciantes e produtos tóxicos, alimentícios, industriais ou de abuso, os quais são mais disseminados, em regra, nas cidades grandes que no campo. Ver Pitirim Sorokin, Contemporary sociological theories, Harper & Brothers, Nova Iorque, 1928. Página 242.
Também pode-se apreciar a dinâmica da formação dos centros urbanos na Idade Média a partir da sociedade europeia predominantemente rural em Henri Pirenne, As cidades da Idade Média, Publicações Europa-América, Mira Sintra, 1977. Traduzido do original em francês Les Villes du Moyen Âge, por Carlos Montenegro Miguel.


[12] Nota do autor: Conforme o dicionário o Houaiss a palavra pagão no século XIII era “o que ou aquele que não foi batizado”, “adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo.” Mas a origem etimológica da palavra pagão procede da palavra latina pagānus, já na Antiguidade, que significa “homem da aldeia, aldeão, cidadão que não é soldado, paisano, pagão, gentio.’ Ver vocábulo pagão.
No Oxford Latin Dictionary (Editora Oxford, Oxford, 1968) pāgānus refere-se ao habitante de um pagus, isto é, comunidade ou distrito do interior, sendo um camponês ou habitante do interior, também o civil em oposto ao soldado, bem como o ‘povo local’. Ver vocábulos pāgānus e pagus,
No Dictionnaire étymologique de La Langue Latine: Histoires des Mots, Klincksiek, Paris, 2001, 4ª edição, de Antoine Meillet e Alfred Ernout é registrada uma observação importante para compreender a evolução do termo pāgānus, pois esta palavra antes de ter significação religiosa, tinha adquirido uma significação política-civil como contraparte de castrēnsis, palavra com relação à atividade ou acampamento militar. Ver vocábulo pāgus.

[13] Nota do autor: De modo geral, na Antiguidade, apesar dos grandes núcleos urbanos, cidades e capitais de impérios, a população rural era a predominante, sendo que a inversão de predominância da população urbana sobre a rural é um fenômeno dos últimos duzentos anos (ver Patterns of urban and rural population growth (Departmente of International Economic and Social Affairs, POPULATION STUDIES, nº 68), United Nations Publication, Nova Iorque, 1980. Página 1.
Os estudos mais atuais ainda mantêm a estimativa de 90% da população medieval europeia. Ver Maryanne Kowaleski, Medieval People in Town and Country: New Perspectives from Demography and Bioarchaeology, Speculum, Vol. 89, Nº. 3 (julho 2014), página 573.

[14] Nota do autor: Após a queda do Império Romano a alfabetização na Europa ocidental, latina e cristã, foi quase totalmente aniquilada. “A alfabetização leiga tinha quase desaparecido com o fim da Antiguidade, e em geral somente o clero e membros das famílias governantes era capazes de ler.” Ver  L. D. Reynolds & N. G. Wilson, Scribes & Scholars – A Guide to the Transmission of Greek & Latin Literature, Oxford Clarendon Press, Oxford, 4ª edição, 2013. Página 112. 



Sobre o autor: Mykel Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000).


O que é realmente “cultura”? - parte 1 - Por Mykel Alexander

O que é realmente “cultura”? - parte 2 - Por Mykel Alexander


domingo, 28 de julho de 2019

O que é realmente “cultura”? - parte 2 - Por Mykel Alexander


Mykel Alexander
Disputas para definir o que é cultura

Quando se estuda o significado de uma palavra, adentra-se no ramo dos estudos linguísticos denominado de semântica, o qual se ocupa dos processos que concorreram para gerar o significado de uma palavra, e para isso a semântica se vale de várias áreas do saber, obviamente das regras linguísticas, bem como da História, Filosofia, Filologia, Arqueologia, entre outras.

Se por um lado, há o uso múltiplo da palavra cultura, por outro lado, há uma profundidade e complexidade implícita em algumas das definições acima elencadas, e parte desta complexidade é que nas definições em questão se recorre a vocábulos que em si são de longínqua origem e também, como a palavra cultura, adquiririam vários significados, isto é, são as denominadas palavras polissêmicas, como é o caso da palavra arte, no item ‘f’, ou da palavra tradição, no item ‘e’, as quais foram, como não é raro, perdendo através do tempo seu significado original e adquirindo outros significados. É digno de observação que especialmente a palavra arte, caso fosse aqui examinada, também traria amplos significados, semelhante ao que ocorre com a palavra cultura.

Tanto por aprofundamento como por diversificação a palavra cultura tem adquirido uma variedade espantosa de significados. Josep Picó, catedrático de Sociologia na Universidade de Valencia, observa:
“[...] recentemente o termo cultura tem se convertido na pátria comum de toda classe de discursos públicos e tem saltado do campo acadêmico a terrenos até agora desconhecidos como a política, a economia, a saúde, ou inclusive hostis a sua própria definição como a delinquência. Não parece que haja um limite em sua aplicação a quase todos os contextos sociais [...] tudo o qual tem contribuído para esvaziar seu conteúdo tradicional mais específico. A medida que se usa com mais frequência, mais necessita de um qualificativo para definir seu campo de aplicação. [5]
            Picó se pergunta se existe algum fio condutor pelo qual a palavra cultura atravessou a história, seja conservando seu fundamento original ou ao menos numa continuidade de suas diversas transformações[6]. Na apuração a tal indagação encontramos as transformações de significados que a palavra cultura experimentou.

De modo geral os estudos sobre o significado de cultura evidenciam que há apenas pouco mais de 100 anos, durante o século XIX, as concepções do que significava cultura eram bem menos numerosas do que são na atualidade. A definição ‘c’ para a palavra cultura extraída do dicionário Houaiss, “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.”, possivelmente foi a que prevaleceu no Ocidente durante o século XX, e frequentemente é a definição que a maioria das pessoas nascidas no século XX associam à palavra cultura. Esta definição ‘c’ para a palavra cultura seria o ponto de partida na atualidade para uma pessoa mediana e com instrução escolar não deficiente, e com o mínimo hábito de leitura no decorrer da vida.

Contudo a definição ‘c’ por mais que tenha se consolidado entre as massas, passou ser desafiada gradualmente durante o século XX, e lentamente perdendo-se na multidão de definições propostas para a palavra cultura, dando a impressão de que se trata de um processo que não para de crescer conforme avançamos através século XXI. É muito instrutiva a explicação de Picó sobre a dinâmica que subjaz tal diversidade de propostas pretendendo afirmar o que seria ou o que não seria cultura:
“As mudanças semânticas, em aparência de natureza puramente simbólica, correspondem, em realidade, a mudanças de outra ordem, a mudanças na estrutura das relações de força entre os grupos sociais que protagonizam o governo da sociedade, por uma parte, e entre as sociedades e seu posicionamento internacional, por outra. Nesse sentido a cultura, sua gênese, mudança e evolução têm tido diversas acepções e significados ao longo da época histórica que temos denominado modernidade, e em seu seio tem sido porta-voz e bandeira de luta que percorrem nossa história mais recente e desvelam seus anseios e contradições.[7]
Na colocação acima pode-se extrair inferências imediatas bem como algumas considerações implícitas que exigem um aprofundamento.

Como inferências imediatas Picó alude:

a) Às mudanças no significado, isto é, na semântica, da palavra cultura não apenas por simples substituição decorrentes dos efeitos do tempo na memória das pessoas, mas devido a existência de uma luta, uma disputa para definir e fixar o que significa a palavra cultura.

b) Estas disputas, em primeiro lugar, ocorriam dentro de cada Estado, e em segundo lugar entre os Estados. Sendo mais preciso, estas disputas desvelam que eram motivadas por “anseios” e por “contradições” provenientes dos grupos que lideram a sociedade dentro de cada Estado, resultando que cada Estado terá uma concepção do que é cultura conforme esta seja definida tanto pelas lideranças governamentais como não-governamentais do Estado. Os Estados, no decorrer da Idade Moderna e da Idade Contemporânea, então disputam entre si para impor sobre os outros sua própria definição de cultura.

Como considerações implícitas temos duas maneires de nos posicionar.

a) A de compreender um determinado conceito ou palavra priorizando apenas o critério de busca pela verdade, o que implica em se posicionar diante de uma dada questão, indiferente ao como essa nos agrade ou desagrade, com o máximo de imparcialidade possível.

b)  O de não estarmos necessariamente priorizando definir um conceito ou palavra nos baseando na busca pela verdade do modo mais imparcial possível, mas sim impulsionados por outros anseios.

 Reunindo tanto as inferências imediatas a) e b) bem como as considerações implícitas a) e b) pode-se admitir que no empreendimento de definir um determinado conceito ou palavra, a humanidade apresentou basicamente duas linhas através da história: a que se baseia na medida do possível na imparcialidade em busca pela verdade, e a que que prioriza mais anseios particulares do que a busca pela verdade.

No desenvolver desta exposição sobre o que é realmente cultura, até aqui, nos deparamos com a importância da definição no processo de compreensão de um conceito ou palavra, e recorri à tradição grega antiga ao atentar que a definição de um conceito ou palavra era uma questão que os gregos deram máxima importância. Depois nos deparamos na importância da mente, especificamente no que denominei de anatomia da mente, recorrendo novamente aos antigos gregos, pois estes também deram a máxima importância e que é a origem arcaica da psicologia ocidental. E agora ao nos depararmos com a terceira questão, a da imparcialidade, após a constatação de que o tipo de perfil psicológico de um indivíduo pode ser o de imparcialidade e busca pela verdade ou o de seguir anseios particulares sem rigoroso compromisso em buscar a verdade, recorro uma vez mais aos gregos antigos, e como observou o grande historiador da Filosofia do século XIX, o alemão Eduard Zeller (1814-1908), em seu manual de História da Filosofia, Grundriss der Geschichte der Griechischen Philosophie (1ª edição 1883 e 5ª edição 1898):
“Nunca um povo julgou sua própria natureza e instituições, moral e costumes, os quais ele produziu, com maior imparcialidade que os gregos.[8]
Alguém poderia agora afirmar que estou me inclinando a não ser imparcial ao recorrer aos gregos para me basear em três questões que nos deparamos, a da definição, a da psicologia e a da imparcialidade, mas ao menos no Ocidente em seus tempos históricos foram os gregos os precursores em se deterem e desenvolverem com excelência estas três questões. E se temos por objetivo descobrir o conceito real de cultura devemos necessariamente compreender o conceito em questão e todo o contexto em que tal conceito pertence.




Notas


[5] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, páginas 10-11.

[6] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, páginas 12-13.

[7] Nota do autor: Josep Picó, Cultura y Modernidad – seducciones y desenganos de la cultura moderna, Alianza Editorial, Madrid, 1999, página 14.

[8] Nota do autor: Eduard Zeller ,Outlines of the History of Greek Philosophy, The World Publishing Company, 13ª edição, 15ª impressão, Nova Iorque, 1971. Originalmente escrito em 1883, e traduzido da 13ª edição alemã, aos cuidados de Wilhelm Nestle, por L. R. Palmer. Página 19).
                Em rigor tal visão se aplica mais ao Ocidente, devido às grandes disputas ideológicas que surgiram após o fim da Antiguidade ocidental, uma vez que nas tradições hindus e extremo orientais a imparcialidade também era muito prezada, e continua em certa medida assim.



Sobre o autor: Mykel Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000).


O que é realmente “cultura”? - parte 1 - Por Mykel Alexander



domingo, 21 de julho de 2019

O que é realmente “cultura”? - parte 1 - Por Mykel Alexander


Mykel Alexander
                               O que é cultura?

            Parece uma pergunta fácil de responder, já que a palavra cultura faz parte do vocabulário geral de praticamente qualquer povo do mundo ocidental. Mas quando um indivíduo se depara com tal pergunta, possivelmente ele subitamente perceba que se trata de uma palavra tão usada que ele tenha mais dificuldade em responder a indagação do que poderia supor, talvez porque mais de um significado atribuído a palavra cultura possa lhe vir na mente.

            Dentre tantos conflitos nas últimas décadas, certamente podemos afirmar que o conflito cultural ou o conflito de culturas ocupa uma posição das mais destacadas. Abundaram notícias nos meios de comunicação que afirmaram ser devido às diferenças culturais as irrupções de violência que ocorrem em vários locais do mundo, no Ocidente e no Oriente, no hemisfério norte e no sul. Seria a cultura então um problema? Mas então o que é cultura afinal?

            Atualmente se fizermos essa pergunta para várias pessoas, iremos inevitavelmente ter respostas contraditórias por parte dos que irão emitir algum parecer, mas talvez alguns nem tentem alguma explicação e irão até admitir que não sabem o que é a cultura. De modo generalizado essa conclusão também foi a de André Malraux (1901-1976) que chegou a admitir a ignorância das pessoas sobre o que era cultura:
“Il faut bien comprendre qu'un fait extrêmement mystérieux se produit aujourd'hui dans le monde entier: les peuples sont en train de demander la culture, alors qu'ils ne savent pas ce que c'est.[1]” (Deve ser compreendido que um fato extremamente misterioso está se produzindo em todo o mundo hoje: as pessoas estão demandando cultura, enquanto elas não sabem o que é isso.)
Ao menos um indivíduo que se sinta perdido em responder tal indagação terá algum respaldo para sua hesitação, já que houve até um episódio com o próprio André Malraux, então o mui celebrado ministro da Cultura francês, que anteriormente admitiu ele mesmo não saber responder o que era cultura:
“Vous savez que j'ai obtenu quelque succès au conseil des ministres lorsque j'ai dit que j'étais le seul à ne pas savoir ce qu'était la culture. En définitive, c'est vrai. ( Sourires .)[2]” (Você sabe que obtive algum sucesso no gabinete quando disse que era o único que não sabia o que era cultura. Em definitivo, é verdade. (Sorrisos)).
André Malraux (1901-1976), o célebre ministro de Cultura francês. O insólito caso
em que o mais famoso ministro da cultura do mundo não sabia o que era cultura.
Foto domínio público - Wikipédia   Bibliothèque nationale de France

A dificuldade de definir o significado das palavras

            A verdade é que definir o que é algo não é tão simples como possa sugerir em nossa mente a voz da impulsividade. A razão para isto é que a precisão de conceitos e seus respectivos conteúdos operam na mente numa quantidade e velocidade as quais necessitam, para serem expressadas verbalmente de modo satisfatoriamente compreensível a outra pessoa, de um vocabulário amplo e de um domínio na formulação de sentenças que relaciona conceitos e palavras. Relacionar conceitos e palavras foi algo que os antigos gregos desenvolveram com excelência, e tendo em plena consideração as dificuldades acima mencionadas. O ponto mais fundamental dos gregos nessa questão residia na psicologia deles onde a razão era resultado de uma equação psicológica, a qual explicava como se relacionava no homem seus sentimentos e racionalidade, sendo que estes dois na concepção grega compunham a alma do homem, isto é, a alma era vista como uma reunião de sentimento e razão, mas para fins explicativos irei usar não a palavra alma, pois esta adquiriu amplo significado o qual se fosse abordado agora complicaria mais que ajudaria o tema aqui tratado, e por isso a palavra mente será usada em lugar da palavra alma justamente pela fácil constatação que as pessoas na atualidade automaticamente incluem razão e emoção como componentes da mente

            Essa equação psicológica baseava na compreensão profunda que os gregos tinham de como opera a mente humana. Pode-se dizer que eles conceberam um tipo de anatomia da mente humana, a qual de modo simplificado continha uma parte capaz de compreender instantaneamente os conceitos e era denominada de nous (νοῠς, comumente traduzida por intelecto ou mente ou inteligência ou pensamento) e situada na ‘parte’ superior da mente, uma outra parte que é vigorosa e ao mesmo tempo amorosa e obediente à verdade e honra, denominada de thymos (τιμῇς, pode-se entender como força e coragem) e sendo o centro de coragem, estando situada na ‘parte’ intermediária da mente, e uma parte que residia os desejos, apetites e impulsos a qual era denominada de epithūmíā (ἐπιθυμία, pode-se entender como desejo), situando-se na ‘parte’ inferior da mente. Conforme a mentalidade da época equaciona estas três ‘partes’ da mente, resulta em diferentes maneiras de se pensar, usando mais razão, mais coragem ou mais desejo[3]

A definição de conceitos e palavras foi e é motivo de investigações e de disputas.  Cada época apresenta suas temáticas mais marcantes ou um modo de pensar característico, e se na antiguidade a mente humana, com a profundidade filosófica grega ainda viva, priorizava a precisão, isto é, a definição, dos conceitos baseando-se na abstração mais impessoal e racional, de modo que as palavras utilizadas fossem o menos vagas e mais precisas possíveis, por outro lado na atualidade a mentalidade ocidental faz o uso das palavras, baseando-se não tanto na racionalidade e na precisão, mas sim num critério do que é agradável ou desagradável de conhecer mais profundamente.

Assim colocado, pode-se dizer que na Antiguidade a livre reflexão sobre um conceito precedia a fixação da palavra na mente no processo educativo, de modo que a força e coragem (thymos) serviam mais à razão (nous) que ao desejo (epithūmíā), importando mais a conclusão da reflexão em si mesma do que as inclinações motivadas por desejo e os impulsos que motivam este, fossem medo, carências ou apetites. O resultado é que na Antiguidade o conceito primeiro era examinado pelo indivíduo através da pura reflexão e somente depois fixado numa palavraO processo mental opera aqui da ‘parte’ superior da mente para a ‘parte’ inferior, surgindo a partir da razão (nous).

 Por outro lado, na atualidade pode-se constatar que a atual mentalidade é a de tender a assimilar uma palavra automaticamente sem priorizar a reflexão prévia do conceito, aceitando quase passivamente a carga de emoções e afetos que as palavras acumularam conforme os significados foram nelas adicionados, subtraídos ou alterados no decorrer dos períodos posteriores à Antiguidade, e deixando tal processo de assimilação mental sujeito ao gosto das preferências pessoais, em nosso exemplo correspondendo ao desejo (epithūmíā), o que neste caso ocorre sem a intervenção necessária da força e da coragem (thymos) que impediria de se associar passiva e automaticamente uma palavra a um conceito, mas obrigaria, com força e coragem que tal associação ocorresse somente com aprovação da razão (nous), com o mínimo de interferências possíveis sobre a pura reflexão. O resultado é que na atualidade a palavra é aceita quase sempre passivamente em seu significado final conforme chegou até a atualidade sem a devida reflexão dos conceitos que anterior e originalmente possuía, sem que se saiba minimamente discernir se as alterações, adições e subtrações de significado se justificam. O processo mental opera aqui da ‘parte’ inferior da mente para a ‘parte’ superior, surgindo a parir do desejo (epithūmíā). 
 
Levantado o questionamento sobre o que é realmente cultura, e tendo em consideração que a mente das pessoas, conforme acima exposto, não possui a mesma dinâmica, talvez a sensação que hoje prevaleça seja mesmo a de que cultura é algo disputável, onde cada boca arrisca um significado do que é cultura, mas, não obstante, se ao tentarem investigar tal questão, e após ouvirem opiniões de todos os tipos, pode ser bem provável que muitos desistam no meio do processo ao pressentirem que de fato não se sabe exatamente o que é cultura. Então, por onde começar a buscar com alguma segurança o verdadeiro significado da palavra cultura? A resposta para isso é a mais simples de todas: um dicionário.

            É inevitável, logo se descobre, após consultar um bom dicionário que a palavra cultura terá vários significados por ela ter vários usos, mas as palavras, conforme o estudo da filologia evidencia, costumam ter menos ambiguidade de significados em seus estágios iniciais, quando são restritas ao ambiente original, do que quando se difundem e alcançam ambientes e países diferentes através dos tempos, podendo não raramente perderem o significado original que possuíam originalmente, e justamente esta última situação parece ser a de que padece atualmente a palavra cultura.

            O primeiro passo para saber o que é cultura é o mais simples possível, a saber, consultar um bom dicionário. No dicionário Houaiss dentre alguns dos principais usos da palavra cultura temos[4]:
a) “Ação, processo ou efeito de cultivar a terra; lavra, cultivo” do solo. Trata-se de uso agronômico.
b) “Criação de alguns animais” como peixes. 
c) “O cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social.” 
d) “Conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social.” 
e) “Forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais”, tal como cultura clássica ou cultura muçulmana. 
f) “Complexo de atividades, instituições, padrões sociais ligados à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins.” 
g) “Aprimoramento regular do organismo mediante a prática do esporte, da ginástica.” 
h) Produções cinematográficas, musicais, teatrais etc. sendo eruditas e restritas a pequenos redutos ou amplamente difundidas em meios de comunicação de massas. 
i) “Conjunto de atitudes, linguagens, conhecimentos, costumes etc. explicita ou implicitamente difundidos e estimulados pelos meios de comunicação mantidos ou utilizados pelo Estado e suas autoridades constituídas.” 
j) A etimologia da palavra cultura é originária do latim, cultūra, ‘ação de cuidar, tratar, venerar (no sentido físico e moral)’.
            Todas as linhas de usos acima são sem muito esforço bem compreensíveis e relacionáveis com nosso cotidiano, e recorrerei constantemente a elas através deste artigo para exemplificar determinadas situações históricas que serão mencionadas, uma vez que procedem de um dicionário de excelência no idioma português destinado à consulta geral de qualquer indivíduo instruído basicamente. Recorrerei sistematicamente a cada uma das definições acima elencadas pelas letras, a, b, c, etc, mesmo sob risco de recair em monotonia, conquanto que facilite a compreensão dos exemplos utilizados através desta exposição.

Continua em O que é realmente “cultura”? - parte 2 - Por Mykel Alexander


Notas


[1] Nota do autor: André Malraux: Apresentação do orçamento da cultura na Assembleia Nacional, 27 de outubro de 1966:

[2] Nota do autor: André Malraux: Apresentação do orçamento de assuntos culturais, 9 de novembro de 1963:

[3] Nota do autor: Sobre os componentes da alma/mente abordados, ver:
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 38, nº 2 (abril, 1943), pp. 79-93. ΝΟΟΣ and Noein in Homeric Poems.
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 40, nº 4 (outubro, 1945), pp. 223-242. ΝΟΟΣ, Noein and Their  Derivatives in Pre-Socratic Philosophy (Excluding Anaxagoras): Part I. From the Beginnings to Parmenides.
- Kurt von Fritz, Classical Philology, vol. 40, nº 4 (janeiro, 1946), pp. 12-34. ΝΟΟΣ, Noein and Their Derivatives in Pre-Socratic Philosophy (Excluding Anaxagoras): Part II. The Post-Parmenidean Period.
- Jean Chateau, As grandes psicologias na antiguidade, Publicações Europa-América, Lisboa, 1978. Originalmente escrito em francês 1978, tradução de Antônio Gonçalves.
- Jean Bremmer, The Early Greek Concept of the Soul, Princeton University Press, Princeton (USA), 1983.
- Giovanni Reale, História da Filosofia Grega e Romana – Vol. IX – Léxico da Filosofia Grega e Romana, Edições Loyola, edição corrigida, São Paulo, 2014. Originalmente escrito em italiano em 1975-1980, 10ª edição de 1992, traduzida ao português por Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine.
  
[4] Nota do autor: As definições foram elencadas valendo-me de letras, a, b, c etc., sem incluir todas definições contidas no dicionário Houaiss (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição), pois selecionei as que estimei ser mais difundidas nos usos e costumes na atualidade ocidental e suficientes para a proposta deste artigo.
   
          
     
Sobre o autor: Mykel Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000). 


domingo, 14 de julho de 2019

O ódio ao Irã inventado pelo Ocidente serve ao sonho sionista de uma Grande Israel dominando o Oriente Médio - por Stuart Littlewood



Stuart Littlewood
            Não há dúvidas sobre isso. Nós estamos no alto de uma temporada boba.

            Primeiro nós temos Boris ‘Eu-sou-um-apaixonado-sionista’ Johnson[1], o maior favorito para se tornar o primeiro ministro do Reino Unido. Sua biógrafa Sonia Purnell, que trabalhou ao lado de Johnson como jornalista, escreve no Sunday Times que ele é “temperamentalmente inadequado para ser confiável com qualquer posição de poder, sem falar o mais alto de todos os cargos, responsável pelo Reino Unido e seus códigos nucleares.” Ela fala de suas terríveis oscilações de humor “engatilhadas pelo mais leve desafio ao seu direito ou autoestima” e diz que ele tem “a mais feroz e incontrolável raiva” que ela jamais viu. Isto confirma o que muito de nós temiam. E nos perguntamos como aqueles que se misturam com ele no partido parlamentar poderiam possivelmente apoiá-lo para a liderança de topo.

            Ian Birrell {jornalista e ex-assessor do ex-Primeiro Ministro da Inglaterra David Cameron} no ‘I’ discute sua falta de disciplina – transformando-se em gabinete desgrenhado, despreparado e criticando os papéis errados, e sua notória pobre compreensão dos detalhes. “É estranho que alguém possa ver esse desastrado e tóxico bufão como a pessoa para liderar uma Grã-Bretanha dividida entre delicadas negociações.”  


Boris Johnson (1964 -), ex-prefeito de Londres, ex-Ministro Exterior da
Inglaterra, com linhagem judaica, e é pró-sionismo. Foto Veterans Today

            Então nós temos o “ereto e carregado” Trump desequilibrado, eriçando com agressão. Ninguém está convencido em sua alegação que, tendo ordenado ataques militares contra o radar do Irã e baterias de mísseis em retaliação ao abate de um drone espião dos EUA, ele mudou de idéia com somente minutos restando, na conta de lembrar que essa loucura pode realmente custar vidas humanas.

            Não faz diferença se o drone dos EUA estava 20 milhas fora do Irã ou 4 milhas dentro. O Irã apresentou coordenadas de GPS mostrando que estava oito milhas da costa, as quais ficam dentro das 12 milhas náuticas considerada ser águas territoriais do Irã sob a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O drone obviamente representava uma ameaça militar e uma provocação, e os EUA não têm nenhuma reivindicação legal de alto-defesa que justificaria um ataque militar. O Irã tem o direito de pedir identificação de qualquer aeronave voando perto de seu território e o embaixador do Irã nas Nações Unidas é relatado ter escrito ao Conselho de Segurança que o drone falhou em responder a vários avisos de rádio antes de ser derrubado.

            Qualquer ataque dos EUA sobre o Irã nestas circunstâncias poderia ser uma violação da Carta das Nações Unidas, a qual somente permite o uso de força militar em autodefesa depois de um ataque armado ou com aprovação do Conselho de Segurança.

            Vamos lembrar nós mesmos da anterior agressão dos EUA e desonestidade durante a guerra Irã-Iraque, conforme registrado na Wikipedia:
No curso de escoltas pela Marinha dos EUA, o cruzador USS Vincennes abateu o Voo Aéreo 655 em 3 julho de 1988, matando todos os 290 passageiros e tripulação a bordo. O governo americano alegou que Vincennes estava em águas internacionais na época (a qual foi posteriormente provado não ser verdadeiro), que o Airbus A300 tinha sido confundido com um F-14 Tomcat iraniano, e que Vincennes termia que ele estava sob ataque. Os iranianos mantêm que Vincennes estava em suas próprias águas, e que o jato passageiro estava se afastando e aumentando a altitude depois da decolagem. O almirante dos EUA William J. Crowe posteriormente admitiu no Nightline que Vincennes estava em território de águas iranianas quando ele lançou os mísseis. Na época do ataque, o Almirante Crowe afirmou que o avião iraniano não identificou-se e não enviou resposta aos sinais de aviso que ele tinha enviado. Em 1996, os Estados Unidos expressaram seu pesar pelo evento e mortes civis causadas.
            Trump agora quer impor sanções ao Irã e seu povo enquanto o ministro do Exterior do Reino Unido Andrew Murrison tem acabado de estar no Irã pedindo para “desanuviamento urgente” e nervosamente criticando a “conduta regional” do Irã e sua ameaça de parar de cumprir o acordo nuclear, o qual os EUA imprudentemente abandonaram, mas o Reino Unido permanece comprometido.

            Boas notícias sobre Murrison, no entanto. Um médico, ele votou contra a guerra do Iraque, mas como reservista da Marinha, ele foi chamado para fazer uma turnê de seis meses de tarefas lá. Talvez Murrison deva ir ver Trump e perguntar:
Por que ele não está mais preocupado com o arsenal nuclear de Israel e com o estado mental do regime israelense, os quais são a real ameaça para a região e além dela?
Por que ele não está aplicando sanções sobre Israel por sua recusa em se inscrever no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares ou se engajar construtivamente na questão de seus programas nuclear e de Armas de Destruição em Massa, sem mencionar seus repetidos desafios das leis humanitárias e internacionais na Terra Santa?
            Trump, enquanto isso, tem assinada uma ordem executiva visando a liderança do Irã com outras novas e duras sanções, supostamente para negar o desenvolvimento deles de armas nucleares. “Nunca o Irã pode ter uma arma nuclear,” Trump tem decretado. Ele adicionou: “Nós iremos continuar aumentar a pressão sobre Teerã até o regime abandonar suas perigosas atividades e suas aspirações, incluindo a busca por armas nucleares, aumento do enriquecimento de urânio, desenvolvimento de mísseis balísticos, engajamento e apoio ao terrorismo, fomento de conflitos estrangeiros e atos beligerantes...” Muito engraçado! Quem mais poderia aplicar isso tudo, pergunto-me? Exatamente, o próprio garoto-valentão em exercício e seus melhores amigos em Tel Aviv.


Semeando as sementes do ódio

           Nós temos convenientemente memórias curtas quando se trata de nossa conduta abominável frente aos iranianos em 1951-53 quando um anterior governo conservador, em conluio com os EUA, extinguiu a inexperiente democracia do Irã e reinstalou um cruel ditador, o Xá {título dos monarcas da Pérsia}. Isso acabou provocando a Revolução Islâmica de 1979 e criou uma profunda desconfiança entre Irã e Ocidente. Não é vergonhoso que o presente governo conservador está aparando-se para outra luta? Não deveria agora o Ministério das Relações Exteriores focar em exercer influência através do comércio e da cooperação?

Mozaffar al-Din Shah Qajar
(1853-1907)
Foto Wikipédia
            O regime iraniano, como muitos outros, pode não ser inteiramente do nosso agrado, mas não era democracia do Dr. Mossadeq 65 anos atrás. Além disso, que ameaça é o Irã para a Grã-Bretanha? E por que estamos nós permitindo-nos ser levados pelo ódio irracional da América?

            Quando novos recrutas se juntam a British Petroleum (BP) eles são alimentados com românticos contos sobre como a companhia surgiu. William Knox D’Arcy, um homem de Devon, estudou Direito e fez uma fortuna das operações de mineração de ouro do Monte Morgan nos anos da década de 1880 na Austrália. Retornando à Inglaterra ele concordou em financiar uma busca por petróleo e minerais na Pérsia e começou negociações com Mozaffar al-Din Shah Qajar {rei da Pérsia entre 1896-1907} em 1901. Uma concessão de sessenta anos deu a D’Arcy os direitos sobre o óleo do inteiro país exceto para cinco províncias no norte. O governo pêra recebia 16% dos lucros anuais da petrolífera.
William Knox D'Arcy (1849-1917)
Foto Wikipédia


        Mozzafar ad-Din era ingênuo em questões de negócios e despreparado para a realeza quando chegava a hora. Ele tomou pesadamente emprestado dos russos e afim de pagar o débito ele assinou a concessão de muitas indústrias e mercados persas para estrangeiros. O acordo que D’Arcy cortou era muito agudo e acabaria por levar a problemas.

            Ele enviou um time de exploração liderado pelo geólogo George B. Reynolds. Em 1903 uma companhia foi formada e D’Arcy teve de gastar muito de sua fortuna para cobrir os custos. Mais apoio financeiro veio da Burmah Oil, sediada em Glasgow, em troca de uma grande parte das ações.

            A perfuração no sul da Pérsia em Shardin continuou até 1907 quando a busca foi mudada para Masjid-i-Souleiman. Em 1908 D’Arcy estava quase falido. Reynolds recebeu uma instrução de última chance: “Perfure a 1.600 pés e desista!”. Em 26 de maio a 1.180 pés dele atingiu o petróleo.

            Foi de fato um triunfo da corajosa dureza e determinação. A Anglo-Persian Oil Company estava logo de pé e funcionando e em 1911 completou um oleoduto do campo de petróleo de sua nova refinaria em Abadan. Mas a companhia estava em problema novamente ao redor de 1914. A idade do ouro do automobilismo não tinha chegado ainda e os mercados industriais de petróleo foram costurados pelos interesses americanos e europeus. O fedor sulfúrico do óleo persa, mesmo após o refinamento, excluía-o para uso doméstico, de modo que D’Arcy tinha um problema de marketing.

            Por sorte Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, era um entusiasta do petróleo e queria converter a frota britânica de carvão especialmente agora que uma fonte confiável de óleo estava assegurada. Ele famosamente disse ao Parlamento: “Olhe para a vasta extensão das regiões petrolíferas do mundo!”. Somente a empresa anglo-persa de petróleo, ele disse, poderia proteger os interesses britânicos. Sua resolução passou e o Governo Britânico assumiu uma maior participação acionária na companhia em tempo, pois a Primeira Guerra Mundial começou umas poucas semanas depois.

            Durante a guerra, o governo britânico confiscou os ativos de uma empresa alemã, denominando ela própria British Petroleum para o propósito de comercializar seus produtos na Grã-Bretanha. A Anglo-Persian adquiriu os ativos completos do Agente Fiduciário Público com uma rede de distribuição pronta e abundância de depósitos, vagões tanques rodoviários, veículos rodoviários, barcaças e assim por diante. Isso capacitou a Anglo-Persian para que rapidamente expandisse as vendas na Grã-Bretanha e Europa famintas por petróleo, depois da guerra.

            Nos anos entre guerras a Anglo-Persian lucrou boas quantias ao pagar aos iranianos miseráveis 16%, e uma Pérsia crescentemente zangada tentou renegociar os termos. Chegando a lugar nenhum, eles cancelaram o acordo de D’Arcy e a questão terminou na Corte Internacional de Justiça em Haia. Um novo acordo em 1933 forneceu a Anglo-Persian com uma nova concessão de 60 anos, mas em uma área menor. Os termos foram uma melhoria para os persas, mas ainda não correspondiam a um justo acordo padrão.  

            Em 1935, o Irã formalmente substituiu a Pérsia como nome oficial do país internacionalmente e a Anglo-Persian mudou para Anglo-Iranian Oil Company. Ao redor de 1950 Abadan era a maior refinaria de petróleo no mundo, com seus 51% de participação, tinha efetivamente colonizado parte do sul do Irã.

            A pequena participação do Irã nos lucros tornou-se uma grande questão e o tratamento de seus trabalhadores de petróleo também. 6000 interromperam o trabalho e a greve foi violentamente colocada abaixo com 200 mortos ou feridos. Em 1951 a Anglo-Iranian declarou £40 milhões de lucro após impostos, mas entregou somente £7 milhões. Enquanto isso, a Arabian American Oil estava compartilhando lucros com os sauditas na base de 50/50. Apelos para a nacionalização estavam aumentando.

            Como um resultado da Revolução Constitucional Persa, o primeiro Majlis (parlamento) foi estabelecido em 1906 e o país tornou-se uma monarquia constitucional com grandes esperanças. Em meados do século o Irã não queria irrazoavelmente a independência econômica e política e um fim da pobreza. Em março de 1951, o Majlis {assembleia legislativa islâmica} e Senado votaram para nacionalizar a Anglo-Iranian, a qual tinha controlado a indústria de petróleo iraniana desde 1913 sob termos desvantajosos para o Irã. O respeitado reformista social Dr. Mohammad Mossadeq foi nomeado primeiro ministro no mês seguinte por uma maioria de 79 a 12. Em 1º de maio Mossadeq cumpriu o desejo de seu governo, cancelando a concessão de petróleo Anglo-Iranian que expiraria em 1993 e expropriando seus ativos.

            Sua explicação, dada num discurso em junho de 1951 (M. Fateh, Panjah Sal-e Naft-e Iran, p. 525).
“Nossos longos anos de negociações com países estrangeiros... não têm dado nenhum resultado até agora. Com as receitas de petróleo nós poderíamos cumprir todo o nosso orçamento e combater a pobreza, doença, e o atraso de nosso povo. Outra importante consideração é que pela eliminação do poder da companhia britânica, nós poderíamos também eliminar a corrupção e intriga, pelos meios dos quais as questões internas de nosso país têm sido influenciadas. Uma vez esta tutela tendo cessado, o Irá terá alcançado sua independência econômica e política.
“O estado iraniano prefere assumir a produção de petróleo por ele mesmo. A companhia deveria fazer nada mais que retornar sua propriedade aos legítimos proprietários. A lei de nacionalização prevê que 25% dos lucros líquidos com petróleo sejam reservados para atender a todas as reivindicações legítimas da companhia para compensação... Tem sido afirmado no exterior que o Irã pretende expulsar os especialistas estrangeiros do país e então fechar as instalações de petróleo. Não somente é esta alegação absurda; ela é uma invenção absoluta...”
            Por isso, ele acabaria sendo removido em golpe do MI5 e CIA, preso por 3 anos, em seguida colocado em prisão domiciliar até sua morte.

Mossadeq Mohammad (1880-1967)
Foto Wikipédia
            A Grã-Bretanha, com a mudança de regime em mente, orquestrou um boicote mundial ao petróleo iraniano, congelou os ativos do Irã e ameaçou a ação legal contra qualquer pessoa que comprasse petróleo produzido nas antigas refinarias controladas pelos britânicos. Ele mesmo considerou invadir. A economia iraniana ficou logo em ruínas... soa familiar, não é? Tentativas do xá para substituir Mossadeq falharam e ele retornou com mais poder, mas sua coalizão estava desmoronando lentamente sob as dificuldades impostas pelo bloqueio.


            No começo a América estava relutante em se unirem ao jogo destrutivo da Grã-Bretanha, mas Churchill deixou ser conhecido que Mossadeq estava se transformando em comunista e empurrando o Irã para os braços da Rússia em um momento quando a ansiedade da Guerra Fria estava alta. Foi o suficiente para trazer a bordo o novo presidente da América, Eisenhower, e conspirar com a Grã-Bretanha para trazer Mossadeq abaixo.

           O chefe da divisão da Cia para Oriente Próximo e África, Kermit Roosevelt Jr., chegou a desempenhar o papel principal num feio jogo de provocação, desordem e enganação. Uma campanha elaborada de desinformação começou, e o Xá assinou dois decretos, um dispensando Mossadeq e outro nomeando a escolha da CIA, o general Fazlollah Zahedi, como primeiro-ministro. Estes decretos foram escritos como ditados por Donald Wilbur, o arquiteto da CIA do plano.

            O xá fugiu para Roma. Quando foi julgado seguro fazê-lo, ele então retornou em 22 de agosto de 1953. Mossadeq foi preso, julgado e condenado por traição pela corte militar do xá. Ele comentou...[2]
“Meu maior pecado é que eu nacionalizei a indústria de petróleo do Irã e descartei o sistema de exploração política e econômica do maior império do mundo... Com a benção de Deus e a vontade do povo, lutei contra esse sistema selvagem e medonho de espionagem e colonialismo.
“Estou bem ciente de que meu destino deve servir como um exemplo no futuro através do Oriente Médio em quebrar as correntes da escravidão e servidão aos interesses coloniais.”
Seus partidários foram cercados, aprisionados, torturados ou executados. O novo governo de Zahedi logo alcançou um acordo com as companhias petrolíferas estrangeiras para formar um consórcio para restaurar o fluxo de petróleo iraniano, premiando aos EUA e à Grã-Bretanha a parte do leão – 40% indo para a Anglo-Iranian. O consórcio concordou em dividir os lucros na base 50-50 com o Irã mas, trapaceiro como sempre, recusou-se abrir seus livros para os auditores iranianos ou permitir que os iranianos participassem do conselho.

            Um agradecido EUA massivamente financiou o governo do Xá, incluindo seu exército e força policial secreta, SAVAK. O Anglo-Iranian mudou seu nome para British Petroleum em 1954. Mossadeq morreu em 5 de março de 1967.


Pedir desculpas? Não... vamos demonizar o Irã!

            Mas a diversão do Ocidente parou abruptamente com a Revolução de 1979 e um grande empreendimento britânico que começou heroicamente e se tornou desagradável terminou em lágrimas.

            Os EUA ainda são odiados hoje por reimpor  o Xá e seus capangas e demolir o sistema democrático iraniano de governo, o qual a Revolução infelizmente não restaurou. Os EUA são amplamente conhecidos pelos iranianos como o Grande Satã e sua serva regional, Israel, se alegra com o nome de Pequeno Satã. A Grã-Bretanha, como instigadora e parceira júnior no sórdido caso, é similarmente desprezada.

            Além disso, o Irã mantém acolhido grande ressentimento pelo modo como o Ocidente, especialmente os EUA, ajudou o Iraque desenvolver suas forças armadas e arsenal de armas químicas, e como a comunidade internacional falhou em punir o Iraque por seu uso daquelas armas contra o Irã na guerra Irã-Iraque. Os EUA, e eventualmente a Grã-Bretanha, inclinaram-se fortemente frente a Saddam no conflito e a aliança capacitou Saddam mais facilmente para adquirir ou desenvolver armas químicas e biológicas. No mínimo 100,000 iranianos caíram vítimas delas.

            Isto é como John King, escrevendo em 2003[3], resumiu...              
“Os Estados Unidos usaram métodos legais e ilegais para ajudar a construir o exército de Saddam no mais poderoso exército do Oriente Médio fora de Israel. Os EUA forneceram agentes químicos e biológicos e tecnologia ao Iraque quando eles souberam que o Iraque estava usando armas químicas contra os iranianos. Os EUA forneceram materiais e tecnologia para estas armas de destruição em massa ao Iraque quando foi conhecido que Saddam estava usando esta tecnologia para matar cidadãos curdos. Os Estados Unidos forneceram informações de inteligência e de planejamento de batalha para o Iraque quando aqueles planos incluíam o uso de cianeto, gás mostarda e agentes de nervos. Os Estados Unidos não atuaram sozinhos nesse esforço. A União Soviética foi a maior fornecedora de armas, mas Inglaterra, França e Alemanha estavam também envolvidas no envio de armas e tecnologia.”
            Enquanto as baixas iranianas estavam em seu mais alto como resultado dos crimes de guerra químicos e biológicos, Trump estava ocupado adquirindo a propriedade de Mar-a-Lago em Palm Beach, Trump Castle, seu cassino Taj-Mahal, o Plaza Hotel em Manhattan e estava reformando seu super-iate Trump Princess. O que ele sabe, entende ou se importa com o Irã?

            Do lado britânico, o secretário de Relações Exteriores, Jaremy Hunt, estava bagunçando na Universidade de Oxford; e o principal candidato a preencher nossa vaga de Primeiro Ministro, Boris Johnson, ex-secretário de Relações Exteriores, estava também em Oxford estava bebendo e festejando sonoramente com os colegas do Old Etonians no Bullingdon Club. O que eles sabem ou se importam?

               O que nos traz a hoje... Por que estamos ouvindo chocalho sem parar contra o Irã quando nós deveríamos estar estendendo a mão de reconciliação e amizade? E por que esses líderes sem noção demonizam o Irã ao invés de corrigir os erros? Porque a estrutura política está ainda sofrendo. E eles são os imperialistas da nova-geração, a prole política daqueles que o Dr. Mossadeq e muitos outros lutaram contra. Eles não aprenderam com o passado e não vão levantar os olhos deles para um futuro melhor.

            É tão deprimente.


Sanções econômicas: são elas morais, ou mesmo legais?

           Os EUA e o Reino Unido têm liderado a acusação sobre sanções e outras medidas para fazer a vida um inferno para os iranianos. Mas eles estão em seguro terreno legal?

            A Associação Internacional dos Advogados Democráticos (IADL) em uma declaração em 26 de novembro de 2011, disse estar profundamente preocupada sobre as ameaças contra o Irã por parte de Israel, Estados Unidos, e o Reino Unido. Referindo-se a um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica, a IADL afirmou que aquelas ameaças eram inaceitáveis e perigosas não somente para toda a região, mas para a humanidade inteira, e que o artigo 2.4 da Carta das Nações Unidas proíbe não somente o uso de força bruta, mas também a ameaça de força nas relações internacionais. O direito de defesa não inclui ataques preventivos.

            O IADL também apontou que, enquanto Israel era rápido em denunciar a possível posse de armas nucleares por outros, ele tinha possuído ilegalmente armas nucleares por muitos anos. O perigo para a paz mundial era tão grande que requeria a erradicação global de todas armas nucleares, e declarar imediatamente o Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares e uma zona livre de armas de destruição em massa, conforme exigido pela Resolução 687 do Conselho de Segurança da ONU.

            Além disso, o Artigo 33 estabelece que “as partes em qualquer disputa, cuja continuação é propensa a colocar em perigo a manutenção da paz e segurança internacional, irá, primeiro de tudo, buscar uma solução por negociação, investigação, mediação, conciliação, arbitragem, ajuste judicial, recorrer a agências ou acordos regionais, ou outros meios pacíficos...” ´Táticas de terror’ econômico tais como as deliberadamente cruéis sanções aplicadas pelos EUA, Reino Unido e seus aliados – e as medidas similares usadas pela Grã-Bretanha e América nos anos da década de 1950 para trazer abaixo o governo do Dr. Mossadeq e restabelecer o Xá – simplesmente não fazem parte do kit do ferramentas aprovado.


Lembre-se do contexto

            A Resolução 487 de 1981 do Conselho de Segurança da ONU chamou Israel “urgentemente para colocar suas instalações nucleares sob as salvaguardas da IAEA”. Israel tem sido permitido ignorá-la por aproximadamente 40 anos. Em 2009, a IAEA chamou Israel para juntar-se ao Tratado de Não-Proliferação, abrir suas instalações nucleares para inspeção e colocar elas sob abrangente salvaguarda da IAEA. Israel ainda se recusa a juntar-se ou permitir inspeções.

            O regime sionista é considerado por alguns como tendo até 400 ogivas nucleares à sua disposição. É o único estado na região que não faz parte do Tratado de Não-Proliferação (Irã faz). Ele assinou, mas não ratificou o Tratado de Banimento de Testes Nucleares. Em relação as armas biológicas e químicas, Israel não tem assinado a Convenção sobre Armas Biológicas e Tóxicas. Ele tem assinado, mas não ratificado a Convenção de Armas Químicas.

            No início de 2012 a comunidade de inteligência dos EUA estava dizendo que o Irã não tinha um programa ativo de armas nucleares, e a inteligência israelense concordou. O diretor da Agência Nacional de Inteligência, James Clapper, relatou: “Nós avaliamos que o Irã está mantendo uma opção aberta para o desenvolvimento de armas nucleares... Nós não sabemos, contudo, se o Irã irá eventualmente decidir construir armas nucleares...”

            Portanto o foco contínuo sobre o Irã tem sido uma distração deliberada. Nós reembolsamos a cooperação iraniana no empreendimento petrolífero de D’Arcy com ganância corporativa e duplicidade diplomática. A América e Grã-Bretanha estão ainda sofrendo do tempo quando o Irã democraticamente elegeu o Dr. Mossadeq, que nacionalizou sensivelmente seus vastos recursos petrolíferos. Até então os sôfregos britânicos estavam aproveitando muito mais o lucro do petróleo iraniano que os próprios iranianos.

            De volta aos anos da década de 1920 o Departamento de Estado dos EUA tinha descrito os depósitos de petróleo no Oriente Médio como “uma fonte estupenda de poder estratégico, e um dos maiores prêmios da história mundial”. Desde então, seus projetos sobre o Iraque e Irã têm sido fáceis de ver e ele ainda está pronto para súbitos ataques em todas oportunidades.     

            Quando o golpe engendrado da CIA derrubou o Dr. Mossadeq, restabeleceu o Xá e sua polícia secreta, e deixou as companhias americanas de petróleo lá, foi o golpe final para os iranianos. A conspiração britânico-americana virou um tiro no pé espetacular 25 anos depois com a Revolução Islâmica de 1978-1979, a humilhante crise de reféns de 444 dias na embaixada americana e uma missão de resgate tragicamente malograda. O que deveria ter sido uma lição afiada para os intrometidos ocidentais se tornou uma ferida purulenta.

            A busca pelo prêmio de energia não acabou. Mas não é mais apenas sobre petróleo. Fantoches sionistas em posições de controle nos corredores do poder do Ocidente estão solenemente comprometidos em assegurar que Israel permaneça a única potência nuclear no Oriente Médio e continue a dominar militarmente a região. E estão dispostos a derramar sangue cristão e gastar riquezas cristãs nessa causa.


John Bolton (1948-) Conselheiro de Segurança Nacional de D. Trump. Ultra-sionista, e um dos articuladores da fraudulenta
invasão do Iraque em 2003 durante o governo de George W. Bush.  Ganhador do Prêmio Defensor de Israel e Prêmio Guardião de Sião. Na foto, ao lado de Reuven Rivlin, atual presidente de Israel.  Foto por Mark Neyman - Wikipédia
            O Conselheiro de Segurança dos EUA John Bolton, ganhador do Defender of Israel Award {Prêmio Defensor de Israel} ano passado e do Guardian of Zion Award {Prêmio Guardião de Sião} um ano antes, é um de tais super-fantoches. Sua observação estupefata: “Ninguém tem concedido ao Irã uma licença de caça no Oriente Médio” tipifica a arrogância de sua laia.  

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas


[1] Nota do tradutor: Sendo mais exato, Boris Johnson, ex-Ministro de Relações Exteriores da Inglaterra e ex-prefeito de Londres (2008-2016), possui, por um lado, remota linhagem judaica, dado que seu bisavô materno teria sido um rabino da Lituânia, possuindo, por outro lado, influência judaica, uma vez que o pai de Boris casou-se com um judia em seu segundo matrimônio, a qual colocou Boris em contato com o diplomata israelense Michael Comay, e inclusive o próprio Boris e sua irmã passaram em sua juventude 6 semanas de férias nos celebrados kibutz em Israel. Tendo essas considerações em conta, não é muito surpreendente que Boris Johnson seja um defensor de Israel, atacando os boicotes contra este Estado.
Ver “Boris Johnson’s Sister Reveals His Little-known Past as a Volunteer on an Israeli Kibbutz”, por Danna Harman, Haaretz, 08/08/2016.

[2] Fonte utilizada pelo autor: http://www.mohammadmossadegh.com/biography/




Fonte: American Herald Tribune, 25/06/2019.


Sobre o autor: Stuart Littlewood possui bacharel em Psicologia da Universidade de Exeter, é membro graduado da Chartered Institute of Marketing (MInstM). Trabalhou em caças a jato da RAF (Força Aérea Britânica), exerceu vários cargos de gestão de vendas e marketing em manufatura, petróleo e eletrônica. Na política ele serviu como conselheiro do condado de Cambridge e membro da Autoridade Policial.

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