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domingo, 9 de fevereiro de 2020

Fraudulentas citações nazistas - Por Mark Weber


Mark Weber

              Citações falsificadas atribuídas à Hitler e outros líderes do Terceiro Reich têm sido amplamente circuladas por anos. Tais citações são frequentemente utilizadas pelos polemistas – ambos da esquerda e da direita – para desacreditar seus adversários ideológicos mostrando que os nazis mantinham similares opiniões. Esta tática funciona porque as pessoas têm sido educadas para acreditar que qualquer coisa que Hitler e os outros nazis pensavam ou diziam eram coisas malevolentes, equivocadas ou malignas, e que nenhuma pessoa razoável ou ética poderia sustentar similares pontos de vista.

Aqui está uma olhada em umas poucas das muitas citações falsamente atribuídas à Hitler ou a outros nazistas do topo.


Goebbels: ‘A verdade é a Inimiga do Estado’

O chefe de propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, supostamente disse:
“Se você dizer uma mentira suficientemente grande e mantém repetindo ela, as pessoas irão eventualmente vir a acreditar nela. A mentira pode ser mantida por determinado período conforme o Estado possa proteger o povo das consequências políticas, econômicas e/ou militares da mentira. Ela, assim, torna-se vitalmente importante para o Estado usar todo seu poder para reprimir a dissidência, pois a verdade é a mortal inimiga da mentira, e assim, por extensão, a verdade é a maior inimiga do Estado.”
            Rush Limbaugh, o popular comentador de rádio americano, é apenas um dos muitos americanos influentes que tem citado esta citação. Durante uma transmissão de rádio em maio de 2007 ele alegou que estas colocações são “da sala de guerra de Hitler, do propagandista sem sinceridade, no comando, Joseph Goebbels,” que estava “falando por seus companheiros no partido nazista.” Limbaugh passou a alegar que os líderes do “Partido Democrata” americano estavam utilizando “uma versão” da técnica de Goebbels para tentar “reprimir a dissidência”. E em janeiro de 2011 o congressista americano Steve Cohen, um político do partido democrata do Tennessee, acusou republicanos de propagar “uma grande mentira, assim como Goebbels” sobre um plano nacional de saúde.

            De fato, as visões de Goebbels foram bastante diferentes do que esta fraudulenta citação sugere. Ele regularmente sustentou que a propaganda deve ser precisa e verdadeira.

            Ninguém tem sido capaz de citar uma fonte para esta infame citação da “grande mentira.” Isso porque Goebbels nunca escreveu ou pronunciou estas palavras. Suas visões eram realmente muito diferentes do que esta citação sugere.

            Ele sustentou consistentemente que, para ser efetiva, a propaganda deve ser precisa e verdadeira. Num discurso proferido em setembro de 1934 em Nuremberg, ele disse: “A boa propaganda não necessita mentir, na verdade, ela não pode mentir. Não há nenhuma razão para temer a verdade. É um erro acreditar que as pessoas não podem pegar a verdade. Elas podem. É somente uma questão de apresentar a verdade para as pessoas numa maneira a qual elas sejam capazes de compreender. Uma propaganda que mente prova que ela tem uma causa ruim. Ela não pode ser bem-sucedida em longo prazo.”

            Num artigo escrito em 1941, ele citou exemplo das falsas afirmações britânicas em tempos de guerra, e passou a acusar que os propagandistas britânicos tinham adotado a técnica da “grande mentira” que Hitler tinha identificado e condenado em seu livro Minha Luta. Goebbels escreveu: “O inglês segue o princípio que quando alguém mente, a mentira deve ser grande, e a cumpre. Eles sustentam as mentiras deles, mesmo sob o risco de parecer ridículo. ”


Hitler e o controle de armas

            Em um discurso, algumas vezes dito ter sido proferido em 1935, Hitler supostamente tinha exclamado: “Este ano vai entrar para a história! Pela primeira vez, uma nação civilizada tem completo registro de armas! Nossas ruas estarão mais seguras, nossa polícia mais eficiente, e o mundo irá seguir nossa liderança rumo ao futuro!”

            Esta citação tem sido popular com os americanos que defendem o direito constitucional para “possuir e portar armas.” Ela é citada para desacreditar aqueles que apoiam restrições na posse e uso de armas de fogo. Ela é citada também para apoiar a frequentemente feita acusação que Hitler e seu governo reduziram a posse de armas na Alemanha, e confiscaram as armas possuídas por cidadãos particulares.

            A verdade é bem diferente. Quando Hitler e seu Partido Nacional-Socialista assumiram o poder no início de 1933, eles herdaram uma restritiva lei de armas de fogo que o governo liberal-democrata de “Weimar” tinha implementado cinco anos antes. Em 1938 o governo de Hitler revisou esta lei anterior, soltando estas restrições, desse modo aumentando os direitos dos alemães para possuírem armas. O mais completo confisco de armas de fogo imposto sobre os alemães foi realizado no fim da Segunda Guerra Mundial pelas forças de ocupação dos Estados Unidos e outros vitoriosos poderes Aliados.


Hitler sobre ‘Lei e Ordem’

           Hitler é suposto ter dito durante um discurso em 1932, pouco antes dele se tornar chanceler:
“As ruas de nossas cidades estão em turbulência. As universidades estão cheias de estudantes se rebelando e tumultuando. Os comunistas estão procurando destruir nosso país. A Rússia está ameaçando-nos com seu poder e a República está em perigo. Sim, perigo interior e exterior. Nós necessitamos lei e ordem! Sim, sem lei e ordem nossa nação não pode sobreviver... Elejam-nos e nós iremos restaurar a lei e a ordem. Nós iremos, por lei e ordem, ser respeitados entre as nações do mundo. Sem lei e ordem nossa República irá fracassar.”

            Esta citação, a qual se destina a embaraçar e desacreditar aqueles que apoiam a “lei e ordem”, foi especialmente popular com os jovens americanos durante os finais dos anos da década de 1960 e início da década de 1970. Ela apareceu em pôsteres e em 1971 no filme “Billy Jack.”

            Em seus muitos discursos da campanha de eleição em 1932 Hitler destacou os temas da justiça, liberdade, empregos e unidade nacional – não “lei e ordem”. As universidades alemães em 1932 não estavam “cheias de estudantes se rebelando e tumultuando.” De fato, os estudantes alemães estavam entre os mais ferventes apoiadores de Hitler e de seu Movimento Nacional Socialista.


Goering sobre a cultura      
           
            Hermann Goering, um alto oficial do Terceiro Reich, é frequentemente citado como tendo dito: “Sempre que eu ouço a palavra cultura, eu pego meu revolver.” O Reichsmarschall Goering (Göring), que foi comandante da força aérea alemã, nunca teria dito algo como isto. Junto com outros líderes do alto escalão do Terceiro Reich, ele estimou as artes, e se orgulhava ele mesmo de sua apreciação da cultura.

            Esta citação é uma distorção de um verso de um personagem no filme Schlageter do escritor alemão Hanns Johst. O verso original (traduzido) é “Quando eu ouço [a palavra] cultura... eu libero a trava de segurança da minha browning!” Uma versão desta citação é apresentada em uma cena no filme de propaganda do período de guerra, “Why We Fight”, feito pelo governo dos EUA, para sugerir que o típico “nazi” era um bandido sem cultura.


Hitler e a consciência

            “Eu estou liberando o homem da degradante quimera conhecida como consciência,” é suposto ter sido dito por Hitler. Esta vastamente repetida citação aparece, por exemplo, em The Great Quotations, uma coleção supostamente fidedigna compilada pelo jornalista judeu-americano e autor Geoge Seldes. É uma versão de um comentário atribuído à Hitler por Hermann Rauschining em seu livro, The Voice of Destruction (Conversações com Hitler), o qual é uma fonte de muitas citações fraudulentas supostamente baseadas em conversas privadas com Hitler que, na verdade, nunca ocorreram.

            O texto “original” desta citação, conforme apresentado por Rauschining, é: “A Providência tem ordenado que eu deva ser o maior libertador da humanidade. Eu estou libertando o homem das amarras de uma inteligência que tem sido carregada; da sujeira e degradantes auto-mortificações de uma quimera chamada consciência e moralidade, e das exigências de uma liberdade e independência pessoa a qual somente muitos poucos podem suportar.”

            Na verdade, Hitler repetidamente enfatizou a importância de atuar conscientemente. Por exemplo, em pelo menos três diferentes discursos ou afirmações públicas em 1941 somente, ele falou sobre atuar de acordo com sua consciência. Rudolf Hess, um amigo próximo e colega de confiança, uma vez disse que sua devoção para Hitler era baseada em grande medida em sua relação para a resoluta consciência de Hitler. Em um discurso de 1934 Hess disse: “A consciência de uma personalidade moral é de longe uma maior proteção contra o uso indevido de um cargo do que a supervisão de um parlamento ou a separação dos poderes. Eu não conheço ninguém que tenha uma consciência mais forte, ou mais verdadeira para seu povo, que Adolf Hitler... O mais alto tribunal do Führer é sua consciência e sua responsabilidade para com seu povo e para com a história.”


Hitler: ‘Destruir por todos os meios’

            O filme de propaganda do governo dos EUA, “Why We Fight,” cita Hitler como tendo dito: “Meu lema é ‘Destrua tudo por todos os meios. O Nacional Socialismo irá reformular o mundo’.” Esta é uma versão de um comentário atribuído à Hitler por Hermann Rauschining em seu influente livro. O texto “original”, conforme apresentado por Rauschining, é: “Eu quero guerra. Para mim todos os meios estarão certos... Meu lema não é 'não faça, seja o que for, que irrite o inimigo!' Meu lema é 'Destrua ele por todos os meios.' Eu sou o que vai fazer a guerra!” Outra versão deste inventado comentário aparece no livro Hitler and Nazism (1961), pelo historiador Louis Leo Snyder, que foi um professor no City College de Nova Iorque.

                         
Hitler sobre o Terrorismo

            Hitler tem frequentemente sido citado como tendo dito: “Terrorismo é a melhor arma política, pois nada vence mais as pessoas duras que o medo da morte súbita.” Esta citação é baseada em duas comentários inventados no extravagante livro de Hermann Rauschining, The Voice of Destruction.


Hitler: ‘Nós somos bárbaros’

            Hitler tem frequentemente sido citado como tendo dito: “Eles referem-se a mim como um bárbaro sem educação. Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros, isso é um honrado título para nós. Nós iremos rejuvenescer o mundo. Este mundo está perto de seu fim.”

            Esta é outra citação fraudulenta do fantasioso trabalho de Hermann Rauschining.


Hitler e a ‘Juventude Brutal’

            “Uma juventude violentamente ativa, dominante, intrépida e brutal – isto é o que estou buscando... Eu quero ver nos olhos deles o brilho do orgulho e independência, de rapina. Não haverá nenhum treinamento intelectual. Conhecimento é a ruina dos meus jovens homens.” Esta colocação vastamente citada é incluída, por exemplo, no The Great Quotations de George Seldes. A fonte citada por Seldes é um item no The Nation do popular jornalista americano e autor John Gunther (1901 – 1970).

            Na verdade, esta é uma versão de uma afirmação atribuída à Hitler por Hermann Rauschining, cujo imaginativo trabalho é uma fonte de muitas “citações” falsificadas. Outra fraudulenta citação de Hitler com esse mesmo espírito e da mesma fonte, igualmente citada pelo supostamente fidedigno Seldes, é esta: “A educação Universal é o veneno mais corrosivo e desintegrante que o liberalismo jamais inventou para sua própria destruição.”

            Estes comentários deturpam os reais pontos de vista de Hitler. De fato, a Alemanha Nacional Socialista era mundialmente líder em ciência, tecnologia, ensino e medicina. Hitler era admirado por alguns dos principais intelectuais da época, incluindo Knut Hamsun , Ezra Pound , Louis-Ferdinand Celine  e Martin Heidegger .

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander
           


Referências para futuras leituras:

Randall Bytwerk, “False Nazi Quotations”


Paul F. Boller, Jr. and John George, They Never Said It: A Book of Fake Quotes, Misquotes, & Misleading Attributions (New York: Oxford, 1989).


Joseph Goebbels, “From Churchill's Factory of Lies,” ("Aus Churchills Lügenfabrik"), Janeiro de 1941. Reimpresso em Zeit ohne Beispiel


Joseph Goebbels, “Propaganda” (Nuremberg: 1934)


William L. Pierce, Gun Control in Germany 1928-1945 (1994)


John Toland, Adolf Hitler (1976)


Mark Weber, “Goebbels and World War II Propaganda,” 2011


Mark Weber, “Goebbels' Place in History,” The Journal of Historical Review, 1995.
Em português “O Lugar de Goebbels na História”, em World Traditional Front, 17 de janeiro de 2020,


Mark Weber, “Hitler as ‘Enlightenment Intellectual’: The Enduring Allure of Hitlerism,” 1997 {The Journal of Historical Review, setembro-outurbro. 1997 (Volume 16, número 5), páginas 34-37.}


Mark Weber, “Rauschning's Phony 'Conversations With Hitler': An Update,” 1985 {The Journal for Historical Review, inverno de 1985-1986, Volume 6, número 4, página 499.}
Em português “Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização”, em World Traditional Front, 1 de dezembro de 2019.




Fonte: Institute for Historical Review, 2011.




Sobre o autor: Mark weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.

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Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização - Por Mark Weber

Ver parte 1 Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulentas - Por Mark Weber


Mark Weber
            Uma das fontes de informações mais amplamente citadas sobre a personalidade de Hitler e de suas intenções secretas são as supostas memórias de Hermann Rauschning, o Presidente Nacional-Socialista do Senado de Danzig[1] em 1933 – 1934 que foi expulso do movimento de Hitler pouco tempo depois e então seguiu por si mesmo uma nova vida como um anti-nazi profissional.

            No livro conhecido na Alemanha como Conversações com Hitler (Gespraech mit Hitler) e publicado pela primeira vez nos EUA em 1940 como The Voice of Destruction, Rauschning apresenta página após página do que é alegado ser as mais íntimas opiniões de Hitler e seus planos para o futuro, supostamente baseado em dezenas de conversas privadas ocorridas entre 1932 e 1934. Depois da guerra as memórias foram introduzidas como o documento do processo Aliado URSS-378 no principal julgamento de “crimes de guerra” em Nuremberg.  

            Entre as citações condenatórias atribuídas à Hitler por Rauschning estão estas memoráveis declarações: 
“Nós devemos ser brutais. Nós devemos recuperar uma clara consciência sobre brutalidade. Somente então podemos expulsar o carinho de nosso povo... Não me proponho a exterminar nacionalidades inteiras? Sim, isso irá dar resultados... Eu naturalmente tenho o direito de destruir milhões de homens das raças inferiores que aumentam como vermes... Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros. Isso é um título honroso.” 
            Hitler é também suposto ter confidenciado para Rauschning, um quase desconhecido oficial provincial, fantásticos planos para um império mundial germânico que iria incluir África, América do Sul, México e, eventualmente, os Estados Unidos.

            Muitos historiadores prestigiosos, incluindo Leon Poliakov, Gerhard Weinberg, Alan Bullock, Joaquim Fest, Nora Levin e Robert Payne, utilizaram citações escolhidas das memórias de Rauschning em seus trabalhos de história. Poliakov, um dos mais proeminentes escritores do Holocausto, especificamente elogiou Rauschning pela sua “excepcional precisão”, enquanto Levin, outro historiador do Holocausto vastamente lido, chamou ele de “um dos mais penetrantes analistas do período nazi.”

{Léon Poliakov (1910-1997) e Nora Levin (1916-1989)
Historiador e historiadora judaicos que recorreram  à falsificação
histórica de Hermann Rauschning e a difundiram pelo mundo.
O revisionismo histórico desvelou tal falsificação}

            Mas nem todos têm sido tão crédulos. O historiador suíço Wolfgang Haenel passou cinco anos investigando diligentemente o livro de memórias antes de anunciar suas descobertas em 1983 em uma conferência de história revisionista na Alemanha Ocidental. A renomada Conversations with Hitler [Conversações com Hitler], declarou ele, são uma fraude total. O livro não tem valor “exceto como um documento da propaganda de guerra Aliada.”

            Haenel foi capaz de estabelecer de forma conclusiva que as alegações de Rauschning de ter se encontrado com Hitler “mais que uma centena de vezes” é uma mentira. Os dois se encontraram, de fato, somente quatro vezes, e nunca a sós. As palavras atribuídas para Hitler, ele mostrou, foram simplesmente inventadas ou levantadas de muitas outras diferentes fontes, incluindo escritos de Junger[2] e Friedrich Nietzsche. Um relato de Hitler ouvindo vozes, andando a noite com gritos convulsivos e, aterrorizado, apontando para um canto vazio enquanto gritava “lá, lá no canto!” foi tomado de um conto do escritor francês Guy de Maupassant[3].

             O livro de memórias falsas foi designado para incitar a opinião pública nos países democráticos, especialmente nos Estados Unidos, em favor da guerra contra a Alemanha. O projeto foi ideia do jornalista, nascido na Hungria, Emery Reves, que dirigia uma influente agência de imprensa e propaganda anti-alemã em Paris durante os anos 1930. Haenel tem também encontrado evidência que um proeminente jornalista britânico chamado Henry Wickham-Steele ajudou produzir o livro de memórias. Wickham-Steele foi um braço direito de Sir Robert Vansittart, talvez a figura mais veementemente anti-alemã na Grã-Bretanha.

            Um relatório sobre as descobertas sensacionais de Haenel apareceu na edição de outono de 1983 no The Journal of Historical Review. Mais recentemente, os jornais periódicos semanários   mais influentes da Alemanha Ocidental, Die Zeit, e Der Spiegel (7 de setembro de 1985), têm feito longos artigos sobre a histórica farsa. Der Spiegel concluiu que as Conversations with Hitler de Rauschning “são uma falsificação, uma distorção histórica da primeira até a última página... Haenel não somente prova a falsificação, ele também mostra como a impressionante montagem foi rapidamente compilada e quais ingredientes foram misturados juntos.”

              Existem algumas valiosas lições a serem aprendidas da história desta sórdida farsa, a qual levou mais de 40 anos para finalmente ser desmascarada: Ela mostra que mesmo as mais descaradas fraudes podem ter um tremendo impacto se ela serve a importantes interesses, que é mais fácil inventar uma grande mentira histórica que desmascarar uma e, finalmente, que todos devem ser extremamente cautelosos diante de “autorizados” retratos da emocionalmente carregada era Hitler.

            Uma nota de rodapé: Leitores interessados em um autêntico registro da personalidade e das opiniões pessoais de Hitler devem olhar para o fascinante e abrangente livro de memórias de  Otto Wagener, publicado em agosto de 1985 pela Yale University Press sobre o título de Hitler: Memoirs of a Confidant. Wagener foi o primeiro chefe do Estado Maior da SA (“tropas da tempestade”) e Diretor do Departamento de Política Econômica do Partido Nacional Socialista. Ele passou centenas de horas com Hitler entre 1929 e 1932, muitas destas horas a sós.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas


[1]    Nota do tradutor: Danzig é uma cidade que durante o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi o centro de muitas disputas, de teor histórico e de questões urgentes na época, entre o Reich Alemão e a Polônia. O insucesso em resolver estas disputas pacificamente resultou no conflito entre o Reich Alemão e a Polônia, resultando na reincorporação de Danzig ao território alemão.

[2]    Nota do tradutor: Ernst Jünger (1895 – 1998) foi um escritor e ex-combatente alemão da Primeira Guerra Mundial. No período nazista serviu no exército e também como administrador de uma província da França quando esta estava ocupada pelas forças alemãs. Esteve perifericamente envolvido com a oposição à Hitler que havia dentro do Reich, e, anteriormente, em 1938, foi proibido de publicar livros.

[3]    Nota do tradutor: James Herbert Brennan que, ao contrário de muitos acadêmicos que rejeitam absolutamente temáticas não-materialistas, se aventura em considerar algumas possibilidades não-materialistas, neste caso, forças não compreendidas na maior parte da ciência contemporânea, pisou em quase todas armadilhas da desinformação e manipulação sobre o tema nazista. Neste caso, então, citações com teor macabro tiveram passagem livre, já que davam um tom de obscurantismo ou patologia mental na imagem de Adolf Hitler.
Em seu livro Occult Reich  de 1974 (publicado no Brasil como Reich Oculto, Editora Madras, São Paulo, 2007, tradução Julia Vidili), entre um mar de distorções, Brennan cita (página 65 da edição brasileira) Hermann Rauschning ao colocar a passagem que Hitler histericamente gritava para o canto vazio, passagem a qual Wolfgang Haenel desvelou como sendo um plágio que Hermann Rauschning fez de um conto de Guy de Maupassant. Além disso, Brennan utiliza durante seu livro muitas citações do livro Hitler, a Study in Tyranny, de Alan Bullock, o qual, por sua vez, também se sustenta em muitas passagens do trabalho de Hermann Rauschning, e tudo isso, lastimavelmente, com o aviso na contracapa, tanto da edição em inglês quanto da edição em português, de que o livro cita informações de fontes autênticas (na edição inglesa ainda colocam como investigado a partir de fontes de inquestionável autenticidade).
               




Sobre o autor: Mark weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.

  
Informação Bibliográfica

Autor
Mark Weber
Título
Rauschning's Phony 'Conversations With Hitler': An Update
Fonte
The Journal for Historical Review (http://www.ihr.org)
Data
Inverno de 1985 - 1986
Fascículo
Volume 6, número 4
Localização
Página 499
Endereço
  
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Parte 2: Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização - Por Mark Weber

Mark Weber
            Praticamente todas as principais biografias de Adolf Hitler ou da história do Terceiro Reich fazem citações da memória de Hermann Rauschning, um ex-Presidente do Senado Nacional-Socialista de Danzig[1]. No livro publicado na Grã-Bretanha como Hitler Speaks (Londres, 1939) e na América como The Voice of Destruction (Nova Iorque, 1940) Rauschning apresenta página após página do que são supostamente as mais íntimas visões de Hitler e os planos deste para o futuro. Elas são supostamente baseadas em uma centena de conversações privadas entre os dois homens.

            Agora, depois de mais de quarenta anos, um historiador suíço tem exposto minuciosamente este suposto documento da loucura de Hitler como completamente fraudulento. Wolfgang Haenel apresentou os resultados de sua pesquisa na conferência anual em maio de 1983 do Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt na Alemanha Ocidental.

            O Hitler de Rauschning é nada mais que um revolucionário niilista totalmente carente de ideias, objetivos, princípios ou ideologia sistemática, o qual demagogicamente explorou as palavras e os homens para acumular poder para seu próprio bem. Ele era inteligente, mas completamente inescrupuloso e oportunista, que não acreditava em nada do que ele próprio dizia. Seu Nacional -Socialismo, de acordo com Rauschning, era apenas uma “Revolução do Niilismo”. Ele estava  supostamente preocupado com a guerra. Suas numerosas propostas de desarmamento e ofertas de paz eram apenas hipócrita retórica designada para enganar suas futuras vítimas.

            Do homem que unificou a Alemanha, Hitler é suposto ter dito: “Bismarck foi estúpido. Ele era apenas um protestante.” Ele teria repreendido Rauschning por seus escrúpulos: “Por que você balbucia sobre brutalidade e se aborrece em relação ao sofrimento. As massas querem isso. Elas necessitam de um pouco de crueldade.” “Eu quero uma juventude violenta, magistral, sem medo e cruel,” ele é citado como tendo dito. Em outra ocasião, Hitler teria, de acordo com relatos, declarado: “Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros. É um título honroso.”

            Wolfgang Haenel passou muitos anos em uma pesquisa detalhada, em comparações de textos e entrevistando testemunhas contemporâneas. Ele descobriu que ao invés de “cerca de uma centena de conversações” com Hitler, Rauschning na verdade se encontrou com o líder alemão somente quatro ou cinco vezes. E estes poucos encontros não foram nem em tempo privado e nem foram longos, mas sempre na companhia de altos funcionários enquanto visitava Hitler em Berlim ou em Obersalzberg. Rauschning nunca teve a oportunidade de ouvir as opiniões íntimas de Hitler ou seus planos secretos para o futuro, conforme ele se vangloriou em suas espúrias “memórias.”

            Haenel mostra que algumas palavras atribuídas a Hitler por Rauschning eram na verdade levantadas dos trabalhos de Ernst Jünger[2] e Friedrich Nietzsche. Hitler é citado como tendo feito afirmações as quais não poderiam ter sido feitas na alegada época. Algumas citações supostamente feitas em privado foram de fato retiradas de discursos feitos por Hitler depois de 1935, o ano que Rauschning foi para a França. Haenel também expõe sérias contradições entre eventos conforme apresentados por Rauschning e a forma de como eles realmente ocorreram, como no caso de uma alegada conversação após o incêndio do Reichstag em março de 1933.

            Haenel mostra que o livro de memórias espúrias foi encomendado por alguns jornalistas franceses e por editoras de Nova Iorque como uma arma na propaganda de guerra contra a Alemanha Nacional Socialista. Por muitos anos a soma paga para o quase falido Rauschning por seu trabalho permaneceu um recorde na França se tratando de um livro político.

            Os meios de comunicação de massa democráticos, os quais devotaram intermináveis colunas de impressão e horas de transmissão em denunciar o livro chamado de Hitler diaries[3] como falso, ignoraram caracteristicamente a história desta grande farsa histórica. Uma exceção foi o geralmente sóbrio jornal da Alemanha Ocidental Die Welt (19 de maio) o qual, no entanto, encerrou seu relatório na página 21. A imprensa diária americana publicou nada.

            Para seu crédito, o historiador americano John Toland não fez uso do trabalho de Rauschning em seu detalhado estudo, Adolf Hitler. E o historiador alemão Werner Maser colocou a observação em sua biografia de Hitler que “As declarações de Rauschning podem, na melhor das hipóteses, serem consideradas como uma fonte histórica secundária. Elas não têm valor documental.”

{Hermann Rauschning (1887-1982). Quatro livros que fizeram a cabeça de leitores no Ocidente a partir dos anos da década de 1960 se utilizaram de uma fraude, a obra de Rauschning, para difamar Hitler e o Nacionalsocialismo (nazismo). William Shirer em Rise and Fall of the Third Reich, 1962; Alan Bullock  em  Hitlera Study in Tyranny, 1952; Joachim Fest, Hitler, 1973; e Robert Payne em Life and Death of Adolf Hitler, 1973. Os livros de Shirer e Fest continuam inclusive sendo publicados no Brasil em português como obras supostamente sem falsificações.}

            É sempre mais fácil produzir um documento forjado ou memórias falsas que provar que elas sejam falsas. Mas é ainda notável que levou tanto tempo para alguém expor o trabalho de Rauschning como fraudulento. Qualquer leitor de mente aberta e familiar com a literatura sobre Hitler pode determinar mais rapidamente que The Voice of Destruction é uma imaginativa mistura. O leitor simplesmente sente falta da “sensação” de autenticidade. Em contraste, a genuína memória de Otto Wagener, Hitler aus naechster Naehe, fornece prolongados e detalhados esboços dentro do pensamento de Hitler e suas opiniões privadas. Como primeiro chefe da equipe da SA (“os Camisas Pardas”) e diretor do Departamento de Econômico Político do Partido Nacional Socialista, Wagener conseguiu conhecer Hitler intimamente. Eles gastaram centenas de horas juntos entre 1929 e 1932, muitos deles sozinhos.

            O Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt merece crédito por seu papel em expor esta grande fraude. Seu diretor, o Dr. Alfred Schickel, tem escrito numerosos ensaios substanciais de revisionismo histórico.

            O desmascaramento que Haenel fez sobre o livro de memórias de Rauschning é uma bem-vinda contribuição para o lento e doloroso processo de esclarecimento em uma época de ofuscação histórica.


Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas:


[1]    Nota do Tradutor: Danzig é uma cidade que durante o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi o centro de muitas disputas, de teor histórico e de questões urgentes na época, entre o Reich Alemão e a Polônia. O insucesso em resolver estas disputas pacificamente resultou no conflito entre o Reich Alemão e a Polônia, resultando na reincorporação de Danzig ao território alemão.

[2]    Nota do Tradutor: Ernst Jünger (1895-1998) foi um escritor e ex-combatente alemão da Primeira Guerra Mundial. No período nazista serviu no exército e também como administrador de uma província da França quando esta estava ocupada pelas forças alemãs. Esteve perifericamente envolvido com a oposição à Hitler que havia dentro do Reich, e, anteriormente, em 1938, foi proibido de publicar livros.

[3]    Nota do Tradutor: Refere-se ao evento ocorrido em 1983 quando foi anunciado nos meios de comunicação a descoberta de documentos que seriam diários de Adolf Hitler. Contudo duas semanas depois esta descoberta foi classificada como uma fraude devido a muitas inconsistências tais como o texto ter sido escrito em papel e com tinteiro de época posterior à Hitler, e também devido a muitas incoerências históricas.  



Sobre o autor:

Mark Weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.



Informação Bibliográfica

Autor
Mark Weber
Título
Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulenta
Fonte
The Journal for Historical Review (http://www.ihr.org)
Data
Outono de 198
Fascículo
Volume 4, número 3
Localização
Página 378 – 380
Endereço


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Hitler queria Guerra? - Por Patrick Joseph Buchanan