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terça-feira, 5 de maio de 2026

A Falácia Mecanicista {e fanatismo bíblico-sionista} — Por que o Ocidente falha tantas vezes na geopolítica - por Alastair Crooke

 

Alastair Crooke


Washington não conseguirá pensar com clareza sobre o Irã e optará por táticas equivocadas.

Há cerca de quinze anos atrás, eu escrevi[1] que a dependência ocidental em sua lente de racionalidade secular já não era adequada para compreender o conflito israelo-palestino. Estava se tornando óbvio — mesmo naquela época — que o futuro da região seria marcado por guerras cada vez mais definidas por símbolos religiosos: por exemplo, Al-Aqsa versus o Terceiro Templo.

Desde então, as coisas mudaram: em Israel, as eleições nacionais de novembro de 2022 trouxeram uma nova liderança comprometida com a fundação de Israel na “Terra de (Grande) Israel,” com o deslocamento da população não judaica e a implementação da lei haláchica.

A plataforma do novo governo era uma expressão de um propósito escatológico e messiânico,[2] com uma teleologia de buscar um caminho rumo à Redenção messiânica. Não era secular, nem se apoiava em tons iluministas.

Meu ponto argumentado, então — e ainda é —, é que as formas de pensar seculares e mecanicistas do Ocidente não compreenderão essas mudanças fundamentais. O Ocidente insiste em aplicar seus preceitos conceituais ocidentalizados a algo — o messianismo e a busca pela Redenção — que está fora do escopo da consciência ocidental pós-moderna contemporânea. Nós entendemos bem a política de poder, mas a escatologia é, em grande parte, um livro fechado para a maioria dos seculares ocidentais.

O fundo desta linha é que não há propósito algum em tentar convencer aqueles absorvidos por uma visão messiânica de que sua solução consiste em uma estrutura política de dois Estados na Palestina histórica. Os primeiros, na verdade, acolhem o Armagedom e a derrota que ele prenunciaria para os não judeus.

Isso também não pode ser visto como uma fase passageira ou um capricho. O messianismo tem sido um impulso proeminente, embora oscilante, no judaísmo desde Sabbatai Zevi (década de 1660) e Jacob Franks (século XVIII). (Parte de seu pensamento também influenciou as noções europeias durante o período do Iluminismo).

O historiador e acadêmico judeu Gershom Scholem previu corretamente[3] que o sionismo religioso — que nas últimas décadas se alinhou ao Likud e ao movimento de colonização — opera como um movimento messiânico “militante”, “apocalíptico” e “radical” que tenta “forçar o fim” exigindo que o Estado se envolva, por exemplo, em um controle territorial massivo — ou seja, exigem a conquista territorial por razões do fim dos tempos.

{Bezalel Yoel Smotrich (1980-), Itamar Ben-Gvir (1976) e Benjamin Netanyahu (1949) são três políticos israelenses que externam o movimento extremista messiânico sionista, cujas origens são imemoráveis dentro da tradição judaica, conforme a sucessão de lideranças judaico-messiânicas através da história. A questão dessa vertente que lidera o judaísmo internacional foi tratada amplamente por Douglas Reed (1895-1976),   jornalista e correspondente de guerra britânico na Segunda Guerra Mundial, em sua obra The Controversy of Zion, que embora tenha sido completada em 1956, foi publicada apenas após sua morte em 1978 por pedido do próprio Douglas Reed por receio de retaliação, uma vez tendo em conta a suspeita morte do também jornalista britânico Robert Archibald Wilton (1868-1925) que cobria a subversão bolchevique na Rússia e documentou a participação proeminentemente judaica nos quadros bolcheviques mais importantes. Crédito da imagem: The Australian, Sanctions on far-right ministers are deserved for a stronger Israel, 11 de junho de 2025}

Talvez não seja surpreendente, contudo, que a racionalidade mecanicista ocidental tenha se mostrado tão perdida em sua compreensão das motivações do Irã quanto em sua compreensão do Israel contemporâneo. A abordagem literal simplesmente amputa qualquer percepção da resistência mais profunda e do ânimo revolucionária do Irã.

Em vez disso, nós escolhemos por projetar no Irã nossa imagem do Estado-nação do século XIX — o conceito de um Estado governado por um governo centralizado e autoritário como o veículo dominante, por vezes autocrático, de poder sobre o qual as entidades políticas mais amplas eram governadas por outros princípios de legitimidade.

Em uma entrevista concedida a Richard Falk em 1979, o Aiatolá Khomeini afirmou[4] categoricamente que a Revolução foi um triunfo civilizacional, e não nacional. Ele enfatizou que, em sua opinião, a comunidade fundamental para todos os povos do mundo islâmico era civilizacional e religiosa – e não nacional e territorial. Khomeini explicou que os estados soberanos territoriais, construídos em torno da identidade nacional, não formavam uma comunidade natural no Oriente Médio da mesma forma que eles eram na Europa.

Seu tema insistente era expressar a visão de que um governo consistente com os valores islâmicos não poderia ser estabelecido de forma confiável com base em princípios democráticos sem estar sujeito à guia religiosa não eleita de clérigos islâmicos de topo, que seriam a fonte da mais alta autoridade política.

A repressão do Islã (secularização forçada) e a destruição do Califado, promovidas por Mustafa Kamal no início do século XX, levaram Seyyed Qutub a pregar o vanguardismo revolucionário até sua execução em 1966. Os escritos de Qutub, mas particularmente sua obra Justiça Social no Islã — que coincidiu com os protestos em massa em todo o mundo muçulmano contra a partição da Palestina em 1947 — lançaram as bases principais para o pensamento revolucionário que emergiria no Irã.

Para os iranianos, isso representou um chamado ao retorno a um modo de ser anterior, com uma linhagem histórica que remonta a tempos antigos — um modo que reflete uma transformação mais espiritual e interior do ser humano: um mundo de modos hierárquicos de consciência e uma disposição para lutar contra a opressão e cuidar dos despossuídos.

Consequentemente, ver o Irã pela ótica do Estado-nação é interpretá-lo erroneamente. As limitações do pensamento mecanicista tornam impossível para os estrangeiros compreenderem ou preverem o futuro do Irã. Hoje, os jovens iranianos estão retornando entusiasticamente[5] ao espírito da Revolução de 1979. Há uma nova energia evidente no Irã — e ela é radical. E suas reverberações estão se espalhando bem e além das fronteiras do Irã.

Se nós, no Ocidente, quisermos ouvir e compreender, seria sensato primeiro nos olharmos no espelho. Será que nós somos realmente tão seculares e racionalmente estratégicos quanto nós acreditamos?

O historiador militar americano Michael Vlahos, em um longo ensaio intitulado “A América é uma Religião,” destaca que os próprios Estados Unidos estão longe de serem imunes às correntes do idealismo messiânico, do milenarismo e do maniqueísmo: “Este é um tema duradouro cuja profunda atualidade permeia o cristianismo”:

“Desde a sua fundação, os Estados Unidos têm buscado, com fervor religioso ardente, uma vocação superior: redimir a humanidade, punir os ímpios e inaugurar um milênio de ouro na Terra. A América tem se mantido firme em sua visão singular de missão divina como o ‘Novo Israel de Deus’.”[6]

É claro que a ‘religião civil’ americana está inextricavelmente ligada à Reforma Protestante, ao cristianismo calvinista e ao protestantismo. “Embora sua leitura das escrituras tenha se secularizado na Era Progressista, a religião americana permaneceu atrelada às suas raízes formativas,” argumenta Vlahos.

“Daí, a América não é apenas ‘messiânica’ em seu caráter — no sentido de ‘possuída por paixão e zelo’ — mas manifesta uma visão implicitamente bíblica, proclamando sua fé na natureza predestinada de sua passagem. Uma ‘nação escolhida’ divinamente eleita para agir em nome da Providência como Redentora do mundo”.

Contudo, como Vlahos relata — assim como aconteceu com os sionistas em Israel, na última eleição — os EUA tiveram seu momento de metamorfose: desencadeado por 60 anos (1963-2023) de repetidos e inconclusivos desastres em campos de batalha:

“Cada episódio [que foi] travado para cumprir a profecia de um milênio democrático global — e a cada vez, esse sonho deslizava afora”.

Consequentemente, escreve Vlahos, o messianismo americano deslizou para “uma caricatura maniqueísta de si mesmo — na qual as ‘boas novas’ americanas foram substituídas pelo espectro sempre presente do Mal e pela ameaça da força. As palavras sagradas, Liberdade e Democracia, embora ainda entoadas, tornaram-se um mantra oco”.

“O ‘evangelho’ americano não prega mais sobre redenção e expiação: agora se preocupa com imposição e punição.

“A reviravolta aconteceu num instante, no 11 de setembro — e com Guantánamo.”

“Quase da noite para o dia, os Estados Unidos abandonaram as ‘regras internacionais’ e as ‘normas civilizadas’ — e, em vez disso, construíram um arquipélago de tortura e encarceramento arbitrário, sem supervisão ou apelação”.

Hoje, os EUA está experimentando uma profunda polarização em casa, enquanto ainda continuam a travar conflitos no exterior cujos objetivos os líderes americanos tentam conectar às narrativas redentoras cunhadas para servir à luta interna (ou seja, validando o meme da ‘Paz pela Força’) via guerra contra o Irã. O poder estabelecido americano, portanto, associa a ‘vitória’ em uma guerra estrangeira como meio de restaurar sua posição política interna e internacionalmente. Michael Vlahos chama essa dualidade de “uma dinâmica mutuamente destrutiva.”

Isso virtualmente assegura que Washington não conseguirá pensar com clareza sobre o Irã e optará por táticas erradas.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 Notas:


[1] Fonte utilizada por Alastair Crooke: The flawed premises: two decades of failed state-making, por Alastair Crooke, 28 de abril de 2011, Foreign Policy.

https://foreignpolicy.com/2011/04/28/the-flawed-premises-two-decades-of-failed-state-making/

[2] Fonte utilizada por Alastair Crooke: The Kingdom of Judea vs. The State of Israel

A geo-political reading of Israel’s incipient civil war, por Alastair Crooke, 13 de março de 2025, Alastair Crooke Substack.

https://conflictsforum.substack.com/p/the-kingdom-of-judea-vs-the-state

[3] Fonte utilizada por Alastair Crooke: “O fato de o antinomianismo ter emergido no movimento sabateano, rompendo com a tradição normativa por meio da combinação de messianismo e misticismo, não deve ser visto como uma aberração, mas sim como uma inevitabilidade trágica. Essa heresia sabateana, argumentou Scholem, não terminou com o fracasso do movimento, mas influenciou e até mesmo estabeleceu as condições para a modernidade judaica. Suas especulações sobre possíveis influências entre o judaísmo sabateano e o judaísmo reformista na Hungria foram devidamente criticadas por Jacob Katz pela falta de evidências históricas.” Em Stanford Encyclopedia of Philosophy Archive, Fall 2022 Edition, entrada Gershom Scholem, 10 de abril de 2008, revisado 30 de outubro de 2013.

https://plato.stanford.edu/archives/fall2022/entries/scholem/

[4] Fonte utilizada por Alastair Crooke: Meeting Ayatollah Khomeini 41 Years Ago, por Richard Falk, 15 de fevereiro de 2020, Just World EDUCATIONAL.

https://justworldeducational.org/2020/02/meeting-grand-ayatollah-41-years-ago/

[5] Fonte utilizada por Alastair Crooke:

https://twitter.com/SinaToossi/status/2041331634524319930

[6] Fonte utilizada por Alastair Crooke:

God's New Israel: Religious Interpretations of American Destiny. Edited by Conrad Cherry. Rev. and updated ed. Chapel Hill:University of North Carolina Press, 1998.

Fonte: The Mechanistic Fallacy — Why the West So Often Fails at Geo-politics, por Alastair Warren Crooke, 27 de abril de 2026, The Unz Review – An Alternative Media Selection.

https://www.unz.com/acrooke/the-mechanistic-fallacy-why-the-west-so-often-fails-at-geo-politics/

Sobre o autor: Alastair Warren Crooke CMG (1949-) é um ex-diplomata irlandês, com mais de trinta anos de carreira (com cargos diplomáticos na Irlanda do Norte, África do Sul, Camboja, Colômbia, Paquistão e Oriente Médio, incluindo contextos da questão palestina-israelense) e fundador e diretor do Conflicts Forum, com sede em Beirute, uma organização que defende o diálogo entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, ele ocupou um cargo de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) quanto na diplomacia da União Europeia. Ele estudou no Aiglon College na Suíça e na Universidade de St. Andrews (1968–1972) na Escócia, onde obteve um mestrado em filosofia moral e economia política. Ele é autor de Resistance: The Essence of the Islamist Revolution, de 2009.

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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Um grego e um persa: A influência de Platão sobre o aiatolá Khomeini - Por Alina Utrata


Alina Utrata
Em 1970, um grupo de estudantes do seminário publicou uma séria de palestras sobre a teoria islâmica de governo intitulada Velayat e faqih ou A Guarda do Jurista Islâmico. O autor destas palestras foi o aiatolá Ruhollah Khomeini – o clérigo que, somente dez anos depois, iria estabelecer a República Islâmica do Irã. Em Velayat e faqih, Khomeini argumentou que enquanto esperava pelo retorno do Madhi – o 12º sucessor do profeta – um líder religioso que deveria ser nomeado o custodiante do Estado, “como a nomeação de um guardião para um menor.” O Estado perfeito, pregou Khomeini, deveria ser mandado por um jurista islâmico.

            O sonho de Khomeini foi realizado no Irã após protestos populares derrubarem o regime secular do Xá em 1979, permitindo Khomeini consolidar poder e estabelecer a República Islâmica. Mas o que é surpreendente sobre Khomeini é que, para um revolucionário que veio ao poder montando nos caminhos da retórica antiocidental, sua descrição do estado perfeito é quase idêntica da República de Platão.

            Foi observado por alguns estudiosos que existe uma semelhança de ideias entre Khomeini e Platão. Na Teologia do Descontente, Hamid Dabashi mencionou que a concepção de governança de Khomeini foi essencialmente regida pelo “rei filósofo” platônico. Beatrice Zelder destacou que “a resposta para o contexto filosófico do Estado Islâmico [de Khomeini]... é Platão adaptado ao islam.”

            Estas observações estão exatamente certas. Platão e Khomeini ambos advogam por um estado regido por guardiões baseados na crença que humanos irão sucumbir ao materialismo e corrupção sem a adequada orientação. Khomeini, contudo, justifica e altera alguns aspectos da República de Platão com as tradições islâmicas em uma tentativa de reconciliar os dois.

 Aiatolá Khomeini

            Khomeini tinha certamente lido Platão. A Time Magazine tinha publicado um artigo sobre Khomeini em 1979 alegando que, em sua juventude, Khomeini era “fascinado com Aristóteles e Platão, cuja República forneceu o modelo para o conceito de república islâmica de Khomeini.” De acordo com Vanessa Martin, os ex-alunos de Khomeini Javad Bahonar e Madhi Há’iri Yazdi tinha revelado a influência de Platão sobre os pensamentos de Khomeini em um entrevista com a repórter do Time. Khomeini referenciou um dos livros de Platão, Timeu, em seu próprio livro Kashf al-asrar ou O Desvelar dos Segredos. Embora Khomeini nunca confirmou a exata natureza de como ele foi influenciado por Platão, é claro que ele tinha lido o filósofo grego em alguma profundidade.

            As contundentemente similares repúblicas perfeitas que Khomeini e Platão descreveram são baseadas em muitas suposições compartilhadas sobre a natureza humana e o papel do Estado. Os dois homens afirmaram que sem a guia de um adequado governo, o povo torna-se corrupto. Platão dedicou um inteiro livro na República para lamentar a sociedade sem governo adequado, chamando ela de um medonho estado onde o “homem tirânico... torna-se embriagado, lascivo, apaixonado.” Similarmente, Khomeini argumentou que sem a apropriada autoridade “todos iriam engajar em oprimir e prejudicar os outros para o prol de seus próprios prazeres e interesses.”

Platão  428/427 – 348/347 a.C.
            Para combater a inerente corrupção humana, os dois acreditaram que o ocupante central de um Estado perfeito deve ser a justiça. Platão afirmou em seus ensinamentos que “o assunto de nossa investigação é [a justiça]”; na mesma linha, Khomeini frequentemente lembrou aos seus líderes que o profeta Maomé “tinha em mente que iria empreender o estabelecimento da justiça.” Platão e Khomeini concordaram: “cidades nunca irão ter descanso de seus males [da corrupção]” até o estado for baseado na justiça e governado por um guardião.

            Este perfeito guardião, de acordo com Platão, deve ser um filósofo. Um filósofo, ele disse, é um “verdadeiro amante do aprendizado” e, portanto, iria “traçar o delineamento de uma constituição” limitada por nada senão a verdade. O governante iria determinar leis e justiça, motivado pelo que iria ser melhor para a cidade. Enquanto o guardião de Khomeini assemelha-se a Platão na maioria de suas características, Khomeini alterou levemente as ideias de Platão para comportar o Islã; Khomeini substituiu “filósofo” por “jurista islâmico.” Ele argumentou que “o Mais Nobre Mensageiro é o exemplo de proeminente do justo governante” e é natural que seus sucessores sejam os governantes. Em vez de derivar legitimidade da verdade, o guardião iria estar sujeito a lei corânica. Khomeini disse que “o governo islâmico é ... constitucional ... no sentido que os governantes são sujeitos à ... condições estabelecidas no Nobre Alcorão e na Sunnah do Mais Nobre Mensageiro.”

            Ambos Platão e Khomeini estipularam que os guardiões devem possuir conhecimento e a habilidade para dispensar justiça. Platão afirmou que o guardião necessitaria possuir “o amor de aprender... e espírito, rapidez e força.” Khomeini também nomeou umas poucas qualidades necessárias de um guardião, citando “conhecimento da lei e justiça” como os mais críticos. Khomeini, contudo, revestiu esta qualificação com a retórica do islã. Ele argumentou que “esses são precisamente os assuntos que o faqih tem estudado,” então, portanto, era natural que um jurista islâmico iria ser o melhor guardião para o Estado.

            Platão e Khomeini cada um ditou condições estritas para como os guardiões devem conduzir eles próprios. Platão afirmou: “nossos guardiões [não devem] não devem ser dado ao riso” e “a embriaguez, a suavidade e indolência são completamente impróprias para o caráter de nossos guardiões.” Khomeini reiterou muito do mesmo, dizendo que “os fuqaha são os curadores dos profetas, tanto quanto eles não se preocupem eles próprios com os desejos ilícitos, prazeres, e riquezas do mundo.” Guardiões, eles disseram, não devem ser “criaturas materialistas tentando acumular riquezas mundanas.”

            É o papel destes guardiões não corruptos, Platão e Khomeini acreditavam, interferir na vida de seus súditos a fim de protege-los da corrupção. Platão gastou uma extensa quantidade de tempo discutindo vários aspectos do Estado perfeito, incluindo o “tipo de comunidade de mulheres e crianças” e como “administrar o período entre nascimento e educação.” Para Platão, a maioria deste controle é para o propósito de manter a pureza da classe guardiã. Platão postulou que pessoas são feitas de diferentes metais “de ouro e prata e bronze e ferro,” e que a classe dos guardiões é feita de ouro. Portanto, ele estipulou cerimônias de procriação, esposas e crianças comunais e vários outros controles sociais.

            Khomeini, por outro lado,  justificou a habilidade de seus guardiões de interferir na vida de seus cidadãos com o islã. Ele disse que o Alcorão é abrangente em suas decisões sobre o comportamento adequado na vida, dos “deveres... enquanto a criança está sendo amamentada... e como a criança deve ser criada, e como marido e esposa devem se relacionar um com outro e com seus filhos.” Desde que o Alcorão tinha regras sobre todos aspectos da vida, o guardião estava, portanto, justificado, a interferir em todos aspectos da vida. Khomeini defendeu os mesmos direitos sobre a interferência como fez Platão, mas apenas o fez com as tradições islâmicas.

 Aiatolá Khomeini
            Proteger os cidadãos das influências corruptoras estava sempre na prioridade das mentes de Platão e Khomeini. Eles ambos acreditavam que eles poderiam enganar o público para o bem de proteger o público. Para este fim, Platão acreditou que os guardiões do Estado deveriam “ter o privilégio de mentir... para o bem do público.” Guardiões conheciam melhor que os homens comuns, e, portanto, são mais aptos a discernir o que eles devem e não devem saber. De fato, Platão afirmou que “a primeira coisa [a fazer em nosso Estado] irá ser estabelecer a censura para os escritores de ficção.” Platão estava preocupados sobre o efeito que a prevalência de ideias erradas iriam ter na juventude e na concepção de mundo delas. Portanto, eles devem “colocar um fim em tais histórias, para que não entre o laxismo da moral entre os jovens.”

            Khomeini certamente tomou o conselho de Platão sobre a censura dos livros. Existe um extensivo mecanismo para censura de publicação no Irã. Khomeini estava claramente preocupado, como Platão estava, sobre a corrupção da sociedade se as massas lessem certos livros. Ele novamente usou o Islã como justificativa para o ponto de Platão sobre a necessidade de censura: a Constituição da República Islâmica do Irã reconhece liberdade de expressão “exceto quando ela está em detrimento dos princípios fundamentais do Islã ou os direitos do público.”  Enquanto Platão diz livros que engendram moral negligente deveriam ser banidos, Khomeini disse que livros contra os princípios do Islã deveriam ser banidos.

            Contudo, os dois homens não acreditavam que essas leis fossem mal-intencionadas. Ambos Khomeini e Platão acreditavam que era importante os guardiões amarem a cidade. “Um homem,” disse Platão, “provavelmente se importará com aquilo que ele ama.” Portanto, Platão postulou, um guardião irá ser um melhor guardião se ele ama sua cidade. Khomeini, também, afirmou as duas mais importantes qualidades num crente é que eles são “capazes de executar justiça” e “devem mostrar o máximo amor e solicitude sempre que eles forem chamados.” Ambos reconheceram a necessidade de seguir a linha entre executar justiça e compaixão.

Platão retratado na Scuola di Atene (1509–1511) de Rafael Sanzio  

            De novo e de novo em toda Velayat e Faqih, Khomeini adotou as ideias fundamentais de Platão e ajustou-as de acordo com seus próprios propósitos. Embora Khomeini possa ter usado o Islã e tradições islâmicas para justificar um Estado Islâmico, o Estado de Khomeini se parece apenas como a República de Platão.

            De fato, a única maneira considerável que Khomeini desviou de Platão foi sua crença no universalismo de um Estado Islâmico. Khomeini acreditou que “o movimento universal de todos os muçulmanos alertas poderia estabelecer um governo islâmico no lugar de regimes tirânicos.” Esse tipo de Estado é universal: não confinado a apenas um país. Platão, por outro lado, acreditou que “um é suficiente” Se existe “um homem que tem uma cidade obediente a sua vontade,” Platão pensou que sozinho será o estado perfeito. Este é a única maneira mais importante que Platão e Khomeini divergem: o alcance do Estado perfeito.

É claro a partir de uma comparação dos dois textos que Platão influenciou a concepção de Khomeini de uma perfeito Estado. Ambos acreditavam que seres humanos são facilmente corruptíveis e que é necessário estabelecer o governo pelos guardiões para manter os humanos no caminho certo. Eles ambos enfatizaram a justiça e o bem da comunidade inteira como base do governo. Os guardiões deles são instruídos e sábios, abnegados e compassivos, e imunes à corrupção dos prazeres materiais. Estes guardiões têm o direito de interferir em todos aspectos da vida dos súditos deles, a fim de protegê-los das influências corruptoras.

Com a distinta exceção do universalismo, quase todos aspectos do estado perfeito retratado por Khomeini e Platão existem em paralelo. Parece que Khomeini tomou as ideias de Platão e justificou ou alterou elas com tradições islâmicas – um jurista islâmico, ao invés de um filósofo; escolas religiosas, ao invés de educação científica.

O que nós devemos extrair desse vislumbre é que o Irã não foi tomado por “mulás loucos” nos anos 80. Enquanto a República Islâmica do Irã alega rejeitar o Ocidente, seu fundador e sua fundação foram influenciadas por um dos mais renomados pensadores políticos ocidentais – Platão. Embora seja impossível saber exatamente como o filósofo pode ter impactado Khomeini, os gregos têm certamente tido uma mão em formar o Estado que os persas estão vivendo hoje.

Tradução por Mykel Alexander  


Sobre a autora: Bacharel em História e Direito, com especialização em Direitos Humanos, Stanford University. Trabalhou na Asian International Justice Initiative em Phnom Penh, no Balkan Institute for Conflict Resolution, Responsibility and Reconciliation em Sarajevo, no State Department’s International Narcotics and Law Enforcement Bureau em Washington D.C., e no WSD Handa Center for Human Rights and International Justice em Stanford.



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