Mykel Alexander |
O jornal Folha de
São Paulo, que possui predominante pauta globalista, publicou em 27/10/2019[1] uma matéria procedente da
mídia global BBC intitulada “Os
naufrágios milenares que dão pistas sobre o mistério do dilúvio da Arca de Noé.”
A manipulação é evidente para qualquer pessoa que possui o básico de instrução da história universal. Vejamos:
A matéria inicia mencionando achados arqueológicos no
litoral da cidade búlgara Nessebar, costa do Mar Negro. Tal cidade é muito
antiga, e em sua estrutura se sobrepõem construções bizantinas sobre as
precedentes construções romanas, que por sua vez são sobrepostas sobre
construções gregas. No entanto, o achado da vez se encontra dentro do mar.
As condições peculiares do Mar Negro permitiram que
artefatos fossem conservados pelos séculos e milênios com muito menos
deterioração do que normalmente ocorre, de modo que expedições oceanográficas
recentes descobriram o que a matéria afirma ser o naufrágio intacto mais antigo
do mundo, estimado ser de 400 a.C., cujos destroços permitiriam obter
informações da região até 7000 anos atrás.
Não obstante, subitamente, a matéria afirma:
“Amostras geológicas obtidas do fundo do mar poderiam, finalmente, resolver o mistério de se foi por ali que as águas adentraram, acabando com civilizações e criando uma história que conhecemos hoje como a saga de Noé e do grande dilúvio bíblico.”
A
descoberta é promissora para a arqueologia, especialmente porque além do
mencionado navio descoberto, há mais de 60 naufrágios encontrados em águas
profundas.
Mas
o desdobramento da matéria em certa parte é bem mais honesto que o título dela:
a)
A tradição mesopotâmica é mencionada, especificamente os poemas Enuma Elish e Gilgamesh, como exemplo de versões não bíblicas do dilúvio, de modo
que a narrativa do dilúvio não seria uma exclusividade bíblica.
b) Tais achados, não só
dos mencionados náufragos, mas também as conclusões até agora baseadas na geologia e
paleontologia, não configuram uma abrupta inundação, o que vale dizer um
dilúvio, mas sim um gradual aumento do nível do mar, “metro a metro, ao longo
de séculos ou mesmo milênios.” O que não preenche a busca por evidência
histórica e arqueológica do dilúvio de
Noé.
Então, sutilmente, a matéria é finalizada com uma
depreciação implícita de outras tradições em relação à tradição bíblica, uma
vez que o conteúdo dos achados:
“[...] tem mais a oferecer aos arqueólogos e fãs de lendas do que com a conexão com o dilúvio de Noé.”
Vamos começar por essa frase final a desvelar o que está
implícito na matéria em questão. Segundo esta, os achados teriam conexão com arqueologia e lendas, mas não com o dilúvio
de Noé, de modo que as lendas, como as mencionadas Enuma Elish e Gilgamesh,
ambas da tradição mesopotâmica, seriam apenas lendas enquanto o dilúvio de Noé não? E o alegado dilúvio
de Noé possui mais consistência histórica e arqueológica que as de Enuma Elish e Gilgamesh?
Se o dilúvio de Noé
não se refere à arqueologia nem às lendas,
refere-se ao que então? Refere-se então a uma história que tem que ser aceita
cegamente, porém sem mais bases e evidências que as que possuem as demais
tradições sobre um suposto dilúvio? O que a narrativa em questão - a do dilúvio - contida na Bíblia, possui de
consistência que as demais não possuem?
Esta última declaração da matéria sugere que o dilúvio de Noé não é, como as outras
tradições, apenas uma lenda, mas se
partirmos da premissa que é necessário para ser história ter comprovação
histórica e/ou arqueológica, o que então tem a mais que as outras o dilúvio de Noé?
Mas
eis a manipulação da matéria: esta própria parte da premissa de poder se apoiar
na mentalidade inconsciente do Ocidente, pautada no judaico-cristianismo, que
uma busca por provas históricas ou arqueológicas que confirmem definitivamente
a verdade é a que prove definitivamente o dilúvio
de Noé.
O
que se pode concluir é que a BBC tem
como ponto de partida que o dilúvio de
Noé, sem prova alguma que o confirme, é mais que uma lenda, enquanto aos
demais relatos de dilúvios das diversas tradições, também sem provas em várias teorias, limitam-se estes
sim apenas a serem lendas.
De fato, contrariando as expectativas de fanáticos
abraâmicos - sejam judeus, cristãos ou islâmicos - a narrativa de um dilúvio é
universal, encontrada nas mais diversas tradições. Num manual básico, como The Oxford Companion to World Mythology,
no vocábulo Flood (inundação /
dilúvio) afirma-se:
“Mitos da inundação [dilúvio] são encontradas em todas partes do mundo, usualmente aspectos de histórias da criação. Geralmente a inundação [dilúvio], marca um novo começo, uma segunda chance para uma humanidade pecadora, ou para a própria criação [...] Usualmente existe um herói do dilúvio – o hebreu Noé, o sumério / babilônio Ziuasudra / Utnapishtim, o grego Deucalião, o hindu Manu, ou um de muitos outros – que representam o anseio humano pela vida. [2]”
Por ser citado acima, no The Oxford Companion to World Mythology, relatos do dilúvio na
região da Eurásia, isto é, Mesopotâmia, Índia, Ásia Menor, e Grécia, poderia sugerir
a algum judeu, cristão ou islâmico alegar que tal mitologia do dilúvio irradiou
de um centro da Eurásia, limitando-se a essa, região, e então sumérios, hindus
e gregos teriam absorvido da tradição bíblica primordial, a abraâmica, o tema
do dilúvio, porém, é preciso insistir, é um símbolo universal,
presente também nas tradições da América, de norte à sul, Extremo Oriente,
povos oceânicos. O romeno Mircea Eliade (1907-1986), talvez o principal
historiador das religiões, é categórico:
“Os mitos do Dilúvio são os mais numerosos e quase universalmente conhecidos (embora extremamente raros na África.[3]”
Pelo fato do cristianismo haver surgido em ambiente
judaico na antiguidade, e de toda sua base histórica anterior a Jesus ter sido
construída sobre literatura judaica, a mentalidade cristã ofereceu muita
resistência aos estudos que desmentiam as escrituras bíblicas[4], fossem tais estudos
arqueológicos, filológicos ou históricos.
É
justamente nos dois primeiros livros da Bíblia,
ao menos na ordem que foi editada pelos judeus de Alexandria sob o nome de Septuaginta durante os séculos III e II
a.C., que foram desveladas interpolações e distorções históricas, conforme expõe o
trabalho Berossus and Genesis, Manetho
and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (2006,
editora T&T Clark, Nova Iorque) de Rusell Gmirkin, e as quais foram passadas
à frente pelo cristianismo[5]. Vale dizer que escritura
bíblica já parte de distorções e interpolações em seus dois primeiros livros
por ordem narrativa, Gênesis e Êxodo, e no Gênesis está contido o episódio do dilúvio.
Isto
não quer dizer que o dilúvio não possa ter ocorrido. As descobertas da
geologia, arqueologia e história encontram várias possibilidades de dilúvios,
ocorrendo em várias regiões do planeta, por causas variadas, mas menos possibilidades de um dilúvio global.
Há
questões também que relacionam o dilúvio com símbolos cósmicos, psicológicos e
da água, que não excluem o fenômeno do dilúvio em termos geológicos, mas devem
ser considerados também, uma vez que na interpretação dos povos todos estes
componentes eram considerados, e, portanto, também se deve buscar onde acaba o
fenômeno do dilúvio como fato geológico e onde começa o dilúvio como
representação simbólica, a qual ultrapassa a estrita narrativa geológica. O
próprio Eliade aborda esse tema em seu Tratado
da História das Religiões.
Mas
o problema central é que as mencionadas distorções e interpolações pretendem
colocar a narrativa judaica como a única verdadeira, porém uma história que é
montada com encaixes artificiais e falsificações gradualmente vai apresentando seus pontos frágeis, e nesse caso ao tentar colocar um símbolo universal como
narrativa verdadeira exclusiva, na qual Deus teria salvo apenas um casal de
homens, no Caso Noé e sua esposa, se colide com a constatação de que praticamente todas as versões
do dilúvio encontradas no mundo contam também com um protagonista, de feitos
semelhantes ao de Noé, e que foi ponto de partida para as grandes culturas e
civilizações da humanidade.
As grandes civilizações tradicionais sempre tenderam a
conjugar ciência e espiritualidade, razão e símbolo, mas o abraamismo, isto é,
o judaísmo, o cristianismo e o islamismo têm seu domínio no fanatismo e nos
contorcionismos para tentar sustentar de pé seus dogmas centrais. E mesmo
contestando tal afirmação, a própria história comprova que a fé, conceito
abraâmico, é o recurso principal usado pelas lideranças e exegeses judaicas,
cristãs e islâmicas para se evadirem para uma confortável zona de argumentações
que não precisam atender minimamente a lógica, ao contrário, por exemplo, das
grandes correntes hindus ou greco-romanas, em que a lógica, a metafísica, a
ciência e a simbologia estão interconectadas, em sinergia, complementando-se
mutuamente num todo coerente.
A história também mostra que judeus, cristãos e islâmicos
disputam entre si o conceito de povo ou comunidade eleita por Deus, um alegando
aos outros dois que a aliança de seu messias é a única que vale. Mas parece
valer tudo mesmo, não só na luta do abraamismo contra as outras tradições, mas
também na luta de um abraâmico contra outro abraâmico, e para isso basta
relembrar o esforço do judaísmo internacional durante a Revolução Francesa e
depois para desacreditar a Igreja Católica valendo-se da razão e também do
materialismo[6],
uma vez que as massas eram fanáticas por um cristianismo que tinha sede física
no Vaticano, e algum prestígio em Israel (bíblica). Mas agora que o fanatismo das massas
é pela religião com sede física em Israel e algum prestígio no Vaticano, o
judaísmo internacional e o sionismo podem e apelam ao fanatismo e evitam ao
máximo a razão e as ciências, pois estas lhe são obstáculos para as próximas
etapas que pretendem em seus anseios geopolíticos, já que as violações de
Israel no Direito Internacional não podem ser superadas no tribunal, daí
recorrerem ao fanatismo, fanatismo que o judaísmo internacional tanto reprovou
quando era usado pelo cristianismo do Vaticano durante os séculos XVIII e XIX.
A
rede BBC possui linha tendenciosa
para favorecer o judaísmo[7] e, portanto, também o
fomento para a formação de uma mentalidade que acredite na narrativa bíblica,
especialmente a do Antigo Testamento,
a qual é escrita com todo judaico-centrismo possível, configurando a concepção
do judeu como o “povo eleito” de Deus, e isto é uma pauta que aos poucos vai ganhando
contornos, especialmente com o advento do movimento cristão-sionista.
Notas
_________________________________________________________________________________
[1] Nota do autor: “Os naufrágios
milenares que dão pistas sobre o mistério do dilúvio da Arca de Noé”, por
Matthew Ponsford, da BBC NEWS, Folha de São Paulo, 27/10/2019.
[2]
Nota do autor: The Oxford Companion to
World Mythology, Oxford U.P. (US), 2005. Vocábulo Flood.
[3] Nota do autor: Mircea Eliade, Mito e Realidade, Editora Perspectiva,
6ª Edição, 4ª Reimpressão, São Paulo, 2000. Originalmente publicado em 1963,
inglês e francês, tradução do inglês por Paola Civelli. Página 53.
[4] Nota do autor: Bruce Trigger, História do Pensamento Arqueológico,
Editora Odysseus, 2ª edição, São Paulo, 2011. Originalmente escrito em inglês,
2006, tradução de Ordep Trindade Serra. Páginas 31-35.
[5] Nota do autor: Ver Êxodo recorrente:
Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce, World Traditional Front, 25/11/2018.
[6]
Nota do autor: Ver os
trabalhos, por exemplo, de dois dos mais relevantes historiadores judeus da
história judaica, Heinrich Graetz (1817-1891) e de Simon Dubnow (1860-1941) nos
capítulos sobre a Revolução Francesa.
[7] Nota do autor: Ver David Duke, Prova
do domínio judaico sionista na BBC - Por David Duke, World Traditional Front, 28/10/2019.
Sobre o autor: Mykel
Alexander possui Licenciatura em História (Unimes, 2018), Licenciatura em
Filosofia (Unimes, 2019) e Bacharel em Farmácia (Unisantos, 2000).
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