sábado, 9 de maio de 2026

{Limpeza étnica dos alemães no leste europeu após a Segunda Guerra Mundial} O Legado Feio e Esquecido de Potsdam - por Bradley Brewer

 

Bradley Brewer

            Para os americanos, a Segunda Guerra Mundial é tudo o que há de grandioso na América. Ela representa a bravura, o sacrifício, a fortaleza e a compaixão americanas. Afinal, foi uma guerra que valeu a pena lutar e que não podia ser evitada no Pacífico e na Europa. Nenhuma nação, por mais virtuosa que seja, emerge da guerra e do processo de paz ilesa, física ou ideologicamente, incluindo os Estados Unidos.

Em 2 de agosto de 1945, a Conferência de Potsdam veio a sua conclusão. Realizada em Potsdam, Alemanha, pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, a conferência teve como objetivo discutir planos para a ocupação da Alemanha e a distribuição de reparações. Questões territoriais, como a localização da fronteira ocidental da Polônia, foram brevemente debatidas, mas as discussões foram adiadas até que uma conferência de paz definitiva pudesse ser agendada. As negociações sobre questões territoriais podem ter sido adiadas, mas o destino de milhões de alemães foi decidido com a inclusão do Artigo XIII na versão final do Acordo de Potsdam. O Artigo XIII determinava que as populações minoritárias alemãs da Checoslováquia, Polônia e Hungria (este artigo trata apenas da Checoslováquia e da Polônia) fossem transferidas para a Alemanha de forma ordenada e humana, sob a direção do Conselho de Controle Aliado, composto por representantes dos Três Grandes Aliados.

O Artigo XIII foi criado por uma razão. A retirada do exército alemão na primavera de 1945 deixou a maior parte da Checoslováquia e toda a Polônia ocidental ocupadas pelas forças armadas da União Soviética. E dentro desse território recém-conquistado viviam milhões de alemães, muitos dos quais residiam nos Sudetos da Checoslováquia e nos territórios poloneses recém-adquiridos ao longo da linha Oder-Neisse (Brandemburgo, Danzig, Silésia, Pomerânia e Prússia Oriental) desde o século XIV. Ao longo dos anos, as relações entre alemães, checos e poloneses tornaram-se bastante tensas e, uma vez terminada a guerra, cidadãos e funcionários governamentais de ambas as nações aproveitaram a oportunidade para se livrarem, de forma espontânea e brutal, do que consideravam uma minoria alemã problemática dentro de suas respectivas fronteiras. Ao fazer isso, os governos checoslovaco e polonês buscaram expulsar o máximo possível de alemães e apresentar aos Aliados um fait accompli {fato consumado} em uma futura conferência de paz. As expulsões descontroladas que duraram de maio a junho de 1945 viram organizações governamentais, independentes e militares expulsarem 750.000 alemães dos Sudetos da Checoslováquia e entre 200.000 e 1.300.000 alemães da Polônia. No entanto, esses números são estimativas e os totais variam dependendo do estudo.

            A implementação do Artigo XIII tinha era suposto trazer as expulsões selvagemente desenfreadas sob controle. O Secretário de Estado dos Estados Unidos, James F. Byrnes, desejava implementar medidas que desacelerassem a transferência de alemães, tornando-a em sua natureza menos aleatória e violenta. Byrnes também era pragmático e compreendia que a expulsão de alemães jamais seria completamente interrompida, mas poderia ao menos ser monitorada pelos Aliados, de modo que o foco dos checos e poloneses se concentrasse na expulsão dos alemães, e não na busca por vingança pelas atrocidades de guerra cometidas pelos nazistas. Após a implementação de detalhes logísticos para tornar as expulsões o mais ordenadas e humanas possível, elas começaram em 25 de janeiro de 1946. Tanto na Checoslováquia quanto na Polônia, as expulsões pós-Potsdam pouco diferiram das expulsões brutais de 1945, visto que os alemães expulsos eram conduzidos a centros de concentração onde eram roubados, sofriam abusos físicos e, em seguida, amontoados em vagões de trem e enviados para a Alemanha, onde chegavam em estado de “privação física e espiritual”, segundo o historiador alemão Theodor Schieder. No entanto, as condições melhoraram no verão de 1946, após regulamentos do Conselho de Controle Aliado terem sido plenamente implementados. Quando as expulsões cessaram no final de 1947, cerca de 1.415.135 alemães dos Sudetos, originários da Checoslováquia, haviam sido expulsos para a Zona de Ocupação dos Estados Unidos, juntamente com 750.000 para a zona russa e 1.500.000 para a zona britânica.

Para os Estados Unidos (e a Grã-Bretanha), o Artigo XIII era pretendido estabelecer alguma ordem no processo de expulsão, o que era uma solução mais atraente para o problema da minoria alemã do que as alternativas mais prováveis: o caos incontrolável ou uma provável guerra contra a União Soviética e a Polônia, algo que os Aliados não desejavam, visto que haviam lutado contra um inimigo comum com os soviéticos. Na prática, o Artigo XIII legitimou as expulsões que, antes de Potsdam, eram realizadas sem qualquer base legal ou consideração sobre como tais expulsões impactariam o cenário demográfico e político europeu. A legitimidade conferida ao Artigo XIII pelos Aliados ocidentais deu respeitabilidade legal ao ato de transferência populacional por expulsão forçada, o que, na realidade, era limpeza étnica. Assim, os Estados Unidos foram cúmplices na legalização do maior episódio de limpeza étnica ocorrido no século XX, quando entre 12.000.000 e 16.000.000 de alemães foram expulsos de suas pátrias históricas na Europa centro-oriental, da primavera de 1945 ao final de 1947.


A aprovação dos Estados Unidos à expulsão de alemães é, ao mesmo tempo, explicável e inexplicável. Era explicável porque a expulsão dos alemães provavelmente aconteceria independentemente da participação dos Estados Unidos, e, ao participarem do processo, os oficiais de ocupação americanos tinham algum controle sobre quando, onde e como as expulsões tomariam lugar, mas não o controle total da situação. Por outro lado, a aprovação das expulsões pelos Estados Unidos era inexplicável, e parecia que a remoção de grandes contingentes de alemães de suas pátrias históricas contrariava a base ideológica de moralidade e justiça sobre a qual os Estados Unidos foram fundados e contrariava nossos objetivos de guerra declarados. Em guerras, onde a realidade e a ideologia geralmente colidem, a conquista da paz é mais complexa do que o estabelecer do conflito.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 


Fonte: The Ugly and Forgotten Legacy of Potsdam, por Bradley Brewer, 09 de agosto de 2015, HISTORY NEWS NETWORK.

https://www.historynewsnetwork.org/article/the-ugly-and-forgotten-legacy-of-potsdam

Sobre o autor: Bradley Brewer (1967-2020) recebeu seu doutorado pela Universidade Estadual do Mississippi em História, com especialização em História Moderna Europeia, concluído em 2015 e tornou-se professor na mesma universidade.

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