terça-feira, 10 de agosto de 2021

Sionismo - por Richard James Horatio Gottheil (Jewish Encyclopedia) - parte 2

 Continuação de Sionismo - por Richard James Horatio Gottheil (Jewish Encyclopedia) - parte 1

Richard James Horatio Gottheil

Joseph Nasi

            Mas a condição externa na qual os judeus viveram tantos séculos fizeram impossível para eles pensar em realizar de fato o que eles esperaram e oraram. Os acessórios sobrenaturais com o qual a teologia tem vestido a ideia da restauração também paralisaram qualquer esforço que poderia ter sido feito. A divindade era suposta que deveria liderar o caminho; e a mão do homem permanecida inerte. De tempo para tempo, isso é verdade, judeus solitariamente ou bando de judeus viajaram para a Palestina, ou para repousar seus ossos em solo sagrado ou para esperar a vinda do Messias. Somente esporadicamente e em períodos longamente distantes um dos outros, alguma tentativa foi feita para antecipar a providência e se aventurar numa restauração em bases práticas. E mesmo em tais casos nem sempre foi a Palestina que foi selecionada para a primeira tentativa, por causa das dificuldades práticas a qual eram conhecidas para qualquer situação como tal esquema. Uma tentativa deste tipo foi a de Joseph Nasi no meio de século dezesseis, tanto em seu esforço para ganhar da República de Veneza uma ilha para o qual os judeus portugueses deveriam emigrar como na de sua proclamação para os judeus da Campagna romana {região ao redor de Roma} os pedindo para emigrar para a Palestina.

            Ao lado de tais projetos existiam outros de um caráter mais fantástico. Em 1540 um judeu de Augsburg tentou formar um Estado judaico sobre bases messiânicas (ver “Anzeiger des Deutschen Nat. Museums,” 1894, página 103). Dos esquemas baseados sobre especulações messiânicas e esperanças puramente religiosas, o mais importante foi Shabbethai Zebi (1626-1676), quem personalizou o messias, anunciando que ele iria restaurar Israel para a Terra Prometida. Quão ardente e fiel à crença na restauração estava nos corações dos judeus pode ser visto do fato que numerosas comunidades estavam prontas para seguir o exemplo do líder impostor. Mesmo tais homens como {o filósofo Baruch} Spinoza acreditaram na possibilidade da realização do projeto; e após a fraude de Zebi ter sido descoberta, a crença na protelada recuperação permaneceu relutante por muitos anos.

 

Tentativas de colonização fora da Palestina

            O problema, todavia, foi atacado também de um ponto de vista filantrópico. A condição de outros judeus, em muitas partes da Europa ocasionou que pessoas bem-intencionadas e caridosas buscassem alguns meios de estabelecê-los sob tais condições que iriam assegurá-los repouso e liberdade da perseguição. De tal tipo foi o projeto elaborado na Inglaterra por volta de 1654, um relato no qual está contido na coleção de manuscritos Egerton no Museu Britânico. Este relato é intitulado “Privileges Granted to the People of the Hebrew Nation That Are to Goe to the Wilde Cust,” e, de acordo com Lucien Wolf, em referência à um assentamento judaico no Suriname. Tais colônias como esta, com direitos administrativos desde longe, tinham sido estabelecidas em Curaçao em 1652 sobre a autoridade da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, e em 1659 em Caiena pela Companhia Francesa das Índias Ocidentais (“The Jew. Hist. Soc. Eng.”III 82). Em 1749 Maurice de Saxe, um filho natural de Augusto II da Polônia, tinha em mente um projeto para se fazer ele mesmo rei de um Estado judaico o qual era para ser fundado na América do Sul (M. Kohler, em “Menorah,” junho, 1982). O convite de Napoleão para os Judeus da Ásia e África para se estabelecerem novamente em Jerusalém sobre sua égide (ver “Moniteur Universelle,” n° 243) era um documento político e não significa que deva ser levado seriamente. Mesmo {Moses} Mendelssohn foi abordado com um propósito de uma natureza similar feito por um desconhecido amigo no ano de 1770. Ele recusou considerar o projeto na base que a opressão sobre a qual os judeus tinham vivido por muitos séculos tinha roubado do espírito deles todo “vigor,” que eles estavam também espalhados para trabalharem em conjunto, que o projeto iria custar muito dinheiro, e que seria necessário um consentimento dos grandes poderes da Europa (“Gesammelte Schriften,” v. 493, Lepisic, 1844). Uma medida semelhante foi elaborada em 1819 por W. D. Robinson, que propôs a formação de um assentamento judaico no território do alto Mississipi; e em 1850 o cônsul americano em Jerusalém, Warder Cresson, um convertido ao judaísmo sobre o nome de Michael C. Boaz Israel, estabeleceu uma colônia agrícola judaica próxima à Jerusalém, contanto em seu apoio o reverendo Isaac Leeser da Filadélfia, e L. Philippson de Magdeburg (M. Kohler, em “Publ. Am. Jew. Hist. Soc.” N° VIII, págima 80).

 

Mordecai Noah

            O mais persistente advogado, todavia, de tais esquemas, foi Mordecai M. Noah (ver também Ararat2). Já no ano de 1818 ele ativamente propagou a ideia da necessidade da restauração dos judeus na Palestina. Em um “Discurso sobre a Restauração dos Judeus,” proferido em 1845 perante uma audiência cristã na cidade de Nova Iorque, ele mostrou o vasto alcance de suas visões políticas, e estabeleceu os principais princípios sobre o qual um retorno dos judeus à Palestina poderia ser efetuado. No desenvolvimento desta ideia, ele concebeu um plano para um assentamento preliminar nomeado “Ararat” em Grand Island no rio Niagara, próximo a Buffalo. Em 19 de janeiro de 1820, o memorial de Noah foi apresentado para a legislatura de Nova Iorque, rezando para a venda a ele da Grand Island. Este projeto levantou muito interesse também na Europa. Claro que nada definitivo veio disso (ib. nº VIII, páginas 84 et seq.; nº X, página 172; n.º XI, página 132); embora em 1873 o “Jewish Chronicle” londrino sugeriu editorialmente uma colônia judaica nos Estados Unidos baseado em um plano similar ao de Noah (4 de julho, página 233).

 

O levantar do sentimento nacionalista

            Todos estes projetos do estágio preliminar foram vinculados ao fracasso porque o povo judeu não tinha sido educado para compreender a verdadeira posição deles no mundo moderno, nem tinham sido estimulados suficientemente pelas grandes ondas do sentimento que tinha avançado varrendo através da Europa. As duas influências que se fizeram sentir elas mesmas de tal maneira como forma do primeiro estágio no desenvolvimento do moderno sionismo foram o levantar de um forte sentimento nacionalista e o desenvolvimento do antissemitismo. A última parte do século dezoito e a primeira metade do século dezenove são caracterizadas na Europa por um forte sentimento de cosmopolitismo o qual excedeu mesmo os vínculos do desenvolvimento racional. Foi uma natural reação contra o agrupamento arbitrário de nacionalidades as quais ignoravam todas afiliações raciais e eram baseadas simplesmente sobre necessidades políticas. O balanço do pêndulo foi longe demais; e a reação contrária em favor da liberdade pessoal fez-se ela própria sentida através da inteira primeira metade do século dezenove. A ideia de liberdade pessoal, trouxe em seu despertar o desejo para liberdade racial. A ação da Suíça, Hungria, e vários estados balcânicos, a tentativa da Irlanda para libertar ela mesma do domínio britânico, a unificação da Itália e Alemanha sobre linhas raciais, foram vinculadas a reagir sobre os judeus. Sobre o continente da Europa muitos deles tinham estado nas fileiras de frente daqueles que tinham lutado por esta liberdade racial. Os judeus pouco pensavam que as armas as quais eles usaram contra outros iriam ser viradas contra eles mesmos, e iria criar dentro de suas próprias fileiras um desejo de unidade racial e uma vida comum.

            Sobre estas influências surgiram gradualmente, especialmente entre as jovens gerações na Europa oriental, um sentimento em favor da existência nacional judaica, a qual carregou em seu despertar muitos dos mais brilhantes e mais avançados judeus da época. E a abertura da questão oriental trouxe as necessidades de certas partes do Império Otomano proeminente perante a Europa. O historiador Joseph Salvador já em 1830 acreditou na possibilidade que o congresso dos poderes europeus poderia restaurar a Palestina para os judeus; e os fundadores da Alliance Israélite Universelle {uma sociedade judaica fundada em 1860 para a proteção e melhoria dos judeus em geral, e precurssora do movimento sionista no que se refere reforçar os judeus internacionalmente em busca de seus interesses}*e tinham ideia similar na mente deles quando, sob Albert Cohn e Charles Netter, o trabalho dos colonizadores judeus na Palestina foi levado adiante, e a escola agrícola Mikweh Yisrael foi fundada próximo de Jaffa.

 

Antecipações francesas

            Em 1852 Hollingsworth, um inglês, pediu o estabelecimento de um Estado judaico, por causa da necessidade de salvaguardar a rota terrestre para a Índia; e em 1864 apareceu em Genebra um panfleto intitulado “Devoir des Nations de Rendre au Peuple Juif As Nationalité,” o qual ocasionou uma longa discussão nos “Archives Israélites.” Ele foi atribuído a Abraham Pétavel, um clérigo cristão e professor em Neuchâtel. Pétavel foi um membro da Alliance Israélite Universelle, apesar de que ele foi aberta e honestamente interessado na conversão dos judeus. Embora ele negou a autoria do panfleto, acredita-se, em geral, ter sido seu trabalho, especialmente enquanto ele publicou ao mesmo tempo um longo poema, “La Fille de Sion ou la Rétablissement d’Israel” (Paris, 1864). Os “Archives” declararam-se eles mesmos fortemente contra o projeto; mas Lazar Kévy-Bing, um banqueiro de Nancy e posteriormente um membro da legislatura (2 de julho de 1871), escreveu calorosamente em favor do nacionalismo judaico, sem nenhum pensamento sobre a condição dos judeus de sua época. Jerusalém, ele esperou, poderia tornar-se o centro ideal do mundo. Indubitavelmente influenciado por Pétavel, um judeu, J. Frankel, publicou em Estrasburgo em 1868 um panfleto com o título “Du Rétablissement de la Nationalité Juive”. O autor, impressionado por um lado pelos movimentos nacionais de sua época e pelo outro pelas condições inseguras sobre as quais os judeus da Europa oriental viviam, defendeu valorosa e abertamente a reconstituição de uma Estado judaico na Palestina através da compra na Turquia do território. “Se a Palestina se mostrar impossível,” ele adiciona, “nós devemos procurar em alguma outra parte do Globo algum lar fixo para os judeus; pois o ponto essencial é que eles estejam num lar e independente de outras nações,” assim aproximando em alguma medida aos modernos territorialistas.

 

Na Áustria

Vários esquemas com um similar fim em vista foram elaborados. Entre 1835 e 1840 Moritz Steinschneider estava entre aqueles que fundaram em Praga uma sociedade de estudos para o propósito de propagar a ideia de um Estado judaico na Palestina; e, no  final do ano um escritor anônimo escreveu no “Orient” (nº XXVI, página 200) publicando um apelo para seus irmãos para adquirir a Síria para os judeus que estavam sobre a soberania turca enquanto a perseguição de sangue em Damasco estava ainda fresca na memória; e em 1847 Barthélémy publicou em “Le Siècle” um longo poema convidando os Rothschilds para restaurar o reinado de Judá à sua anterior glória. Judah bem Solomon Alkalai, rabino em Semlin, Croácia, publicou seu “Goral Ladonai”, Viena, 1857 (2ª edição, Amsterdã, 1858), na qual ele advogou a formação de uma sociedade anônima para o propósito de induzir o Sultão a ceder a Palestina para os judeus como um Estado tributário. Em similar maneira Luzzatto, em Pádua, escreveu em 1854 para Albert Cohn, “A Palestina deve ser colonizada e trabalhada pelos judeus a fim de que eles devam viver novamente comercialmente e agriculturalmente.” As jornadas de Sir Moses Montefiore e Adolphe Crémieux {nome de primeira grandeza da Alliance Israélite Universelle} para a Palestina aumentaram o interesse dos judeus no antigo lar deles, e trouxe o assunto de forma proeminente para o público. O fundador da Convenção de Genebra, Henry Dunant, trabalhou incessantemente com um similar objeto em vista. Ele tentou causar interesse em tais projetos à Alliance Israélite Universelle (1863), à Anglo-Jewish Association em Londres, e os Judeus de Berlin (1866), mesmo encontrando duas sociedades para aquele propósito, a International Palestine Society e, em 1876, a Syrian and Palestine Colonization Society. Todos seus esforços falharam em evocar uma resposta. Um destino semelhante abateu ambos o projeto de Sir Moses Montefiore, quem em 1840 apresentou perante Mohammed Ali um plano de colônia de judeus na Palestina, e o de Lord Shaftesbury, associado com a Society for Relief of Persecuted Jews. No ano de 1870 Benedetto Musolino, um cristão e fervente patriota italiano, elaborou um plano completo para estabelecer um Estado Judaico na Palestina, demonstrando a vantagem de tal Estado não somente para os judeus, mas também para o Império Otomano e para a Inglaterra. Em vão ele tentou interessar Lord Palmerston e os Rothschilds no plano. Mesmo seu trabalho “La Gerusalemme e il Popolo Ebreo” permaneceu não publicado (“The Maccabaean,” 1905, página 225). Nem foi melhor sucedido Laurence Oliphant (1829-1888), o viajante e político inglês. Em 1879, depois de ter em vão tentado procurar do Porte {uma província de Turim, Itália} a concessão da ferrovia Euphrates Valley, nas margens da qual ele tinha proposto assentar judeus russos, ele concebeu a ideia de um assentamento judaico na Palestina, na terra da Gileade. Uma sociedade estava para ser formada com um capital de 10,000,000 rubros. Sobre 1,000,000 a 1,500,000 hectares o proletariado judaico da Polônia, Lituânia, Romênia e Turquia Asiática deveria ser colonizado, e um banco agrário deveria ser fundado. Oliphant falhou em ambos 1879 e 1882 para obter a permissão do sultão para semelhante plano.

Tradução e palavras entre chaves e grifos por Mykel Alexander


Notas

2 Fonte utilizada por Richard James Horatio Gottheil: Morris Jastrow, Jr. e Charles Foster Kent, Jewish Encyclopedia, volume 2, FUNK AND WAGNALLS COMPANY, Nova Iorque, 1902. Vocábulo ARARAT. 

*e Nota de Mykel Alexander: Jacques Bigart, Jewish Encyclopedia, volume 2, FUNK AND WAGNALLS COMPANY, Nova Iorque, 1901. Vocábulo ALLIANCE ISRAÉLITE UNIVERSELLE.


Fonte: Richard Gottheil, Jewish Encyclopedia, volume 12, FUNK AND WAGNALLS COMPANY, Nova Iorque, 1905. Entrada ZIONISM.

Consulta de apoio na versão on-line: https://www.jewishencyclopedia.com/articles/15268-zionism#anchor4

Sobre o autor: Richard James Horatio Gottheil (1862 -1936) foi um judeu inglês, acadêmico (graduação na Columbia College em 1881, doutorado em Leipzig em 1886). Também foi rabino nos EUA. De 1898 a 1904, foi presidente da American Federation of Zionists e trabalhou com Stephen S. Wise e Jacob De Haas. Depois de 1904, ele foi vice-presidente da Sociedade Histórica Judaica Americana. Gottheil escreveu muitos artigos sobre questões orientais e judaicas para jornais e resenhas. Ele editou a Columbia University Oriental Series e Semitic Study Series. Depois de 1901, ele foi um dos editores da Jewish Encyclopedia. Ele escreveu o capítulo sobre sionismo que foi traduzido para o árabe e publicado por Najīb Al-Khūrī Naṣṣār em seu jornal Al-Karmil e também na forma de um livro em 1911.

            Entre suas obras estão The Syriac grammar of Mar Elia Zobha (1887) e Zionism (1914).

Fonte as informações sobre o autor: Wikipedia em inglês, consulta em 24 de julho de 2020:

 https://en.wikipedia.org/wiki/Richard_James_Horatio_Gottheil

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