domingo, 9 de agosto de 2026

{Genocídios soviéticos - 1.1} Massacre de Katyn — “Os 10.000 Desaparecidos” - por Louis FitzGibbon

 

 Louis FitzGibbon

Em sua obra-prima, Arquipélago Gulag, Soljenítsin afirma:

“Eles levaram aqueles que eram independentes demais, influentes demais, notáveis ​​demais; levaram, em particular, muitos poloneses das antigas províncias polonesas. (Foi então que a fatídica Katyn se encheu; e também foi então que, nos campos do norte, estocaram massa de manobra para o futuro exército de Sikorski e Anders)”.

Mas “Katyn” é um termo coletivo usado para abranger não apenas os 4.500 encontrados na floresta de mesmo nome, mas também outros 10.000 assassinados na mesma época. Esses eram os homens aprisionados no Campo de Starobielsk (cerca de 4.000) e no Campo de Ostashkow (cerca de 6.000). É comum se referir a eles brevemente como “os outros 10.000 — cujo paradeiro permanece um mistério”. Mas 10.000 prisioneiros assassinados não podem ser descartados em uma sentença tão curta. Essa cifra representa talvez a população total de uma cidade de porte considerável, ou, se vista como um exército avançando pela planície, pareceria uma força verdadeiramente poderosa. Uma coisa é certa: assim como não se teve mais notícias dos 4.500 poloneses no campo de Kozielsk depois de maio de 1940, também não se ouviu mais nada depois dessa data dos 4.000 no campo de Starobielsk, nem dos 6.000 no campo de Ostashkow. Eles não poderiam simplesmente ter desaparecido, e seus corpos devem estar em algum lugar. Mas onde?

Neste ponto, é interessante notar que, quando os alemães descobriram os corpos na floresta de Katyn, divulgaram inicialmente ter encontrado 11.000 deles. Fizeram isso para fins de propaganda e, mais tarde, corrigiram o número para o valor real de 4.254. Contudo, os soviéticos também utilizaram o número de 11.000 quando tentando atribuir a responsabilidade por Katyn a Hermann Göring em Nuremberg, mas havia uma razão muito mais cínica para isso. Depois de tudo, os soviéticos conheciam o número real, pois haviam perpetrado o massacre. Contudo, citaram o número de 11.000 em Nuremberg numa tentativa de obscurecer a verdade e, de alguma forma, fazer com que as vítimas de Starobielsk e Ostashkov ‘se perdessem.’ Como a maioria das pessoas sabe hoje, a acusação soviética sobre Katyn não se sustentou; é motivo de vergonha internacional que o assunto tenha sido abandonado e que não haja qualquer menção a Katyn na sentença final dos julgamentos de Nuremberg. Assim, dessa maneira estranha, cerca de 10.000 homens foram, ao que parece, feitos desaparecer, como se jamais tivessem existido. É por essa razão que intitulei esta palestra: “Os 10.000 Perdidos.”

Nenhuma revisão histórica estaria completa sem que todos os esforços tenham sido feitos para desvendar esse mistério de autoria humana — agravado pela covardia da comunidade internacional ao criar o “encobrimento” que baniu todo o assunto de Katyn das páginas dos registros prontamente acessíveis. Mas, em nome da própria humanidade, esses homens perdidos precisam ser encontrados; a maneira de suas mortes devem ser registradas e proclamadas, e eles devem ter restituídos os seus devidos lugares nos anais do tempo. Alcançar essa tarefa deve ser um dever solene para qualquer grupo de pesquisa positiva e sincero, tanto em nome da Verdade bem como em nome da Compaixão.

Agora eu tenho dito que a maioria dos prisioneiros do campo de Kozielsk foi assassinada na floresta de Katyn; de fato, o número de corpos era 4.254 mais 1, totalizando 4.255. Sabe-se que 245 foram poupados arbitrariamente, chegando-se assim ao número correto de prisioneiros inicialmente detidos naquele campo: 4.500. Nós devemos agora considerar os números daqueles que foram poupados nos outros dois campos, que são os seguintes:

Do campo de Ostashkov …… 124

Do campo de Starobielsk …… 79

Assim, dos 6.500 prisioneiros iniciais do campo de Ostashkov, 6.376 foram assassinados; e, dos 3.920 prisioneiros iniciais do campo de Starobielsk, 3.841 foram assassinados. Se somarmos esses dois totais de vítimas, chegamos ao número de 10.217 — e é essa a questão que nós estamos considerando hoje.

10.217 prisioneiros poloneses, cada um deles executado individualmente com um tiro na nuca pelo NKVD soviético na primavera de 1940. Lembremos também que o ataque russo à Polônia, iniciado em 17 de setembro de 1939, já havia terminado em 28 de setembro daquele mesmo ano, e recordemos que os alemães só atacaram a União Soviética em junho de 1941. A primavera de 1940 era, portanto, um período de “paz” na Rússia — o que torna o massacre ainda mais frio e calculado. Tratou-se, como sabemos, de uma tentativa deliberada de eliminar a elite intelectual e política da Polônia — a “flor” da nação —, liquidando seus líderes para deixar o restante da população sem rumo. Tal ato não pode ser chamado de outra nome senão genocídio! Um genocídio que, neste caso, não somente impune, mas também não mencionado! Nós devemos agora voltar nossa atenção para os campos de Starobielsk e Ostashkov, pois foram os últimos locais onde se teve certeza da presença dos “10.000 perdidos.”

Em 5 de abril de 1940, o oficial polonês de maior patente em Starobielsk era o major Niewiarowski; às 9h daquele dia, o comandante soviético do campo, tenente-coronel Boreshkov, acompanhado pelo comissário político Kirshov, procurou Niewiarowski e informou-lhe que o campo estava sendo desativado e que, naquele mesmo dia, o primeiro grupo de 195 oficiais prisioneiros era para sair.

“Para onde?”, perguntou o major Niewiarowski.

“Onde...?”, respondeu Boreshkov, arrastando as palavras. “Para casa! Para os seus lares. Vocês serão enviados primeiro para campos de trânsito e, depois, para onde vieram; para junto de suas esposas.” Em seguida, ele riu. A partir de então, transportes eram enviados diariamente após as chamadas no Bloco 20. Os grupos diários variavam de 60 a 240 pessoas. Certo dia, enquanto tudo isso acontecia, o tenente Mlynarski perguntou a Boreshkov: “Por que vocês nos enviam em grupos de, no máximo, 240 pessoas? Já que nos trouxeram todos para cá aos milhares, certamente poderiam nos mandar de volta da mesma maneira?”

“Não podemos”, ele replicou. “O mundo inteiro está em guerra. Nós também temos que estar prontos. Não podemos dispensar o transporte.”

Em 26 de abril, os transportes foram suspensos até 2 de maio, quando de novo um certo número foi enviado. Houve outro intervalo até os dias 8, 11 e 12 de maio, datas em que os últimos transportes deixaram o campo de Starobielsk; e tinha sido notado que os grupos diários eram selecionados a partir de diversos pavilhões da prisão e nunca incluíam grupos de amigos, sendo compostos, em sua totalidade, por homens que não se conheciam. Isto foi trazido ao conhecimento do comandante do campo, que invariavelmente respondia que isso não importava, pois todos os prisioneiros se reencontrariam nos campos de trânsito. Ao que tudo indica, em 25 de abril, um grupo de 63 homens foi arrebanhado a vagões ferroviários e enviado a Voroshilovgrad e, de lá, a Kharkov, onde o trem foi retido. Um dos prisioneiros conseguiu colocar a cabeça para fora por uma fresta na porta e falar com um ferroviário que batia nas rodas com um martelo.

— Camarada — sussurrou o prisioneiro —, aqui é Kharkov?

“Da... Sim, Kharkov. Prepare-se para sair do trem. É aqui que todos os ‘seus’ são descarregados e enviado adiante em veículos.”

“Para onde?” perguntou o prisioneiro.

O ferroviário encolheu os ombros, cuspiu entre as rodas e não disse mais nada.

Algumas vezes, na história, fragmentos desconexos de informações chegam como destroços, e um deles é um relato de que, quando os alemães foram mais tarde expulsos da área de Kharkov, projéteis russos estavam explodindo ao norte da cidade. Diz-se que uma barragem de bombas explodindo fez com que “cadáveres voassem no ar, como se viessem de algum cemitério”. Não há mais corroboração para este item.

Agora é hora de nos voltarmos para o acampamento em Ostashkow, que ficava num mosteiro abandonado no meio de um lago, ligado ao continente por uma ponte. Também a partir daí, depois de 4 de Abril de 1940, formaram-se grupos de prisioneiros que lhes garantiram igualmente que seriam mandados para casa. Vimos que 124 foram poupados caprichosamente do total de 6.500. Para onde foi o resto? O oficial superior das Forças Policiais Polacas, A. Woronecki, relatou uma estória de uma conversa que teve com um dos guardas do campo que, em troca de uma pitada de tabaco soviético preto e nojento, concordou em “revelar o segredo”.

“Você nunca mais verá seus camaradas…”

“Por que – onde eles estão?”

“Não é verdadeiro que eles foram mandados para casa. Nem foram mandados para campos de trabalhos.”

“Bem, então... qual é a verdade?”

O guarda amaciou um pedaço de jornal, colocou o tabaco e enrolou um cigarro. Ele inalou a primeira tragada e disse:

“Eles afogaram todos eles…”

O Sargento da Polícia Militar J.B., que também foi preso em Ostashkow, confirmou tudo o que foi relatado por outros — os transportes de prisioneiros sempre foram compostos por grupos de 60 a 300 homens. Um dia, ele entrou na padaria do acampamento, onde mantinha relações amigáveis ​​com Nikityn, o padeiro-chefe. 

“Para onde eles estão nos enviando? Você sabe?”

“Na sievier, braktu (Para o norte, meu amigo). Eles estão mandando você para algum lugar ao Norte”, respondeu Nikityn.

Em 28 de abril de 1940, este sargento estava em um grupo de 300 pessoas que deixavam o campo. E eles seguiram para o norte ao longo da linha de Leningrado. Em Bologoye, seu caminhão com outros foi destacado e enviado na direção de Rhzev, enquanto o restante ainda pôde ser visto parado em Bologoye...

Aqui, ao menos, estão dois nomes de lugares: Kharkov e Bologoye. Talvez nós estejamos ficando mais próximo da solução. Deve ser lembrado que, após o ataque alemão sobre a Rússia de 1941, os soviéticos foram recuados quase até as portas de Moscou e, em desespero, buscaram por todos os meios e de qualquer maneira encontrar formas de deter o avanço da Wehrmacht. Uma dessas soluções foi formar um exército a partir do milhão e meio de poloneses que haviam alimentado o Arquipélago Gulag. Esse exército, sob o comando do General Anders, tinha sido reunido à medida que os poloneses se arrastavam pela Sibéria para se juntar a ele. Vinham de todas as partes da Rússia — exaustos, sofrendo de disenteria e emaciados de seus sofrimentos. Mas, todos eram soldados rasos; os oficiais haviam desaparecido! O General Anders criou um escritório especial para tentar localizar esses oficiais, e foi nesse escritório que uma lista dos desaparecidos foi compilada.

Em 26 de abril de 1943, uma mulher chamada Katarzyna Gasziecka apresentou-se ao escritório. Ela era esposa de um dos oficiais desaparecidos, e ela tinha isto para dizer:

Em junho de 1941, em meio a uma multidão de 4.000 homens e mulheres todos deportados da Polônia, fui transportada pelo Mar Branco. Navegávamos de Arkhangelsk em direção ao estuário do rio Pechora. Estavam nos enviando para mais trabalho escravo e miséria, e eu estava sentada no convés da barcaça. Eu senti um desejo profundo e doloroso de ser livre, de voltar à Polônia e de rever meu marido — eu comecei a chorar. Isso atraiu a atenção de um jovem soldado russo, que se aproximou e perguntou o que havia acontecido; para o qual respondi:

“Meu destino. Será que no seu país também é proibido chorar? Choro também pelo destino do meu marido.”

“E quem era ele?”

“Um capitão.”

O bolchevique soltou uma risada de escárnio.

“Suas lágrimas não o ajudarão mais. Todos os seus oficiais morreram afogados aqui. Neste mesmo mar.” Então, ele me disse cruelmente que havia participado pessoalmente do comboio que transportara cerca de 7.000 pessoas, em sua maioria oficiais e policiais poloneses. Eles haviam sido rebocados em duas barcaças que, mais tarde, foram deixadas à deriva e afundadas. “Todos foram direto para o fundo.” Ele se afastou, mas outro russo — não um soldado, mas um tripulante da barcaça — veio até mim. Ele tentou dizer algo reconfortante e concluiu:

“É verdade o que você acabou de ouvir. Eu também vi com meus próprios olhos. A tripulação das barcaças foi transferida para o navio rebocador. Os cascos das barcaças haviam sido perfurados. Foi uma cena pavorosa. Ninguém poderia ter se salvo.”

A teoria de que os prisioneiros de Ostashkov foram afogados no Mar Branco é a mais conhecida entre os poloneses, e na qual muitos acreditam. A rota ferroviária para o Mar Branco, partindo de Ostashkov, passa por Bologoye. No entanto, também se sabia que milhares de poloneses haviam sido enviados para o Norte — todos para trabalhar como mão de obra escrava na nova rede ferroviária — e que eles não eram oficiais. De fato, muitos desses soldados rasos conseguiram retornar para se juntar ao Exército do General Anders.

Logicamente, essa teoria do afogamento no Mar Branco não se sustenta. A liquidação dos três campos — Kozielsk, Starobielsk e Ostashkov — foi planejada de forma centralizada e, como nós sabemos, os prisioneiros de Kozielsk foram levados ao local sigiloso mais próximo e conveniente e lá fuzilados: em Katyn. Além disso, evidências e o bom senso indicam que seria militarmente mais vantajoso levar os prisioneiros de trem até a estação ferroviária mais próxima do local da execução e, de lá, transportá-los em automóveis ou caminhões. Transportar milhares de prisioneiros por centenas de quilômetros até o Mar Branco implicava o risco de fugas e de que a operação fosse testemunhada por um número muito grande de pessoas da população local. Contudo, o transporte dos prisioneiros do campo de Starobielsk para Kharkov por trem coaduna-se com o plano de Katyn e assim, há razão para supor que o destino dos prisioneiros de Ostashkov tenha seguido uma maneira similar: significando que eles foram levados de trem até Bologoye e, de lá, transportados em caminhões a diesel para uma floresta próxima para extermínio.

É até aqui até onde vão as especulações entre os poloneses que conheço: 10.000 homens enterrados; pilhas de cadáveres, uns sobre os outros, comprimidos numa massa de putrefação em liquefação, tal como em Katyn — mas acima do dobro. A mente fica atônita ao pensar nesses dois locais de sepultamento em massa, provavelmente quase igual em todos os aspectos às valas comuns de Katyn. Homens com perfurações de bala na nuca — alguns com as mãos atadas; outros com serragem enfiada na boca para impedi-los de gritar. Uma cena de horror e de propósito satânico.

Mas havia outra pista. Em 14 de maio de 1962, o deputado Derwinsky proferiu um discurso importante na Câmara dos Representantes, no qual buscou criar uma Comissão Especial da Câmara sobre as Nações Cativas, utilizando como argumento principal o caso de Katyn e as conclusões da Comissão Especial de 1952. Ele fez referência a uma resolução aprovada em 1949 pelo Conselho Nacional da República da Polônia, por iniciativa do Governo Polonês – no – Exílio. Essa resolução expressava gratificação pelo fato de a iniciativa de uma investigação independente sobre o massacre de Katyn tinha sido empreendida nos Estados Unidos, e expressava a confiança de que:

“seriam encontradas no mundo livre pessoas com força moral suficiente, capazes de suportar o fardo da luta pela verdade e de conduzir essa luta vitoriosamente.”

Ele disse ao Congresso como os soviéticos haviam se recusado a participar da Comissão Especial de 1952 e citou o memorando deles, datado de 29 de fevereiro de 1952:

“A questão do crime de Katyn foi investigada em 1944 por uma comissão oficial, e foi estabelecido que o caso Katyn foi obra de criminosos hitleristas, conforme divulgado pela imprensa em 26 de janeiro de 1944. Durante oito anos, o governo dos Estados Unidos não levantou qualquer objeção a essa conclusão da Comissão, até recentemente.”

O deputado Derwinsky prosseguiu citando as palavras do deputado Madden que, em 1952, dirigiu-se a uma grande assembleia de poloneses em Londres e, entre outras coisas, disse:

“Katyn não é apenas uma questão polonesa, mas uma questão que afeta a consciência do inteiro o mundo civilizado, sendo, ao mesmo tempo, uma ameaça a esse mundo.”

Continuando seu discurso, o deputado Derwinsky então fez uma declaração de grande importância, embora ela não tenha recebido atenção especial na época.  Ele referiu a publicação, em 1957, de um documento soviético secreto em um semanário alemão. Datado de 10 de junho de 1940, o documento supostamente continha detalhes sobre o encerramento das atividades dos três campos (Kozielsk, Starobielsk e Ostashkov) e, portanto, oferecia a solução para o mistério que intrigava a tantos — e o qual nós estamos discutindo hoje, nominalmente o paradeiro dos “outros 10.000” que não foram encontrados nas valas comuns de Katyn.

Em 1974, eu ativamente me engajei como secretário honorário do Katyn Memorial Fund,  e consequentemente debruçava-me mais uma vez sobre toda aquela estória macabra. Não era a primeira vez que eu sentia uma indignação profunda e crescente pelo fato de nenhuma nação ter levado a questão a um tribunal internacional; mas ao invez disso, tinha sido permitido que o caso Katyn caísse no esquecimento ou tinham participado da enorme operação de encobrimento o qual tantos muitos mesmo se doeram de esforços para criar. E, novamente, eu vi-me refletindo sobre o mistério dos “10.000 desaparecidos”. De alguma forma, aqueles homens precisavam ser encontrados — mas como? Foi então que reli o discurso de 1962 do deputado Derwinsky e, de repente, o Relatório Secreto de 10 de junho de 1940 pareceu saltar da página, como se estivesse em destaque. Aquele relatório precisava ser localizado, mesmo tendo sido publicado em 1957 — cerca de 17 anos antes. Mas, novamente: como aquela referência nebulosa seria rastreada?

{Edward Joseph Derwinski (1926-2012) foi militar um político americano que atuou como o primeiro Secretário de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos com status de membro do Gabinete, servindo sob a presidência de George H. W. entre 1989 e 1992. Anteriormente, ele havia servido como membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos de 1959 a 1983. Com ancestralidade em parte polonesa Edward J. Derwinski atuou em questões sobre investigações referente ao contexto da Europa Oriental e Segunda Guerra Mundial. (Informações básicas a partir da Wikipedia)}

Eu fiz inúmeras inquirições aos meus muitos amigos poloneses e, embora alguns tivessem ouvido falar vagamente do relatório, ninguém sabia como localizá-lo e, certamente, ninguém jamais o tinha visto. Eu fiquei espantado ao constatar que ninguém parecia ter feito qualquer esforço para rastrear aquele documento, obviamente da maior importância, já que — ao que tudo indicava — ele dizia respeito a um número de vítimas mais de duas vezes superior ao encontrado em Katyn. Durante todo o trabalho do Fundo Memorial de Katyn, eu recebi um apoio discreto da Embaixada da Alemanha em Londres e, em várias ocasiões, eu tive o privilégio de conversar com o embaixador, Herr Karl Gunther von Hase. Ele conhecia bem a natureza do NKVD soviético, pois havia sido capturado em Stalingrado e passado cinco anos em um campo de prisioneiros de guerra russo em Vologda; ele me dissera que, se houvesse algo que pudesse fazer para ajudar, teria prazer em fazê-lo. Na época, eu não dei a devida atenção a essa oferta gentil, conforme eu não via o que ele poderia fazer, mas agora suas palavras me ocorriam com uma clareza surpreendente. O relatório secreto soviético havia sido publicado em um semanário alemão chamado Sieben Tage (Sete Dias) e, presumivelmente, uma cópia dele deveria existir em algum lugar da Alemanha. Quem melhor para localizá-lo do que o embaixador alemão? Imediatamente, eu abordei lhe com meu pedido.

A princípio ele foi hesitante, mas eu argumentei que haviam sido os alemães a descobrir as valas comuns de Katyn em 1943; por que, então, não completar a tarefa e descobrir a pista crucial sobre “os outros 10.000”? Ele compreendeu o argumento e prometeu fazer algumas inquirições.

O tempo passou e eu não recebi mais notícias. Fiz uma nova consulta e fui informado de que o Sieben Tage não era publicado havia muitos anos e que a publicação era agora um defunto. No entanto, informaram-me que as investigações continuavam, pois os alemães sempre metódicos estavam convencidos de que uma cópia da edição em questão deveria estar arquivada em algum lugar.

E então, numa noite de dezembro daquele mesmo ano de 1974, o adido de imprensa alemão me telefonou para dizer que uma fotocópia da página crucial estava sobre sua mesa naquele momento. Peguei um táxi e fui direto para a Embaixada da Alemanha, na Belgrave Square, nº 23. Como alguém cuja pá bate em metal durante uma caça ao tesouro, senti uma enorme expectativa. E então, de repente, eu tinha o relatório em mãos. Seria autêntico? Por que apenas aquele semanário insignificante — e já extinto — o havia publicado?

Eu mostrei uma cópia a um amigo, correspondente para assuntos comunistas do jornal britânico Daily Telegraph; após examinar a fotocópia do relatório e os carimbos nele apostos, ele declarou que, em sua opinião, o documento era autêntico. A resposta para a segunda questão — por que o caso não recebeu maior divulgação — residia no fato de que, em 1957, a guerra havia terminado há apenas doze anos, e o enorme peso da culpa que recaía sobre a nação alemã ainda pairava de forma opressiva sobre todos. Os alemães simplesmente não queriam mais ouvir falar de massacres, valas comuns, crimes de guerra ou mesmo da guerra. Qualquer posterior menção a Katyn inevitavelmente traria uma salva de abusos baseados na estória do “Holocausto”; por isso, preferia-se deixar o assunto de lado. A propaganda dos Aliados fora tão intensa que até mesmo alguns alemães acreditavam ser os responsáveis ​​por Katyn, e não os soviéticos. Em vista de tudo isso, parecia razoável supor que essa fosse a razão pela qual o relatório nunca foi plenamente divulgado nem seguiu. No entanto, o relatório secreto soviético é, provavelmente, um dos documentos mais significativos da história recente e deveria ser reimpresso milhões de vezes. Cópias deveriam ser enviadas a todos os juristas internacionais e a todos os políticos responsáveis. Ele permanece como uma terrível acusação referente a um crime hediondo — um ato flagrante de genocídio cometido em tempos de paz contra prisioneiros de guerra indefesos — e constitui um dos capítulos mais sombrios dos séculos recentes.

Aqui, então, o texto do Relatório: 

Secreto!

União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Comissariado do Povo para

Assuntos Internos.

Quartel-General do NKVD.

Região de Minsk.

(Departamento)

10 de junho de 1940

Para: O Quartel-General

do NKVD em Moscou.

Relatório Oficial

Por ordem do Quartel-General do NKVD, datada de 12 de fevereiro de 1940, procedeu-se à liquidação dos três campos de prisioneiros de guerra poloneses situados nas regiões das cidades de Kozielsk, Ostashkovo e Starobielsk. A operação de liquidação dos três campos mencionados foi concluída em 6 de junho daquele ano. O camarada Burjanoff, destacado da Administração Central, foi designado para chefiar a operação.

Nos termos da ordem supracitada, o campo de Kozielsk foi o primeiro a ser liquidado pelas forças de segurança do Quartel-General do NKVD em Minsk, na área da cidade de Smolensk, durante o período entre 1º de março e 3 de maio daquele ano. Como forças de segurança, foram empregadas tropas territoriais, incluindo efetivos do 190º Regimento de Rifle.

A segunda ação prevista na referida ordem foi realizada na área da cidade de Bologoye pelas forças de segurança do Quartel-General do NKVD em Smolensk, e contando também com a cobertura de tropas do 129º Regimento de Rifle (Velikiye Luki); a operação foi concluída em 5 de junho daquele ano. Ao Quartel-General do NKVD em Kharkov foi confiada a execução da terceira liquidação, referente ao campo de Starobielsk. Esta foi realizada na área do assentamento de Dergachi, com o auxílio de forças de segurança do 68º Regimento de Infantaria Ucraniano (tropas territoriais), em 2 de junho. Neste caso, a responsabilidade e a liderança da ação foram atribuídas ao Coronel do NKVD B. Kutschov.

Uma cópia deste relatório está sendo enviada simultaneamente aos Generais do NKVD Raichmann e Saburin, para atenção deles.

Chefe de Organização da Administração

do NKVD, região de Minsk:

TARTAKOW.

Assim, se o relatório for autêntico (e que razão há para supor que não o seja?), o enigma está resolvido.

4.254 prisioneiros poloneses foram fuzilados em Katyn, 3.841 em Dergacki, perto de Kharkov, e 6.376 perto de Bologoye — um total de 14.471 — e nenhum deles recebeu sequer uma parcela de justiça, nem ninguém pagou pelo que quer que fosse por esse crime ignobilmente covarde!

{Imagem acima, da esquerda para direitaWładysław Anders (1892-1970) e Władysław Eugeniusz Sikorski (1881-1943) em visita oficial na URSS em 1941, recebidos por Josef Stalin (1878-1953) e Viatcheslav Molotov (1890-1986). Os oficiais poloneses mortos pelos soviéticos era então um crime atribuído aos alemães: “Stalin e Molotv explicando para os generais Sikorski e Anders que os oficiais ‘faltando serão achados.” (Louis FitzGibbon, KATYN MASSACRE, Corgi Books, Londres, 1971, impressão 1977, ilustração).}

Neste momento, em setembro de 1979, nós aproximamo-nos do quadragésimo aniversário da invasão soviética da Polônia; uma invasão que levou à deportação de um milhão e meio de poloneses para o leste, dentre os quais a elite foi selecionada e brutalmente assassinada. Parece um momento oportuno para exigir, mais uma vez, um pronunciamento internacional sobre o massacre de Katyn, pois uma coisa é certa: o caso jamais morrerá enquanto tal pronunciamento não for feito e os perpetradores não forem condenados. Tampouco a história estará completa enquanto esses milhares de desaparecidos não forem restituídos ao seu devido lugar nela. É um dever colocar essa assunto do modo certo. Ninguém pode trazer os mortos de volta, mas, pelo menos, este capítulo terrível não deve mais ser ocultado, como tem sido — para a eterna vergonha da consciência humana. Eu apelo, portanto, por uma nova investigação nos próximos doze meses, para que o ano de 1980 — quadragésimo aniversário do Crime de Katyn — possa gerar, como fruto, um despertar do desejo público pela Verdade, tal como irá conduzir ao julgamento que falta neste caso. Esse apelo por justiça deveria partir, idealmente, de um país que há tanto tempo preza a Liberdade e a justiça: os Estados Unidos da América.

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 Continua...

Fonte: Katyn Massacre — ‘The Lost 10,000’, por Louis FitzGibbon, The Journal for Historical Review, Vol.1, Nº 1, Spring 1980.

https://ihr.org/journal/v01p-31_fitzgibbon

Sobre o autor: Louis Theobald Dillon FitzGibbon (1925-2003) foi um oficial naval inglês, pesquisador e ativista humanitário. Seu trabalho após o serviço na marinha focaram na denúncia de crimes de guerra soviéticos no Ocidente e na defesa de refugiados e minorias. Ele exerceu o cargo de Secretário-Geral do Conselho Britânico para Auxílio aos Refugiados (British Council for Aid to Refugees). Ele também realizou diversas missões na África Oriental a serviço do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, atuando especialmente em questões da Somália. Seus esforços de pesquisa e pressão pública são amplamente creditados por forçar o governo soviético posteriormente admitir oficialmente a culpa pelos crimes de Katyn. Ainda, ele foi um dos idealizadores e secretário honorário do comitê responsável pela construção do Monumento de Katyn no cemitério de Gunnersbury, em Londres, inaugurado em 1976. Entre seus escritos estão: Katyn: A Crime without Parallel, 1971; The Katyn Cover Up, 1972, Unpitied and Unknown, 1975; Katyn: Triumph of Evil, 1975; The Betrayal of the Somalis, 1982; The Evaded Duty, 1985.

Embora os fatos sobre o massacre estejam hoje bem estabelecidos, durante a década de 1970 seus esforços em prol da justiça e da verdade histórica foram considerados controversos, pois muitas pessoas ainda endossavam a alegação das potências Aliadas, feita durante a Segunda Guerra Mundial, de que os hediondos assassinatos do período de guerra haviam sido perpetrados por autoridades alemãs.

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