sábado, 16 de março de 2019

Cristianismo – uma ruptura total ou parcial com o judaísmo? - Parte 2 - Por Mykel Alexander

Continuação da primeira parte: Cristianismo – uma ruptura total ou parcial com o judaísmo? - Parte 1 - Por Mykel Alexander

Mykel Alexander
O Evangelho de João: quem escreveu? Conserva tal livro teor judaico?

Como o ponto de partida da investigação se o cristianismo é ou não uma ruptura com o judaísmo veio de uma passagem do Evangelho de João, 4,22 “Porque a salvação vem dos judeus.”,  e após termos visto que o teor de valoração dos judeus como ‘povo eleito’ de Deus foi um recurso central na argumentação cristã contra o passado dos demais povos, é necessário agora examinar o contexto deste evangelho.

            A palavra evangelho quer dizer ‘Boa Nova’, de modo que a fim de facilitar a catequese, as principais mensagens atribuídas à Jesus foram reunidas por temas comuns, sendo que os narradores especializados na propagação da 'Boa Nova' vieram a ser conhecidos como ‘evangelistas’, os quais difundiam a mensagem cristã através da repetição oral dos pontos principais da doutrina atribuída à Jesus, e somente depois esta tradição oral foi vertida em escritos (École Biblique, p. 1689). Os três primeiros evangelhos, Marcos, Mateus e Lucas, por terem muitas semelhanças entre si, se diz que podem ser vistos sob o mesmo olhar, daí o termo sinótico (do grego sunóptikós – ‘que permite ver o conjunto em um só golpe de vista’[6]). O Evangelho de João é considerado o quarto evangelho e, se é semelhante aos três primeiros nas generalidades, por outro lado é diferente em muitas questões. Todavia, uma questão de elaboração bíblica já surgia nos primórdios da elaboração dos evangelhos:
“[...] os evangelhos escritos por Marcos, Mateus e Lucas não teriam recebido complementos, até modificações mais ou menos profundas, entre o momento em que foram compostos e o momento em que foram definitivamente recebidos nas Igrejas?[7]” (École Biblique, p. 1691).
            Os principais testemunhos dos Pais da Igreja sugerem que os quatro evangelhos estavam já constituídos como conhecemos na primeira metade do século II d.C. (École Biblique, pp 1691-1692), contudo os estudos modernos e contemporâneos encontram muitos problemas para emitir precisões de fontes e autorias dos evangelhos, principalmente pela relativa escassez de historicidade destas escrituras. Os eruditos da edição contemporânea da Bíblia de Jerusalém afirmam que os textos sinóticos possuem a “garantia de testemunhas oculares”, cuja preocupação não era rigor histórico, mas missionário, e os evangelistas “falavam para converter e edificar, inculcar e esclarecer a fé, defende-la contra os adversários”, “mas fizeram isso com o auxílio de testemunhos verídicos, garantidos pelo Espírito [...], exigidos tanto pela probidade de sua consciência quanto pela preocupação de não se tornar presa de refutações hostis.” (École Biblique, p. 1693). Existe, portanto, muita dificuldade para se precisar os autores das escrituras bíblicas, ao mesmo tempo uma pretensão, por parte das autoridades cristãs, de que os escritos eram influenciados pela força divina representada na concepção cristã como Espírito Santo.

            O cristão alega que ao seguir Jesus, ele segue uma linha de ensinamentos que rompe com o judaísmo. Todavia, há passagens tanto dos evangelhos como dos pais da Igreja que exaltam a tradição judaica como certa e a dos demais povos como erradas, impregnadas por forças do mal, conforme exposta acima. Mas mesmo concedendo que tais escrituras cristãs tivessem o auxílio de uma força divina, contudo, levanta-se a questão, estariam imunes às falsificações de impostores infiltrados na Igreja, desde sua etapa inicial de formação? E entre impostores ou falsificadores estariam judeus ou simpatizantes do judaísmo que tentariam inserir passagens que diminuíssem a ruptura que possa realmente ter ocorrido entre cristãos e judeus nos primórdios do cristianismo, especialmente nos primeiros cem anos?

O cristianismo como instituição que se consolidou no Ocidente e em algumas outras regiões, não procede de uma concepção extremo-oriental, nem indo-europeia, nem mesoamericana e nem africana. No que toca a visão geral é ainda mantida a concepção de que todos os povos só têm salvação vinda do tronco original judaico iniciadas com as alegadas alianças de Deus com Abraão e depois com Moisés, sendo que a diferença é que para o judeu a autoridade vem diretamente e unicamente das escrituras judaicas rabínicas, enquanto para os cristãos a salvação vem das escrituras testamentárias, que narram a suposta nova aliança de Deus com a humanidade através de Jesus, que seria o início de uma nova etapa. Contudo, os fatos no que tocam o período anterior à Jesus conservam no cristianismo toda a narrativa judaica intacta, conforme já foi exposto, especialmente em Santo Agostinho, se não o maior nome cristão da antiguidade, certamente ocupa a posição de proeminência junto à outros defensores do cristianismo como Justino de Roma (100-165 d.C.), Irineu de Lion (130-202 d.C) e Tertuliano de Cartago (160-220 d.C.).

Chega-se aqui a outro pondo fundamental. De qual parte da narrativa judaica do Antigo Testamento procede a origem do cristianismo? O Novo Testamento recorre como fundamento para sua alegada profecia da vinda de um “salvador” no mais judaico, no sentido de ‘povo eleito’, dos livros do Antigo Testamento que é o Deuteronômio.

Em Deuteronômio 18,15 e 18,18 é registrada a promessa da vinda de um profeta:
Iahweh teu Deus suscitará um profeta como eu no meio de ti, dentre os teus irmãos, e vós o ouvireis.” (Deuteronômio, 18,15).
Vou suscitar para eles um profeta como tu, no meio dos sus irmãos. Colocarei as minhas palavras em sua boca e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe ordenar.” (Deuteronômio, 18,18)|.
            Segundo Mollat et al (p.1835) o autor do Evangelho de João conecta a vinda de Jesus diretamente ao Deuteronômio, incluindo especialmente às duas passagens acima expostas:
“Essa promessa se realizou em Jesus de Nazaré. Tal convicção subtende todo o evangelho de João e comanda todo os seus temas maiores. Jesus é, não um profeta ordinário, mas o profeta por excelência [João 6,14; João 7,40-52], que alimenta o povo de Deus como fizera Moisés durante o êxodo [João 6,5-13]. Não é João Batista que é o profeta por excelência [João 1,21], mas Jesus, a respeito do qual Moisés tinha escrito na Lei [João 1,45; João 5,46; que remontam à Deuteronômio 18, 15 e 18,18]. Para salientar isso o evangelista põe nos lábios de Jesus palavras que se referiam a Moisés no AT [João 12,48-50; João 8,28-29; João 7,16-17; remontando ao Antigo Testamento em Deuteronômio 18,18-19; Números 16,28; Exodo 3,12, Exodo 4,12.]”
E em que passagem do Evangelho de João se recorre às profecias do Antigo Testamento? Nas passagens abaixo onde o autor deste evangelho coloca as seguintes palavras diretamente na boca de Jesus e na das testemunhas da narrativa:
Se crêsseis em Moisés, havereis de crer também em mim, porque foi ao meu respeito que ele escreveu. Mas se não credes em seus escritos como crereis em minhas palavras?” (João 5, 46-47). [Destaque em negrito da minha autoria].

Filipe encontra Natanel e lhe diz: ‘Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, o filho de José, de Nazaré.’” (João 1,45).

Vendo o sinal que ele [Jesus] fizera, aqueles homens exclamavam: ‘Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo’” (João 6,14).
Alguns entre a multidão, ouvindo essas palavras, diziam: ‘Esse é, verdadeiramente, o profeta!’”(João 7,40)
Também, Mollat et al. (p. 1835) observa que Jesus é comparado no Evangelho de João a um novo Moisés[8], e que:
“[...] toda a sua vida [a de Jesus] é definitivamente o cumprimento das grandes figuras messiânicas do Antigo Testamento.” (Mollat et al., p. 1840).
Não é de pouca importância a realidade de que os apóstolos eram de origem judaica, e tais vínculos não foram dissolvidos completamente, como iremos ver, claro, nos detendo no Evangelho de João, o qual é o que contém a passagem “a salvação vem dos judeus”, e investigando suas características, as quais evidenciam fortíssimas influências judaicas em todos os sentidos.

           Mas quem escreveu o Evangelho de João? Como mencionado anteriormente o Evangelho de João é admitido como o último a ser escrito, posterior aos de São Mateus, São Marcos e São Lucas, e um fato que o cristão em geral não sabe, é que o autor do Evangelho de João é anônimo.

Robert Henry Lightfoot, acadêmico e teólogo de Oxford durante a primeira metade do século XX, explica que desde o século II d.C. a autoria do Evangelho de João tem sido atribuído a uma testemunha ocular dos ensinamentos de Jesus, um dos originais doze apóstolos, João o filho mais jovem de Zebedeu, mas que, contudo, no próprio Evangelho de João não se identifica que o autor seja este João filho de Zebedeu. Outro ponto importante é que o João, o leigo filho de Zebedeu, descrito em Atos 4,23 não corresponde ao tipo de conhecimento que é exposto neste evangelho. Lightfoot afirma que segundo algumas tradições iniciais, o autor de João seria um indivíduo que teria concluído um trabalho que representava o esforço doutrinário e literário não de uma pessoa, mas de um grupo todo. O conteúdo de João, diz Lightfoot, conjuga vários componentes além do rabínico, tais como gnosticismo, conceitos judaico-helênicos, além de conter fatos históricos que foram se acumulando nos evangelhos sinóticos, isto é, Marcos, Mateus e Lucas, que precederam João (Lightfoot, pp 1-6). Lightfoot conclui da seguinte maneira a questão da autoria do Evangelho de João:
“Pois enquanto nós temos algum conhecimento confiável sobre João, o filho de Zebedeu, nós não temos nada sobre João o Presbítero [um personagem obscuro do início do cristianismo também considerado como possível autor] ou qualquer outra figura a quem a autoria tenha sido assinalada.” (Lightfoot, p.7).
Eis então uma surpresa para a grande maioria dos cristãos, o João Evangelista que comumente é admitido ser o João filho de Zebedeu, na realidade carece de qualquer evidência sobre sua identidade, de fato.

Descartada opção de João filho de Zebedeu, o leigo pode pensar que o a autoria do Evangelho de João seja então João Batista, que precedeu Jesus. No entanto tal opção é imediatamente descartada uma vez que há a decisiva constatação de que o Evangelho de João possui fatos posteriores a morte do próprio João Batista

O fato é, explica Juan Mateos (pp 239-240), falecido membro do Instituto Bíblico de Roma e especialista em textos joaninos, que prevalece a posição que não se conhece a identidade propriamente do autor desse evangelho. Explica Antonio Piñero (pp 395-396), da Universidad Complutense de Madrid, que o próprio Evangelho de João apresenta seu autor em seu epílogo, capítulo 21, como o ‘discípulo amado’ (João 21, 20-24), o qual em passagens anteriores já era mencionado (João 13, 23-26; João 19, 25-27; João 20, 2-10).

Há ainda uma outra denominação para o autor deste evangelho, a saber, a de o “outro discípulo” (João 18, 15-16).

Para além de tudo isso, analisa Piñero, não faria sentido manter anonimato para referir-se à João na indicação da autoria do Evangelho de João no epílogo deste próprio evangelho (Piñero p. 396). De fato, o autor é tido como anônimo e a elaboração de seu evangelho possui acumulado conhecimento dos demais evangelhos e polêmicas anteriores, desenvolvidas no decorrer do século I d.C.

Como este evangelho é estimado ter sido concluído em 100 d.C. e o próprio ‘discípulo amado’, sendo um contemporâneo de Jesus, estaria com aproximadamente cem anos de idade na época da redação final do texto, por isso especula-se até, com lógica, que o autor do Evangelho de João, que é anônimo, seja não o próprio ‘discípulo amado’ mas sim algum membro da linhagem mais jovem de seguidores deste ‘discípulo amado’ (Piñero, p. 397),

         Todavia, se por um lado o nome do autor do Evangelho de João ainda não é conhecido, por outro lado muitas características desse autor podem ser observadas.

            Em relação ao contexto da época, o autor deste evangelho deparava-se com duas tendências principais de judaísmo, o rabínico e o helenístico, respectivamente vinculados com o Antigo Testamento e a filosofia grega. Todo o transfundo deste evangelho, afirma Juan Mateos, mesmo sem fazer uso de citações, faz uso de símbolos do Antigo Testamento, como cordeiro (João 1,29; João 1,36) e pastor (João 10, 1 - 16). Elementos nitidamente rabínicos, afirma Mateos, também estão presentes, inclusive uma questão fundamental para o conceito tão caro ao abraâmismo, a alegada unidade existente entre Deus e Israel (Mateos, pp 222-223).

            Mollat et al. também corrobora o relevante influxo judaico no Evangelho de João:
“Todo o evangelho é cheio de minúcias concretas que provam que seu autor estava a par dos costumes religiosos judaicos, assim como da mentalidade rabínica ou da casuística em uso pelos doutores da Lei [Antigo Testamento].” (Mollat et al., p. 1840).
            Há inclusive o uso da numerologia na composição de tal evangelho (Mollat et al., p. 1837). Claro que o simbolismo do número era algo tradicional e não exclusivamente judaico, inclusive no século VI a.C. os pitagóricos fizeram desenvolvimentos que se desdobraram em proporções mais que surpreendentes em todo saber ocidental, levadas a frente, por exemplo, por Platão, mas no caso deste evangelho a numerologia é bem mais provável ser oriunda dos estudos judaicos da cabala.

            Por outro lado, há no Evangelho de João componentes que podem ser admitidos como platônicos, tais como o contraste entre acima e o abaixo (João 8,23; João 18,36) ou o conceito de verdadeiro (João 1,9; João 6,32; João 15,1) que opõe duas classes de realidades. Observa Mateos que o uso da palavra logos, de função central na concepção de mundo dos filósofos estoicos, é relevante neste evangelho, porém não sendo suficiente para por este evangelho e o estoicismo em coincidência da concepção do que é o ser humano. Todavia, o conteúdo da obra é claramente judaico, e o valor grego é mais o do uso linguístico corrente na época necessário para melhor difusão das ideias cristãs do que da visão de mundo grega propriamente. (Mateos, p. 224).

            Quanto a datação da composição deste evangelho, existem duas posições, uma para os últimos anos do século I d.C., adotada pela maioria, outra para cerca de 66-70 d.C., adotada pela minoria. O Evangelho de João possui algumas peculiaridades, tais como pertencer a uma tradição mais antiga e independente dos outros três evangelhos, os sinóticos; possuir contatos com uma tradição aramaica original; somente João utiliza o termo Messias (João 1,41; João 4,25) que é recorrente no Antigo Testamento; e, bem importante, apresenta contato com a mais rigorosa tradição judaica, em especial o Tratado do Sinédrio, que faz parte do Talmud (Mateos, p. 227), este sendo o conjunto de escritos que recolheu as condutas centrais do judaísmo no decorrer do tempo. 

             Vamos nos deter agora por um momento e fazer uma pergunta na qual é necessária uma reflexão.

Quantos cristãos sequer têm isso em consideração? Pode à primeira vista parecer um detalhe de mera minúcia técnica ou de erudição, mas o que foi exposto até agora é contundente para mostrar o quão sujeito ao capricho de autores, que hoje são anônimos, estiveram as escrituras bíblicas já nos dois primeiros séculos do cristianismo.

Não é incomum que o leigo da história e da Bíblia, já fanatizado, saia por aí dizendo que a Bíblia foi escrita por Deus, fantasiando em sua cabeça uma situação na qual Deus dite a um escriba um texto que siga já completado e acabado para os copistas fazerem as bíblias, as quais seriam distribuídas ou vendidas durante a antiguidade, e de tal maneira que o fanático ou o leigo pressupõem que as escrituras não são alvos de alterações feita por pessoas com interesses e intenções diversas. Mas a realidade mostra que desde o início as escrituras bíblicas, tanto do Antigo Testamento[9] como do Novo Testamento eram alvos de alterações, interpolações e falsificações.

            É constatável, necessita-se insistir, que as pessoas não costumam imaginar que a Bíblia e mesmo os evangelhos são composições que reúnem textos escritos em períodos diversos, por pessoas diversas, por grupos diversos, e com interesses diversos devido à motivos diversos, devido a várias correntes doutrinárias e ideologias diversas, tendo passado tanto por sinédrios judaicos desde antes de Jesus como por concílios da Igreja depois de Jesus. Acrescente-se ainda que os escritos bíblicos antes de serem textos escritos, foram transmitidos oralmente. Estes processos num todo oferecem pontos frágeis para deformar em muito a mensagem original do autor de um dado texto bíblico.

Na própria redação final do Evangelho de João foi identificado, no capítulo 21, que o texto sofreu alterações:
“A propósito do capítulo 21 se tem indicado a possível presença de outra mão na redação definitiva do Evangelho, a que tem chegado até nós. Esta ‘segunda mão’ parece admitida por todos no que respeita ao adicionado no ‘apêndice’ ou capítulo 21. Mas, ademais, a crítica costuma atribuir à mão que suplementou este último capítulo certos retoques e correções no corpo do Evangelho [...]” (Piñero, p. 397).
            Mollat et al. também admite que partes do Evangelho de João são inconciliáveis para serem escritos por uma única pessoa (Mollat et al, p. 1837).

E uma observação do mesmo Mollat et al. nos traz ao início deste estudo, o qual questiona o sentido da passagem do Evangelho de João, 4,22, “Porque a salvação vem dos judeus.”, passagem a qual, penso eu, admitindo que Jesus teria sido uma ruptura com o judaísmo, não faz sentido dentro do que se entende por ruptura, e dentro de um contexto mais amplo que irei tratar mais adiante, da disputa entre judeus e romanos, concluo que é muito possível ter ocorrido no Evangelho de João a inserção da passagem “Porque a salvação vem dos judeus” para poder colocar os cristãos e a vasta diversidade de pagãos vivendo no Império Romano ao lado dos judeus e não dos romanos.

Vamos ver a observação de Mollat et al., este estudioso das escrituras joaninas, sobre a personalidade do último redator do Evangelho de João:
“[...] era judeu cristão que se esforçou para rejudaizar o evangelho por meio de retoques de amplitude menor.” (Mollat et al., p. 1838).
Interessante o termo utilizado por Mollat et al., ‘rejudaizar’, ou seja, poderia então ter havido uma ruptura entre cristãos e judeus em algum nível, possivelmente relevante, a qual depois, ao meu entender, conforme o cristianismo ganhava força, estaria sendo atenuada pelos judeus ou simpáticos do judaísmo ao inserirem passagens, através de interpolações, que fossem direcionadas aos pagãos e cristãos a não deixarem de considerar os judeus como o verdadeiro ‘povo eleito’, uma vez que para as pretensões judaicas, como iremos ver, de tomarem de Roma a posição de maior força do mundo, seria preciso ter todo tipo de apoio.

Dando consistente respaldo à esta leitura histórica estão mais duas considerações.

A primeira é pelo fato de que o cristianismo surgiu com um dentre vários outros movimentos messiânicos judaicos, cujos adeptos estavam impregnados da expectativa judaica de domínio universal por serem os judeus o alegado ‘povo eleito de Deus’, e ruptura entre judeus e cristãos possivelmente iniciada por Jesus não ocorreu de uma só vez, mas sim gradualmente, com as hostilidades judaicas aos cristãos tonando-se explosivas em cerca de 50 d.C., e havendo a exclusão dos cristãos da sinagoga ao redor de 85-90 d.C. (Mateos, p. 231).

A segunda é que no próprio processo de desenvolvimento do cristianismo a narrativa exclusivamente judaica do universo, da divindade, do mundo e dos povos, foi inevitável, pois ao mesmo tempo que as doutrinas cristãs se difundiam pela oralidade nos dois primeiros séculos da era cristã, os cristãos, por outro lado, enquanto ainda não possuíam em forma escrita o Novo Testamento, optaram como material escrito para seus estudos de formação unicamente o Antigo Testamento (Barrera, p. 276), dispensando todos escritos de outras tradições do mundo. É comum um católico não desatento advertir que os atuais evangélicos dão demasiada importância ao Antigo Testamento em detrimento do Novo Testamento, mas, todavia, esquecem que os núcleos cristãos iniciais no que concerne a referências escritas, experimentaram aproximadamente dois séculos de doutrinação exclusiva no Antigo Testamento.

Portanto, chegamos a uma leitura histórica que evidencia durante a formação do cristianismo duas correntes se antagonizando, uma, a da ruptura do cristianismo com o judaísmo, outra, a da constante reconciliação do judaísmo com o cristianismo, que é melhor expressada pela afirmação de Mollat et al. usada para se referir aos ajustes e alterações no Evangelho de João, conforme exposto acima: ‘rejudaizar’ o evangelho.

Como iremos ver mais à frente, várias outras etapas importantes da formação do cristianismo tiveram como tema central de disputas o que podemos chamar como ‘rejudaização’, ‘continuidade entre judaísmo e cristianismo’, ‘unidade entre Antigo Testamento e Novo Testamento’, ‘manutenção do cristianismo como religião vinculada ao acordo de Abraão com Deus’.  




Notas


[6] Dicionário Houaiss, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição. Ver vocábulo sinóptico.

[7] Há mais de 2000 manuscritos gregos dos sinóticos em grego escritos em pergaminho, procedentes do 4º ao 14º século. Os testos utilizados para o estudo dos sinóticos ou para a tradução para as línguas modernas são os dois mais antigos do mencionado apanhado, o que é provavelmente do mosteiro de Santa Catarina do Sinai (atualmente no Museu Britânico) e o Vaticano (atualmente na Biblioteca Vaticana). Ambos são datados de meados do século IV (École Biblique, p. 1691).

[8] Isto é uma insistência de vincular o cristianismo com o judaísmo no Evangelho de João em que é atribuído à Jesus as seguintes passagens proferidas para os judeus:

Moisés vos deu a Lei? No entanto nenhum de vós pratica a Lei. Por que procurais matar-me?” (João 7,19).

Se um homem é circundado em dia de sábado para que não se transgrida a Lei de Moisés, por que vos irais contra mim, por ter curado um homem todo no sábado?” (João 7,23)

[9] Ver estudo sobre falsificações do Antigo Testamento em Rusell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch, editor T&T Clark, 2006.

Ver também Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce



          
Bibliografia:

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Simon Dubnow, Manual de la Historia Judia – (desde los origenes hasta nuestros dias), Editorial S. Sigal, 4ª edição, Buenos Aires, 1955. Tradução de Salomon Resnick.

The Jewish Encyclopedia – 12 volumes (editado por Isidore Singer), Kitav Publishing House, Inc, Nova Iorque, 1901-1906.

Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus, 1ª edição, 12 ª reimpressão, São Paulo, 2017.

Franz Altheim, Historia de Roma – 3 volumes, Editora Uteha, Cidade do México, 1961/1964. Traduzido por Carlos Gerhard da 2ª edição original alemã Römische Geschichite, Editora Walter de Gruyter, Berlim.

Christopher P. Jones, Between pagan and christian, Harvard University Press, Massachusetts, 2014.

Julio Trebolle Barrera, A Bíblia judaica e a Bíblia Cristã – Introdução à história da Bíblia, Editora Vozes, Petrópolis, 1999, 2ª Edição. Traduzido da edição espanhol por Pe. Ramiro Mincato.

Antonio Piñero, Guía para entender el Nuevo Testamento, Editorial Trotta, Madrid, quarta edição, 2011.

Shlomoh Ben-Ami, Fuentes del Cristianismo, Antonio Piñero (editor), Ediciones El Almendro, Madrid, 1993. Capítulo “Palestina em el primer siglo de la era comum.”

Aaron Oppenheimer, Fuentes del Cristianismo, Antonio Piñero (editor), Ediciones El Almendro, Madrid, 1993. Capítulo “Sectas judias en tiempos de Jesus: fariseos, saduceos, los ‘amme ha’aretz’.”

Juan Mateos, Fuentes del Cristianismo, Antonio Piñero (editor), Ediciones El Almendro, Madrid, 1993. Capítulo “El Evangelio de Juan.”

Robert Henry Lightfoot, St. John Gospel – a commentary, Clarendon Oxford Press, Oxford, 1957.

John J. Clabeaux, ‘Abraham in Marcion’s Gospel and Epistles: Marcion and the Jews’ em When Judaism & Christianity Began – Essays in Memory of Abthony J. Saldarini – Volume One –Christianity in the Beginning – (editado por Alan J. Avery-Peck, Daniel Harrington & Jacob Neusner), Supplements to the Journal for the Study of Judaism, vol. 85, Editora Brill, Leiden . Boston, 2004.

José Montserrat Torrents, Los Gnósticos, vol. 1/2, Editorial Gredos, Madrid, 1983.

Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, Publicações Quipu, Lisboa, 1ª Edição, 1998. (especialmente o capítulo ‘O secretismo acerca dos vândalos’.)

Gustave Bardy, La Conversion al Cristianismo durante los primeiros siglos, Ediciones Encuentro, Madrid, 1990. Traduzido da edição francês, La conversion au Christianisme durant les premiers siècles, 1961, Desclée de Brower, Paris.

Mircea Eliade, Mito e Realidade, Editora Perspectiva, São Paulo. 6ª edição, 4ª reimpressão, 2000. Traduzido da edição inglesa de 1963 por Pola Civelli.

Mircea Eliade, História das Crenças e das Ideias Religiosas – 3 volumes, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2011. Tradução do original em francês de 1978 por Roberto Cortes Lacerda.

Andrew Joyce, The Occidental Observer (07/01/2017), Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História. Traduzido por Mykel Alexander.

M. Tulio Cicerón, Discursos III, Editorial Gredos, Madrid, 1991. Tradução do latim, introdução e notas por Jesús Aspa Cereza.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Volume II (Livro IX a XV), Editora Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 2000. Tradução por J. Dias Pereira, a partir do original latino intitulado De Civitate Dei baseada na edição de B. Dombart e A. Kalb.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Volume III (Livro XV a XXII), Editora Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 2000. Tradução por J. Dias Pereira, a partir do original latino intitulado De Civitate Dei baseada na edição de B. Dombart e A. Kalb.

Dicionário Houaiss, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição.

The Cambridge Dictionary of Judaism & Jewish Culture, Cambridge University Press, Nova Iorque, 2011, (editado por Judith R. Baskin, Universidade de Oregon).   




Sobre o autor: Mykel Alexander é licenciado em História (Unimes), Bacharel em Farmácia (Unisantos) e está no último semestre de licenciatura em Filosofia (Unimes).
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Relacionado, leia também:

Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce

Controvérsia de Sião - por Knud Bjeld Eriksen

Politeísmo e Monoteísmo - Por Mykel Alexander

terça-feira, 12 de março de 2019

Expondo a agenda Líbia: uma olhada mais de perto nos e-mails de Hillary - por Ellen Brown


Continuação do artigo: Líbia: trata-se do petróleo ou do Banco Central? - Por Ellen Brown

Ellen Brown

Os críticos há muito questionaram por que a intervenção violenta foi necessária na Líbia. Os e-mails de Hillary Clinton recentemente publicados confirmam que eram menos sobre proteger as pessoas de um ditador do que sobre dinheiro, serviços bancários, e a prevenção da soberania econômica africana.

            A breve visita da então Secretária de Estado Hillary Clinton na Líbia em outubro de 2011 foi referida pela mídia como uma “volta da vitória”. “Nós viemos, nós vimos, ele morreu!” ela cantou em uma entrevista de vídeo na CBS[1] ao ouvir sobre a captura e brutal assassinato do líder líbio Muammar el-Gaddafi.

            Mas a volta da vitória, escreve Scott Shane e Jo Becker no New York Times[2], foi prematura. A Líbia foi relegada a segundo plano pelo Departamento de Estado, “conforme o país dissolveu-se no caos, levando à guerra civil que iria desestabilizar a região, alimentando a crise de refugiados na Europa e permitindo o {chamado} Estado Islâmico estabelecer um abrigo líbio que os Estados Unidos estão agora desesperadamente conter.”

            A intervenção da OTAN/EUA foi alegadamente empreendida sobre bases humanitárias, após relatos de atrocidades em massa; mas as organizações de direitos humanos questionaram as alegações[3] depois de encontrarem falta de evidência[4]. Hoje, contudo, atrocidades verificáveis estão ocorrendo. Conforme Dan Kovalik escreveu no Huffington Post[5], “a situação dos direitos humanos na Líbia é um desastre, conforme ‘milhares de detidos [incluindo crianças] definham nas prisões sem revisão judicial adequada,’ e ‘sequestros e assassinatos seletivos são desenfreados’.”

            Antes de 2011, a Líbia tinha alcançado independência econômica, com sua própria água, sua própria comida, seu próprio petróleo, seu próprio dinheiro, e seu próprio banco estatal. Ela havia surgido sob Gaddafi a partir de uns dos mais pobres países para um dos mais ricos países na África. Educação e tratamento médico eram gratuitos[6]; ter um lar era considerado um direito humano; e os líbios participaram em um sistema original de democracia local. O país ostentava o maior sistema de irrigação, o projeto Great Man-made River, o qual trouxe água do deserto para as cidades e áreas costeiras; e Gaddafi estava embarcando num programa para espalhar este modelo através da África.

            Mas isto foi antes das forças da OTAN/EUA bombardearem o sistema de irrigação[7] e causarem o caos no país. Hoje a situação é tão terrível que o presidente Obama tem de pedir aos seus conselheiros para elaborarem opções incluindo uma nova frente militar na Líbia[8], e o Departamento de Defesa está reportadamente em prontidão com ‘o pleno espectro de operações militares requeridas.”

A volta da Secretária de Estado foi de fato prematura, se o que nós estamos falando é sobre o objetivo de intervenção humanitária declarado oficialmente. Mas seus e-mails recém-divulgados revelam outra agenda por trás da guerra da Líbia; e este, ao que parece, foi alcançado.


{Nicolas Sarkozy, que tem ancestralidade judaica e é leal à Israel, foi decisivo para minar e destruir a Líbia de Gaddafi}

Missão cumprida?

            Dos 3,000 e-mails liberados pelo servidor de e-mail privado de Hillary Clinton no final de dezembro de 2015, aproximadamente um terço foi de seu confidente próximo Sidney Blumenthal, o assessor de Clinton que ganhou notoriedade quando ele testemunhou contra Monica Lewinsky. Um destes e-mails[9], datado de 2 de abril, diz em parte:
O governo de Gaddafi detém 143 toneladas de outo, e similar quantidade em prata... Este ouro foi acumulado antes da rebelião atual e foi intencionado ser usado para estabelecer uma moeda pan-africana baseado no dinar dourado da Líbia. Este plano foi designado para fornecer aos países africanos francófonos uma alternativa para o franco francês (CFA).
            Num “comentário da fonte,” o e-mail original não mais secreto adiciona:
De acordo com os indivíduos conhecedores esta quantidade de ouro e prata é avaliada em mais que US$ 7 bilhões. Oficiais da inteligência francesa descobriram este plano logo após o início da atual rebelião começar, e isto foi um dos fatores que influenciaram a decisão do Presidente Nicolas Sarkozy a comprometer a França a atacar a Líbia. De acordo com esses indivíduos os planos de Sarkozy são conduzidos pelas seguintes questões:
Um desejo de ganhar maior parcela da produção de petróleo da Líbia, 
Aumentar a influência francesa no norte da África, 
Melhorar sua situação política interna na França, 
Fornecer aos militares franceses uma oportunidade de reafirmar sua posição no mundo,Abordar a preocupação de seus conselheiros sobre os planos de longo prazo de Gaddafi para suplantar a França como poder dominante na África francófona.
            Conspicuamente ausente é qualquer menção de preocupações humanitárias. Os objetivos são dinheiro, poder e petróleo.

{O judeu Sidney Stone Blumenthal, assessor dos Clinton, e Hillary, envolvidos na destruição do mais próspero Estado
africano, a Líbia de Muammar Gaddafi. Graças à investigação do FBI, evidências nos e-mails revelados explicitaram o interesse da globalização em destruir a Líbia usando o disfarce da palavra da moda: intervenção "humanitária".} 

Outras confirmações explosivas nos e-mails recentemente publicados são detalhadas pelo jornalista investigativo Robert Parry[10]. Eles incluem admissão de crimes de guerra rebeldes, de treinamento de operações especiais dentro da Líbia aproximadamente a partir do início dos protestos, e da Al Qaeda incorporada na oposição apoiada pelos EUA; Os temas chave da propaganda para intervenção violenta são reconhecidamente serem meros rumores. Parry sugere que esses podem ter se originado com o próprio Blumenthal. Eles incluem a bizarra alegação que Gaddafi tinha uma “política de estupro” envolvendo passar Viagra para suas tropas, uma acusação posteriormente levantada pela embaixadora dos EUA na ONU Susan Rice em uma apresentação na ONU. Parry pergunta retoricamente:
Então você acha que seria mais fácil para a administração do governo de Obama reunir apoio por trás desta “mudança de regime” explicando como o governo francês queria roubar a riqueza líbia e manter a influência neocolonial francesa sobre a África – ou iriam os americanos responder melhor aos temas de propaganda sobre Gaddafi distribuindo Viagra para suas tropas de modo que eles pudessem estuprar mais mulheres enquanto seus franco-atiradores atacavam crianças inocentes? Bingo!
    
Derrubando o esquema financeiro global

A tentativa ameaçada de Gaddafi para estabelecer uma moeda africana independente não foi considerada levemente pelos interesses ocidentais. Em 2011, Sarkozy supostamente chamou o líder líbio de uma ameaça à segurança financeira do mundo[11]. Como poderia este muito pequeno país de seis milhões de pessoas representar tal ameaça? Primeiro alguns antecedentes.

            São os bancos, não os governos, que criam a maior parte do dinheiro nas economias ocidentais, conforme o Bank of England recentemente reconheceu. Isso vem ocorrendo por séculos, através do processo chamado de empréstimo de “reserva fracionada.” Originalmente, as reservas eram em ouro. Em 1933, o presidente Franklin Roosevelt substituiu o ouro domesticamente com reservas criadas pelo banco central, mas o ouro permaneceu como moeda de reserva internacionalmente.

            Em 1944, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial foram criados em Bretton Woods, New Hampshire, para unificar globalmente este sistema financeiro criado por banco. Uma decisão do FMI disse que nenhum papel moeda poderia ter a base em ouro. Uma oferta de dinheiro criada privadamente como dívida a juros requer uma contínua fonte de devedores; e durante a seguinte metade do século, os mais desenvolvidos países iriam entrar em dívida com o FMI[12]. Os empréstimos vieram com restrições, incluindo políticas de “ajuste estrutural” envolvendo medidas de austeridade e privatização de ativos públicos.

            Depois de 1944, o dólar dos EUA negociou de forma intercambiável com o ouro como moeda de reserva global. Quando os EUA não mais estavam capazes de manter o dólar baseado em ouro, na década de 1970 fizeram um acordo com a OPEP para “basear” o dólar em petróleo, criando o “petrodólar”. Petróleo seria vendido somente em dólares americanos, os quais iriam ser depositados em Wall Street e outros bancos internacionais.

            Em 2001, insatisfeito com o valor cada vez menor que os dólares que a OPEP estava pagando por seu petróleo, o Iraque de Saddam Hussein quebrou o pacto e vendeu o dólar em euros. A mudança de regime seguiu rapidamente, acompanhada pela destruição generalizada do país.

            Na Líbia, Gaddafi também quebrou o pacto, mas ele fez mais do que vender seu petróleo em outra moeda.

            Assim estes desenvolvimentos são detalhados pela blogueira Denise Rhyne:
Durante décadas, a Líbia e outros países africanos tinha estado tentando criar um padrão ouro pan-africano. A Líbia de Gaddafi e outros chefes dos Estados africanos queriam uma independente “moeda forte” pan-africana. 
Sob a liderança de Gaddafi, as nações africanas tinham convocado ao menos duas vezes a unificação monetária. Os países discutiram a possibilidade de usar o dinar líbio e dirrã de prata como único dinheiro possível para comprar petróleo africano. 
Até a recente invasão dos EUA/OTAN, o dinar de ouro era emitido pelo Banco Central da Líbia (CBL). O banco líbio era 100% estatal e independente. Os estrangeiros tinham que passar pelo banco central da Líbia para fazer negócios com a Líbia. O Banco Central da Líbia emitiu o dinar, usando as 143,8 toneladas de ouro. 
A Líbia de Gaddafi (Presidente da União Africana de 2009) concebeu e financiou um plano para unificar a soberania dos Estados da África com uma moeda de ouro (Estados Unidos da África). Em 2004, um parlamento pan-africano (53 nações) estabeleceu planos para a Comunidade Econômica Africana – com uma única moeda de ouro até 2023. 
As nações africanas produtoras de petróleo estavam planejando abandonar o petro-dólar, e exigir pagamento de ouro por petróleo / gás.

Mostrando o que é possível

            Gaddafi tinha feito mais que organizar um golpe financeiro africano. Ele tinha demonstrado que independência financeira poderia ser alcançada; Seu maior projeto de infraestrutura, o Great Man – made River, estava transformando regiões áridas em um celeiro para a Líbia; e os 33$ bilhões do projeto estava sendo financiado sem juros nem dívida externa, através do próprio banco estatal da Líbia.

{Muammar al-Gaddafi: um dos maiores líderes do século XXI. O perfil dos grandes ditadores da humanidade:  liderança,
compromisso e dedicação ao Estado, e protegendo o povo contra os inimigos e tiranos da humanidade.} 


            Isso poderia explicar porque essa peça crítica de infraestrutura foi destruída em 2011. A OTAN não somente bombardeou a tubulação[13], mas finalizou o projeto bombardeando a fábrica que produz os tubos necessários para repará-la. A paralisação de um sistema de irrigação servindo até 70% da população dificilmente parece uma intervenção humanitária. Em vez disso, como o professor canadense Maximilian Forte colocou em seu livro altamente embasado Slouching Towards Sirte: Nato’s War on Libya and Africa[14]:
O objetivo da intervenção militar dos EUA era romper um padrão emergente de independência e uma rede de colaboração dentro da África que iria facilitar o aumento da autossuficiência africana. Isto está em desacordo com as ambições geoestratégicas e político econômicas das potências extracontinentais europeias, nomeadamente os EUA.
{Este é o resultado da intervenção "humanitária" dos globalistas no mais próspero país africano de então, a Líbia de Gaddafi. Foto do The New York Times }

Mistério resolvido

            Os e-mails de Hillary Clinton jogam luz em outro enigma observado pelos primeiros comentadores. Por que, dentro de semanas depois de iniciar o combate, os rebeldes montaram seu próprio banco central? Robert Wenzel escreveu[15] no The Economic Policy Journal em 2011:
Isto sugere que nós temos um pouco mais que um bando de rebeldes correndo por aí e que há algumas influências bastantes sofisticadas. Eu nunca ouvi falar de um banco central sendo criado em questão de semanas a partir de uma revolta popular.           
                 Tudo era altamente suspeito, mas como Alex Newman concluiu num artigo de novembro de 2011[16]:
Se a recuperação do banco central e o corrupto sistema monetário global estavam realmente entre as razões para a derrubada de Gadhafi... talvez nunca possa ser conhecido com certeza – ao menos não publicamente.
            Lá o assunto teria permanecido – suspeito, mas não verificado como muitas histórias de fraude ou corrupção – se não pela publicação dos e-mails de Hillary Clinton após uma investigação do FBI. Eles acrescentaram substancial peso nas suspeitas de Newman: violenta intervenção não se referia principalmente à segurança do povo. Era sobre a segurança dos bancos, dinheiro e petróleo globais[17]


Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander


Notas {obs. algumas notas não foram colocadas pois os endereços virtuais foram retirados}


[1] Fonte usada por Ellen Brown: ‘Clinton on Gaddafi: We came, we saw, he died’

[2] Fonte usada por Ellen Brown: “A New Libya, With ‘Very Little Time Left’”, por Scott Shane e Jo Becker, 27/02/2016, The New York Times.

[3] Fonte usada por Ellen Brown: “Amnesty questions claim that Gaddafi ordered rape as weapon of war”, por Patrick Cockburn, 24/06/2011, Independent.

[4] Fonte usada por Ellen Brown: “The Top Ten Myths in the War Against Libya”, por Maximilian Forte, 31/08/2011, Counter Punch.

[5] Fonte usada por Ellen Brown: “Clinton Emails on Libya Expose The Lie of ‘Humanitarian Intervention’”, por Dan Kovalik, 22/01/2016 e atualização em 22/01/2017, Huffington Post.

[6] Fonte usada por Ellen Brown: “Libya: From Africa’s Wealthiest Democracy Under Gaddafi to Terrorist Haven After US Intervention”, por Garikai Chengu, 20/10/2015, Counter Punch.

[7] Fonte usada por Ellen Brown: “War Crime: NATO Deliberately Destroyed Libya’s Water Infrastructure”, por Nafeez Ahmed, 30/05/2015, Truthout.

[8] Fonte usada por Ellen Brown: “Obama Readies to Fight in Libya, Again”, por Jack Smith, 05/02/2016, Counter Punch.

[9] Fonte usada por Ellen Brown: “Clinton Email Shows that Oil and Gold Were Behind Regime Change In Libya”, por George Washington, 09/01/2016, Zero Hedge.

[10] “What Hillary Knew about Libya”, por Robert Parry, 13/01/2016, Common Dreams.

[11] Fonte usada por Ellen Brown: “Gadhafi’s Gold-money Plan Would Have Devastated Dollar”, por Alex Newman, 11/11/2011, The New American.

[13]Fonte usada por Ellen Brown:  “War Crime: NATO Deliberately Destroyed Libya’s Water Infrastructure”, por Nafeez Ahmed, 30/05/2015, Truthout.

[14] Fonte usada por Ellen Brown: “In his Ceasefire review, Dan Glazebrook examines Maximilian Forte's withering indictment of liberal humanitarianism and its collusion in imperialist designs on Africa, as seen in NATO's Libya campaign of 2011.”, por Dan Glazebrook, 22/04/2013, Ceasefire.

[15] Fonte usada por Ellen Brown: “Libyan rebels form central bank”, por Robert Wenzel,  Economic Policy Journal.

[16] Fonte usada por Ellen Brown: “Gadhafi’s Gold-money Plan Would Have Devastated Dollar”, por Alex Newman, 11/11/2011, The New American.

[17] Nota do Tradutor Com Gaddafi a Líbia ocupava em 2010 a 54 ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano. É fundamental registrar que entre um ano e outro são poucos países que mudam de posição no ranking mundial, e ainda assim isso ocorre geralmente em uma ou duas posições, mas no caso da Líbia, de 2010 para 2011 ela desceu 10 posições após a alegada intervenção humanitária, e agora ocupa a 108ª posição, descendo desde a queda de Gaddafi surreais 54 posições.



http://hdr.undp.org/en/countries/profiles/LBY (consulta em 11/03/2019 - referente a setembro de 2018).


Desenvolvimento 1990 – 2017: http://hdr.undp.org/en/data



Sobre a autora: Ellen Brown é advogada e presidente do Public Banking Institute, http://PublicBankingInstitute.org . No último de seus onze livros, ela mostra como um cartel privado tem usurpado o poder de criar dinheiro do próprio povo, e como nós, o povo podemos obtê-lo de volta. Seus websites são: http://webofdebt.com e http://ellenbrown.com .


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Relacionado, leia também:

 Líbia: trata-se do petróleo ou do Banco Central? - Por Ellen Brown

Por que querem destruir a Síria? - por Dr. Ghassan Nseir

Migrantes: intervenções “humanitárias” geralmente fazem as coisas piores – Entrevista com Alain de Benoist

quinta-feira, 7 de março de 2019

Guillaume Faye 1949-2019 - Ex-príncipe herdeiro da Nova Direita Francesa


John Bruce Leonard
Editorial Arktos

É com grande tristeza que soubemos do falecimento esta noite (7 de março) de Guillaume Faye. Embora homens de seu calibre e coragem nunca podem viver tempo suficiente, seu nome não irá desaparecer com seu portador: Faye será lembrado por muito tempo na qualidade, visão, amplitude e vivacidade de suas palavras. Seu trabalho tem educado alguns dos melhores dos jovens de hoje, que podem vir a viver as catástrofes que ele anteviu e tentou nos alertar contra.

            Faye sacrificou muitas coisas, inclusive no fim sua própria saúde, pela futuro da Europa. Seu trabalho foi incansável e ele nunca poupou ele próprio. Então ele pode descansar em paz.

            Guillaume Faye nasceu em 1949 e recebeu um Ph.D. em Ciência Política do Institut d’estudes politiques de Paris. Ele foi um dos principais organizadores da Nova Direita Francesa GRECE (Groupement de recherche et d’etudes pour la civilisation europeenne) durante os anos da década de 1970 e 1980, e ao mesmo tempo cultivou sua carreira como um jornalista, particularmente nos noticiários revistas Figaro e Paris-Match. Em 1986 ele deixou o GRECE após entrar em desacordo com a direção do grupo, o qual ele achou que estava se tornando excessivamente acadêmico e menos engajado com os problemas reais confrontando a Europa. Por mais que uma década, ele trabalhou como locutor da estação de rádio francesa Skyrock, e no programa Telematin o qual ia ao ar na France 2 TV. Ele retornou ao campo da filosofia política em 1998 quando um número de seus novos ensaios foi coletado e publicado no volume Archeofuturism, o qual tinha também sido publicado em inglês pela Arktos. Desde então ele tinha produzido uma série de livros os quais têm desafiado e revigorado os leitores da Europa e América do Norte.

Guillaume Faye

            Seus livros têm se tornado leitura obrigatória para os direitistas e identitários europeus, indiferente se eles concordam ou discordam com suas ideias. Durante a última década, Faye esteve acostumado à controvérsia, tendo publicado livros sobre imigração, o ‘choque das civilizações’, e a questão da relação da direita com o islamismo e o sionismo. Ele também publicou um jornal mensal, J’ai Tout Compris (Eu compreendi tudo!). Ele é muito influente sobre o movimento identitário, e rejeita a ideologia comunitária é pró-Terceiro Mundo propagada pelos seus ex-colegas do GRECE. Ele [era] também um frequente contribuinte para o grupo Terre et Peuple (Terra e Povo), e ainda [dava] palestras e [escrevia] frequentemente. Arktos tem também publicado seus livros Why We Fight, o qual é um manifesto em forma de um dicionário para revolucionários identitários do Ocidente, e Convergence of Catastrophes, que é uma visão geral de muitas crises que Faye acredita que a humanidade irá ter de confrontar no futuro próximo. Arktos está publicando uma série contínua de seus trabalhos em inglês.

Tradução e palavras em colchetes por Mykel Alexander   


Os livros de Guillaume Faye publicados pela Arktos são:

A Global Coup, 2017

Understanding Islam, 2016

Archeofuturism 2.0, 2016

The Colonisation of Europe, 2016

Sex and Deviance, 2014

Convergence of Catastrophes, 2012

Why We Fight, 2011

Archeofuturism, 2010




Editor: John Bruce Leonard estudou Filosofia, Letras, e Idiomas em um currículo universitário baseado exclusivamente nos grandes livros da Tradição Ocidental. Após obter sua graduação em Artes Liberais, ele mudou-se permanentemente para a Itália, onde ele nutre sua preocupação com a herança e o futuro da Europa. Ele juntou-se a Arktos em 2017.

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