| Ron Keeva Unz |
Bell
Curve - Guerras e outras controvérsias sobre QI
Herrnstein morreu de câncer de pulmão aos 64 anos, em setembro de 1994, tendo dedicado os últimos anos de sua vida a um projeto que dirigia-se diretamente as grandes diferenças raciais na inteligência, as quais a maioria de seus escritos anteriores tinha usualmente passado de lado. Em parceria com o renomado cientista social Charles Murray, ele produziu The Bell Curve, um volume monumental com 845 páginas e mais de 400.000 palavras.
O livro foi lançado poucas semanas após sua morte e imediatamente se tornou uma sensação nacional, provavelmente atraindo mais controvérsia e cobertura da mídia do que qualquer outra coisa publicada em décadas. Quase três gerações haviam se passado desde que uma grande editora americana publicara um livro defendendo veementemente a natureza predominantemente inata da inteligência humana e as amplas diferenças raciais nessas características, e embora essa última questão constituísse apenas uma pequena parte do texto, aquelas afirmações incendiárias atraíram aproximadamente toda a atenção.
Naquela época, a revista The New Republic era a publicação de opinião liberal mais influente na América, e tanto o proprietário Martin Peretz quanto o editor Andrew Sullivan apoiaram fortemente o lançamento de The Bell Curve, dedicando grande parte de uma edição a uma matéria de capa de 10.000 palavras intitulada “Race, Genes, and IQ: An Apologia”35 {Raça, Genes e QI: Uma Apologia}, a qual consistia em grande parte de trechos extensos do livro. Mas essa decisão desencadeou uma enorme revolta por parte da maioria dos funcionários e colaboradores regulares da revista, que exigiram espaço para refutação. Assim, a mesma edição também publicou cerca de 19 ataques distintos ao livro e às suas teorias, muitos deles extremamente duros, com epítetos como “neonazista” sendo usados indiscriminadamente. De acordo com Sullivan, o incidente marcou um ponto de virada em seu relacionamento com os colegas da TNR {The New Republic}, que nunca se recuperou, e ele acabou deixando a revista.
Com a distância de um quarto de século, eu tinha praticamente esquecido a enorme cobertura midiática da época, mas passar alguns dias lendo cinquenta ou sessenta resenhas contemporâneas, muitas delas bastante extensas, refrescou minha memória e também ressaltou as reações tremendamente díspares de pessoas que, em geral, são almas companheiras da mesma ideologia.
Por exemplo, apenas nas páginas do New York Times, a seção Sunday Book Review alocou três páginas de discussão,36 um feito quase sem precedentes, a The Bell Curve e a outros dois livros sobre questões raciais similares, com Malcolm Browne, jornalista científico do jornal e vencedor do Prêmio Pulitzer, tomando 4.200 palavras para retratar as obras de forma substancialmente favorável, enfatizando a necessidade de confrontar tabus há muito reprimidos. Mas, uma semana depois, o mesmo jornal publicou um longo editorial denunciando “The Bell Curve Agenda” nos termos mais severos possíveis, e uma matéria de capa de 8.300 palavras37 na Sunday Magazine vilipendiou Murray como “O Conservador Mais Perigoso da América.”
A National Review, a principal revista conservadora, tinha já publicado uma longa e favorável resenha, mas logo dedicou quase toda uma edição a um notável simpósio com 14 contribuintes diferentes,38 muitos deles jornalistas ou acadêmicos proeminentes, que ofereceram uma ampla gama de perspectivas, tanto positivas quanto negativas. Embora a TNR {The New Republic} fosse então minha revista favorita e eu não tivesse a NR {A National Review} em alta consideração, a enxurrada de ataques na primeira pareceu-me absolutamente histérica, enquanto eu achava que a segunda havia apresentado a discussão mais completa e equilibrada.
A coincidência de datas com grandes eventos políticos provavelmente ajudou a explicar essa enorme cobertura da mídia. Apenas algumas semanas após o lançamento do livro, Newt Gingrich e os republicanos inesperadamente conquistaram o poder nas eleições para o Congresso, pondo fim a quase meio século de controle democrata ininterrupto ao obterem a maioria tanto na Câmara quanto no Senado, um evento tão traumático para os liberais da época quanto a surpreendente vitória de Donald Trump em 2016. Controvérsias raciais haviam sido um fator significativo para a vitória esmagadora dos republicanos, e os liberais, horrorizados, viam seu mundo político e ideológico familiar desmoronar ao seu redor, com a assustadora possibilidade de que o “racismo branco” do passado enterrado retomasse repentinamente o controle da sociedade americana.
O resultado foi uma onda excepcionalmente amarga de ataques da mídia liberal ao livro, que foi demonizado a um nível sem precedentes. Como mencionado, grande parte da discussão inicial da mídia sobre The Bell Curve e suas ideias havia sido favorável ou, pelo menos, respeitosa, mas uma enorme campanha pública de difamação foi desencadeada, com muitos republicanos e conservadores tímidos logo cedendo aos ataques e abandonando qualquer apoio. Alguns anos antes, eu tinha sido convidado para uma reunião privada em Washington, D.C., na qual Murray havia distribuído confidencialmente trechos de seu trabalho em andamento, e os organizadores neoconservadores discutiram com ele a melhor abordagem para o lançamento bem-sucedido do livro; mas agora eu soube que Bill Kristol estava buscando conservadores para assinar uma declaração pública condenando o panfleto “racista”.
O livro continuou a vender muito bem, mas a opinião pública da elite logo se voltou drasticamente contra ele, e a morte de Herrnstein, apenas um mês antes da publicação, certamente contribuiu para isso. Até poucos anos antes, Murray desconhecia completamente essas questões científicas envolvendo raça e QI e, de fato, costumava descartar o possível papel das diferenças raciais como fator nos problemas sociais da população negra em seus escritos anteriores, nos quais denunciava o estado de bem-estar social. Em contrapartida, Herrnstein havia dedicado mais de duas décadas à pesquisa do tema como um renomado professor de Harvard e também era parcialmente imune a ataques devido às suas fortes credenciais liberais. Assim, o desaparecimento do coautor liberal sênior removeu um defensor crucial do conteúdo, deixando o conservador Murray muito mais vulnerável e exposto, e forçando-o a defender publicamente questões psicométricas que estavam fora de sua principal área de especialização. Lembro-me de ter pensado, na época, que, diante de questionamentos técnicos incisivos por parte de jornalistas hostis, algumas de suas respostas à mídia não foram tão eficazes quanto elas poderiam ter sido.
Os principais psicometristas dos Estados Unidos, cuja expertise profissional em raça e QI tinha sido ignorada ou deturpada no âmbito público, mobilizaram-se rapidamente em apoio à obra, aproveitando a polêmica midiática para publicar suas opiniões de longa data. Em dezembro, o Wall Street Journal dedicou quase toda uma página editorial a uma declaração pública39 de que The Bell Curve representava o consenso acadêmico da “ciência dominante sobre inteligência”, uma declaração organizada pela Profa. Linda Gottfredson e assinada por 52 especialistas acadêmicos, incluindo eminentes estudiosos como Eysenck e Jensen.
A despeito desses contra-ataques, a maré intelectual continuou a se voltar contra a obra e, em menos de um ano, o status quo ideológico se restabeleceu, com os defensores remanescentes se vendo severamente perseguidos pela grande mídia. Quando a polêmica inicial começou, o renomado paleolibertário Murray Rothbard se mostrou exultante com o fato de as verdades há muito suprimidas sobre questões raciais finalmente terem vindo à tona, sugerindo que poderosos elementos políticos aparentemente haviam decidido reverter décadas de repressão científica. Mas, no décimo aniversário, escritores veteranos sobre raça e QI, como Steve Sailer e Chris Brand, emitiram veredictos longos e desesperadores, concluindo que as ideias do livro haviam sido suprimidas com sucesso e que qualquer menção favorável a ele em círculos respeitáveis tornaria alguém imediatamente um pária. Sailer chegou a sugerir que as “As Guerra Bell Curve” representaram um ponto de virada crucial tanto para os movimentos intelectuais neoconservadores quanto para os neoliberais, que logo abandonaram qualquer resquício de franqueza sobre questões racialmente carregadas. De fato, outros autores frequentes sobre questões raciais, como John Derbyshire e Peter Brimelow, têm algumas vezes descrito40 o período de 1995 a 2005 como um breve “interglacial”, durante o qual tópicos raciais controversos podiam ocasionalmente ser discutidos na mídia convencional, mas que a repressão subsequente tinha sido ainda mais severa do que qualquer coisa anterior.
Muitos jornalistas e acadêmicos passaram a temer muito abordar o tema da raça e do QI, e até mesmo as figuras mais eminentes sofreram graves consequências ao fazê-lo. Por meio século, James Watson reinou como uma das maiores figuras científicas do mundo, tendo compartilhado o Prêmio Nobel pela descoberta do DNA em 1953 e, em seguida, passado décadas à frente do Laboratório Cold Spring Harbor, que ele transformou em um importante centro de pesquisa científica. Mas em 2007, durante uma turnê de lançamento de seu livro aos 79 anos, ele questionou a inteligência média dos africanos negros e foi imediatamente alvo41 de uma tempestade de críticas públicas e vitupérios da mídia, perdendo muitas de suas honrarias, e mais tarde ele enfrentou uma segunda onda de difamação42 quando comentários semelhantes vieram à tona em um documentário de 2018. Foi um destino chocante para um cientista na casa dos 90 anos que passou toda a sua carreira no auge do reconhecimento e das realizações mundiais.
Na época da primeira tempestade de fogo envolvendo Watson, a Slate era nossa principal publicação online, geralmente neoliberal e respeitada, e William Saletan, um de seus editores seniores, começou a publicar uma longa série de cinco partes intitulada “Criacionismo Liberal,”43 na qual ele explicava a sólida base científica dos comentários casuais de Watson. Mas Saletan imediatamente se deparou com uma onda tão feroz de denúncias que logo se desculpou por ter usado “fontes de reputação duvidosa,” em meio a dúvidas generalizadas sobre se conseguiria manter seu emprego.
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
35 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: Race, Genes and I.Q. a – Na Apologia – The case for conservative multiculturalismo,
The New Republic.
https://newrepublic.com/article/120887/race-genes-and-iq-new-republics-bell-curve-excerpt
36 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: What Is Intelligence, and Who Has It?, por Malcolm W. Browne, 16 de
outubro de 1994, The New York Times.
https://www.nytimes.com/1994/10/16/books/what-is-intelligence-and-who-has-it.html
37 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: Daring Research or 'Social Science Pornography'?: Charles Murray, Jason
Deparle, 09 de outubro de 1994, The New
York Times.
38 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz:
39 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz:
https://www1.udel.edu/educ/gottfredson/reprints/1997mainstream.pdf
40 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: The HANDLE’S HAUS List of PC Purgees—and Dogma, Dissent, and Duty, por
John Derbyshire, 16 de janeiro de 2014, The
Unz Review – Na Alternative Media Selection.
https://www.unz.com/jderbyshire/the-handles-haus-list-of-pc-purgees-and-dogma-dissent-and-duty/
41 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: James Watson Retires After Racial Remarks, por Cornelia Dean
25 de outubro de 2007, The New York Times.
https://www.nytimes.com/2007/10/25/science/25cnd-watson.html
42 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: He Made Things Worse. - The Nobel-winning biologist has drawn global
criticism with unfounded pronouncements on genetics, race and intelligence. He
still thinks he’s right, a new documentary finds, por Amy Harmon, 01 de janeiro
de 2019, The New York Times.
https://www.nytimes.com/2019/01/01/science/watson-dna-genetics-race.html
43 Fonte utilizada por Ron Keeva
Unz: Liberal Creationism, por William Saletan, 18 de novembro de 2007, SLATE.
https://slate.com/technology/2007/11/liberal-creationism.html
Fonte: American Pravda: Twelve Unknown Books and Their Suppressed Racial Truths, por Ron Keeva Unz, 17 de novembro de 2025, The Unz Review – An Alternative Media Selection.
https://www.unz.com/runz/american-pravda-twelve-unknown-books-and-their-suppressed-racial-truths/
Sobre o autor: Ron Keeva Unz (1961 -), de nacionalidade americana, oriundo de família judaica da Ucrânia, é um escritor e ativista político. Possui graduação de Bachelor of Arts (graduação superior de 4 anos nos EUA) em Física e também em História, pós-graduação em Física Teórica na Universidade de Cambridge e na Universidade de Stanford, e já foi o vencedor do primeiro lugar na Intel / Westinghouse Science Talent Search. Seus escritos sobre questões de imigração, raça, etnia e política social apareceram no The New York Times, no Wall Street Journal, no Commentary, no Nation e em várias outras publicações.
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