domingo, 11 de janeiro de 2026

O mito da Venezuela que nos impede de transformar nossa economia - por Ellen Brown

 

Ellen Brown


Os críticos americanos da Teoria Monetária Moderna que apontam para a hiperinflação da Venezuela estão ignorando a grande diferença entre os dois países.

A Teoria Monetária Moderna (MMT) tem conseguido considerável atenção da mídia estes dias, após a deputada Alexandria Ocasio-Cortez[1] disse, em entrevista,[2] que ela deveria “ser uma parte maior de nossas discussões” quando se trata de financiar o “Green New Deal”. De acordo com a MMT {Teoria Monetária Moderna}, o governo pode gastar o que precisa sem se preocupar com déficits. A professora Stephanie Kelton,[3] especialista em MMT {Teoria Monetária Moderna} e assessora de Bernie Sanders[4], afirma que o governo, na verdade, cria dinheiro quando gasta. O limite real para os gastos não é um teto da dívida imposto artificialmente, mas sim a falta de mão de obra e materiais para realizar o trabalho, o que leva à inflação generalizada de preços. Somente quando esse teto real é atingido é que o dinheiro precisa ser tributado, mas mesmo assim não para financiar gastos governamentais. Em vez disso, é necessário reduzir a oferta de moeda em uma economia que esgotou os recursos para colocar o dinheiro extra para trabalhar.

{Governo de Hugo Chávez (1954-2013): “Em vez de salvar os culpados, como foi feito nos EUA, em 2009 o governo nacionalizou sete bancos venezuelanos, responsáveis por cerca de 12% dos depósitos bancários do país. Em 2010, mais bancos foram estatizados. O governo Chávez prendeu pelo menos 16 banqueiros e emitiu mais de 40 mandados de prisão por corrupção contra outros que haviam fugido do país. No final de março de 2011, restavam apenas 37 bancos, contra 59 no final de novembro de 2009. As instituições estatais assumiram um papel mais importante, detendo 35% dos ativos em março de 2011, enquanto as instituições estrangeiras detinham apenas 13,2% de ativos.”

“‘Venezuela aumenta as contribuições sociais obrigatórias dos bancos, EUA e Europa não,’ Rachael Boothroyd afirmou que o governo venezuelano estava exigindo que os bancos retribuíssem. A moradia foi declarada um direito constitucional e os bancos venezuelanos foram obrigados a contribuir com 15% de seus lucros anuais para garanti-la. A Grande Missão Habitacional do governo visava construir 2,7 milhões de casas gratuitas para famílias de baixa renda até 2019. O objetivo era criar um sistema bancário social que contribuísse para o desenvolvimento da sociedade, em vez de simplesmente drenar sua riqueza.”}

Previsível, as críticas foram rápidas em refutar, classificando a tendência de endossar a MMT {Teoria Monetária Moderna} como “perturbadora”[5] e “uma piada sem graça”. [6]Em uma postagem de 1º de fevereiro no Daily Reckoning,[7] Brian Maher previu, de forma sombria, a eleição de Bernie Sanders[8] em 2020 e a implementação de um “Afrouxamento Quantitativo para o Povo” baseado nas teorias da MMT {Teoria Monetária Moderna}. Para desmentir a noção de que os governos podem simplesmente “imprimir dinheiro” para resolver seus problemas econômicos, ele evocou o espectro da Venezuela, onde “dinheiro” está por toda parte, mas itens de primeira necessidade estão fora do alcance de muitos, as lojas estão vazias, o desemprego está em 33% e a inflação deve atingir 1 milhão por cento até o final do ano.

O blogueiro Arnold Kling também pontuou a hiperinflação venezuelana. Ele descreveu[9] a MMT {Teoria Monetária Moderna} como “a doutrina de que, como o governo imprime dinheiro, pode gastar o que quiser... até não poder mais”. Ele disse:

Para mim, a hiperinflação na Venezuela exemplifica o que acontece quando um país chega ao ponto de “não dá mais”. O país não está em pleno emprego, mas o governo parece não conseguir gastar para sair da crise. Alguém deveria perguntar a esses gurus da MMT {Teoria Monetária Moderna} sobre o exemplo da Venezuela.

Eu não sou um especialista em MMT {Teoria Monetária Moderna} e não vou tentar explicar suas sutilezas. (Eu diria que, pelas regulamentações atuais, o governo não pode de fato criar dinheiro quando gasta, mas deveria poder. Aliás, os defensores da MMT {Teoria Monetária Moderna} já reconheceram esse problema;[10] mas é assunto para outro artigo.) O que eu quero abordar aqui é a questão da hiperinflação e por que a hiperinflação venezuelana e o “QE (flexibiliza quantitativa) para o Povo” são coisas completamente diferentes.

 

O que há de diferente na Venezuela?

Os problemas da Venezuela não são resultado do governo emitir dinheiro e usá-lo para contratar pessoas para construir infraestrutura, fornecer serviços essenciais e expandir o desenvolvimento econômico. Se fosse esse o caso, o desemprego não estaria em 33% e continuando a subir. A Venezuela tem um problema que os EUA não têm, e jamais terão: uma dívida enorme em uma moeda que não pode imprimir, ou seja, o dólar americano. Quando o petróleo (seu principal recurso) estava em alta, a Venezuela conseguia cumprir seus pagamentos. Mas quando o preço do petróleo despencou, o governo se viu obrigado a imprimir bolívares venezuelanos e vendê-los por dólares americanos em casas de câmbio internacionais. À medida que os especuladores elevavam o preço do dólar, o governo precisava imprimir cada vez mais moeda, o que desvalorizou drasticamente o valor da moeda nacional.

Foi o mesmo problema enfrentado pela Alemanha de Weimar e pelo Zimbábue, os dois exemplos clássicos de hiperinflação geralmente citados para silenciar os defensores da expansão da oferta monetária pelo governo, antes que a Venezuela sofresse o mesmo destino. O professor Michael Hudson, uma verdadeira estrela da economia que apoia os princípios[11] da Teoria Monetária Moderna (MMT), estudou extensivamente a questão da hiperinflação. Ele confirma[12] que esses desastres não foram causados pela emissão de moeda pelos governos para estimular a economia. Em vez disso, ele escreve: “Toda hiperinflação na história foi causada pelo serviço da dívida externa, que levou ao colapso da taxa de câmbio. O problema quase sempre resultou de dificuldades cambiais em tempos de guerra, e não de gastos domésticos.”

A Venezuela e outros países que carregam dívidas enormes em moedas estrangeiras não são soberanos. Governos soberanos podem emitir suas próprias moedas para financiar infraestrutura e desenvolvimento, e o fazem com bastante sucesso. Já discuti diversos exemplos contemporâneos e históricos em artigos anteriores, incluindo os do Japão,[13] China,[14] Austrália[15] e Canadá.[16]

Embora a Venezuela não esteja tecnicamente em guerra, sofre com a escassez de moeda estrangeira acionada por ataques agressivos de uma potência estrangeira. As sanções econômicas dos EUA já duram anos, causando ao país perdas de pelo menos US$ 20 bilhões.[17] Cerca de US$ 7 bilhões em ativos venezuelanos estão retidos[18] pelos EUA, que travam uma guerra não declarada contra a Venezuela[19] desde a tentativa fracassada de golpe militar de George W. Bush contra o presidente Hugo Chávez em 2002. Chávez anunciou audaciosamente a “Revolução Bolivariana”, uma série de reformas econômicas e sociais que reduziram drasticamente a pobreza e o analfabetismo, além de melhorarem a saúde e as condições de vida de milhões de venezuelanos. As reformas, as quais incluíram a nacionalização de setores-chave da economia nacional, transformaram Chávez em um herói para milhões de pessoas e em inimigo dos oligarcas venezuelanos.

Nicolás Maduro foi eleito presidente após a morte de Chávez em 2013 e prometeu dar continuidade à Revolução Bolivariana. Recentemente, assim como Saddam Hussein e Muammar Gaddafi fizeram antes dele, anunciou, em tom de desafio, que a Venezuela não negociaria petróleo em dólares americanos[20] em decorrência das sanções impostas pelo presidente Trump.[21]

O notório Elliott Abrams[22] foi nomeado enviado especial[23] para a Venezuela. Considerado um criminoso de guerra por muitos por acobertar massacres cometidos por esquadrões da morte apoiados pelos EUA na América Central, Abrams estava entre os neoconservadores proeminentes intimamente ligados à fracassada tentativa de golpe de Estado de Bush na Venezuela em 2002. O conselheiro de segurança nacional, John Bolton, é outro arquiteto neoconservador chave que defende a mudança de regime na Venezuela. Em uma coletiva de imprensa em 28 de janeiro, ele segurava um bloco de notas amarelo com os dizeres “5.000 soldados para a Colômbia,”[24] país que faz fronteira com a Venezuela. Claramente, o grupo neoconservador sente que tem assuntos inacabados por lá.

Bolton nem sequer fingiu que tudo se resume a restaurar a “democracia”. Ele afirmou descaradamente na Fox News: “Faria uma grande diferença para os Estados Unidos economicamente se conseguíssemos que as empresas petrolíferas americanas investissem e produzissem petróleo na Venezuela”. Como disse o presidente Nixon[25] sobre as táticas americanas contra o governo de Salvador Allende no Chile, o objetivo das sanções e das ameaças militares é apertar o país economicamente.

 

Matando a revolução bancária pública na Venezuela

Pode ser algo mais que petróleo, que recentemente atingiu mínimas históricas no mercado. Os EUA dificilmente precisam invadir um país para reabastecer seus estoques. Assim como na Líbia e no Iraque, outro motivo pode ser o de suprimir a revolução bancária iniciada pelos líderes emergentes da Venezuela.

A crise bancária de 2009-2010 expôs a corrupção e a fraqueza sistêmica[26] dos bancos venezuelanos. Alguns bancos estavam envolvidos em práticas comerciais questionáveis. Outros estavam seriamente subcapitalizados. Outros ainda aparentemente emprestavam grandes somas de dinheiro a altos executivos. Pelo menos um financista não conseguiu comprovar a origem do dinheiro usado para comprar os bancos que possuía.

Em vez de salvar os culpados, como foi feito nos EUA, em 2009 o governo nacionalizou[27] sete bancos venezuelanos, responsáveis por cerca de 12% dos depósitos bancários do país. Em 2010, mais bancos foram estatizados. O governo Chávez prendeu pelo menos 16 banqueiros e emitiu mais de 40 mandados de prisão por corrupção contra outros que haviam fugido do país. No final de março de 2011, restavam apenas 37 bancos, contra 59 no final de novembro de 2009. As instituições estatais assumiram um papel mais importante, detendo 35% dos ativos em março de 2011, enquanto as instituições estrangeiras detinham apenas 13,2% de ativos.

Em meio aos protestos da mídia, em 2010, Chávez tomou a ousada decisão de aprovar uma lei que definia o setor bancário como um setor de “serviço público”. A legislação especificava que 5% dos lucros líquidos dos bancos deveriam ser destinados ao financiamento de projetos de conselhos comunitários, idealizados e implementados pelas comunidades para o benefício das próprias comunidades. O governo venezuelano direcionou a alocação de crédito bancário para setores prioritários da economia e passou a se envolver cada vez mais nas operações de instituições financeiras privadas. Por lei, quase metade das carteiras de empréstimos dos bancos venezuelanos teve que ser direcionada a setores específicos da economia, incluindo pequenas empresas e agricultura.

Em um artigo de 2012 intitulado “Venezuela aumenta as contribuições sociais obrigatórias dos bancos, EUA e Europa não,”[28] Rachael Boothroyd afirmou que o governo venezuelano estava exigindo que os bancos retribuíssem. A moradia foi declarada um direito constitucional e os bancos venezuelanos foram obrigados a contribuir com 15% de seus lucros anuais para garanti-la. A Grande Missão Habitacional do governo visava construir 2,7 milhões de casas gratuitas para famílias de baixa renda até 2019. O objetivo era criar um sistema bancário social que contribuísse para o desenvolvimento da sociedade, em vez de simplesmente drenar sua riqueza. Boothroyd escreveu:

…Os venezuelanos estão com a fortuna de contar com um governo nacional que prioriza a qualidade de vida, o bem-estar e o desenvolvimento da população em detrimento dos salários de banqueiros e lobistas. Se a crise financeira de 2009 demonstrou algo, foi que o capitalismo é simplesmente incapaz de se autorregular, e é exatamente aí que governos e legislações progressistas precisam entrar em ação.

É também aí onde, nos EUA, a ala progressista do Partido Democrata[29] está entrando em cena — e é por isso que as propostas de Ocasio-Cortez evocam protestos na mídia semelhantes aos vistos na Venezuela.

O Artigo I, Seção 8, da Constituição concede ao Congresso o poder de criar a oferta monetária da nação. O Congresso precisa exercer esse poder. A chave para restaurar nossa soberania econômica é recuperar o poder de emitir moeda de um sistema bancário comercial que não reconhece nenhuma responsabilidade pública além de maximizar os lucros para seus acionistas. A moeda criada pelos bancos é garantida pela plena fé e crédito dos Estados Unidos, incluindo o seguro federal de depósitos, o acesso à linha de crédito do Fed e os resgates governamentais quando as coisas dão errado. Se nós, o povo, garantimos a moeda, ela deve ser emitida pelo povo por meio de seu governo representativo.

O governo atual, no entanto, não representa adequadamente o povo, e é por isso que precisamos, em primeiro lugar, retomar o controle do nosso governo. Felizmente, é exatamente isso que Ocasio-Cortez e seus aliados no Congresso estão tentando fazer.

Tradução por Dignus {academic auctor pseudonym - studeo liber ad collegium}

Revisão e palavras entre chaves por Mykel Alexander

 Notas:


[3] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.youtube.com/watch?v=H_il45h3Nmo&t=1017s

[4] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/bernie-sanders/

[8] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/bernie-sanders/

[9] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://www.arnoldkling.com/blog/mmt-and-venezuela/

[10] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://www.levyinstitute.org/pubs/wp_778.pdf

[19] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/14263

[21] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/donald-trump/

[23] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/14263

[25] Fonte utilizada por Ellen Brown:

http://nixontapes.org/chile.html

[27] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/news/5082

[28] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://venezuelanalysis.com/analysis/6942

[29] Fonte utilizada por Ellen Brown:

https://www.truthdig.com/tag/democratic-party/

___________________________________________________________________________________

Relacionado, leia também:

Desnacionalização da Economia {Por que a economia no Nacional-Socialismo Alemão (nazismo) foi odiada pelos Aliados?} - Por Salvador Borrego

Líbia: trata-se do petróleo ou do Banco Central? - Por Ellen Brown

Expondo a agenda Líbia: uma olhada mais de perto nos e-mails de Hillary - por Ellen Brown

{Massacres sobre os alauítas após a queda da Síria de Bashar Hafez al-Assad} - por Raphael Machado

Mudança de Regime na Síria: mais um passo em direção ao “Grande Israel” - por Alan Ned Sabrosky

Guerra de agressão não declarada dos EUA-OTAN-Israel contra a Síria: “Terrorismo da al-Qaeda” para dar um golpe de Estado contra um governo secular eleito - por Michael Chossudovsky

Por que querem destruir a Síria? - por Dr. Ghassan Nseir

Petróleo ou 'o Lobby' {judaico-sionista} um debate sobre a Guerra do Iraque

Iraque: Uma guerra para Israel - Por Mark Weber


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários serão publicados apenas quando se referirem ESPECIFICAMENTE AO CONTEÚDO do artigo.

Comentários anônimos podem não ser publicados ou não serem respondidos.