| Laala Bechetoula |
Há
deslizes diplomáticos.
E
há momentos que revelam uma deriva estrutural dentro da própria máquina do
poder.
Quando
o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, afirmou em fevereiro
de 2026 que seria “aceitável” se Israel tomasse “toda” a terra descrita na
promessa bíblica a Abraão, a observação deixou de ser um comentário isolado.
Tornou-se um sinal. Expôs o que acontece quando o maximalismo teológico começa
a substituir a disciplina institucional na linguagem da diplomacia oficial.
A
questão não é a fé.
A
questão é o mandato.
A
questão é a lei.
Quando
essas linhas se dissolvem, a diplomacia perde a coerência — e com ela, a
credibilidade.
A Declaração: O Que Foi
Dito
Durante
uma entrevista divulgada em fevereiro de 2026, Huckabee foi questionado se
Israel possuía um direito bíblico sobre as terras que se estendiam do Nilo ao
Eufrates. Após breve hesitação, ele respondeu que “não haveria problema” se
Israel “tomasse tudo,” antes de acrescentar que tal expansão não estava em
discussão.
A
reação foi imediata. Governos árabes emitiram protestos formais. Organizações
regionais descreveram as declarações como desestabilizadoras. Diplomatas de
todo o Oriente Médio interpretaram a declaração não como especulação teológica,
mas como um sinal geopolítico.
{O político e embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee (1955-) leva para a política internacional fanatismo judaico-cristão-sionista ao apelar para um desenho geopolítico baseado na Bíblia. É preciso registrar que no auge do poder europeu no século XIX o judaísmo internacional através de sua liderança maldisse as posições católicas baseadas no fanatismo religioso, mas agora que o fanatismo religioso predominante é o sionista e que o direito internacional impede a pretensão bíblica sionista, os sionistas querem abandonar o direito e pedir fanatismo na política. Não é algo novo essa contradição, faz parte da narrativa da tradição judaica, através da escritura, colocar uma lei para os judeus e uma lei para os outros povos. Ver especialmente: O peso da tradição: por que o judaísmo não é como outras religiões - por Mark Weber.}
A
mídia ocidental noticiou o episódio com uma clareza incomum. A Associated Press observou que os
comentários “provocaram indignação entre os governos árabes e levantaram
questões sobre a neutralidade diplomática dos EUA.” O Financial Times descreveu a declaração como um “desvio
extraordinário da linguagem política americana estabelecida,” enquanto o The Guardian citou diplomatas que
consideraram as declarações juridicamente insustentáveis e politicamente
desestabilizadoras. (AP News; Financial Times; The Guardian, fevereiro de 2026)
O que se seguiu foi igualmente significativo.
Não
houve correção pública imediata por parte do Departamento de Estado dos EUA,
nenhum esclarecimento por parte da Casa Branca e nenhum esforço visível para
distanciar a política oficial das declarações do embaixador. Em diplomacia, o
silêncio não é neutro. Ele funciona como um sinal direto por si só.
Quando
um embaixador expressa publicamente uma ambição territorial expansionista
fundamentada em uma narrativa sagrada, a ausência de um esclarecimento
institucional imediato é interpretada no exterior não como descuido, mas como
tolerância. Em regiões já atentas às mudanças na postura americana, esse
silêncio adquire um significado estratégico. Sugere aquiescência ou incoerência
interna — ambas com consequências para a credibilidade.
Um
esclarecimento posterior do próprio embaixador enfatizou que Israel não buscava
expansão territorial. Mas, a essa altura, a mensagem mais importante já havia
circulado. Em diplomacia internacional, a primeira declaração estabelece o
contexto; o silêncio institucional determina se esse contexto se consolida na
percepção.
Convicção Pessoal e
Mandato Institucional
A
questão analítica central não é retórica.
Foi
este um momento de entusiasmo pessoal — ou evidência de desvio institucional?
Embaixadores
não possuem um registro privado. Quando o representante credenciado dos Estados
Unidos fala publicamente, suas palavras carregam autoridade institucional,
independentemente do formato. Não há um parêntese rotulado como “crença
pessoal” que proteja as declarações diplomáticas de seu efeito geopolítico.
O
problema não é que Huckabee tenha fortes convicções religiosas sobre Israel. A
tradição americana permite convicções religiosas na vida pública. O problema é
que ele expressou, em sua capacidade oficial, uma visão territorial que
contradiz tanto o direito internacional de longa data quanto a estrutura
política que seu cargo é obrigado a representar.
Quando
o presidente Donald Trump declarou publicamente, em 2025, que não permitiria a
anexação da Cisjordânia, essa posição fazia parte do mandato diplomático. Um
embaixador que publicamente defende o direito bíblico a um território que se
estende pelo Oriente Médio não está atuando dentro da margem de manobra
política. Ele está ultrapassando-a.
A Arquitetura Jurídica
A
proibição da aquisição de território pela força é o fundamento da ordem
internacional pós-1945. Ela está codificada no Artigo 2(4) da Carta das Nações
Unidas, a qual proíbe ameaças à integridade territorial ou à independência
política de qualquer Estado.
Este
princípio foi reafirmado repetidamente em relação a Israel e aos territórios
conquistados em 1967:
A Resolução 242 do
Conselho de Segurança da ONU afirma a “inadmissibilidade da aquisição de
território por meio da guerra”.
A Resolução 497 declara
a anexação das Colinas de Golã por Israel “nula e sem efeito”.
A Resolução 2334 afirma
que os assentamentos israelenses em território ocupado “não têm validade
jurídica”.
A
Corte Internacional de Justiça, em seu parecer consultivo de 2004, confirmou
que a Cisjordânia e Jerusalém Oriental permanecem território ocupado sob o
direito internacional.
Estes
não são textos simbólicos. Eles constituem a arquitetura jurídica do sistema
internacional contemporâneo.
Sugerir
— mesmo que hipoteticamente — que seria aceitável para um Estado soberano
absorver vastos territórios com base em narrativas sagradas é legitimar
retoricamente um cenário que violaria a proibição central que esses
instrumentos visam fazer cumprir.
Um
diplomata pode ter convicções religiosas.
Ele
não pode colocá-las acima do direito internacional vinculativo ao falar em nome
do Estado.
As Escrituras e seus
Limites
Textos
sagrados têm moldado civilizações. Ao longo da história, eles também foram
usados para justificar a expansão e a conquista. A ordem internacional
moderna surgiu, em parte, para impedir que reivindicações teológicas
determinassem fronteiras.
A
Bíblia Hebraica referencia a uma aliança divina que promete terras desde o rio
do Egito até o Eufrates (Gênesis
15:18). Contudo, a mesma tradição profética condiciona a posse à justiça e à
responsabilidade moral. A terra, nesse contexto, é pactuada e condicional.
O
Alcorão, da mesma forma, afirma a
soberania divina sobre a terra e enfatiza a mordomia em vez do direito
permanente: “A Deus pertence o domínio dos céus e da terra” (Alcorão 3:189).
Nenhum
dos textos funciona como um registro de terras moderno. Quando um diplomata de
uma república constitucional laica invoca uma narrativa sagrada como direito
geopolítico, a questão não é a crença religiosa, mas sim a coerência institucional.
Lições Históricas
A
prática diplomática reconhece há muito tempo que embaixadores que se manifestam
além de suas atribuições causam danos institucionais. Quando declarações
públicas contradizem a política oficial, elas exigem correção. Quando a correção
não ocorre, o silêncio é interpretado como endosso.
O
princípio é simples: embaixadores representam a política, não ideologias
pessoais. A representação deve estar alinhada com o mandato.
Consequências
Estratégicas
O
Oriente Médio está passando por um realinhamento estrutural. As potências
regionais estão diversificando suas alianças. A China avança por meio da
diplomacia econômica. A Rússia mantém parcerias de segurança em múltiplos
cenários. Os Estados do Golfo adotam estratégias de proteção através de diferentes
blocos geopolíticos.
Nesse
ambiente, a credibilidade americana depende fortemente da percepção de
consistência no respeito ao direito internacional. Quando um enviado de alto
escalão parece validar uma ampla pretensão territorial, os atores regionais
interpretam o sinal como evidência de que o compromisso de Washington com as
normas jurídicas é condicional.
A
mediação torna-se difícil quando a neutralidade é questionada.
Os
aliados recalibram suas estratégias quando a consistência se deteriora.
Os
adversários exploram as contradições.
Por
décadas, a diplomacia americana tem equilibrado o apoio à segurança de Israel
com o endosso formal de acordos negociados no estabelecimento de arcabouços.
Declarações como a de Huckabee desestabilizam esse equilíbrio, substituindo a
ambiguidade estratégica pelo absolutismo ideológico.
A Ilusão da Força
A
retórica maximalista é frequentemente confundida com força. Historicamente, ela
produz o efeito oposto. Estados que fundem certeza teológica com ambição
geopolítica restringem seu espaço diplomático e transformam disputas políticas
em conflitos existenciais.
A
liderança fundadora de Israel compreendeu que a legitimidade internacional e a
sobrevivência estavam interligadas. O reconhecimento precedeu a consolidação.
Substituir a diplomacia pragmática pelo maximalismo sagrado não é
fortalecimento. É risco.
Realidade Multipolar
O
sistema internacional não é mais unipolar. As potências emergentes observam
atentamente a adesão do Ocidente às normas jurídicas. Quando os Estados Unidos
demonstram seletividade na aplicação de princípios territoriais, isso acelera o
realinhamento geopolítico.
Credibilidade
é capital estratégico. Uma vez perdida, não pode ser facilmente restaurada.
Este
episódio não é meramente controvérsia retórica.
Trata-se
de uma quebra estrutural da disciplina diplomática.
Acerto de Contas
Estratégico
A
questão em jogo não é teologia. É integridade institucional.
Um
embaixador representa a ordem constitucional de seu Estado. Essa ordem se
baseia na lei, não na revelação; na soberania negociada, não em direitos
sagrados. No momento em que a diplomacia oficial começa a ecoar o absolutismo
civilizacional, ela deixa de funcionar como mediação e se torna alinhamento.
Os
Estados podem sobreviver à controvérsia.
Eles
não sobrevivem à erosão sustentada de sua credibilidade.
Se
a linguagem da geografia divina substituir a linguagem do direito internacional
na representação oficial, as consequências não permanecerão retóricas. Elas
remodelarão alianças, enfraquecerão a mediação e acelerarão a fragmentação
geopolítica.
Este
episódio não deve ser descartado como uma observação isolada.
Ele
deve ser compreendido como um alerta.
Porque
quando a lei cede à crença na condução da diplomacia, o próprio poder começa a
perder sua âncora.
E
em um mundo que já caminha para a tensão multipolar, a falta de âncora não é
força. É vulnerabilidade.
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Fonte: When
Diplomacy Becomes Theology: Israel and The Mike Huckabee Affair. The Erosion of
Legal Order, por Laala Bechetoula, 28 de fevereiro de 2026, Global Research.
https://www.google.com/search?q=Laala+Bechetoula&sourceid=chrome&ie=UTF-8
Laala Bechetoula é um
jornalista e escritor argelino, analista de política argelina
especializado em geopolítica do Oriente Médio, política externa ocidental e a
questão palestina. É autor de The Book of
Gaza Hashem: A Testament Written in Olive Wood and Ash.
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