domingo, 20 de janeiro de 2019

Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulentas - Por Mark Weber

Parte 2: Conversações falsificadas de Rauschning com Hitler: uma atualização - Por Mark Weber

Mark Weber
            Praticamente todas as principais biografias de Adolf Hitler ou da história do Terceiro Reich fazem citações da memória de Hermann Rauschning, um ex-Presidente do Senado Nacional-Socialista de Danzig[1]. No livro publicado na Grã-Bretanha como Hitler Speaks (Londres, 1939) e na América como The Voice of Destruction (Nova Iorque, 1940) Rauschning apresenta página após página do que são supostamente as mais íntimas visões de Hitler e os planos deste para o futuro. Elas são supostamente baseadas em uma centena de conversações privadas entre os dois homens.

            Agora, depois de mais de quarenta anos, um historiador suíço tem exposto minuciosamente este suposto documento da loucura de Hitler como completamente fraudulento. Wolfgang Haenel apresentou os resultados de sua pesquisa na conferência anual em maio de 1983 do Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt na Alemanha Ocidental.

            O Hitler de Rauschning é nada mais que um revolucionário niilista totalmente carente de ideias, objetivos, princípios ou ideologia sistemática, o qual demagogicamente explorou as palavras e os homens para acumular poder para seu próprio bem. Ele era inteligente, mas completamente inescrupuloso e oportunista, que não acreditava em nada do que ele próprio dizia. Seu Nacional -Socialismo, de acordo com Rauschning, era apenas uma “Revolução do Niilismo”. Ele estava  supostamente preocupado com a guerra. Suas numerosas propostas de desarmamento e ofertas de paz eram apenas hipócrita retórica designada para enganar suas futuras vítimas.

            Do homem que unificou a Alemanha, Hitler é suposto ter dito: “Bismarck foi estúpido. Ele era apenas um protestante.” Ele teria repreendido Rauschning por seus escrúpulos: “Por que você balbucia sobre brutalidade e se aborrece em relação ao sofrimento. As massas querem isso. Elas necessitam de um pouco de crueldade.” “Eu quero uma juventude violenta, magistral, sem medo e cruel,” ele é citado como tendo dito. Em outra ocasião, Hitler teria, de acordo com relatos, declarado: “Sim, nós somos bárbaros. Nós queremos ser bárbaros. É um título honroso.”

            Wolfgang Haenel passou muitos anos em uma pesquisa detalhada, em comparações de textos e entrevistando testemunhas contemporâneas. Ele descobriu que ao invés de “cerca de uma centena de conversações” com Hitler, Rauschning na verdade se encontrou com o líder alemão somente quatro ou cinco vezes. E estes poucos encontros não foram nem em tempo privado e nem foram longos, mas sempre na companhia de altos funcionários enquanto visitava Hitler em Berlim ou em Obersalzberg. Rauschning nunca teve a oportunidade de ouvir as opiniões íntimas de Hitler ou seus planos secretos para o futuro, conforme ele se vangloriou em suas espúrias “memórias.”

            Haenel mostra que algumas palavras atribuídas a Hitler por Rauschning eram na verdade levantadas dos trabalhos de Ernst Jünger[2] e Friedrich Nietzsche. Hitler é citado como tendo feito afirmações as quais não poderiam ter sido feitas na alegada época. Algumas citações supostamente feitas em privado foram de fato retiradas de discursos feitos por Hitler depois de 1935, o ano que Rauschning foi para a França. Haenel também expõe sérias contradições entre eventos conforme apresentados por Rauschning e a forma de como eles realmente ocorreram, como no caso de uma alegada conversação após o incêndio do Reichstag em março de 1933.

            Haenel mostra que o livro de memórias espúrias foi encomendado por alguns jornalistas franceses e por editoras de Nova Iorque como uma arma na propaganda de guerra contra a Alemanha Nacional Socialista. Por muitos anos a soma paga para o quase falido Rauschning por seu trabalho permaneceu um recorde na França se tratando de um livro político.

            Os meios de comunicação de massa democráticos, os quais devotaram intermináveis colunas de impressão e horas de transmissão em denunciar o livro chamado de Hitler diaries[3] como falso, ignoraram caracteristicamente a história desta grande farsa histórica. Uma exceção foi o geralmente sóbrio jornal da Alemanha Ocidental Die Welt (19 de maio) o qual, no entanto, encerrou seu relatório na página 21. A imprensa diária americana publicou nada.

            Para seu crédito, o historiador americano John Toland não fez uso do trabalho de Rauschning em seu detalhado estudo, Adolf Hitler. E o historiador alemão Werner Maser colocou a observação em sua biografia de Hitler que “As declarações de Rauschning podem, na melhor das hipóteses, serem consideradas como uma fonte histórica secundária. Elas não têm valor documental.”

{Hermann Rauschning (1887-1982). Quatro livros que fizeram a cabeça de leitores no Ocidente a partir dos anos da década de 1960 se utilizaram de uma fraude, a obra de Rauschning, para difamar Hitler e o Nacionalsocialismo (nazismo). William Shirer em Rise and Fall of the Third Reich, 1962; Alan Bullock  em  Hitlera Study in Tyranny, 1952; Joachim Fest, Hitler, 1973; e Robert Payne em Life and Death of Adolf Hitler, 1973. Os livros de Shirer e Fest continuam inclusive sendo publicados no Brasil em português como obras supostamente sem falsificações.}

            É sempre mais fácil produzir um documento forjado ou memórias falsas que provar que elas sejam falsas. Mas é ainda notável que levou tanto tempo para alguém expor o trabalho de Rauschning como fraudulento. Qualquer leitor de mente aberta e familiar com a literatura sobre Hitler pode determinar mais rapidamente que The Voice of Destruction é uma imaginativa mistura. O leitor simplesmente sente falta da “sensação” de autenticidade. Em contraste, a genuína memória de Otto Wagener, Hitler aus naechster Naehe, fornece prolongados e detalhados esboços dentro do pensamento de Hitler e suas opiniões privadas. Como primeiro chefe da equipe da SA (“os Camisas Pardas”) e diretor do Departamento de Econômico Político do Partido Nacional Socialista, Wagener conseguiu conhecer Hitler intimamente. Eles gastaram centenas de horas juntos entre 1929 e 1932, muitos deles sozinhos.

            O Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Ingolstadt merece crédito por seu papel em expor esta grande fraude. Seu diretor, o Dr. Alfred Schickel, tem escrito numerosos ensaios substanciais de revisionismo histórico.

            O desmascaramento que Haenel fez sobre o livro de memórias de Rauschning é uma bem-vinda contribuição para o lento e doloroso processo de esclarecimento em uma época de ofuscação histórica.


Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander

Notas:


[1]    Nota do Tradutor: Danzig é uma cidade que durante o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi o centro de muitas disputas, de teor histórico e de questões urgentes na época, entre o Reich Alemão e a Polônia. O insucesso em resolver estas disputas pacificamente resultou no conflito entre o Reich Alemão e a Polônia, resultando na reincorporação de Danzig ao território alemão.

[2]    Nota do Tradutor: Ernst Jünger (1895-1998) foi um escritor e ex-combatente alemão da Primeira Guerra Mundial. No período nazista serviu no exército e também como administrador de uma província da França quando esta estava ocupada pelas forças alemãs. Esteve perifericamente envolvido com a oposição à Hitler que havia dentro do Reich, e, anteriormente, em 1938, foi proibido de publicar livros.

[3]    Nota do Tradutor: Refere-se ao evento ocorrido em 1983 quando foi anunciado nos meios de comunicação a descoberta de documentos que seriam diários de Adolf Hitler. Contudo duas semanas depois esta descoberta foi classificada como uma fraude devido a muitas inconsistências tais como o texto ter sido escrito em papel e com tinteiro de época posterior à Hitler, e também devido a muitas incoerências históricas.  



Sobre o autor:

Mark Weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Ele estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), na Universidade de Munique (Alemanha), e na Portland State University. Ele possui um mestrado em História Europeia da Universidade de Indiana. Desde 1995 ele tem sido diretor do Institute for Historical Review, um centro independente de publicações, educação e pesquisas de interesse público, no sul da Califórnia, que trabalha para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.



Informação Bibliográfica

Autor
Mark Weber
Título
Historiador suíço expõe memórias anti-Hitler de Rauschning como fraudulenta
Fonte
The Journal for Historical Review (http://www.ihr.org)
Data
Outono de 198
Fascículo
Volume 4, número 3
Localização
Página 378 – 380
Endereço


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Hitler queria Guerra? - Por Patrick Joseph Buchanan

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Esquecendo Rosa Luxemburgo (05/03/1871 – 15/01/1919) – por Alex Kurtagić

Publicado originalmente em 2015
Alex Kurtagić

             Nós celebramos hoje a morte de Rosa Luxemburgo, que morreu hoje há 96 anos. Ela foi uma teórica marxista, ideóloga, agitadora, e traidora condenada, que estava envolvida com vários grupos terroristas de extrema esquerda. Ela co-fundou a Liga Espartaquista e mais tarde o Partido Comunista da Alemanha.

           Rosa Vermelha, como é conhecida, nasceu em uma família judia próspera em Zamość, no Reino da Polônia, que na época era controlada pela Rússia. A caçula de cinco filhos, seu pai era Eliasz Luxemburgo, foi um comerciante de madeira; sua mãe era Line Löwenstein.

            Sua infância foi sem intercorrências, exceto por uma doença no quadril aos 5 anos que a confinou em sua cama por um ano, e deixou-a com as pernas de comprimentos diferentes, e, portanto, manca. Com 9 anos, ela estava matriculada em Gymnasium, uma escola para meninas em Varsóvia. E nos próximos anos, tudo correu bem.

No entanto, não demorou muito para que Rosa caísse em más companhias. Em 1886, com a tenra idade de 15 anos, Rosa juntou-se ao Primeiro Proletariado, um grupo fundado por Ludwik Warynski, que já tinha ficha criminal e, mais tarde, iria morrer na prisão. Este grupo era aliado da Narodnaya Volya, uma organização terrorista de extrema-esquerda russa, que já contava com o assassinato do czar Alexandre II a seu crédito. O primeiro ato político de Rosa foi organizar uma greve geral. Felizmente, foi um desastre: o partido foi destruído e quatro de seus membros condenados à morte. No entanto, Rosa, impenitente e, aparentemente, com a consciência limpa, continuou a reunir-se em segredo com outros criminosos.

Ela continuou sua educação, que, infelizmente, ela iria depois dar uso maligno. Em 1887 obteve seu Matura, equivalente a um diploma do ensino médio, mas por volta de 1889 ela percebeu a proximidade da polícia, então ela enganou um padre bem-intencionado para contrabandeá-la para fora da Polônia. Esta delinquente juvenil, para dizer o mínimo, foi para a Suíça, onde ela se matriculou na Universidade de Zurique e estudou Staatswissenschaft {Ciência Política}. As memórias inéditas de Julian Marchlewski, um colega, mostram que Rosa pensava que era melhor do que alguns dos seus professores.

Era pedir muito que ela retornasse ao caminho certo dela, pois enquanto era uma estudante universitária que ela conheceu outro mau elemento: Anatoly Lunacharsky, que se tornou marxista aos quinze anos e não falhou em obter um diploma, e Leo Jogiches, um jovem e amargurado homem que já tinha se envolvido em todos os tipos de atividades conspiratórias e obscuras e, não menos importante, com um histórico de prisões. O vadio Jogiches se tornaria amante de Rosa e colaborador de longa data, apesar do relacionamento tempestuoso deles.

Em 1893, a dupla dinâmica, juntamente com o comunista polonês Julian Marchlewski, que mais tarde iria se juntar aos bolcheviques, formaram um partido político, chamado de Social Democracia do Reino da Polônia (SDKP), apoiado em uma plataforma marxista internacional. O trio também fundou um folheto político antinacionalista, Sprawa Robotnicza.

Em 1897, Rosa Vermelha defendeu sua tese de doutorado, e a Universidade de Zurique concedeu-lhe um grau de Doutora em Direito – profundamente irônico, dado que ela passou toda a sua carreira engajada em atividades ilegais.

Em 1898, Rosa decidiu transferir suas operações para a Alemanha, onde ela iria trabalhar com o Partido Social Democrata Alemão (não é irônico como essas organizações sequestraram a palavra "democracia" para tornarem-se aparentemente aceitáveis?). Nessa época, ela sabia que suas violações persistentes iriam ganhar o interesse das autoridades alemãs, e que, como uma estrangeira, ela provavelmente seria deportada. Sua solução foi entrar em um falso casamento com o filho de um amigo, um Gustav Lubeck, exclusivamente com o fim de obter a cidadania alemã. O esquema funcionou, apesar de os dois conspiradores nunca viverem juntos, permitindo a Rosa tornar-se uma maldição em seu novo país.

Não muito tempo depois, seu discurso, Reforma ou Revolução, foi publicado. Ele serviu a um propósito útil, no entanto, ele manteve socialistas divididos sobre a doutrina.

A partir de 1900, Rosa usou sua caneta para atacar não somente seus companheiros socialistas, mas também o seu país de adoção. Claro, ela foi presa não menos que três vezes em três anos (1904-6), mas a megera foi além do que se esperava, e em 1907 ela até mesmo viajou para Londres para assistir o 5° Congresso do Partido do Partido Democrata da Rússia, onde conheceu Lenin. Nesse mesmo ano, no 2° Congresso Internacional realizado em Stuttgart, ela convenceu todos os partidos europeus de extrema-esquerda para parar a próxima guerra mundial. O objetivo era bom, apesar das motivações nefastas, pois ninguém realmente precisava de uma guerra civil europeia, mas, no final, este sucesso momentâneo entre seus colegas de diálogos revelou-se mais um fracasso, como veremos daqui a pouco.

Durante este período, Rosa ensinou marxismo e economia em um centro de doutrinação do SPD. Dele veio Friedrich Ebert, o primeiro presidente da República de Weimar. Ela encontrou tempo para escrever um livro, chamado A Acumulação de Capital, publicado em 1913, uma densa, difícil, e ingrata dissertação crítica ao capitalismo, malvista no futuro. E ela também foi enviada como representante do SPD de vários congressos socialistas europeus. Apesar de sua agitação para greves contra a guerra, quando esta eclodiu o SPD apoiou-a ao máximo, juntamente com os traidores socialistas franceses, que tinham até então apoiado sua linha. Depois de contemplar brevemente suicídio, ela decidiu ficar por aqui e seguir em frente, tornando-se ainda mais um incômodo.

Rosa começou a organizar manifestações contra a guerra, incitando os jovens a tornar-se objetores de consciência e desobedecer a ordens. Sem surpresa, ela foi presa novamente, mas não por tempo suficiente (apenas um ano). Seu advogado de defesa, Paul Levi, também era seu amante, e se tornaria líder do Partido Comunista da Alemanha depois de sua morte, alguns anos mais tarde. Enquanto preso, ela escreveu outro livro, A Acumulação de Capital: Anti Crítica, que foi publicado em 1915 e desde então foi esquecido. A última impressão aconteceu há mais de 40 anos. (Aliás, os leitores raramente veem seus livros na Amazon - a vida é muito curta, ao que parece.)

Juntamente com Karl Liebknecht, Clara Zetkin e Franz Mehring, ela fundou o Die Internationale, o grupo que viria a ser a Liga Espartaquista dois anos depois. Liebknecht era um advogado, que jogou fora sua carreira defendendo criminosos de esquerda até que ele mesmo se tornou um criminoso, e acabou sendo julgado por alta traição e condenado a quatro anos de prisão. Clara Zetkin foi uma das primeiras feministas do estoque rústico, que tiveram filhos fora do casamento antes de se casar um gigolô – o pintor sem inspiração George Friedrich-Zundel que tinha quase a metade de sua idade. Franz Mehring, embora mais velho, não era de forma alguma mais sábio: ele simpatizava com os bolcheviques e foi um prazer ver a Rússia sob sua mão de ferro. Esta gangue desagradável publicou o ​​folhetim agitador pretensiosamente chamado "Spartacus". Ironicamente, seus esforços contribuíram para a criação de Adolf Hitler. Será que ele não reclamaria sobre as greves contra a guerra, particularmente das greves nas fábricas de munições, organizado pela vontade de Luxemburgo e cia. enquanto jovens alemães morriam nas trincheiras e estavam sob fogo inimigo? Escusado será dizer que as autoridades alemãs fizeram a única coisa a se fazer neste caso, e prenderam Rosa e Liebknecht por dois anos e meio. Era o esperado.


A judia Rosa Luxemburgo (05/03/1871-15/01/1919)
Agitadora, acadêmica, política, marxista, terrorista e comunista.

Enquanto estava na prisão, ela continuou escrevendo artigos tediosos, que eram então contrabandeados para fora por seus cúmplices e publicados ilegalmente. Ela criticou as políticas dos bolcheviques após a Revolução de Outubro (de outra maneira muito bem-vindos, em sua opinião), a que Lênin e Trotsky responderam, em essência, que suas ideias do marxismo estavam ultrapassadas e ela não sabia o que estava falando: as circunstâncias nessa época tinham forçado táticas mais vigorosas.

Em sequência a uma dissidência com o SPD, membros contrários à guerra descontentes criaram uma nova organização, em 1915, o Partido Social Democrata Independente, ou USPD. Foi fundada por Hugo Haase, um advogado e ideólogo de esquerda que mais tarde (sem sucesso) iria defender Liebknecht. A Liga Espartaquista era afiliada a este grupo desde 1917. A associação cresceu e, no final, eles se reconciliaram com o SPD em tempo de se tornar parte do governo temporário – O Conselho de Deputados do Povo – que se seguiu à revolução de novembro de 1918. Esta entidade temporária, liderada por Ebert e Haase, substituiu o governo imperial da Alemanha, com o que mais tarde ficou conhecido como a República de Weimar.

Com o governo revolucionário agora no poder, Rosa foi solta em novembro de 1918. No dia seguinte, Liebknecht, que também havia sido solto, arrogantemente proclamou a Freie Republik Socialistische em Berlim. Os dois reorganizaram a Liga Espartaquista e lançaram um outro folhetim ideológico, o Red Flag. Sua principal preocupação era fazer com que os seus companheiros políticos escapassem de serem desertores: eles exigiram anistias e a abolição da pena capital. Em meados de dezembro, eles foram capazes de anunciar um novo programa político. E pouco mais de duas semanas depois, eles participaram de um congresso compreendendo eles próprios, os socialistas independentes, e os comunistas internacionais da Alemanha (IKD). Essa quadrilha podre formou o Partido Comunista da Alemanha (KPD), que nomeou o traidor Liebknecht como seu líder.

Os sete principais relatórios foram dados por membros da Liga Espartaquista. A contribuição de Rosa foi o delineamento do programa do partido.

Rosa queria que o KPD fizesse parte da Assembleia Nacional de Weimar, mas ainda havia alguma justiça deixada no mundo, pois ela foi derrotada e o KPD, em um acesso de raiva, boicotou as eleições.

Como era de se esperar, o KPD foi uma organização criminosa, comprometido com uma tomada violenta do poder. Outra onda de violência varreu Berlim. E com o recente precedente da revolução bolchevique, o governo de Weimar ficou preocupado com algo semelhante acontecer na Alemanha. Portanto, o ex-aluno de Rosa, Ebert, ordenou que os Freikorps, o grupo paramilitar anticomunista, destruíssem a revolução. O Freikorps era composto por veteranos de guerra ainda equipados com armas militares, que facilmente esmagaram o levante. Rosa e Liebknecht foram capturados, interrogados sob tortura, e executados com um tiro no cérebro. Seus corpos foram tratados como o que eram, obviamente, e considerando o devido desrespeito: Rosa foi jogada em um canal, com pesos amarrados em seus pulsos e tornozelos, e Liebknecht foi enviado como indigente a um necrotério.

Isso serviu como desculpa para mais violência e ataques pelo KPD. Felizmente, eles finalmente se esgotaram depois de um tempo e foi o fim de tudo. A contagem final era de 100 civis mortos.

Depois o governo de Ebert fingiu indignação com o tratamento dado aos dois criminosos condenados. Um soldado e um tenente envolvidos na morte deles foram presos. No entanto, em suas memórias, o capitão Waldemar Pabst, comandante dos Freikorps Garde-Kavallerie-Schützendivision, que conquistou os comunistas ex-presidiários, afirmou que o chanceler Ebert e o então ministro da Defesa, Gustav Noske, ambos líderes do SPD, aprovaram as ações empreendidas. Vemos então que a política socialista era um negócio tão sujo como o dos comunistas.

Os corpos foram posteriormente recuperados e enterrados no Cemitério Central de Friedrichsfelde, em Berlim. Aparentemente sem vergonha alguma, socialistas e comunistas vão desde então em peregrinação a este local todos os anos.

Por mais que pareça que Rosa Vermelha tenha falhado em todos os seus esforços, ela ainda conseguiu causar danos imensos por ajudar e organizar socialistas e comunistas na Alemanha. O KPD serviu de base para a SED, com o qual os soviéticos governaram na ditadura comunista da Alemanha Oriental após a Segunda Guerra Mundial. Torna-se evidente a partir da biografia de Luxemburgo escrita por Elzbieta Ettinger que, no final, tudo se resumia à sua incapacidade de transcender seu sentimento de não nacionalidade. Por isso, e como vimos repetidamente nesta série, muitos pagaram pelas inadequações sociopatas do uma pessoa.

Ignorados e reprimidos pela maioria dos comunistas por um longo tempo, seus escritos têm recebido atenção atualmente por acadêmicos, alguns dos quais agora a consideram um ícone. No final, parece que Rosa teve grande charme – depois que ela morreu.

Tradução por Daniel Falkenberg




Sobre ou autor: Alex Kurtagić (1970 – ) nasceu na Croácia filho de pais eslovenos. Devido a profissão do pai, viajou e viveu em vários países. Tem fluência em inglês e espanhol, e pratica o francês e alemão. Após completar os estudos nos EUA graduou-se na Universidade de Londres (M.A. entre 2004 – 2005) em Estudos Culturais. Também é músico, desenhista, pintor, escritor e editor (Wermod and Wermod Publishing Group). Seus artigos são publicados nas revistas virtuais The Occidental QuarterlyVdareCounter CurrentsTaki Mag, e American Renaissance.


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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A crucificação dos judeus deve parar! - Por Mark Weber


Mark Weber 

(Editorial Journal for Historical Review)

            Meio século antes do termo “Holocausto” ter entrado em amplo uso, e 15 anos antes do incessantemente repetido número das alegadas “Seis  Milhões” de vítimas judaicas do tempo de guerra ter sido ordenada em Nuremberg, ambos foram incrivelmente citados no influente semanário New York Jewish. Este foi em 31 e de outubro de 1919, na edição do The American Hebrew, provavelmente o mais influente periódico judaico americano em língua inglesa de sua época. Ostensivamente escrito pelo ex-governador do Estado de Nova Iorque Martin Glynn, este artigo apareceu sob a impudente e atemporal manchete: “A crucificação dos judeus deve parar!” “Seis milhões de seres humanos estão sendo lançados em turbilhões em direção à tumba... seis milhões de homens e mulheres estão morrendo,” disse o semanário judaico aos leitores. “Nesta iminente ameaça de holocausto da vida humana,” os judeus europeus são as vítimas da “enormemente horrorosa tirania da guerra e de uma cobiça pelo sangue judaico.” (Este artigo foi fornecido pela Polish Historical Society of Stamford, Connecticut.)




Decisões responsáveis

“... Nós devemos ser responsáveis por nossas ações, as quais, pela sabedoria ou insensatez delas, podem determinar o resto de nossas vidas. Nossos sonhos podem dar expressão, agradável ou dolorosa, para nossos desejos subconscientes ou medos. Mas em nossas horas acordados, nós devemos, se nós somos racionais, fazer nossas decisões na base das estimativas mais objetivas e com sangue frio que nós pudermos fazer – estimar as forças e tendências do mundo que nos rodeia – estimar as realidades com as quais nós devemos lidar. Lembrando sempre que nada é provável acontecer apenas porque pensamos que é bom, ou improvável de acontecer apenas porque nós pensamos que é mal.”
Revilo P. Oliver

 Tradução por Mykel Alexander



Fonte: The Crucifixion of Jews Must Stop!, por Mark Weber (editorial), The Journal for Historical Review, Novembro / Dezembro 1995, Volume 15 número 6, Página 31.

Sobre o autor: Mark Weber é um historiador americano, escritor, palestrante e analista de questões atuais. Estudou história na Universidade de Illinois (Chicago), a Universidade de Munique, Portland State University e Indiana University (M.A., 1977, História Europeia). Em março de 1988 ele testemunhou por cinco dias na Corte do Distrito de Toronto como um reconhecido especialista e testemunha na questão da política judaica no período de guerra da Alemanha e do Holocausto. Ele foi editor do Journal of Historical Review do IHR de abril de 1992 até dezembro de 2000. Desde 1995 até atualmente é o diretor do Institute for Historical Review, trabalhando para promover a paz, compreensão e justiça através de uma maior consciência pública para com o passado.


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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Cristianismo – uma ruptura total ou parcial com o judaísmo? - Parte 1 - Por Mykel Alexander

  

Mykel Alexander
Religião e geopolítica no Ocidente contemporâneo

Num artigo publicado no The Occidental Observer (07/01/2017) sobre o livro de Rusell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch, levantou-se o tema sobre consistentes contradições do Antigo Testamento, o que significaria inclusive registros de pretensões históricas legítimas por parte dos compositores do Antigo Testamento  e de seus seguidores atuais sem, contudo, possuírem tal legitimidade a corroboração nos estudos históricos e arqueológicos.

            Dentro das polêmicas atuais sobre o cristianismo, acentuadas pelas polêmicas políticas, a relação entre religião e política passou a ficar mais viva. Dos três grandes grupos cristãos, os dos católicos, ortodoxos e evangélicos, no Ocidente tem mais relevância as divergências entre católicos e evangélicos, já que os ortodoxos se situam mais no leste da Europa, Rússia e partes da Ásia e Egito, locais de menos contato com o Ocidente.

Um novo fator tem entrado nas querelas cristãs, a saber, a corrente de fiéis cristãos sionistas que apoiam o Estado judaico de Israel devido a associarem tal Estado às profecias bíblicas. Entre os brasileiros talvez o principal nome vinculado a esta nova corrente seja o publicista Olavo de Carvalho. É inegável que a soma de fatores recentes, como o fortalecimento da direita liberal e o cristianismo sionista, deu impulso nas eleições brasileiras de 2018 nas quais alguns importantes vencedores estreitam relações com Israel. Na realidade esse padrão tem sido recorrente nos governos recém-eleitos de direita, como nos EUA, na Áustria e na Itália. É uma geopolítica que gravita ao redor de Israel.

           Mas de onde é retirado o critério de voto dos eleitores dessa direita pró-Israel?  Muitos votos que foram para essa nova direita procederam das correntes cristãs, católicas, evangélicas e sionistas, e são conquistas políticas originadas de expectativas não só políticas, mas em grande parte religiosas. Para quem não é completamente leigo sobre pontos básicos do cristianismo, sabe que a Bíblia possui uma divisão fundamental, entre o Antigo Testamento com escrituras exclusivamente dos israelitas e dos judeus, as quais antecedem Jesus, e o Novo Testamento que traz conteúdo atribuído aos ensinamentos de Jesus, embora muitos dos quais escritos e difundidos por judeus, começando pelos apóstolos Paulo e Pedro, dois dos mais importantes nomes para a formação da Igreja Católica, que, repito, eram judeus e com inseparáveis laços afetivo à tradição judaica .

            De modo muito simples a Bíblia em seu conteúdo apresenta um suposto acordo de um personagem, Abraão, com o deus, narrado no livro bíblico Gênesis do Antigo Testamento. Este acordo é a chamada Aliança (exatamente em Genesis 15, 18) que teria ocorrido entre o deus do Antigo Testamento, Iahweh, e Abraão o qual a partir de então seria o ancestral patriarca do povo judeu[1], e aceito como ancestral comum das tradições cristãs e islâmicas, daí o nome de religiões abraâmicas para o judaísmo, cristianismo e islamismo. Para os cristãos em João 13,34 e no decorrer do livro Epístolas aos hebreus, a Aliança do Antigo Testamento, que tinha sido iniciada com Abraão e reforçada com Moisés, é substituída pela Nova Aliança mediada entre Deus e os homens através de Jesus Cristo. Para os islâmicos as alianças anteriores entre Deus e os homens, mediadas por Abraão, Moisés e Jesus Cristo, foram, decido ao desgaste ou deturpações, perdendo o sentido legítimo através do tempo, e teria sido através de Maomé que os ensinamentos de Deus foram retificados em seu sentido original no Alcorão.

            Também, quem não é totalmente leigo sobre a tradição cristã sabe que as igrejas evangélicas preconizam o Antigo Testamento sobre o Novo Testamento enquanto que a Igreja Católica preconiza o Novo Testamento sobre o Antigo Testamento. Claro que essa posição adotada pelos evangélicos os fazem muito mais próximos aos judeus do que faz a posição dos católicos. E, de modo simples, dentro das polêmicas que conjugam religião e política encontram-se no Ocidente os católicos como os cristãos mais críticos ao Estado de Israel ou até mesmo judaísmo internacional (isto é, da coesão judaica incondicional apesar da condição de diáspora que permite aos judeus viverem em culturas diferentes). Na verdade, é comum os católicos, e também os ortodoxos, falarem que Jesus é o rompimento com o judaísmo. Mas será mesmo que é?

            Como é muito nebulosa a reconstrução dos primórdios do cristianismo, pularei aqui o que teria exortado ou não Jesus antes de surgirem supostas alterações em sua mensagem original, pois no decorrer dos séculos muitas disputas doutrinárias e muitos ajustes, compilações e exclusões de textos ocorreram, e isso é uma marca patente dos concílios, onde e quando se formalizavam e oficializavam as doutrinas e escrituras, e, portanto, não me precipitarei em afirmar ou negar que alguma passagem é de Jesus ou que seja fidedignamente desenvolvida sobre ensinamentos de Jesus, e irei direto a uma passagem que escolhi como ponto de partida para dar início  à reflexão se o cristianismo, como instituição religiosa que desenvolveu-se na forma de igrejas, é uma ruptura com o judaísmo como alguns cristãos afirmam.


A alegação de que a ‘salvação vem dos judeus’

Para fins de referência utilizei a versão em português da Bíblia de Jerusalém, que é considerada uma das mais sérias versões devido ao rigor das traduções e do contexto histórico feito por conjunto um conjunto multidisciplinar, que incluiu teólogos, historiadores, arqueólogos entre outros especialistas. Cada livro da Bíblia de Jerusalém contou com um especialista fazendo um texto introdutório, de contexto teológico, documental e histórico[2]. Então para as passagens analisadas aqui dei o crédito da autoria ao estudioso responsável pelo livro bíblico em questão conforme o índice de ‘Principais colaboradores’. Um ponto fundamental que a Bíblia de Jerusalém traz é que enquanto muitas versões em português da Bíblia usam a palavra ‘Senhor’ para Deus no Antigo Testamento, esta versão bíblica utiliza o termo original Iahweh. Isto pode parecer inicialmente irrelevante, mas tem significado profundo, uma vez que existe a polêmica de que o Deus do Antigo Testamento é um e o Deus do Novo Testamento, o que Jesus se refere, seria outro. Isso por si só já bastaria para afirmar um tipo de ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento conforme será, em certa medida, também examinado aqui.

No Evangelho segundo São João, 4, 22, temos uma passagem que levanta questões muito importantes no que toca continuação ou ruptura entre o judaísmo e o cristianismo. Nela afirma-se o seguinte:

Vós adorais o que não conheceis;  

Nós adoramos o que conhecemos,  

Porque a salvação vem dos judeus

            O que se pode deduzir dessa passagem? Talvez num primeiro momento pode-se deduzir que apenas procedendo dos judeus, e de nenhum outro grupo ou povo, o bom caminho é obtido. Vamos então apurar um pouco mais o contexto.

            É comum, como uma resposta pronta, ouvir da boca dos cristãos que minimamente estudam a Bíblia alegarem que interpretar essa passagem de João como uma apologia aos judeus, seria descontextualizar tal passagem, já que esta refere-se a estadia de Jesus na Samaria onde teria conversado com uma mulher, e que, portanto, essa passagem não seria algo generalizante, mas sim restrito ao específico contexto da pequena comunidade da Samaria.

Todavia, segundo Donatien Mollat, talvez o maior especialista francês em escrituras joaninas, essa passagem tem um simbolismo, mas que no meu entender envolve depreciação de outras tradições sim. Em João 4, 18, Jesus adverte que a samaritana em questão tinha tido 5 maridos, e o tom é de reprovação, mas não exatamente por promiscuidade ou instabilidade conjugal. Explica Mollat et al.:
“Os cinco maridos simbolizam os deuses importados por cinco povoamentos pagãos [...]. O deus dos cananeus chamava-se Baal, mas esta palavra tornou-se o nome comum para designar todos falsos deuses. Ora, nas línguas semíticas, a palavra baal significa também ‘marido’, teríamos portanto aqui, um jogo de palavras não traduzido em grego, que seria retomado de Oséias 2,18-19, texto que anuncia a conversão da Samaria.” (Mollat et al., p.1851, nota b).
            É totalmente compreensível que os fiéis não tenham obrigação de conhecerem esse contexto que reúne ao simultaneamente erudição e sensibilidade para interpretação simbólica. A moça samaritana desta passagem representa, na interpretação alegórica acima, a própria história da Samaria. É uma interpretação mais profunda, que passa geralmente despercebida em relação a interpretação comum desta passagem, a saber, Jesus, alegadamente judeu, não possui repulsa à uma habitante da Samaria como era comum os demais judeus terem.

Trata-se do proselitismo de conversão geral em que visa simultaneamente converter os povos, no caso, da Samaria, apagando, consequentemente, cinco tradições pagãs. Em Oséias, livro do Antigo Testamento, o oráculo judaico de Jeová (Yahweh) é quem está contra Baal, e o povo da Samaria teria de não mais adorar Baal, mas sim Jeová, o deus judeu.

Então, vamos fazer a seguinte suposição, para vermos se há algum grau de ruptura ou de continuidade entre judaísmo e cristianismo no seguinte exemplo: se quando diante do Antigo Testamento o cristão samário tem de escolher entre Jeová (Yahweh), deus judeu do Antigo Testamento, ou Baal; o cristão grego entre Jeová (Yahweh) ou Zeus; entre Jeová ou Osíris; o cristão romano ou entre Jeová (Yahweh) ou Júpiter, todos eles escolhem sempre Jeová (Yahweh), como pode isso não ser uma conexão com o judaísmo? Há ao mesmo tempo uma deleção da identidade nacional ancestral dos respectivos povos nessa situação, uma vez que religião e a ordem social destes povos sempre foram interconectadas, e o passado destes, de tempos ancestrais, passa a ser substituído pela visão de mundo ancestral que há na narrativa do Antigo Testamento. Assim o gentil ao ser convertido, paulatinamente vai sendo desenraizado totalmente de suas tradições arcaicas. Junto com a nova religião concomitantemente dissolve-se os vínculos ancestrais já que estes são inseparáveis das religiões nas tradições dos povos. Deste modo ser cristão implica perder teor da tradição gentílica e receber teor da tradição judaica.

Pode-se afirmar que o cristão admite, sem dificuldades, que as escrituras judaicas colocaram que todos outros povos tinham falsos deuses na antiguidade, antes do advento de Jesus, e que na antiguidade o verdadeiro deus era o dos judeus e não o de quaisquer outros povos, e que o cristianismo adotou totalmente este contexto. Para os cristãos o que os judeus colocaram sobre os outros povos no Antigo Testamento é a palavra final.

É nítido que a narrativa do Antigo Testamento, em que os deuses dos demais povos que não o povo judeu são deuses falsos, retomada em João é uma nova carga contra as tradições não-abraâmicas, porém desta vez com o cristianismo se valendo exatamente das mesmas premissas judaicas. Pode-se dizer que tal postura cristã não é uma herança do judaísmo? As reprovações dos cristãos à idolatria significam isso, tais reprovações possuem antecedentes nas reprovações dos judeus à idolatria dos outros povos, conforme segue abaixo.

Na tradição grega a palavra daimôn é relacionada com seres sobrenaturais ou sobre-humanas, que não são necessariamente benéficos ou maléficos aos homens, existindo tipos de daimôn de ambas naturezas. Por exemplo, Sócrates teriam um daimôn conselheiro guiando sua busca pela sabedoria (ver Apologia de Sócrates de Platão) e Júlio César também teria um daimôn que lhe acompanhava nos desafios em vida e foi-lhe fiel após a morte em limpar-lhe a honra diante de seus assassinos (Plutarco, Vida de César, 69.2).

Na Septuaginta, a versão da Bíblia hebraica traduzida para o grego entre os séculos III a.C. e o século I a.C., os tradutores judeus substituíram vários termos gregos relacionados com a palavra daimôn na palavra plural daimonia. Christopher P. Jones, da Universidade de Harvard, observa:
“A cristandade também tomou do judaísmo uma concepção de inumeráveis poderes do mal, frequentemente identificado com os deuses das nações ‘aos arredores,’ [...]” (Jones, p. 36).
Em Salmos 96.5 se diz,  “Todos os deuses das nações são demônios” (daimonia)[3] e, explica Jones, esta passagem dos Salmos:
“[...] tornou-se um texto favorito dos escritores cristãos. Os primeiros escritos canônicos da cristandade perpetuaram a concepção judaica dos deuses pagãos como ‘demônios,’[...]”(Jones, p. 37).
          Deste modo, a palavra grega daimôn que não tinha, de modo geral, a conotação de forças malignas, foi deformada numa guerra ideológica entre os judeus e seus vizinhos, passando a palavra daimôn significar exclusivamente força maligna, e a mesma estratégia foi adotada pelos cristãos. 

Ora, como não dizer que a passagem de João 4,22, não é generalizante se a parábola da mulher samaritana, segundo a mentalidade cristã, se adapta sim em ser dirigida às nações dos respectivos deuses anteriormente mencionados da Cananeia, Grécia, Egito e Roma? É fora de dúvida que em relação a todas as tradições destes respectivos povos, anteriores a Jesus, os judeus as colocam como tradições de falsos deuses, e isto é uma postura que conta com a concordância do cristão, já que este concorda na manutenção deste discurso judeu de que os demais deuses são falsos deuses ou uma multidão de forças do mal, isto é, as demais nações são governadas pelas forças do mal. Definitivamente é a edificação da postura de um lado ser o totalmente certo e o outro lado o totalmente errado.

Eis agora a linha de raciocínio que permite admitir que a passagem “a salvação vem dos judeus”, de João 4,22 é generalizante. Por exemplo, nada impediria um prosélito cristão fazer uma parábola de que uma moça romana (simbolizando a própria Roma, como no exemplo da moça samaritana que representa a própria Samaria) tinha tido três maridos, e que isso significava, que Roma tinha adorado Zeus, depois Apolo, e depois Hélio em sua forma Sol Invicto. O que importa para o prosélito cristão é que, dando continuidade a mesma linha de pensamento judaico, todos os outros deuses são falsos ou forças do mal, tenham o nome que for.

O Evangelho de Marcos põe na boca de Jesus que:
Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não o crer será condenado” (Marcos 16, 15-16).
São Justino (100-165 d.C.) diz ao prefeito de Roma que só a ‘fé’ dos cristãos é a verdadeira.[4]

Santo Agostinho (354-430 d.C.) em sua Cidade de Deus, a sua maneira, após afirmar que somente Jesus é intermediário entre os homens e Deus (livro 9, cap. 15), tenta dizer que os deuses e os demônios/daimôn não teriam interação benéfica com os homens, tentando refutar o médio-platônico Apuleio (125-170 d.C.), de modo a depreciar todas as divindades das demais tradições, e faz isso da seguinte maneira, buscando autoridade em Platão, que mesmo entre os cristãos impunha ainda grande respeito:
Não é verdade o dito que o mesmo platónico [Apuleio] atribui a Platão:
Nenhum deus se mistura com os homens.” (Cidade de Deus, livro 9, cap. 16).
Contra a afirmação de Santo Agostinho, consta no próprio Platão o seguinte:
Deus não se mistura ao homem e todavia a natureza demoníaca torna possível aos deuses terem geralmente relações com os homens e com eles conversarem tanto durante a vigília como durante o sono”. (Banquete 203 a)[5].
Depois de proferir que os povos que não são da comunidade ‘eleita por Deus’, isto é, que não são da comunidade cristã, como desamparados por Deus, por dependerem de daimôn ou deuses falsos, Agostinho faz o elogio à tradição de Israel, o qual reproduzo inteiramente para não haver risco de palavras ou frases isoladas e descontextualizadas:
Julgo que nem os próprios judeus se atrevem a pretender que ninguém além dos israelitas pertenceu a Deus desde quando começou a descendência de Israel com a reprovação de seu irmão mais velho. É verdade que nenhum outro povo se encontrou que fosse digno de se chamar propriamente o povo de Deus; mas que tenha havido, mesmo entre outros povos, homens que tenham pertencido, não por comunhão terrestre mas celeste, aos verdadeiros israelitas, cidadãos da pátria do Alto, não podem eles negá-lo; porque, se o negassem facilmente seriam convencidos como o santo e admirável Job, que não foi indígena, nem prosélito, isto é, adventício do povo de Israel, mas procedia do povo idumeu, onde nascera e onde veio a morrer; e, todavia, é de tal maneira louvado pela palavra divina que nenhum homem dos seus tempos se lhe pode igualar no que respeita a justiça e piedade. Embora nas Crónicas não encontremos qual foi a sua época, podemos, porém, deduzir do seu livro, - que, devido ao seu mérito, os israelitas admitem no seu cânon – que ele pertencia à terceira geração posterior a Israel.
Não duvido de que a divina Providência quis, apenas por intermédio deste, que ficássemos a saber que puderam existir também entre os outros povos homens que viveram em conformidade com Deus, procuraram agradar-lhe e pertencerem à Jerusalém espiritual. Não se deve crer que isto tenha sido concedido senão àqueles a quem Deus revelou o único mediador entre Deus e os homens – o homem Jesus Cristo. Aos antigos santos foi anunciado que Ele havia de vir em carne, tal qual nós O anunciámos como já chegado, para que por Ele uma só e a mesma fé conduza a Deus todos os que estão predestinados a tornarem-se Cidade de Deus, Casa de Deus, Templo de Deus. É certo que as profecias de outros acerca da graça de Deus por Jesus Cristo podem ser encaradas como inventadas pelos cristãos. Por isso, se há quem discuta a este respeito, nada há mais de seguro para convencer os estranhos, quaisquer que eles sejam, e torna-los nossos (se procedem com rectidão) do que apresentarem-se-lhes as predições divinas acerca de Cristo que estão escritas nos códices dos judeus; uma vez arrancados estes às suas próprias moradas e dispersos eles por toda a Terra para prestarem este testemunho, é que a Igreja de Cristo se estendeu por toda parte.” (Cidade de Deus, livro 18, cap. 47).
Dado todo o contexto, agora posso extrair a inserção de Agostinho de pretender colocar na memória do Mundo que no passado o judeu era o ‘povo eleito’:
É verdade que nenhum outro povo se encontrou que fosse digno de se chamar propriamente o povo de Deus [...]”
E também, essencial ao cristianismo é se basear no judaísmo, pois a disputa entre judeus e cristãos é para ser o ‘povo eleito’ de Deus:
É certo que as profecias de outros acerca da graça de Deus por Jesus Cristo podem ser encaradas como inventadas pelos cristãos. Por isso, se há quem discuta a este respeito, nada há mais de seguro para convencer os estranhos, quaisquer que eles sejam, e torna-los nossos (se procedem com rectidão) do que apresentarem-se-lhes as predições divinas acerca de Cristo que estão escritas nos códices dos judeus.
Egípcios, minoicos, hititas, micênicos, babilônios, assírios, persas, gregos, e romanos, as grandes civilizações que Agostinho certamente estudou ou leu menção em maior ou menor medida, também chineses e hindus cujas rotas comerciais que direta ou indiretamente o império macedônico conectou com Roma, em alguma medida, mesmo que ínfima, lhe devem ter chegado algo, e todas estas civilizações, nas palavras de Agostinho, pode-se inferir, estariam abaixo de Israel, pois “nenhum outro povo se encontrou que fosse digno de se chamar propriamente o povo de Deus”, enquanto incas, astecas e maias, também três povos que se enquadram na categoria de altas culturas, que dificilmente ele deve ter ouvido falar, mas existiam no período em que vivia, também eram, pela lógica dele, abaixo de Israel. O conjunto somado de toda criação destes povos das mais altas culturas da humanidade histórica, que captaram as leis inteligíveis do universo e plasmaram na terra, captação que só a mente superior, não reduzida aos imperativos biológicos do corpo, pode fazer, resultando em alta cultura material e espiritual, com duração de séculos, e inclusive milênios algumas delas como a egípcia e chinesa, não satisfizeram o Deus de Agostinho nos períodos anteriores à Jesus, pois “nenhum outro povo se encontrou que fosse digno de se chamar propriamente o povo de Deus”!

Ao menos na cristandade essa é a arqueologia cultural da humanidade! Ou a maioria dos cristãos acha que não? Que algum outro povo antes de cristo tinha mais valor que o povo de Israel?

É verdade que o proselitismo, a evangelização cristã, colocava para fins de concorrência com seus contemporâneos a pessoa de Jesus, e se para as grandes civilizações acima mencionadas, muitas já envelhecidas, corrompidas, degeneradas, em dissolução, na fase final de seus ciclos, o mesmo recurso era usado nas culturas mais novas que haviam no Ocidente, especialmente os indo-europeus, quando para fazerem estes abdicarem de suas tradições ancestrais os prosélitos recorriam à narrativa de que no período anterior à Jesus, “nenhum outro povo se encontrou que fosse digno de se chamar propriamente o povo de Deus,” uma vez que tal período de conversão dos povos mais jovens é um período, séculos IV e V d.C., que vive o próprio autor desta frase, Santo Agostinho.

É a mesma lógica da simbologia da passagem da conversa entre Jesus e a moça da Samaria em João 4,22, “A salvação vem dos judeus.” Uma lógica aplicada de modo generalizante, e desta vez para os indo-europeus, fossem celtas, ibéricos, germânicos, bálticos, eslavos, bretões, nórdicos etc, e que a história verdadeira da antiguidade do mundo era a que constava no Antigo Testamento.

Até aqui, vemos que apesar dos cristãos afirmarem que Jesus é um rompimento com o judaísmo, não obstante, a evangelização inevitavelmente procura sua base no judaísmo, recorrendo também frequentemente ao Antigo Testamento, tanto para interpretação histórica dos povos da antiguidade, pois aceita como história da antiguidade praticamente apenas o que está contido no Antigo Testamento, bem como precisa recorrer ao Antigo Testamento a profecia que permite para o cristão transição da condição de ‘povo eleito’ do judeu para os membros da ‘comunidade cristã’.

Notas


[1] The Cambridge Dictionary of Judaism & Jewish Culture, vocábulo Abraham.

[2] As autoridades responsáveis pelos estudos introdutórios na dos respectivos livros na 1ª edição (1956) da Bíblia de Jerusalém foram (pág. 7 da edição utilizada, Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus, 1ª edição, 12 ª reimpressão, São Paulo, 2017):
Evangelho de Marcos: Joseph Huby.
Evangelho de Mateus: Maurice Benoît que também assinava como Pierre-Benoît.
Evangelho de Lucas: Émile Osty.
Evangelho de João: Donatien Mollat.
Nas demais edições, 1973 e 1998, o alto colegiado reunido pela École Biblique de Jérusalem avançou os estudos críticos, os quais resultaram na presente edição brasileira baseada na edição original francesa de 1988. Tendo isto em conta quando alguma citação referente aos quatro autores acima for feita será acompanhada de Et al., creditando assim os colaboradores do alto colegiado da École Biblique Jerusalém que avançaram os estudos dos especialistas citados.
Para a introdução sobre os sinóticos usarei para referenciar o autor simplesmente École Biblique uma vez que na edição em português da Bíblia de Jerusalém não é apontado o autor, e também pelo fato dos textos das edições terem sido atualizados pelo alto colegiado da École Biblique de Jérusalem. 

[3] Passagem em Between pagan and christians, de Christopher P. Jones, pág. 37. Na Bíblia de Jerusalém versão em português, vertida a partir da escritura em hebraico, está assim “Os deuses dos povos são todos vazios.”, contudo a nota a, pág. 965, referente à este versículo reitera que no grego corresponde à demônio.”

[4] Gustave Bardy, La Conversion al Cristianismo durante los primeiros siglos, Ediciones Encuentro, Madrid, 1990, p. 150.

[5] Passagem extraída por J. Dias Pereira, presente na própria nota referente a afirmação em questão, feita por Santo Agostinho, na edição utilizada da Cidade de Deus, volume II, pág. 859, nota 1.


          
Bibliografia:

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Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus, 1ª edição, 12 ª reimpressão, São Paulo, 2017.

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Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Volume II (Livro IX a XV), Editora Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 2000. Tradução por J. Dias Pereira, a partir do original latino intitulado De Civitate Dei baseada na edição de B. Dombart e A. Kalb.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Volume III (Livro XV a XXII), Editora Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 2000. Tradução por J. Dias Pereira, a partir do original latino intitulado De Civitate Dei baseada na edição de B. Dombart e A. Kalb.

Dicionário Houaiss, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição.

The Cambridge Dictionary of Judaism & Jewish Culture, Cambridge University Press, Nova Iorque, 2011, (editado por Judith R. Baskin, Universidade de Oregon).   




Sobre o autor: Mykel Alexander é licenciado em História (Unimes), Bacharel em Farmácia (Unisantos) e está no último semestre de licenciatura em Filosofia (Unimes).
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