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| Joseph Massad |
O sadismo tem há muito
caracterizado o tratamento dado pelos colonizadores sionistas aos palestinos,
enraizado em visões orientalistas de que os árabes só ‘entendem a força’ -
incluindo a violência sexual.
O
escândalo de tortura sexual israelense,[1] no
qual nove soldados foram presos[2] em
29 de julho sob a acusação de tortura física e sexual contra homens palestinos,[3]
foi retratado pela mídia ocidental como um desvio dos métodos de tortura usuais
de Israel.
A
ideia é que os torturadores israelenses de prisioneiros palestinos geralmente
não os submetem a estupro.
Quatro dos soldados presos foram posteriormente libertados[4] após protestos generalizados.
O
Departamento de Estado dos EUA,[5]
presumivelmente horrorizado com tal tortura, descreveu um vídeo[6]
que reportadamente mostrava o alegado estupro como “horrível” e insistiu que “deve
haver tolerância zero para abuso sexual, estupro de qualquer detento, ponto
final... Se houver detentos que foram agredidos sexualmente ou estuprados, o
governo de Israel, as Forças de Defesa de Israel [exército israelense],
precisam investigar completamente essas ações e responsabilizar todos os culpados
com todo o rigor da lei.”
A
Casa Branca, presumivelmente também alheia à prática de abusar de prisioneiros
políticos detidos em prisões americanas, manteve-se calma, mas considerou[7] os
relatos de tortura sexual israelense “profundamente preocupantes.”
A
União Europeia seguiu o exemplo e declarou-se[8] “gravemente
preocupada.”
Mas
isso não é nenhuma novidade na crueldade do regime colonial-povoador
israelense. O exército israelense vem usando sistematicamente tortura física e
sexual contra palestinos desde pelo menos 1967, como revelaram[9]
grupos de direitos humanos[10]
anos atrás.
De
fato, o sadismo tem sido característico do tratamento dado pelos colonizadores
sionistas aos palestinos desde a década de 1880, como até mesmo líderes
sionistas reclamaram[11]
na época.
Esse
sadismo e a tortura sexual que frequentemente o acompanha estão enraizados não somente
na hubris colonial europeia, mas
também em visões orientalistas de que os árabes apenas “entendem a força” e são
alegadamente mais suscetíveis à tortura sexual do que os europeus brancos.
Prática
comum
A
prisão, pelo exército israelense, dos soldados que alegadamente estupraram
coletivamente a prisioneira palestina precipitou o ultraje[12]
entre os israelenses de direita, que constituem a maioria do eleitorado.
Dezenas
de manifestantes,[13]
juntamente com membros do Knesset israelense, tentaram invadir duas instalações
militares e um prédio judicial onde os soldados estavam detidos, com a intenção
de libertá-los.
Vários
ministros do governo israelense também defenderam[14] o
estupro de prisioneiros palestinos como “legítimo”.
Em
programas matinais da TV israelense, apresentadores e analistas discutiram[15] a
melhor forma de organizar o estupro de prisioneiros palestinos, criticando
apenas a maneira “desorganizada” como foi conduzido.
Embora
tais discussões possam parecer comuns em Israel, observadores ocidentais
fingiram choque.
Essa
reação ocorre mesmo após a organização israelense de direitos humanos B'Tselem[16]
ter relatado que Israel vem seguindo uma política de abuso e tortura
sistemáticos de prisioneiros desde outubro passado, submetendo detentos
palestinos a atos de violência, incluindo abuso sexual.
Um
dos alegados estupradores israelenses foi convidado,[17]
mascarado, ao Canal 14[18]
da TV israelense para defender os estupros. Mais tarde, ele postou um vídeo nas
redes sociais[19]
revelando sua identidade e expressando orgulho de sua unidade e do tratamento
dado aos palestinos.
Enquanto
isso, a cobertura da TV israelense[20]
tem exigido a responsabilização de quem vazou o vídeo do estupro para grupos de
direitos humanos, rotulando-o de “traidor” de Israel.
Tortura racializada
Israel
não é o único país a adotar tais práticas.
Seguindo
as revelações de 2004 sobre a tortura física e sexual sistemática infligida
pelos Estados Unidos a prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib[21]
em 2003, o veterano jornalista americano Seymour Hersh[22]
revelou que a noção de que “os árabes são particularmente vulneráveis à
humilhação sexual” tornou-se um tema recorrente entre os conservadores
pró-guerra de Washington nos meses que antecederam a invasão do Iraque em março
de 2003.
De
acordo com Hersh, os neoconservadores americanos aprenderam dessa “vulnerabilidade”
por meio do notório livro de 1973 do orientalista israelense Raphael Patai, The Arab Mind.[23]
Hersh
citou[24]
uma fonte que se referiu ao livro como “a bíblia dos neoconservadores sobre o
comportamento árabe.” A fonte afirmou ainda que, nas discussões entre os
neoconservadores, dois temas emergiram: “Um, que os árabes só entendem a força
e, segundo, que a maior fraqueza dos árabes é a vergonha e a humilhação.”
Hersh
continua suas revelações:[25]
“O consultor do governo disse que pode ter havido um objetivo sério, no início, por trás da humilhação sexual e das fotos posadas. Pensava-se que alguns prisioneiros fariam qualquer coisa — inclusive espionar seus companheiros — para evitar a divulgação das fotos vergonhosas para familiares e amigos. O consultor do governo disse: ‘Disseram-me que o propósito das fotografias era criar um exército de informantes, pessoas que pudessem ser reinseridas na população (local).’ A ideia era que eles seriam motivados pelo medo da exposição e coletariam informações sobre ações iminentes da insurgência, disse o consultor. Se assim foi, não funcionou; a insurgência continuou a crescer.”
Tal
tortura racializada é emblemática das culturas imperiais, tanto no presente
quanto ao longo da história. Eis um desses relatos:[26]
“Os tipos de tortura empregados eram variados. Elas incluíam espancamentos com punhos e [pisões] com botas... bem como o uso de varas para espancar e açoitar até a morte. Incluíam também... a penetração do reto das vítimas com varas, e então movendo a vara para a esquerda e para a direita, e para a frente e para trás. Incluíam ainda pressionar os testículos com as mãos e apertá-los até que a vítima perdesse a consciência de dor e até que [os testículos] ficassem tão inchados que a vítima não conseguisse andar ou se mover, exceto carregando as pernas uma de cada vez... Incluíam também deixar cães padecerem de fome e depois provocá-los e forçá-los a devorar sua carne e comer suas coxas. Incluíam ainda urinar nos rostos das vítimas... [Outra forma de tortura incluía a sodomia] pelos soldados, pois parece que isso foi feito com várias pessoas.”
Este
relatório descreve, em termos quase idênticos, o que os prisioneiros iraquianos
vivenciaram em 2003 nas mãos dos americanos e o que os prisioneiros palestinos
vêm vivenciando desde 1967 sob custódia israelense.
Escrito
em agosto de 1938, o relatório detalha como soldados judeus britânicos e
sionistas trataram os palestinos revolucionários durante a revolta anticolonial
palestina da década de 1930.
O
autor do relatório, Subhi al-Khadra,[27]
era um prisioneiro político palestino detido na prisão de Acre. Ele tomou
conhecimento da tortura sofrida por esses prisioneiros em Jerusalém, após sua
transferência para Acre. Os prisioneiros relataram suas experiências a ele e
mostraram-lhe os sinais físicos da tortura em seus corpos.
Com
relação aos motivos dos torturadores britânicos, Khadra conclui:
“Esta não foi uma investigação na qual se utilizaram métodos coercitivos. Não. Foi uma vingança e uma libertação dos instintos mais selvagens e bárbaros, bem como do ódio concentrado que esses racistas sentem por muçulmanos e árabes. Eles pretendem torturar por tortura, para satisfazer sua sede de vingança, não para investigar ou expor crimes.”
O
relatório[28]
foi divulgado na imprensa árabe e enviado a membros do parlamento britânico.
Uma ‘ocorrência
uniforme’
A
mistura de sexo e violência em um contexto imperial americano (ou europeu ou
israelense) caracterizado por racismo e poder absoluto é uma ocorrência
uniforme.
Durante
a “primeira” Guerra do Golfo, de 1990 a 1991, pilotos de caça e bombardeiros
americanos[29]
passavam horas assistindo a filmes pornográficos[30]
para se prepararem para os bombardeios massivos que realizariam no Iraque.
No
Vietnã, o estupro de guerrilheiras vietnamitas por soldados americanos não só
foi normalizado durante a invasão e ocupação americana do país, como também
fazia parte das instruções de treinamento[31]
do exército dos EUA.
O
mesmo paradigma orientalista e sexista que norteia a postura israelense em
relação aos prisioneiros palestinos reinava absoluto aos olhos dos americanos
no Vietnã.
De
fato, o estupro de mulheres palestinas por israelenses foi instrumentalizado[32]
durante a guerra de 1948 e posteriormente,[33]
impulsionado por um racismo sádico semelhante.
A
tortura e o abuso sexual de homens e mulheres palestinos por parte de Israel
também têm sido desenfreados na Cisjordânia e em Gaza nos últimos 10 meses,
conforme relatado pelas Nações Unidas[34] e
por grupos de direitos humanos.
A
pretensão de que o exército israelense seja um “exército moral,”[35] ou
ainda o “exército mais moral do mundo,” conforme o racismo israelense[36]
frequentemente alega, nada mais é do que mais uma tentativa de relações
públicas para encobrir os crimes genocidas de Israel[37]
contra o povo palestino.
Como
matar e estuprar[38]
palestinos, além de roubar suas terras e seu país, tem sido uma estratégia
sionista contínua desde 1948, há muito pouco que o Departamento de Estado dos
EUA possa fazer para que Israel “investigue” a si mesmo.
As
conclusões do exército israelense sobre o estupro coletivo de uma prisioneira
palestina, recentemente exposto, provavelmente reafirmarão o direito de Israel
de se defender, mantendo os mais nobres princípios morais e legais – os mesmos
princípios morais e legais que permitiram a Israel, desde 1948, desarraigar e
oprimir um povo inteiro impunemente.
Tradução
por Dignus {academic auctor pseudonym - studeo liber ad collegium}
Revisão
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Notas:
[1] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[2] Fonte utilizada por Joseph Massad:
Israeli media publishes video of soldiers allegedly raping Palestinian detainee,
por Alex MacDonald, 07 de agosto de 2014, MIDDLE
EAST EYE.
[3] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[4] Fonte utilizada por Joseph
Massad: ‘Everything is legitimate’: Israeli leaders defend soldiers accused of
rape, por Simon Speakman Cordall, 09 de agosto de 2024, Aljazeera.
[5] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[6] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israel should have 'zero tolerance' if soldiers sexually assaulted
Palestinian prisoners, says US, por Simon Lewis, 07 de agosto de 2024, Reuters.
[7] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israel should have 'zero tolerance' if soldiers sexually assaulted
Palestinian prisoners, says US, por Simon Lewis, 07 de agosto de 2024, Reuters.
[8] Fonte utilizada por Joseph
Massad: ‘Everything is legitimate’: Israeli leaders defend soldiers accused of
rape, por Simon Speakman Cordall, 09 de agosto de 2024, Aljazeera.
[9] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[10] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[11] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[12] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israeli protesters storm military bases after soldiers detained for
alleged abuse of Palestinian prisoners, por Chantal Da Silva, 30 de julho de
2024, NBC NEWS.
[13] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israeli far-right politicians protest arrest of soldiers suspected of
abuse, por News Agencies, 29 de julho de 2024, Aljazeera.
[14] Fonte utilizada por Joseph
Massad: ‘Everything is legitimate’: Israeli leaders defend soldiers accused of
rape, por Simon Speakman Cordall, 09 de agosto de 2024, Aljazeera.
[15] Fonte utilizada por Joseph
Massad: ‘Everything is legitimate’: Israeli leaders defend soldiers accused of
rape, por Simon Speakman Cordall, 09 de agosto de 2024, Aljazeera.
[16] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israeli rights group says Palestinian prisoners subject to systematic
abuse, por James Mackenzie, 06 de agosto de 2024, Reuters.
[17] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[18] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[19] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[20] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[21] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Abu Ghraib and the decades-long battle for justice, por Umar A Farooq,
23 de março de 2023, MIDDLE EAST EYE.
https://www.middleeasteye.net/news/abu-ghraib-and-decades-long-battle-for-justice
[22] Fonte utilizada por Joseph
Massad: How a secret Pentagon program came to Abu Ghraib, por Seymour M. Hersh,
17 de março de 2004, THE NEW YORKER.
[23] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[24] Fonte utilizada por Joseph
Massad: How a secret Pentagon program came to Abu Ghraib, por Seymour M. Hersh,
17 de março de 2004, THE NEW YORKER.
[25] Fonte utilizada por Joseph
Massad: How a secret Pentagon program came to Abu Ghraib, por Seymour M. Hersh,
17 de março de 2004, THE NEW YORKER.
[26] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[27] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[28] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[29] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[30] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[31] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
https://books.google.com.au/books?id=UtX7DwAAQBAJ&redir_esc=y
[32] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/1369801X.2021.1892513
[33] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israel's mass murder of Palestinians in Gaza began seven decades ago,
por Joseph Massad, 26 de dezembro de 2023,
MIDDLE EAST EYE.
https://www.middleeasteye.net/opinion/israel-mass-murder-palestinians-gaza-began-seven-decades-ago
[34] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[35] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
https://www.google.com/search?client=safari&rls=en&q=Israeli+army+%22most+moral%22&ie=UTF-8&oe=UTF-8
[36] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[37] Fonte utilizada por Joseph
Massad:
[38] Fonte utilizada por Joseph
Massad: Israel's mass murder of Palestinians in Gaza began seven decades ago,
por Joseph Massad, 26 de dezembro de 2023, MIDDLE
EAST EYE.
https://www.middleeasteye.net/opinion/israel-mass-murder-palestinians-gaza-began-seven-decades-ago
Fonte: Why raping
Palestinians is legitimate Israeli military practice, por Joseph Massad, 12 de
agosto de 2024, MIDDLE EAST EYE.
https://www.middleeasteye.net/opinion/why-raping-palestinians-legitimate-israeli-military-practice
Sobre o autor: Joseph
Massad possui Bachelor of Arts (B.A.) na University of New Mexico, Master of
Arts (M.A.) na University of New Mexico, Mestre em Filosofia na Columbia
University (1994) e Ph.D. em Ciência Política, Columbia University. Ele é
professor de política árabe moderna e história intelectual na Universidade
Columbia, em Nova York. É autor de diversos livros e artigos acadêmicos e
jornalísticos. Entre seus livros, destacam-se Colonial Effects: The Making of National Identity in Jordan, Desiring
Arabs, The Persistence of the
Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians e, mais
recentemente, Islam in Liberalism.
Seus livros e artigos foram traduzidos para mais de uma dezena de idiomas.
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