| Karl Nemmersdorf |
Revekka
Plastinina-Maizel
Nosso
segundo assunto é Revekka Plastinina-Maizel. Plastinina era seu sobrenome de
casada; Maizel, seu sobrenome de solteira. Ela nasceu em 1886 em Grodno, uma
cidade típica da Zona de Assentamento, situada perto da confluência da
Bielorrússia, Lituânia e Polônia, e que contava com uma população heterogênea —
da qual proximamente a metade era composta por judeus. Seus pais eram Kivel e
Olga; seus irmãos, Moisey e Yakov, emigraram para a América, e sua irmã Anna,
mais tarde, passou a viver com os filhos perto de Revekka, em Moscou. Em 1904,
Revekka ingressou no clandestino Partido Operário Social-Democrata Russo
(POSDR) e, alguns anos mais tarde, ela ajudou sua prima Eva — que estava presa
por atividades revolucionárias — a escapar da prisão de Grodno.18 Por volta de 1909, ela já estava
casada com Nikandr Plastinin, um revolucionário russo, e ambos viviam na Suíça,
onde Nikandr ajudava Lênin a imprimir o jornal Iskra. O casal teve um filho, Vladimir.19
Eles pertenciam àquela categoria de revolucionários profissionais que dedicavam
seu tempo à leitura, à redação de artigos, à “organização” dos trabalhadores e
a sonhar com o futuro. O pai de Revekka, que era advogado, provavelmente
sustentava esse estilo de vida da filha.

Nikandr Plastinina, Vladimir e Revekka em Genebra, 1916
Quando
o czar caiu do o poder, eles retornaram apressadamente à Rússia, juntamente com
milhares de outros exilados. A cidade natal de Nikandr era Shenkursk, no
noroeste da Rússia, e esta tornou-se a base deles. Em janeiro de 1918, Revekka
tornou-se secretária do Soviete Municipal de Shenkursk e, em junho, membro do
Comitê Executivo Provincial de Arkhangelsk. Arkhangelsk {Arcangel em português},
situada no Mar Branco, era uma cidade muito maior e o centro da província de
Arkhangelsk. Revekka e Nikandr trabalharam juntos para consolidar o poder
bolchevique, mas, pouco tempo depois, uma intervenção das Forças Aliadas
expulsou os bolcheviques da área. No início de agosto, Arkhangelsk foi tomada
por tropas britânicas e americanas, que avançaram para o sul até Shenkursk. Levantes
russos contra os comunistas auxiliaram os Aliados em ambas as cidades; Revekka
e outros membros do Comitê Executivo chegaram a ser capturados pelos rebeldes,
mas Revekka conseguiu escapar.20 Revekka
e Nikandr então trabalharam como comissários políticos no Sexto Exército
(Vermelho), o qual estava lutando naquela área. No início de 1920, as forças
bolcheviques retomaram a área e deram início a um expurgo marcado por vingança
e assassinatos, no qual Revekka desempenhou um papel central. Tratou-se de uma
onda de terror muito semelhante à que ocorreu na Crimeia, mais tarde naquele
ano.
Moscou
enviou um alto funcionário da Cheka, Mikhail Kedrov, a Arkhangelsk para
“pacificar” a região. Revekka deixou Nikandr, passou a viver com Kedrov e, eventualmente,
casou-se com ele. Algum tipo de querela surgiu entre a família de Nikandr e
Revekka, o que a levou a ordenar a morte de toda a família dele — pessoas que
ela “crucificou em um ato de vingança selvagem”.21
Ao que parece, a família estava insatisfeita com o fato de Nikandr e Revekka
terem executado o cunhado de Nikandr, além de demonstrarem um ardor
revolucionário insuficiente para o gosto de Revekka. Sergei Melgunov relata que
ela “vingou pequenas ofensas que lhe haviam sido dirigidas pela família de seu
primeiro marido, mandando crucificar todos os membros dessa família em massa...”.22 Pequenos insultos e falta de ardor
revolucionário punidos com uma crucificação em massa? Ela era, claramente, uma
maníaca homicida — e isso era somente o começo. Como resultado desse holocausto
familiar, Nikandr fugiu e foi trabalhar em outro lugar.23
Contudo, ele não escapou de Stalin: ele morreu em um campo de prisioneiros após
ser detido em 1938.
Kedrov,
ao que parece, sofria de uma loucura hereditária (seu pai morreu em um
manicômio), embora ele fosse um homem de grande cultura, pertencente à pequena
nobreza russa, além de músico e médico. Ele costumava tocar Beethoven para
Lênin durante o exílio, antes da Revolução,24
Ele teve três filhos com sua primeira esposa; um deles, Igor, tornou-se um
interrogador implacável da NKVD na década de 1930. Em março de 1920, Mikhail
foi enviado ao norte “como membro de uma comissão encarregada de investigar
crimes cometidos pela Guarda Branca e por tropas aliadas... Na prática,
tratava-se de uma expedição punitiva... que conferiu a Kedrov a reputação de
uma crueldade extrema”.25 Revekka
participou ativamente dessa campanha, igualando a crueldade e a loucura de
Kedrov — que, segundo relatos, acabou sendo internado em um hospital
psiquiátrico posteriormente.

Revekka, Mikhail Kedrov e seu filho Igor
Líderes
do Partido em Moscou designaram Revekka para o Comitê Revolucionário provincial
de Arkhangelsk.26 Ela e Kedrov detinham
poder irrestrito sobre a região, e as matanças começaram. Oficiais do Exército
Branco que conseguiram fugir relataram, mais tarde, que em Arkhangelsk eram
fuziladas de 60 a 70 pessoas por dia. Os antigos mosteiros de Solovetsky,
Kholmogory e Pertominsky foram transformados em campos de concentração — que
viriam a se tornar notórios como os terríveis campos do Mar Branco, parte do
sistema Gulag. Kholmogory foi estabelecido como um verdadeiro centro de
extermínio. Somente em 1920, milhares de pessoas foram fuziladas nesses campos.27 Kedrov “mandou metralhar 1.200
oficiais do Exército Branco a bordo de uma barcaça em Kholmogory, matando
metade deles... enquanto sua segunda esposa, Rebeka Plastinina-Maisel, afogou
500 refugiados e soldados [brancos] a bordo de uma barcaça que foi
deliberadamente afundada...”28 O
casal viajava pela região em seu trem, “interrogando prisioneiros a partir de
seu vagão particular nas estações ferroviárias; ali mesmo, eles executavam os
infelizes — logo após Rebeka terminar de espancá-los, gritar com eles e
agredi-los com os próprios punhos, enquanto... gritava histericamente:
‘Fuzilem-nos! Ponham-nos contra a parede!’”29
Outro refugiado russo branco testemunhou que Revekka “matou, com as próprias
mãos, oitenta e sete oficiais e trinta e três cidadãos”.30
Não
demorou muito para que os dois alarmassem até mesmo seus superiores com seus
excessos loucamente selvagens. Naquele verão, eclodiu uma revolta
antibolchevique, a qual eles reprimiram com tamanha ferocidade assassina que
acabaram sendo removidos de seus postos. Consta que Kedrov estava preparando a
execução de todos os alunos de uma escola. Camaradas do Partido registraram
oficialmente que Revekka era uma “mulher doente” (o mesmo diagnóstico aplicado
a Roza Zemliachka depois que esta, alguns meses mais tarde, na Crimeia,
mergulhou em uma psicose sangrenta).31
Eles não foram punidos, é claro; apenas transferidos para outras funções.
Kedrov “passou um tempo sob cuidados psiquiátricos antes de retornar ao
trabalho — com a mesma crueldade — na Cheka, na região do Mar Cáspio. Ele retirou-se
da Cheka após a Guerra Civil...”32
Revekka, ao que tudo indica, acompanhou-o em seus vários postos. Com o tempo,
estabeleceram-se em Moscou, perto de sua irmã Anna e da família dela.
Kedrov
não viveu até o fim de seu tempo de vida natural, diferente de Revekka. Ele
havia acusado o novo chefe do NKVD (em novembro de 1938), Lavrenti Beria, de
ser um agente duplo; em resposta, Beria mandou prendê-lo em novembro de 1939.
Surpreendentemente, Kedrov obteve uma absolvição na Suprema Corte, mas Beria
simplesmente ordenou que ele fosse fuzilado em outubro de 1941.33 Revekka teve um destino bem diferente:
na mesma década, ela ascendeu a um cargo na Suprema Corte Soviética.34 (Fora isso, eu não encontrei outros
detalhes sobre sua vida posterior.) Ela faleceu aos sessenta anos, em outubro
de 1946, e foi sepultada no Cemitério Donskoye, em Moscou — local que, durante
o Grande Terror, serviu para enterros coletivos secretos.35 Naquele inverno, a terra russa pôde
respirar um pouco mais aliviada.
Tradução
e palavras entre chaves por Mykel Alexander
Continua...
Notas:
18 Nota de Karl Nemmersdorf: As
fontes a que fui capaz ter acesso sobre Plastinina-Maizel eram ainda mais escassas
do que as referentes a Vikhman.
19 Nota de Karl Nemmersdorf: Posteriormente,
Vladimir trabalhou para o NKVD, serviu na Segunda Guerra Mundial e tornou-se
acadêmico na Universidade Estadual de Voronezh. Faleceu em 1973. Informações de
Andrei Zhukov, da organização Memorial:
https://nkvd.memo.ru/index.php/Пластинин,_Владимир_Никандрович
20 Nota de Karl Nemmersdorf: Natalia
Golysheva, “Red Terror in the North “Did the civil war never end?” dezembro de
2017.
https://www.bbc.com/russian/resources/idt-sh/red_terror_russian
21 Nota de Karl Nemmersdorf: Orlando
Figes, A People’s Tragedy: The Russian
Revolution 1891-1924 (New York: Penguin Books, 1998), p. 647.
22 Nota de Karl Nemmersdorf: S.
Melgunov, Red Terror in Russia, p.
200.
23 Nota de Karl Nemmersdorf: Rokiskis
Rabinovičius, “Revekka Kedrova-Plastinina-Maizel” em seu blog: http://rokiskis.popo.lt/2011/06/06/revekka-kedrova-plastinina-maizel/
24 Nota de Karl Nemmersdorf: George
Leggett, The Cheka: Lenin’s Political
Police, p. 270.
25 Nota de Karl Nemmersdorf: George
Leggett, The Cheka: Lenin’s Political
Police, p. 270.
26 Nota de Karl Nemmersdorf: Alexander
Solzhenitsyn, Zwei Hundert Jahren
zusammen: Der Juden in der Sowjetunion, (München, 2003), p. 141.
27 Nota de Karl Nemmersdorf: Natalia
Golysheva, “Red Terror in the North “Did the civil war never end?” dezembro de
2017.
https://www.bbc.com/russian/resources/idt-sh/red_terror_russian
28 Nota de Karl Nemmersdorf: George
Leggett, The Cheka: Lenin’s Political
Police, p. 431, n. 13.
29 Nota de Karl Nemmersdorf: S.
Melgunov, Red Terror in Russia, p.
199.
30 Nota de Karl Nemmersdorf: S.
Melgunov, Red Terror in Russia, p.
200.
31 Nota de Karl Nemmersdorf: D.
Sokolov, Михаил Кедров e Ревекка Пластинина (“Mikhail Kedrov e Rebeka
Plastinina”) 8 de setembro de 2009 https://dv-sokolov.livejournal.com/9061.html
32 Nota de Karl Nemmersdorf: Donald
Rayfield, Stalin and His Hangmen: The Tyrant and Those Who Killed for Him (New
York: Random House, 2004), p. 84.
33 Nota de Karl Nemmersdorf: Donald
Rayfield, Stalin and His Hangmen: The
Tyrant and Those Who Killed for Him (New York: Random House, 2004), p. 358.
34 Nota de Karl Nemmersdorf: Alexander
Solzhenitsyn, Zwei Hundert Jahren
zusammen: Der Juden in der Sowjetunion, p. 141.
35 Nota de Karl Nemmersdorf: É
também o local do túmulo de Soljenítsin.
Fonte: Three Savage Jewish Communists, por Karl Nemmersdorf, 30 de dezembro de 2025, The Occidental Observer.
https://www.theoccidentalobserver.net/2025/12/30/three-savage-jewish-communists/
Sobre o autor: Karl Nemmersdorf é um escritor que contribui com artigos no The Occidental Observer, sob pseudônimo em decorrência dos riscos de coerção por exposição de temas de alta polêmica.
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